Valente: Reflexões sobre ideais românticos e masculinidade tóxica

Valente: Reflexões sobre ideais românticos e masculinidade tóxica

Compartilhe

Amores platônicos, foras constrangedores, expectativas altas e corações partidos. Valente poderia ser apenas mais uma história sobre descobrir o amor nos primeiros anos de juventude, mas é muito mais. Com uma delicadeza desconcertante e muito precisa, o cãozinho mais querido deste mundo antropomórfico mostra que não há nada de errado em demonstrar afeto, colocar-se em uma posição vulnerável e abrir-se ao amor (ainda que exista a possibilidade de simplesmente não dar certo). E sim, este é um recado para meninos e homens.

Escrito e desenhado pelo quadrinista brasileiro Vitor Cafaggi, Valente ganhou as graças do público em 2010, em tirinhas cômicas para o jornal O Globo. No ano seguinte foi publicada de forma independente a coletânea Valente para sempre, e em 2012 Valente para todas, reunindo em ordem cronológica o cotidiano e as desventuras amorosas do adorável cãozinho adolescente. A partir de 2013 passou a ser publicada pela editora Panini, ampliando o alcance da obra e presenteando os fãs com mais histórias inéditas e igualmente encantadoras em 3 novos volumes: Valente por opção, Valente para o que der e vier e Valente, para onde você foi?.

O autor, que já está trabalhando na próxima coletânea, anunciou recentemente que a versão norte-americana de Valente, intitulada Vincent, será lançada em 2019 pelo selo Super Genius da editora PaperCutz – a mesma de Tales from the Crypt (William Gaines), Lady Justice e Mr. Hero (Neil Gaiman). É, Valente vai ganhar o mundo… e ele merece!

Tímido e sonhador, nerd e meio desajeitado, com hábitos não muito saudáveis, talvez um pouco carente demais… Valente é aquele tipo de pessoa que se apaixona por qualquer um, a qualquer instante, que se entrega e se joga sem medo de ser feliz. Você com certeza vai lembrar de alguém que é exatamente assim: encantador pela leveza e inocência com que vive a vida. E não é apenas de epopeias sobre apaixonar-se, ter o coração partido e superar decepções que vive o protagonista.

Um dos pontos mais interessantes sobre Valente é que a HQ desconstrói aquela ideia triste e nociva de que meninos e homens não podem se entregar à paixão. Em um mundo que constantemente ensina meninos a não chorar, não demonstrar sentimentos e não se envolver, somos agraciadas com um protagonista que quebra este ideal de masculinidade extremamente tóxico. Ele se apaixona mesmo, se arrisca, chora e sofre, se permite ficar vulnerável e exposto emocionalmente. E sem parecer fraco! Muito pelo contrário, quem lê Valente consegue ver muita coragem, se reconhecer no personagem e diante de algumas situações, até bem constrangedoras, por sinal, é possível sorrir e pensar “quem nunca?”. E isso é algo que torna Valente tão humano.

Valente

É preciso ter muita bravura para se apaixonar, se desiludir e superar. E nada disso é coisa única e exclusiva de meninas: é coisa de ser humano! As personagens femininas de Valente, aliás, são muito interessantes por mostrar que nem só de amor vivem as mulheres. Com uma doçura incrível, Cafaggi mostra que dá para construir histórias fofas com mulheres fortes, como a melhor amiga Bu, que tenta botar Valente nos trilhos da racionalidade e fazê-lo aprender algo com suas decepções; ou a irmãzinha de Valente, em cenas hilárias onde alfineta o estilo de vida de seu irmão mais velho. E claro, suas pretendentes: Dama é muito mais um espírito livre do que apenas indecisa. Entre idas e vindas, o recado que deixa para as leitoras é que não há um segundo a perder e a vida está aí para ser vivida. Princesa, quase um sopro de alívio para a vida tumultuada de Valente, lembra que coisas acontecem pelo caminho, apesar de todos os planos para o futuro. Luna parece aquele tipo de pessoa que absolutamente não sabe o que quer e que, talvez sem querer, acaba causando muitos estragos por onde passa.

É importante notar que estas características podem ser atribuídas a qualquer pessoa, independente do gênero! – e se você fizer o exercício de substituir os nomes femininos por masculinos, vai lembrar de muitos amigos e conhecidos que são exatamente assim… Seria muito fácil contar a história de gatinhas ou pandas que vivem em função de um herói, ou que simplesmente colocam um protagonista sensível na geladeira da amizade conhecida como friendzone, mas Cafaggi escolheu outro caminho e de forma brilhante contou histórias de meninas que podem querer outra coisa da vida, além de viver uma grandiosa e única história de amor.

Valente

Leia também:
>> [CINEMA] Crepúsculo dos Deuses: Visão genderizada da “loucura de amor”
>> [SÉRIES] Queer Eye: como um reality show pode contribuir pela luta da igualdade de gêneros
>> [QUADRINHOS] Uma Irmã: As nuances e sutilezas humanas ao despertar do primeiro amor

E falando em personagens interessantes, há também os meninos do RPG, amigos que ajudam Valente a superar e seguir em frente. Eles nem de longe representam o ideal de virilidade e, apesar de tentarem levantar a autoestima do protagonista, seus conselhos não são os melhores. Fazer a fila andar é bom e até ajuda, mas tentar transformar alguém em um garanhão quando é óbvio que não se tem a mínima vocação para isso, chega a ser cômico. E também faz pensar sobre algo que definitivamente não é justo.

Atribuir exclusivamente às meninas a capacidade de demonstrar sentimentos ou amar incondicionalmente é cruel, assim como é muito danoso minimizar o sofrimento que meninos também podem enfrentar em algum momento da vida. Há meninas que só querem curtir e quando algo não dá certo seguem o baile e tudo bem! E há meninos que se apaixonam à primeira vista, se decepcionam e logo voltam a se apaixonar perdidamente e tudo bem também!

O que Valente mostra de uma forma muito singela e que reflete como nossa sociedade educa homens e mulheres, é que o grande problema é forçar um comportamento que tem contribuído para a manutenção de uma engrenagem que causa danos. Tanto a quem é forçado socialmente a ocupar este papel de “macho alfa”, garanhão ou pegador, como àquelas que se relacionam com estes homens que não foram ensinados a amar de uma forma saudável.

Valente

Valente traz várias lições sobre o apaixonar-se, lidar com corações partidos e equilibrar o “criar expectativas” com o “botar os pés no chão”, mas também sobre ser você mesmo, e faz isso de um jeito simples e tocante. Pessoas sentem e expressam seus afetos de formas e intensidades variadas e isso tem a ver com a individualidade de cada um, apenas. São várias personagens que mostram diversas formas de amar e de superar frustrações e nenhuma é melhor que a outra. Cada um é diferente e vive estas situações de forma única, e é por isso que aquele conselho do seu melhor amigo pode não servir para nada e às vezes até estragar tudo, afinal.

É por isso também que nunca é legal julgar alguém, ou a si mesmo, pela forma como sente e lida com seus problemas sentimentais. E Valente é genial porque, talvez sem querer, faz pensar sobre como reagimos diante do amor e suas consequências, e que o ato de amar não é uma coisa intrínseca ao gênero feminino ou ausente no gênero masculino, mas peculiar a cada um.

Valente

Por estes e outros motivos que esta história (quase autobiográfica) e Vitor Cafaggi tem muito mérito por expor-se tanto, é uma lição para muitos meninos e homens sobre sentir e se envolver emocionalmente, sem medo de diminuir sua virilidade. Então, se você quer uma leitura premiada*, gostosa e tranquila, com aquele gostinho de nostalgia da adolescência e uma pitada de reflexão, leia Valente! Você vai se emocionar com as lições de vida deste cãozinho nerd, que faz aquecer o coração até da mais descrente criatura na face da Terra.

*Os volumes 2 e 3 ganharam o Troféu HQ Mix em 2013 e 2014, respectivamente, na categoria melhor publicação de tiras. Vitor Cafaggi também é autor de Duo.tone (Novo Talento, Troféu HQ Mix, em 2012), e com sua irmã Lu Cafaggi são os responsáveis por Turma da Mônica – Laços, projeto da Graphic MSP (Edição Especial Nacional e Publicação Infantojuvenil, Troféu HQ Mix, em 2013), que acabou de receber um teaser de fazer chorar qualquer um que tenha crescido lendo os gibis da dona da rua! <3


Compartilhe

Autora

60 Posts

No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
Veja todos os textos
Follow Me :