Eu Não Sou uma Feiticeira: bruxaria sob um olhar africano

Eu Não Sou uma Feiticeira: bruxaria sob um olhar africano

Todas nós estamos familiarizadas com o conceito de bruxa, expostos nos filmes americanos e europeus que assistimos. Seja drama, comédia ou terror, sempre temos a história de uma personagem acusada injustamente de bruxaria, por não corresponder aos padrões da sociedade, ou então, a bruxa vilã envolvida em magia negra.

Dirigido e roteirizado por Rungano Nyoni, Eu Não Sou uma Feiticeira (no original: “I Am Not a Witch”) narra a história de Shula (Maggie Mulubwa), uma garotinha de 9 anos, acusada de bruxaria pela comunidade, com a justificativa que sua chegada é a causa de todos os infortúnios que começaram a acontecer. Por sua timidez, ela não discorda de tal acusação e nem afirma quando é questionada sobre sua condição, e então é enviada para uma espécie de acampamento de bruxas.

Até então, parece um enredo comum. Mas a diferença se dá no contexto. A produção de Eu Não Sou uma Feiticeira é ambientada na Zâmbia, onde existe uma crença popular enraizada de que bruxas devem viver conectadas a um grande carretel e que, caso se soltem, transformam-se instantaneamente em cabras. O medo impede que a garota e as demais mulheres se desconectem de suas fitas, fazendo então que se submetam a condições de trabalho escravo e de isolamento social. O julgamento sobre ser ou não ser uma bruxa se dá de maneiras ainda muito arcaicas, semelhantes às vistas na Inquisição.

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Eu Não Sou uma Feiticeira

Com os minutos iniciais que mais se assemelham a uma comédia, Eu Não Sou uma Feiticeira surpreende durante seu desenvolvimento, transformando-se em um intenso drama onde diversas críticas à nossa sociedade são apresentadas, como por exemplo: o abuso e o direito infantil, a interferência religiosa em assuntos governamentais, a hipocrisia humana em confronto a diferentes crenças e ainda, o comportamento de turistas brancos diante da cultura negra.

É inevitável não se emocionar com a história da pequena Shula. Toda a sua perda de liberdade, o fato de se tornar uma pequena marionete do governo, e a privação de sua infância. O final aberto de nos traz cenas para digerir por dias, além de uma intensa comoção que não era de se imaginar no início do filme. Definitivamente, Eu Não Sou uma Feiticeira é um ótimo exemplo de direção e protagonismo feminino negro.

Autora:

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“O senhor não imagina bem que eterna variação de gênio é aquela moça. Há dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela é irritação e melancolia.” (Ressurreição, Machado de Assis). 20 anos, estudante de Engenharia e que prefere passar o dia vendo filmes do que com a maioria das pessoas.
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