Quase Famosos: como personagens cativantes mascaram más representações femininas

Quase Famosos: como personagens cativantes mascaram más representações femininas

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Quase Famosos (Almost Famous, 2000), de Cameron Crowe, é um road movie adorável. Possui personagens cativantes e uma fotografia e um figurino que te fazem viajar pelos excêntricos anos 1970.  Além de um roteiro com diálogos orgânicos que poderiam se encaixar em qualquer conversa que temos com os nossos amigos, dispõe de uma trilha sonora incrível, que traz nomes como David Bowie, Black Sabbath e Led Zeppelin.

Além disso, trata-se de um longa semiautobiográfico com acontecimentos da vida do próprio diretor, que também foi quem escreveu o roteiro. Assim, conhecemos William Miller (Patrick Fugit), um doce, calmo e nada popular adolescente de 15 anos, que escreve para alguns veículos que têm a música como foco principal. Ele tem como mentor Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman), um jornalista crítico de música, que dá dicas de como escrever os textos e de como lidar com o universo do rock n’ roll.

O garoto é procurado para ser redator da revista Rolling Stone e devido a isso segue em turnê com os Stillwater, uma banda fictícia de rock, que está em ascensão. Crowe baseou-se em suas próprias memórias da época em que foi redator de revista e que de fato escreveu para a Rolling Stone quando ainda era adolescente, assim como o protagonista do filme. Dessa forma, Quase Famosos retrata a jornada agridoce de amadurecimento de um jovem jornalista, que acompanha a turnê do Stillwater pelos EUA.

Mas mesmo um filme considerado tão bom quanto Quase Famosos, que venceu o Oscar de melhor roteiro original, tem questões a serem problematizadas. A forma como as mulheres são representadas é uma delas.

Aviso: o texto abaixo contém spoilers do filme

Elaine Miller: a mãe controladora

O longa começa nos apresentando a William (Michael Angarano) quando ainda tinha 11 anos e à sua família: sua mãe Elaine Miller (Frances McDormand) e sua irmã Anita (Zooey Deschanel) de 18 anos. Eles vivem em San Diego e Elaine é professora de uma faculdade local, ela é uma mulher extremamente inteligente, porém é controladora em um nível muito exacerbado.

filme de Cameron Crowe
A família Miller | Imagem: reprodução

Elaine busca proteger os filhos de toda má influência do mundo lá fora. Proibir o rock n’ roll é uma dessas medidas de proteção. Anita tem que manter sua coleção de discos de vinil escondida e não consegue manter um diálogo tranquilo com a mãe, as duas sempre começam a se agredir verbalmente. Já William mantém uma relação tranquila com as duas. Através da mãe tem acesso a muito conhecimento relacionado à história, filosofia e literatura. E Anita lhe permite uma proximidade com o que o universo da música tem a oferecer.

Dessa forma encontramos em Quase Famosos o primeiro ponto para problematizar: por que a mulher que é tão inteligente tem que ser tão sufocante? Como se ser muito inteligente fosse um problema que pode te levar a ser uma pessoa controladora e estressada, alguém que vê perigo em tudo.

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Devido a esses atritos, Anita decide ir embora de casa, porém deixa de presente para o irmão sua coleção de discos, influenciado-o a virar jornalista crítico de música, contrariando sua mãe que queria que ele fosse advogado. Contudo, Elaine com o tempo acaba ficando um pouquinho mais maleável. Aceita a decisão do filho e até dá carona para ele ir ao show do Black Sabbath tentar entrevistar a banda. Mas a relação entre Elaine e Anita só ganha uma trégua no final do filme.

representação feminina no filme "Quase Famosos"
Elaine e Anita discutindo | Imagem: reprodução

A representação feminina na figura de fã

No show do Black Sabbath, William não consegue ter acesso aos bastidores para entrevistar a banda. Enquanto aguarda na rua por algo que possibilite sua entrada, ele conhece um grupo de garotas que também estão na espera para que possam se aproximar de seus ídolos. Entre essas garotas temos Penny Lane (Kate Hudson), que ao ter seu grupo chamado de groupies por William, explica ao garoto que elas são band-aids. A diferença entre os dois é que as groupies dormem com rockstars porque querem estar perto de alguém famoso. Já as band-aids, entretanto, estão lá pelo amor que sentem pela música.

As garotas de Quase Famosos trazem todo um discurso libertador, porém no decorrer do filme elas acabam sendo objetificadas. Podemos observar, por exemplo, que os homens se aproveitam desse discurso para se beneficiarem, usando as mulheres como bem entendem e depois as descartam.

Penny Lane em "Quase Famosos"
Penny Lane em “Quase Famosos” | Imagem: reprodução

As garotas conseguem entrar nos bastidores do show, porém William só consegue quando a banda de abertura Stillwater chega e o leva junto, driblando o segurança. Lá dentro o protagonista se familiariza rápido com todos e faz algumas amizades. E é assim que se dá a aproximação dele com Penny Lane e também com Russell Rammond (Billy Crudup), guitarrista do Stillwater.

Entre uma conversa e outra, percebemos que Penny e Russell têm algum tipo de relacionamento que vai além da amizade. Russell é um homem bonito, charmoso, simpático e manipulador. Desenvolve com William uma amizade e com ele acaba tendo vários momentos de desabafo, mas sempre tenta convencer o jornalista a escrever apenas coisas positivas sobre a banda.

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Penny, todavia, é uma pessoa afetuosa, atenciosa, agradável e altruísta. O tipo de amiga que muita gente gostaria de ter. Ela gosta de se ver rodeada de gente e faz todo o possível para manter as pessoas felizes e animadas. Ama a música intensamente, é fã incondicional das bandas que gosta e aprecia até as músicas consideradas ruins de seus ídolos. Ela é uma inspiração, Russell, portanto, gosta de tê-la por perto porque ela consegue tornar acolhedor até mesmo um quarto de hotel sem graça.

Assim como Penny Lane, conhecemos outras garotas band-aids, entre elas Sapphire (Fairuza Balk) e Polexia (Anna Paquin). Aos poucos vamos entendendo, que as band-aids enxergam essa vida de acompanhar suas bandas favoritas para todo lado como algo que acontece fora do mundo real. Penny Lane, por exemplo, se recusa a dizer seu nome verdadeiro, para em nenhum instante misturar o mundo real com esse mundo que ela leva junto com as bandas que acompanha. E os homens se aproveitam dessa entrega delas a esse mundo fora da realidade, eles recebem toda dedicação que elas têm a oferecer, mas não se preocupam em proporcionar nada em troca.

Penny Lane e outra band-aid (Imagem: reprodução)

Penny Lane como uma Manic Pixie Dream Girl

Em análises fílmicas mais recentes de Quase Famosos, Penny vem sendo observada como uma Manic Pixie Dream Girl. De forma resumida, quer dizer que ela é uma garota que existe apenas para ajudar homens a se encontrarem. O que de fato é verdade. Penny está sempre ao lado de Russell dando força para ele, ajudando a inspira-lo para compor música nova, assistindo a todos os shows e curtindo cada canção. É ela quem o acalma, dá apoio, o faz se sentir acolhido.

Já William conta com Penny para protegê-lo e animá-lo em algumas situações. Ela é peça fundamental que contribui com o seu amadurecimento, com seus conselhos e dicas de como viver no mundo do rock n’ roll. E como o ato de cuidar está muito implícito às mulheres, é ela quem acaba de certa forma acolhendo William.

Além disso, Penny Lane faz uso de um figurino que vez por outra expõe seu corpo de forma desnecessária. Em mais de uma cena a personagem faz uso de blusas brancas meio transparentes. Já em uma cena específica em que está em um momento mais íntimo com Russell, ela tem seus seios expostos.

Penny Lane em Quase Famosos
Penny e uma das blusas transparentes que ela usa | Imagem: reprodução

Penny Lane se liberta de Russell

Mais para o final do filme, Penny é “vendida” por Russell em um jogo de cartas.  Em uma “brincadeira” ela é trocada por $50,00 e uma caixa de cerveja. Como a próxima parada da turnê é em Nova York e lá Russell vai encontrar sua namorada Leslie (Liz Stauber), Penny não vai poder acompanhá-lo. Então, ele concorda com a ideia que um amigo dá de “vendê-la” para que ela acompanhe outra banda. Mas mesmo com o alerta de William sobre o fato de ter sido “vendida”, Penny vai para Nova York porque ela acredita que Russell a quer lá.

Penny estava errada, Russell de fato até poderia estar apaixonado por ela, mas preferia ficar em um relacionamento com alguém que ele já não amava mais, só para manter as aparências. Ao ver Penny em um bar, Russell permite que um amigo a dispense. Abalada, a garota volta para o hotel e ingere uma grande quantidade de remédios. Ela só sobrevive porque William a encontra e chama um médico que consegue salvá-la. Porém, enquanto o médico é aguardado acontece uma das cenas que mais gera críticas negativas para a obra de Cameron Crowe: William beija Penny Lane em um momento que ela está inconsciente.

William beijando Penny Lane inconsciente em Quase Famosos
William com Penny inconsciente pouco antes de beijá-la | Imagem: reprodução

Após a overdose, Penny se recupera e percebe que o fato de criar um mundo “fora do mundo real” não a impediu que se apaixonasse por Russell e nem que colocasse sua vida em risco. Ela ignora os pedidos de desculpas de Russell, que no desfecho entende que é com Penny que ele quer ficar, e compreende que no momento o melhor para si é ficar só. Penny, portanto, precisa se reconectar consigo mesma e finaliza seu arco narrativo indo viajar sozinha. Viagem essa que ela fala a respeito no começo do longa, mas acaba deixando de lado para poder ficar próxima de Russell.

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Penny Lane
Penny no aeroporto | Imagem: reprodução

A falta de diversidade de pessoas negras

Um outro problema em Quase Famosos é a falta de diversidade no elenco. Nenhuma das band-aid é negra, nenhum dos músicos de destaque é mulher ou negro(a). Sendo que o cenário musical dos anos 1970 tinha nomes de peso com artistas negros e mulheres. Um deles seria Jimi Hendrix, que apesar de ter falecido em 1970, seu legado ainda era muito forte em 1973, ano em que se passa o filme. O músico é lembrado no longa através de um pôster colado na parede do quarto de William. Provavelmente é o maior destaque que alguém negro recebe na obra.

Porém, uma das maiores inspirações de Cameron Crowe para criar os Stillwater foi a The Allman Brothers Band. Tal banda tinha como baterista e membro fundador, Jaimoe Johanson, um homem negro. Crowe poderia muito bem ter escalado pelo menos um ator negro para fazer parte dos Stillwater, não? Um elenco mais diversificado permitiria ao longa a chance de identificação com um público mais amplo.

Grrrl Power – Dois filmes envolvendo música com representatividade feminina

Apesar dos pontos negativos apontados, Quase Famosos ainda consegue ser um filme bem agradável. Mas é válido lembrar que existem outras obras fílmicas que envolvem o cenário rock n’ roll que vão fazer nós, mulheres, nos sentirmos melhor representadas. Uma delas é Moxie: quando garotas vão à luta (2021), de Amy Poehler, inspirado no livro homônimo de Jennifer Mathieu.

Moxie: quando garotas vão à luta (2021)
Moxie está disponível na Netflix | Imagem: reprodução

Moxie mostra a força e o incentivo que as músicas de uma banda, a Bikini Kill (majoritariamente formada por mulheres), dá para uma garota se rebelar contra o patriarcado. Trazendo dessa forma a importância de termos bandas lideradas por mulheres transmitindo sua mensagem feminista através de suas canções.

A trama nos traz a história de Vivian (Hadley Robson), uma menina de 16 anos que começa a sair da sua zona de conforto a partir da chegada de Lucy (Alycia Pascual Penha) em sua escola. Lucy é uma garota negra, ativista e feminista, que guia Vivian a sair de sua bolha.

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Em uma conversa com sua mãe Lisa (Amy Poehler), Vivian descobre que ela era uma ativista que participava de protestos em prol do feminismo nos anos 1990, apreciava o punk rock feminino e era fã da banda Bikini Kill. Dessa forma, a garota se inspira a criar um fanzine anônimo chamado Moxie, que trata de assuntos relacionados ao feminismo e igualdade de gênero e serve como uma forma de se expressar contra o sistema opressor.

Bikini Kill (Imagem: reprodução)

Ainda no cenário rock n´ roll e dentro da onda punk feminista, é válido conhecer o documentário The punk singer (2013), de Sini Anderson. O filme fala a respeito de Kathleen Hanna, a vocalista da banda Bikini Kill. Kathleen é uma ativista que sempre lutou em prol das conquistas feministas. Entre as imagens de arquivo que o documentário apresenta, há vídeos dela fazendo inúmeros discursos a favor das mulheres.

Um dos maiores legados da banda de Kathleen é o movimento Riot Grrrl, que apoiava toda e qualquer mulher que quisesse tocar um instrumento, fazer parte de uma banda e ser o que ela bem entendesse. E os fanzines eram uma importante ferramenta que elas usavam para se expressarem e desafiarem a sociedade patriarcal.

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Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Denise é bacharela em cinema e tem amor incondicional por tal arte. Pesquisa e escreve sobre feminismo e a representação das mulheres na área do audiovisual. É colecionadora de DVDs, fã da Audrey Hepburn, apaixonada por Rock n' Roll e cultura pop. Adora os agitos dos shows de rock, mas tem nas salas de cinema seu local de refúgio e aconchego.
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