Crepúsculo dos Deuses: visão genderizada da “loucura de amor”

Crepúsculo dos Deuses: visão genderizada da “loucura de amor”

“Você é Norma Desmond! Você era grandiosa!”

“Eu sou grandiosa! Os filmes é que ficaram pequenos!”

Este clássico diálogo acontece logo após o encontro do fracassado roteirista Joe Gillis (William Holden) com a poderosa estrela do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson). Joe é o protagonista da história e sua narração em off guia o filme pelos acontecimentos que levaram à sua morte na piscina de Norma, mostrada na cena inicial do filme Crepúsculo dos Deuses.

Joe é um americano comum que, como muitos outros, se mudou para Los Angeles para tentar fazer carreira em Hollywood. Mas Crepúsculo dos Deuses não é um filme qualquer. O diretor Billy Wilder pretendia justamente criticar a máquina de moer pessoas que era Hollywood, que não poupava nem as estrelas nem os desafortunados que buscavam, em vão, alguma oportunidade.

Joe está endividado e não consegue trabalhar com nenhum estúdio há algum tempo. Todos a quem ele procura lhe dão as costas, inclusive seu agente. Desesperado, ele é avistado pelos cobradores um dia, e após uma perseguição acaba se escondendo na garagem de Norma Desmond.

Crepúsculo dos Deuses

A casa parecia estar abandonada, evocando o espírito de sua dona: uma mega estrela da época do cinema mudo, mas agora esquecida. Entretanto, ela continua rica e tem esperança de fazer um retorno com um roteiro que está escrevendo. Joe vê aí uma oportunidade de conseguir alguma grana, ajudando-a a melhorar este roteiro. Mas ele não sabia que ela acabaria aos poucos o aprisionando em sua mansão e tomando controle da vida dele.

Crepúsculo dos Deuses parece inverter os papeis de gênero. Norma aqui é a poderosa rica que se aproveita de um homem mais novo em desvantagem. Em termos de comparação modernos, ela poderia ser uma espécie de Christian Grey dos anos 50 (mas num filme infinitamente melhor).

[Contém spoilers a partir daqui]

Não é fácil para Joe se ver nessa posição: ele imediatamente se revolta ao ver que Max, o mordomo de Norma, foi até seu apartamento e trouxe todas as suas coisas para o quartinho em que está hospedado na mansão. Ele protesta essa enorme invasão de privacidade, mas ao mesmo tempo hesita em tomar uma posição mais drástica, afinal, Norma acabara de pagar também sua dívida de três meses de aluguel. Com o tempo, Joe se vê vivendo a vida que sempre quis: tomando bebidas caras, usando roupas elegantes, relógios e cigarreiras de ouro, e nadando na piscina que sempre sonhou ter. Mas o que ele tem de abrir mão para usufruir disso não lhe desce pela garganta. 

Crepúsculo dos Deuses

Enquanto nos anos 50, Marilyn Monroe fazia diversos filmes em que sua personagem tramava dar o golpe do baú em algum homem rico, Joe Gillis em Crepúsculo dos Deuses estava sempre incomodado em ser um homem e estar na posição de dependente, e não de provedor. Independência e autonomia estão intrinsecamente ligadas à masculinidade na sociedade patriarcal. O aprisionamento de Joe é visto como emasculação e o que o personagem faz para tentar confrontar essa situação é zombar de sua captora em todos os momentos. 

Assim que bota o pé na mansão de Norma, Joe usa um tom sarcástico para descrever tudo o que vê, em sua narração em off. Ele chama o roteiro que Norma escreveu de “alucinações loucas”, e se refere a ela sempre com um misto de pena e desdém. Mesmo quando Joe resolve ceder às chantagens emocionais de Norma, Crepúsculo dos Deuses deixa claro que ele está fazendo isso mais por si mesmo do que por ela. Fica sempre explícito que ele nunca realmente se apaixona por ela. 

E aí está um dos motivos pelos quais a narrativa não inverte realmente os papeis de gênero. O filme nunca romantiza a situação de Joe. As manipulações de Norma Desmond sempre são vistas pelo que são: abomináveis, temíveis, imorais. Embora o excelente roteiro não faça de Norma uma personagem unidimensional, nos levando até a empatizar com ela em certos momentos, jamais deixa de enxergar suas atitudes como prejudiciais. 

Crepúsculo dos Deuses

É notável a diferença dessa representação franca e nítida com os inúmeros filmes que romantizam atos de homens abusadores e controladores, borrando a linha que divide flerte saudável de práticas criminosas. 50 tons de cinza, A Bela e a Fera, O Fantasma da Ópera, e infinitos outros, trazem homens que perseguem, controlam e manipulam as mulheres por quem se interessam, mas ainda assim são retratados como heróis românticos. É uma raridade encontrar um filme em que o oposto seja verdadeiro: romantização dos atos abusivos de uma mulher sobre um homem. 

Norma Desmond já foi comparada com o papel das femme fatales em filmes noir, no sentido de que o mal que elas causam aos homens que seduzem também acaba as vitimizando. Mas, na verdade, Norma nunca consegue realmente seduzir Joe. Ela se encaixa mais adequadamente no arquétipo da bruxa clássica: velha, com inveja da juventude, que prejudica o protagonista e depois acaba sendo punida.

O plano final, com a trilha sonora de terror e o close-up em Norma, exaltando seu estado lunático, evidencia isso mais do que tudo. É o testemunho de sua queda. O crepúsculo da deusa do cinema mudo que agora se tornou um monstro. Além do comentário sobre como Hollywood destrói seus astros (algo que, não por coincidência, acontece muito mais com atrizes que com atores), esse plano também representa a espetacularização do monstro. Nada muito diferente do que os tablóides mais recentes vendiam quando mostravam uma foto de Amy Winehouse, Lindsay Lohan ou Britney Spears em seus períodos de colapso.

Crepúsculo dos Deuses

Essa representação de Norma no arquétipo da bruxa fica mais evidente ainda com a introdução do interesse romântico de Joe, a aspirante a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson). Ela, ao contrário de Norma, é uma jovem de 22 anos que trabalha como leitora de roteiros nos estúdios Paramount. Betty é ambiciosa, mas só até um ponto não-ameaçador. Ela sonha em avançar na carreira e convence Joe a escrever um roteiro com ela. Mas quando Joe tenta dar o roteiro de presente para que ela continue sem ele, ela declara: “eu não sou boa o suficiente para escrever sozinha”. Em outro momento, ela conta que sonhava em ser atriz, mas depois de rejeitada nos testes, se conformou em ter uma carreira por trás das câmeras. 

Betty é, portanto, apresentada como o par perfeito para Joe: alguém que irá apoiá-lo sem se sobrepor a ele. Diferente de Norma, Betty não é arrogante e sabe se adaptar e abaixar a cabeça quando encontra um obstáculo. Ela é alguém que não desafia as normas de gênero a ponto de ameaçar a dominância masculina sobre o relacionamento. Crepúsculo dos Deuses está sempre pondo em contraste a modéstia e simplicidade de Betty, com a vaidade e convencimento de Norma; uma como boa e desejável, a outra como insana e imoral.

Crepúsculo dos Deuses

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Uma questão que fica em aberto no filme é se Norma era realmente quem manipulava a todos, ou se ela que era vítima de seu mordomo Max (que, como revelado no filme, foi seu primeiro marido). Não sabemos ao certo se na verdade foi o mundo de ilusões que ele criou para ela que a fez perder todo o senso de realidade e entrar na espiral de loucura que a rodeia. Esses detalhes implícitos são um dos motivos da genialidade do roteiro de Crepúsculo dos Deuses.

Billy Wilder também estava fascinado com o aspecto metaliguístico que conferiu à sua obra. Gloria Swanson era uma estrela do cinema mudo na vida real, e estava realmente fazendo um retorno com o filme. Alguns outros personagens dessa época também fazem aparições, como Buster Keaton, e o diretor Erich von Stroheim, que interpreta Max – ele realmente dirigiu Gloria na época do cinema mudo. Além disso, o roteiro que Norma está escrevendo é sobre a personagem bíblica Salomé, que exige a cabeça de seu amante João Batista numa bandeja, após ser rejeitada. Todos os símbolos se entrelaçam intimamente com a história.

Assim como, por exemplo, no final da ópera Carmen, acontece um assassinato por causa de uma rejeição. Seria bom que histórias como Carmen, assim como Crepúsculo dos Deuses, tratassem esses episódios como histórias de terror e não como crime passional. Talvez isso contribuísse um pouco para que deixássemos de ver tantas histórias parecidas nos noticiários todos os dias na vida real. 

PS: Um diretor felizmente ousou mudar o final de Carmen, para chamar a atenção para o feminicídio. Que mais pessoas continuem questionando o papel das histórias que contamos, na formação de nossos valores enquanto sociedade.

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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