CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 3×09: Heroic

CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 3×09: Heroic

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A terceira temporada de “The Handmaid’s Tale chega, enfim, ao seu nono episódio, intitulado Heroic. A série baseada no livro “O Conto da Aia, de Margaret Atwood, e produzida pela rede de streaming Hulu, era esperada por sua promessa de revolução contra o autoritário regime de Gilead. No entanto, quanto mais se aproxima do final, mais se afasta disso, com episódios que se arrastam e repetem – E Heroic está longe de ser o melhor episódio da série. Com uma das notas mais baixas no IMDB, é um episódio cansativo, que traz, sim, reflexões, mas não sabe aproveitá-las, e novamente coloca a protagonista como um mártir incompreendido da revolução, inclusive pelo título.

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS]

Heroísmo em “The Handmaid’s Tale”?

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Serena (Yvonne Strahovski) e June (Elisabeth Moss) em “Heroic”, nono episódio de “The Handmaid’s Tale” (Imagem: reprodução/Hulu)

Heroic, heroica. O título do nono episódio de “The Handmaid’s Tale deveria significar algo mais. No entanto, trata-se de uma referência ao fato de June (Elisabeth Moss) tentar fazer algo que ninguém mais teria coragem de fazer, ainda que ninguém mais compreendesse, sob a justificativa de que seria o certo a se fazer. Ou seja, um sacrifício heroico. Novamente, portanto, a série tenta elevar June a um papel de heroína um tanto forçado, como se June fosse a única que vislumbra a situação como de fato ela é, enquanto todos ao seu redor estão errados, mas é positivo que, ao final, proponham um novo caminho.

Heroic também trata da sobrevivência – de June e das espectadoras. É um episódio complicado – não complexo – de se ver, porque se passa, na maior parte, em uma sala de hospital e, embora o incômodo pudesse ser positivo para os debates, talvez não tenha conseguido atingir o que parece ser a sua intenção: a de discutir a loucura de se estar preso.

Unfit, oitavo episódio da terceira temporada de “The Handmaid’s Tale, terminou com um evento impactante. Ofmatthew (Ashleigh LaThrop), após ameaçar tia Lydia (Ann Dowd), leva um tiro. Em Heroic, então, descobre-se que a aia teve morte cerebral em razão da perda de sangue. No entanto, os médicos agem para manter seu bebê vivo. Como retaliação, tia Lydia obriga June a ficar no hospital com Ofmatthew até que ela tenha o bebê. Afinal, aquela é a jornada da parceira de caminhada de June. 

“Heroic”: efeitos psicológicos da prisão de Gilead

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Cena do episódio “Heroic” de “The Handmaid’s Tale”  (Imagem: reprodução/Hulu)

June, todavia, parece enlouquecer no quarto de hospital. Todo dia a mesma vista, a solidão, as paredes em branco e a sensação claustrofóbica que atinge também as espectadoras. A protagonista chega a pedir à tia Lydia que a deixe ir. A tia, no entanto, com satisfação por punir a aia, recusa, pois June, indiretamente, é culpada de sua situação. Se ela não tivesse acusado Ofmatthew de não querer seu filho, talvez ela não tivesse se revoltado. Muito provavelmente, portanto, se manteria fiel em sua aceitação ilusória de Gilead.

Em meio ao delírio por sua condição e a vontade de acabar com Gilead, June tenta matar o filho de Ofmatthew. Matar a sua igual e o bebê, em sua mente, é um ato de misericórdia, mas também um ato revolucionário, porque retira o que Gilead deseja com aquele corpo mantido vivo para a procriação. Ademais, é interessante que se possa discutir com isso questões como a eutanásia, muito embora não seja o foco do episódio. 

A verdadeira luta não está em atacar iguais

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Episódio “Heroic” de “The Handmaid’s Tale” (Imagem: reprodução/Hulu)

Quando está prestes a cometer seu “ato heroico”, Janine (Madeline Brewer) aparece. Janine estava internada também, depois de ser agredida por Ofmatthew, em razão de uma infecção, e, sem querer, acaba, assim, impedindo June de prosseguir. Ela também se culpa pelo que aconteceu e deseja que a outra aia melhore. June lhe diz que não há como ela ficar melhor, mas Janine replica dizendo que isto não a impede de desejar, ainda que a realidade seja difícil de ser contornada, por um cenário melhor.

June, então, lhe confessa seus planos e tenta convencê-la a deixar matar o bebê. Em sua perspectiva, esta seria a única forma de ajudar a aia em coma e de fazer-lhe, assim, justiça. Janine, contudo, lembra June de que Ofmatthew é uma delas. O fato de ela se recusar a ir contra Gilead não a retira da condição de aia, de mulher violentada. Sua recusa talvez fosse uma forma de aceitar a situação e continuar vivendo sem sucumbir, e June reconhecer sua condição e ela não, não torna June melhor que ninguém. Elas são iguais e, indo além, é possível pensar em June como uma revolucionária que não aceita a perspectiva diferente, impondo sua palavra de forma egoísta. Atacando os oprimidos, enfim, June não está atacando os opressores.

June: entre a luta coletiva e individual contra Gilead

The Handmaid's Tale
Janine (Madeline Brewer) em “Heroic” (Imagem: reprodução/Hulu)

Janine, então, acusa-a de ser egoísta. Tudo para June é sobre ela; é sobre não poder ver suas filhas; é sobre ela ter perdido sua família, quando todas elas perderam e perdem algo todos os dias. Todas elas são estupradas, engravidam e possuem seus filhos retirados. Todas elas tinham nomes e vidas anteriores a Gilead. Lutar por uma sociedade melhor não impede os interesses individuais e nem poderia. Todos são indivíduos com desejos próprios, mas June, quando se coloca como heroína, não está pensando coletivamente. Em geral, está pensando em si. 

A protagonista, ainda assim, não desiste. Acompanha as conversas médicas, calculando a melhor forma de executar seus planos. Quando Serena (Yvonne Strahovski), então, aparece, June decide que quer atacá-la. É a sua forma de extravasar tudo o que tem sentido, mas é novamente impedida. Analisada por um médico, ela lhe acusa de estar torturando Ofmatthew ao mantê-la viva e ele é honesto ao dizer que ela não é sua paciente, mas o bebê sim. Ou seja, não importa a mulher mantida vida, mas a prole. 

June confessa que ia matar ele, Serena e todos naquela sala. Contudo, é questionada, inesperadamente, há quanto tempo tem pensamentos suicidas, pois tudo o que ela faria a colocaria no muro – e June não nega. A realidade dos fatos a atinge e ela finalmente se dá conta de que, de algum modo, não consegue mais pensar em cenários melhores como Janine. No fundo, ela sabe que nunca mais verá suas duas filhas e que buscava a morte de maneiras sutis. O diálogo se encerra, enfim, com o médico dizendo que honrará a aia, salvando a vida do filho dela. Muito embora sua ideia de honra seja parte de um discurso distorcido, é a semente de novos pensamentos à June.

“Heroic” e a falta de ritmo da 3ª temporada de “The Handmaid’s Tale”

Imagem: reprodução/Hulu

Os computadores, todavia, apitam. Ofmatthew está sangrando, provavelmente em um aborto, e para salvar a criança os médicos fazem o parto. June está livre, assim, para partir. Em sua saída, entretanto, encontra com uma jovem. Esta lhe conta que está no hospital, pois poderá ter filhos quando se casar. Mas é isso que ela deseja? Sem emoção, a jovem lhe responde que sim. É o padrão: nenhuma menina de Gilead é ensinada a pensar diferente e buscar o que deseja.

A revolução interna de June se revela. Ela sai do hospital com outra visão de sua vida e, ainda que possa ir para a casa dos Lawrence novamente, pede à tia Lydia para ficar com Ofmatthew até que sua igual fique bem. O episódio termina, desse modo, com tia Lydia dando um tapa olho à Janine, o que pode significar tanto uma empatia da tia quanto a tentativa dela de tornar Janine sua aliada, e com June contando a Ofmatthew sobre seu filho. E, por fim, uma promessa: a de que ela fará o possível para tirá-lo de lá. A dor individual finalmente começa a se tornar coletiva.

Enfim, “Heroic” tem seus pontos positivos. No entanto, em um conjunto, é um episódio ainda mais lento e sem grandes acontecimentos que os antecedentes – que já se destacavam pela ausência de um ritmo equivalente ao das temporadas anteriores. Dessa maneira, acaba monótono, ainda que traga bons questionamentos sobre a conduta da própria protagonista.


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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