CRÍTICA - De olhos bem fechados: o patriarcado como fonte do desespero
“De olhos bem fechados” e o patriarcado como fonte do desespero

“De olhos bem fechados” e o patriarcado como fonte do desespero

O que é real e o que não é? Existe certa tendência em caracterizar o real como a experiência cotidiana, mas e somente se estivermos acordados. Assistir a um filme de Stanley Kubrick é como estar dentro de um sonho. Os signos se confundem e o mistério é revelado individualmente. Uma análise geral sobre os trabalhos de Stanley Kubrick sugere que o tema tratado em De Olhos Bem Fechados não seja uma novidade.

De olhos bem fechados e uma questão de gênero

Em uma bela interpretação de Leon Saunders Calvert para o blog de crítica cinematográfica Senses of Cinema, o autor ressalta a importância da questão do gênero para o diretor. Para Calvert, Kubrick trabalha, embora de forma diversa, o mesmo tema que usa em O Iluminado. Neste, Kubrick retrata a busca pela masculinidade embutida no patriarcado como fonte do desespero de Jack (Jack Nicholson), enquanto Dr. Bill (Tom Cruise), em De Olhos Bem Fechados, busca retomar sua masculinidade e virilidade – principalmente do ponto de vista sexual – com sua mulher, Alice, após a confissão de seus desejos e fantasias.

Indo ainda mais longe, o crítico, Calvert, sugere que desde “Doutor Fantástico” esse é um tema recorrente. Em Doutor Fantástico, a perda da masculinidade é retratada através da impotência masculina que foi substituída pela máquina. Clauvert, encontra em Nascido Para Matar uma possível referência da falta da presença feminina, maternal e suas consequências desastrosas.

De Olhos Bem Fechados pode muito bem ser um filme sobre fantasia. Quando Alice (Nicole Kidman) conta a Bill (Tom Cruise) sobre uma fantasia que teve com um marinheiro, em uma viagem que o casal e sua filha fizeram, Alice não quer apenas provocar ciúmes no marido e sim ser notada. A revelação de Alice atordoa Bill porque faz com que ele perca parte de sua identidade e, talvez ainda mais importante, a capacidade de estereotipar não só Alice, como todas as outras mulheres. Assim como em “O Iluminado”, Bill culpa sua mulher por toda a sua inadequação como marido e pai.

Tom Cruise e Nicole Kidman em "De olhos bem fechados"
Tom Cruise e Nicole Kidman em “De olhos bem fechados” (Imagem: reprodução)

Bill anda pelas ruas de Nova York imaginando cenas da mulher e do tal marinheiro. Cenas sexuais. Parece que Bill não se interessa se aquilo tudo foi uma mera ilusão ou um desejo reprimido da mulher que nunca se concretizou; talvez para Bill não haja diferença entre o querer e o fazer.  Entretanto, ele diz para mulher mais cedo, antes de toda essa confissão, que havia uma diferença entre esses dois polos, ou seja, esses dois gêneros. Para Bill, essa diferença está no respeito – no caso, o respeito para com a sua mulher e ao casamento. Apesar disso, ele sente em sua pele a dor do querer de sua mulher. Vale ressaltar aqui que Bill, antes da explosão que leva a mulher à confissão, julga que homens e mulheres são diferentes – homens pensam mais em sexo que as mulheres.

É nesse suposto conhecimento “científico” de Bill que Alice enxerga sua opressão perante ao homem, principalmente do marido, talvez por Bill ser tão presunçoso a ponto de acreditar que sabe mais sobre as mulheres do que elas mesmas. Bill não acredita, tem certeza que sabe, como fica claro em uma frase que ele usa com Alice: “I’m sure of you”. A conversa que o casal tinha, na qual Alice assume seus desejos, é interrompida por um telefonema avisando a morte de um paciente de Bill. É assim que começa sua jornada em busca de sua masculinidade.

No inicio de De olhos bem fechados, o casal vai a uma festa e nesta só há estranhos. Alice não entende o motivo de estarem ali e nem o de serem convidados para aquele lugar anualmente. Visivelmente entediada, Alice sai de perto de Bill e embebeda-se. Um Húngaro se aproxima dela e desde o início dá indícios de seu interesse sexual por Alice. Ela aproveita, brinca e entrega-se para o jogo do flerte em que nada acontece, mas tudo é possível. O mesmo acontece com Bill, que flerta com duas modelos. Essas mesmas modelos convidam Bill para ir “onde o arco-íris termina”.

Tom Cruise em "De olhos bem fechados"
Tom Cruise em “De olhos bem fechados” (Imagem: reprodução)

A fantasia não está presente somente no desejo e na imaginação. Kubrick é o tipo de cineasta em que nada em seus filmes é por acaso. Não seria diferente no caso das bebidas e das drogas. O filme faz referência aos entorpecentes muitas vezes; como a prostituta Mandy durante a festa, Alice bêbada e maconha. Todos os entorpecentes têm uma coisa em comum: alteração do estado de consciência. Mais uma vez, temos a questão do que é ou não real.

Para além da importância dramatúrgica, a festa apresenta os elementos que se tornarão recorrentes no filme todo; as luzes natalinas formam as cores do arco-íris. Existem poucos lugares no filme onde não há essas luzes, onde o arco-íris literalmente acaba. Esses lugares são: o banheiro de Victor Ziegler (Sydney Pollack); o fundo da loja de fantasias (Rainbow); e a festa da sociedade secreta.

O lugar comum: onde o arco-íris termina

Em De Olhos Bem Fechados, o arco-íris representa o lugar comum. Fora do arco-íris está o 1% que domina o mundo, os ultra ricos e pessoas poderosas. Eles aparentam ser tradicionais e morais, mas necessitam de suas perversões nos bastidores – como todo o resto. A cena de overdose na festa de Zeigler funciona como um prelúdio da sequência de orgia. O nome “Doctor Bill” faz referência direta com o dólar “bill” (nota de dólar).

Bill consegue o que quer por mostrar sua carteira de médico ou oferecendo dinheiro. Bill descobre que sua autoridade e poder são apenas ilusões de um verdadeiro poder que controla o mundo e isso o torna impotente. Mais uma vez, sua identidade é ameaçada. Quando Bill compra um jornal, percebe que está sendo seguido por um tipo forte. Bill para em uma banca, como que fugindo do sujeito, e compra um jornal, com a capa que diz “Lucky to be alive” (sortudo por estar vivo).

filme de Stanley Kubrick
Tom Cruise em “De olhos bem fechados” (Imagem: reprodução)

A mídia como quarto poder lembra Bill de seu insignificante lugar no mundo; ele é apenas uma engrenagem em um esquema maior. O mundo e seus prazeres são destinados para aqueles fora do arco-íris. Bill foi apenas um voyeur do “mundo real” e está preso em um sonho. Seus olhos iluminados por trás da máscara denunciam seu voyeurismo. Entretanto, ele não é o único voyeur presente nesse “Breve Romance de Sonho”. Os espectadores também são.

O primeiro plano do longa De Olhos Bem Fechados mostra Nicole Kidman nua, vestindo-se para uma festa. Isso significa o desejo íntimo de vê-la nua – mas não somente ela, todas as mulheres, assim como a situação da mulher em um mundo em que é objetificada pelos homens. Não são à toa que as janelas do cômodo em que Alice se troca estão abertas. A intimidade e o corpo de Alice são como vitrines para esse mundo repleto de voyeurs.

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Na volta da festa, Bill e Alice estão no banheiro e ela despe-se novamente. Bill a acaricia e Alice, por sua vez, olha-se no espelho. O espelho pode ser uma forma de enxergar a nós mesmos, um jeito de tentar compreender quem somos ou então de ter certeza que somos nós mesmos que estamos ali. Apesar de sua aparente função esclarecedora, o espelho na verdade pode ser uma grande armadilha, levando-nos a acreditar naquilo que vemos; na ilusão de nós mesmos e na fragilidade das aparências.

De olhos bem fechados
Tom Cruise e Nicole Kidman em “De olhos bem fechados” (Imagem: reprodução)

Algumas interpretações do filme De Olhos Bem Fechados sugerem que o nome de Alice é uma referência a Alice no País das Maravilhas. Na sequência da história fantástica de Lewis Carrol, temos a obra com o nome de Alice Através do Espelho. No livro, a menina entra no “país das maravilhas” não pelo buraco do coelho, mas sim pelo espelho.

Não à toa, o filme Matrix foi lançado no mesmo ano. Embora extremamente diferentes, ambas as obras retratam o “homem que acorda”, o homem que saiu da caverna de Platão para o mundo real, o homem que abriu os olhos que antes estiveram fechados, e neste mundo fantástico e inapreensível para a grande maioria, isso é revelador, porém doloroso. Em De Olhos Bem Fechados este mundo é apreendido na festa da sociedade secreta, na qual rituais orgiásticos e máscaras estão presentes. Assim como o gato de Alice prepara para ela uma charada, a sociedade faz o mesmo com Bill – pelo menos é assim que Victor Ziegler explica o ocorrido.

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Na festa, mais uma vez, temos a exposição do nu feminino como algo ideal. O antigo amigo de Bill – o pianista que o leva para festa – refere-se a essas mulheres como “nada que se viu antes”. Aqui o poder, mais uma vez, é capaz de prover ao homem (rico) aquilo que mais deseja. A sexualidade está presente em todo o filme. Dentro do arco-íris, ou seja, no mundo normal, a sexualidade é banalizada. Sex shops, prostitutas, flerte e traição. Fora do arco-íris, o sexo é sagrado, ritualístico, quase como uma festa dionisíaca. O nome da loja de fantasias é “Rainbow”, mas embaixo dessa loja existe uma outra, com o nome de “Under the Rainbow”. Esta loja é um sex shop.

Cena do baile de máscaras
Cena do baile de máscaras (Imagem: reprodução)

Atordoado por imagens de sua própria imaginação, Bill imagina cenas de sua mulher transando com o marinheiro. Embora a traição nunca tenha se concretizado, ele parece apto a vingar-se da esposa. Durante duas noites, Bill vai a uma mesma casa. Na primeira noite, com uma mulher que o abordou na rua, uma prostituta. Na casa, Alice liga para ele e, em um estado de remorso, ele vai embora sem completar seu objetivo. Mesmo assim, paga a mulher.

Na noite seguinte, após a festa misteriosa e ainda angustiado com os pensamentos obsessivos gerados pela confissão da mulher, Bill retorna à casa da prostituta. Não a encontra, porém sua amiga o recebe mesmo assim. Bill e a outra prostituta flertam, indicando que Bill finalmente alcançará seu objetivo, a vingança. Entretanto, a amiga da primeira prostituta alerta Bill que a outra mulher é HIV positivo. A revelação funciona como coito interrompido. No lugar comum as pessoas têm AIDS e o sexo é, além de reprimido, perigoso. Fora do arco-íris ele é explícito, adorado e não parece oferecer risco – a não ser para Bill, o intruso.

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O ponto fundamental do longa De Olhos Bem Fechados é a fantasia, fantasia de viver em um mundo que é previamente programado por pessoas poderosas, que nos enganam e querem nos afastar da “verdade”. O próprio Kubrick, devido ao seu sucesso, chegou a visitar esse mundo. Muitos dizem que esse filme é uma crítica daquilo que Kubrick testemunhou desse mundo distante, particular e quase sempre perverso e intimidador.

Kubrick, Tom Cruise e Nicole Kidman nos bastidores
Stalney Kubrick, Tom Cruise e Nicole Kidman nos bastidores do filme (Imagem:: reprodução)

É interessante pensar que só é possível para Bill e para os outros integrantes da seita misteriosa adentrar esse mundo com uma fantasia e uma máscara. Porém, apesar disso, todos ali sabem que Bill é um intruso, mesmo sem saber quem ele é (ou será que eles sabem?). O que seria a fantasia naquele local se todos sabem quem é quem? Seria um fetiche estético ou um respeito ritual? Seria mais fácil se entregar aqueles prazeres fantasiados? Mas que diferença faria a máscara se sua identidade é conhecida pelos membros?

Em sua inocência, Bill acredita que, ao fantasiar-se, passará por um deles, mas ele nunca será um deles. Existe aqui uma ironia; o sujeito se fantasia para o mundo real, para o mundo em que tudo acontece, mas não seria uma fantasia acreditar que sua identidade está ligada à sua profissão ou ter sua identidade creditada através de todas as instituições do lugar comum, do suposto mundo real? Portanto, a fantasia da mulher torna-se a obsessão de Bill de retomar sua virilidade; ele acredita que, para isso, tenha que encontrar-se com outras mulheres. Sua masculinidade e virilidade foram enfrentadas pela confissão perversa da mulher.

Uma ameaça constante em “De Olhos Bem Fechados”

A prova final da traição de Alice é, quando ao chegar em casa, Bill encontra sua mulher imersa em um sono profundo, mas Alice ri em seu sonho. Bill a acorda e imediatamente Alice começa a chorar, arrependida. Bill sabe que o choro é uma máscara para o verdadeiro sonho. Após alguns instantes, Alice explicita o motivo do riso; sonhava que transava com diversos homens e ria de Bill. Esse sonho ocorre logo após a festa da sociedade secreta que Bill vai e testemunha as cenas de orgia.

Enquanto Alice idealiza seus desejos reprimidos – frutos da instituição moral do casamento -, Bill tenta, de todas as maneiras, atingir o objetivo sexual que é sempre interrompido. Portanto, o que Bill enfrenta é um constante questionamento – dele e dos outros – sobre sua sexualidade, seja por provocações da mulher, pela declaração de amor ideal da filha do paciente – que é tão e somente igual ao desejo de Alice pelo marinheiro – ou pelos jovens que andam na rua e insultam Bill, com nada menos do que sua sexualidade (chamam Bill de gay).

Nicole Kidman em "De olhos bem fechados"
Nicole Kidman em “De olhos bem fechados” (Imagem: reprodução)

As mulheres representam algo estranho dentro do filme. Como um objeto de desejo, estão praticamente todas nuas, até mesmo a criança Helena, filha do casal, se olha no espelho com certa vaidade, procurando ali o seu ser na beleza que deve perpassar ao mundo – ou aos homens. O que uma mulher deveria querer? Para todos os homens, elas deveriam ser bonitas para ter e manter um casamento e se não isso são prostitutas que usam do desejo masculino como forma de ganhar dinheiro.

Quando Bill pergunta a Victor Ziegler sobre quem era a mulher que havia se redimido por ele e morrido em seguida, Victor responde que era uma prostituta. Essa resposta revela de uma vez por todas essa objetificação. A mulher – Amanda/Mandy (Julienne Davis) – não era nada, somente uma prostituta. Ninguém deveria importar-se com uma prostitua quando o assunto era tão sério, assunto de homens. Outro aspecto dessa objetificação é a filha do dono da loja de fantasias, que a primeiro ver é um homem tradicional e moralista, mas que, após perceber que pode lucrar com o corpo e juventude da filha, não pensa duas vezes para oferecê-la aos homens, sempre famintos.

De olhos bem abertos

Como na maioria dos filmes de Stanley Kubrick, o primeiro e último planos do filme têm relação. No caso deste filme, o primeiro plano coloca Alice na posição de objeto da câmera, nua e bela, se despindo cheia de sensualidade; já no último plano, temos ela em um close-up, com roupas cotidianas, sem nenhuma maquiagem e usando óculos.

Na loja de brinquedos, Alice diz que “tem algo que precisamos fazer imediatamente”. Novamente a câmera tem um close-up de Alice. Isso já é estranho, pois em todo o filme seguimos Bill em sua trajetória fantástica e cheia de descobertas, e agora, e só agora, voltamos para Alice que, ao ser questiona por Bill sobre o que seria esse algo que eles deveriam fazer, responde decididamente “fuck”.

Tom Cruise e Nicole Kidman na cena final de "De olhos bem fechados"
Tom Cruise e Nicole Kidman na cena final de “De olhos bem fechados” (Imagem: reprodução)

Alice não está mais em posição de ser um objeto. Além de ser a pessoa que tem a autoridade de decidir se o relacionamento deles deve ou não continuar, ela também está no controle da vida sexual deles. Talvez De Olhos Bem Fechados tenha – mesmo que de maneira estranha – retratado as formas de poder que circundam alguns relacionamentos amorosos.

O título sugere que alguém está de olhos bem fechados; talvez esse abrir de olhos ou despertar não seja somente o fato de Bill descobrir que, embora seja rico e sinta algum poder, existem pessoas maiores e mais poderosas que ele, talvez signifique que Bill não pode mais ignorar o que agora conhece; a forma tradicional de os homens desfrutarem, por muito tempo, relacionado ao trato com a mulher e sua visão sobre elas não existe mais ou, pelo menos, está caminhando para uma mudança, mudança esta que Bill só pode aprender vivenciando a dor da descoberta que sua mulher – e todas as outras – estavam se libertando da padronagem estereotipada que os homens sempre a colocaram.


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

Formada em Cinema, Roteirista e Diretora.
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