Bikini Kill: feminismo, protestos e revolução em músicas punk

Bikini Kill: feminismo, protestos e revolução em músicas punk

O punk surgiu nos anos 70 como movimento de contracultura e ao longo de sua história agrega ideologias que dizem contra autoritarismos, fascismo, machismo, racismo e LGBTfobia através de letras críticas e ritmo explosivo. Dentro do punk está localizado o movimento riot grrrl, termo inicialmente título de uma zine feminista e de cunho político que continha também informações sobre bandas feministas da época, lançada em 1991. O conteúdo político e emancipatório sempre esteve presente nos discursos das “grrrls” e nas letras das bandas do movimento e essas práticas possibilitaram que mulheres ocupassem um espaço majoritariamente masculino: os palcos e as plateias de shows de punk.

A necessidade do surgimento da Bikini Kill

Uma das bandas precursoras do riot grrrl foi a Bikini Kill, originada em Olympia no início dos anos 90. Composta por Kathleen Hanna, Tobi Vail, Kathi Wilcox e posteriormente Billy Karren, a banda lançou seu primeiro EP em K7, “Revolution Girl Style Now”, em 1991, contendo as faixas “Liar”, que critica a postura hipócrita do “cidadão de bem”; “Feels Blind”, que relata abuso sexual; “This Is Not A Test”; e “Double Dare Ya”, incitando empoderamento e autonomia. 

Bikini Kill
A banda Bikini Kill; da esq. para dir.: Tobi Vail, Billy Karen, Kathleen Hanna e Kathi Wilcox (Foto: NME)

Bikini Kill já estava ativa há três anos quando lançou o “Pussy Whipped”, um grito que vai direto ao ponto, áspero e agressivo, uma obra de revolta e libertação oposta ao título que significa “submissão”. “Eu não devo nada a você. Você não é a porra do meu dono”, “Essas são minhas grandes unhas vermelhas pra arranhar seus olhos” e “Eu não bancarei mais a garota para seu garoto, docinho. Eu quero meus direitos aqui, agora, docinho. Eu posso ter isso agora, docinho” são alguns trechos marcantes desse álbum.

Criticar papéis de gênero, a suposta superioridade masculina, a exploração da indústria musical e da mídia, denunciar abusos e empoderar mulheres são nitidamente objetivos principais do álbum e da discografia da banda. A performance e voz unidas ao instrumental forte e nervoso, típico do hardcore, deixam os sentimentos à flor da pele. A banda também produziu os álbuns The First Two Records, The Singles e Reject All American, além de coletâneas do Kill Rock Stars e outros selos independentes.  

O nome “Bikini Kill” teve origem em um filme de Frankie Avalon, intitulado “The Million Eyes of Sumuru. O filme conta a história de Sumuru, uma mulher bonita e malvada que planeja a dominação do mundo fazendo com que seu  exército feminino mate líderes masculinos e os substitua por suas agentes femininas. Uma das mulheres se apaixona pelo líder que estaria destinada a matar e conta a ele sobre o plano de Sumuru, que banda seu exército de mulheres de biquíni para matá-la. Kathleen Hanna comenta que o nome faz lembrar garotas armadas usando biquíni e que isso derruba o estereótipo do que é a sexualidade feminina.

Bikini Kill
Capa do filme “The Million Eyes of Sumuru”, que inspirou o nome da banda Bikini Kill (Imagem: Amazon)

Do privado ao público: narrativas femininas expostas nas canções

As músicas da banda representam conteúdos do privado que se tornam públicos quando cantados. São conteúdos expressados em primeira pessoa por uma mulher, ponto crucial quando se trata de emancipação do sujeito político; afinal, à mulher é destinada uma história contada pelos outros, ela não tem direito ao protagonismo na sociedade patriarcal. Cantar o “eu” é cantar sua liberdade e subjetividade da maneira mais pura, é finalmente ser relatora da sua própria história.  

No que diz respeito ao conteúdo das composições, existem músicas da Bikini Kill que trazem denúncias relativas ao machismo, opressões sexuais e principalmente abusos e violação do corpo feminino, e músicas que são empoderadoras. No feminismo, o empoderamento representa a autonomia das mulheres e acaba tendo como finalidade a queda do patriarcado, uma vez que a plena obtenção de poder feminina só seria possível com o fim deste sistema opressor. Essas músicas transmitem rebeldia, desejos de emancipação e de autonomia e principalmente reação diante das ações opressoras

Alguns exemplos dessas músicas empoderadoras são: 

As denúncias relatadas nas músicas tratam de abusos físicos, psicológicos e sexuais, além de críticas ao sistema capitalista, machismo e desigualdade de gênero e à indústria cultural. O caráter delator das letras permite a possibilidade da identificação de mulheres que sofrem abusos com as músicas. Kathleen relata que muitas jovens a procuravam para contar que sofreram as violências que eram cantadas. Através das músicas, as vítimas podem trazer suas experiências à tona de forma mais leve, dialogando com outras pessoas que passam pela mesma situação e transformando assuntos que eram tabus em assuntos mais fáceis de discutir, como é o que acontece também quando o assunto é sexualidade feminina. 

Alguns exemplos de músicas que denunciam são:

Na maioria das vezes, as mulheres são colocadas no lugar de anonimato derivado da vida privada, enquanto os homens têm acesso ao público e são incentivados a participar de atos políticos e falar sobre suas experiências e opiniões. Gritar realidades femininas e ideais de libertação e resistência é uma genuína subversão diante a lógica social opressora. A revolta contra a sociedade machista domina e instiga a lutar cada vez mais pelos direitos das mulheres é escancarada. As composições de Bikini Kill, de modo geral, são mais do que simples música e barulho, são um manifesto para dar força e guiar para a revolução.

Kathi Wilcox e Tobi Vail
Kathi Wilcox e Tobi Vail (Foto: reprodução)

Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

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Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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