O Fantasma da Ópera: a escolha entre dois homens abusivos

O Fantasma da Ópera: a escolha entre dois homens abusivos

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O Fantasma da Ópera é um romance escrito por Gaston Leroux no começo do século XX, e que foi adaptado inúmeras vezes para diversos meios. Talvez a versão mais conhecida seja a do musical teatral feito nos anos 80 pelo famoso compositor inglês Andrew Lloyd Webber. O show fez tanto sucesso que hoje é o musical que está em cartaz há mais tempo na Broadway, em Nova York, colecionando mais de 10 mil apresentações, e é o segundo no West End de Londres, atrás apenas de “Os Miseráveis”.

Após tanto êxito, Andrew Lloyd Webber sonhava em adaptar sua obra musical para o cinema. Mas contratempos (e a separação de sua esposa Sarah Brightman, que era a estrela do show) acabaram fazendo com que O Fantasma da Ópera só chegasse à tela grande em 2004.

Webber, que é sempre muito meticuloso com o elenco de suas obras, inclusive supervisionando a escolha dos atores que vão apresentá-las em outros países, preferiu um elenco jovem e relativamente desconhecido à época para estrelar o filme: a cantora Emmy Rossum, no papel de Christine; Patrick Wilson, como Raoul; e Gerard Butler, no papel do Fantasma. A direção ficou a cargo de Joel Schumacher (para o desespero de todos), que felizmente se controlou neste filme e não fez tão feio. O problema real está no modo em que o filme representa a história que conta:

[CONTÉM SPOILERS]

Paris, 1870. O teatro Opera Populaire acaba de ser vendido para novos administradores, os senhores Andre e Firmin. O antigo gerente alega que está se aposentando pela própria saúde, e logo entendemos porque: a estrela do teatro é uma irritante cantora de Ópera, Carlotta, que dá um chilique na frente dos novos gerentes e resolve deixar a produção da próxima ópera da temporada.

Felizmente, havia uma garota no coro da produção com o talento necessário para substituir a diva: Christine Daaé. Ela é uma órfã que foi morar nos aposentos do teatro ainda criança, após seu pai ter morrido. Desde então, ela tem recebido aulas de canto de uma misteriosa entidade, a quem ela acredita ser o espírito de seu pai. Mal sabia ela que na verdade se tratava do tal Fantasma da Ópera.

Christine Daaé (O Fantasma da Ópera)

A primeira apresentação de Christine é um sucesso. Ela é ovacionada, e o novo financiador do teatro – o visconde Raoul de Chagny, a reconhece da plateia. Eles eram amigos de infância e tinham perdido contato um com o outro. Após a apresentação, Raoul vai até o camarim de Christine parabenizá-la e convidá-la para jantar. Mas ela diz que não pode ir porque o “anjo da música” é muito rígido, e não admite que ela perca as lições. Raoul a ignora com um tom condescendente e diz para ela estar pronta em dois minutos, enquanto ele vai ordenar sua carruagem. O Fantasma, claro, observa tudo isso e fica corroído de ciúmes. Ele tranca a porta do camarim, remove a chave e começa a cantar para Christine:

Rapaz insolente, este escravo da moda,

Se aproveitando da sua glória!

Tolo ignorante, este jovem pretendente,

Compartilhando do meu triunfo!

Enquanto Christine, amedrontada e envergonhada, responde: 

Anjo, eu te ouço.

Fale, eu escuto.

Fique ao meu lado, me guie.

Anjo, minha alma foi fraca, me perdoe.

Entre finalmente, Mestre.

Só pelo fato de trancar Christine no camarim, os(a) espectadores(a) já deveriam ter ficado alertas de que há alguma coisa bem errada nessa história. Mas o filme adota a abordagem bastante comum de retratar um comportamento perturbado e abusivo como paixão visceral. Em um momento de flashback, é revelado porque o Fantasma se esconde de todos, usa a famosa máscara, e até mesmo porque tem um comportamento tão agressivo. Ele é um gênio da música com uma deformação no rosto, e vê a oportunidade de viver o sucesso e aceitação que nunca teve através de Christine, que possui um talento fenomenal para o canto. Mas agora ele começa a desejá-la como par romântico também.

Engraçado como esse padrão de “amor bizarro” não se traduz para os filmes em que os gêneros estão trocados. Quando a mulher é obcecada pelo homem, ela é representada como louca e vilã, e seus atos não são enxergados como românticos pelos filmes nem pelos espectadores. É só lembrar, por exemplo, da personagem de Carrie Fisher em “Os Irmãos Cara-de-Pau”, ou da de Kathy Bates em “Louca Obsessão”. 

Mas bem, este trecho de música destacado acima já deixa bem claro a dinâmica de poder entre o Fantasma e Christine, que será reforçada na próxima cena, onde aparece a famosa canção-tema do musical, em que o Fantasma decide que está na hora de Christine conhecer o esconderijo dele nos calabouços do teatro. Ele canta “Meu poder sobre você aumenta. E mesmo que você se vire para olhar para trás, o Fantasma da Ópera está aí, dentro da sua mente.” Romântico, não? (Não!)

O Fantasma da Ópera

A grande sacada da história é que Christine nunca se apaixona realmente pelo Fantasma. Ela fica confusa no começo, sem entender direito quem é esse homem, a quem ela pensava ser o espírito de seu pai. Ela, por vezes, parece um tanto hipnotizada por ele, como se ele a conseguisse manipular com sua presença mágica (o que pode-se levar como metáfora para manipulações psicológicas no mundo real). Mas, em vez de enquadrar tudo isso como a história de terror que é, o filme resolve representar as situações como sensuais ou românticas.

A escalação de Gerard Butler no papel também é problemática, porque faz o Fantasma parecer sexy, como se fosse um galã atormentado, e não bizarro e ameaçador como nas versões teatrais. Talvez o filme pudesse tê-lo mantido sexy, mas enfatizando a noção de que ele é alguém a ser temido, e não desejado. Afinal, na vida real, os agressores estão muito mais para os galãs que conhecemos, do que para os típicos vilões deformados que povoam as produções hollywoodianas.

Após retornar do subsolo do teatro, e ter testemunhado um ataque de fúria dos brabos com a tentativa de remover a máscara dele e ver seu rosto, Christine caracteriza o Fantasma como um monstro, e entende que ele é uma pessoa perigosa. O Fantasma continua a perseguindo e ameaçando as pessoas que trabalham no teatro, principalmente à medida que Christine se aproxima mais de Raoul. Mas o pessoal do teatro só começa a levar a sério a lenda de que há um “fantasma” assombrando o ambiente quando ele resolve assassinar um dos funcionários de fundo de palco. Já Raoul, apesar de ver o corpo do homem morto caindo na frente de todos em plena apresentação de ópera, continua negando que exista esse tal Fantasma, insistindo que tudo não passa da imaginação de Christine.

O filme, então, começa a desenhar a história como um triângulo amoroso: de um lado, um perseguidor-assassino-gênio-da-música, e do outro, um rico-pomposo-que-não-a-leva-a-sério. Após o assassinato, Christine tenta se esconder e leva Raoul para o terraço do teatro. É aqui que ele declara seu amor por ela, naquela canção que toca em todos os casamentos: “All I Ask of You”, e os dois ficam noivos. Mas o Fantasma não vai deixar barato. O filme ainda acrescenta uma cena de luta de espadas que não existe no musical, para fazer os dois homens parecerem mais másculos e deixar mais explícita a competição deles por Christine.

O Fantasma da Ópera

O ruim é que a coitada permanece não sendo ouvida, nem pelas pessoas em quem deveria poder confiar. Sua amiga, Meg, acha que ela tem delírios; seu noivo, Raoul, ignora totalmente seus temores; e a mãe de Meg, Madame Giry, ainda é uma espécie de ajudante do Fantasma, o que é o mais bizarro. Após mais uma aparição do Fantasma, Raoul bola um “brilhante” plano para capturá-lo: fazer Christine interpretar o papel principal na nova ópera que o Fantasma escreveu e está exigindo que seja produzida.

Quando ele aparecer para interpretar o outro protagonista junto a Christine, a guarda policial estará a postos no teatro para prendê-lo. Mas Raoul esqueceu o importante detalhe de que o Fantasma conhece muito melhor todos os cantos do teatro. Christine implora para que Raoul não a faça participar disso, ela sabe que o Fantasma é mais esperto e diz claramente que ele a levará para sempre. Novamente Raoul não liga e canta:

Christine, Christine,

Não pense que eu não me importo,

Mas todas as esperanças e todas as preces

Dependem de você agora.

Raoul é caracterizado como o mocinho da história, uma espécie de príncipe encantado, o homem que a trará segurança e lutará para libertá-la do mostro que a persegue, tal qual nos contos de fadas. Mas Raoul se mostra, guardadas as devidas proporções, tão manipulador quanto o Fantasma. Ele sempre força Christine a fazer o que ele quer. E, ainda, a faz acreditar que ela não tem escolha de recusar o plano dele, afinal, de que outro jeito pegarão o Fantasma? Ele a convence de que apenas o sacrifício dela é que pode livrar o teatro deste criminoso. Ele, como toda a sociedade costuma fazer, coloca sobre a vítima a responsabilidade de impedir o agressor, e junto com isso, a respectiva culpa se ela não for capaz de fazê-lo. 

Na verdade, a culpa é toda de Raoul. Obviamente, o plano dá errado, e o Fantasma sequestra Christine exatamente como ela disse que aconteceria. A insistência de Raoul em não ouvir Christine foi o que colocou a vida dela em risco. Imaginem como deve ter sido a vida dela após casada com ele.

No final, após Raoul tentar um resgate mal-sucedido (esse cara é um fracasso total) o Fantasma dá um ultimato a Christine: ou ela escolhe ficar com ele por toda a eternidade, ou ele enforcará Raoul. Ela é, então, forçada a fazer o que muitas mulheres tem de fazer em muitos filmes: usar sua sexualidade para seduzir o vilão e se salvar (lembram de Jasmin tendo que beijar Jafar para distraí-lo em “Aladdin”?). Christine “escolhe” o Fantasma, dando um beijo nele, pois obviamente não quer que Raoul seja assassinado. Por sorte, o Fantasma acaba tendo um lampejo de compaixão e libertando os dois, o que o filme quer que os espectadores enxerguem como “prova” do verdadeiro amor dele por Christine.

O Fantasma da Ópera

Muitos fãs do musical ressentem esse final, dizendo que o Fantasma e Christine foram feitos um para o outro e que preferiam que Christine ficasse com ele no final, em vez de terminar com Raoul. Essa leitura permanece sendo incentivada pelo filme, ao fazer os espectadores simpatizarem com o Fantasma, entenderem seu sofrimento, e empatizarem com suas motivações. Tal compreensão parece difícil de ser dispensada a uma protagonista mulher que tivesse os mesmos comportamentos que ele. De fato, até Christine recebe um pouco de hostilidade do público, por parecer muito frágil e sem atitude. Não por acaso, boa parte da empatia que a personagem recebe vem de mulheres que já passaram por relacionamentos abusivos. Elas entendem como Christine se sente, e como a situação em que ela se encontra é delicada, de difícil solução.

Por fim, o filme simboliza nos dois “pretendentes” a escolha de Christine por dois caminhos diferentes para sua vida: Raoul, significando lar e família; e o Fantasma, representando a escolha pela carreira. Filmes costumam apresentar esse tipo de estrutura muito mais para personagens femininas do que o contrário. Nos recentes “Brooklyn” e “X-Men: Dias de Futuro Esquecido” temos mulheres que tem de escolher entre um homem ou outro, e respectivamente, as ideias e modos de vida distintas que eles representam.

Esses homens não são apenas pares românticos, mas representam toda uma nova vida que a protagonista irá adotar, como se ainda estivéssemos nos anos 50 e o destino da mulher dependesse totalmente de quem vai se tornar seu marido. Engraçado notar como nos anos 50, de fato, havia filmes que já estavam falando de histórias que fugiam disso. Portanto, nem em filmes de época, como O Fantasma da Ópera, existe desculpa para representar as histórias de mulheres dessa maneira. Resta saber quando eles passarão a representar essas histórias de relacionamentos abusivos como as verdadeiras histórias de terror que elas são.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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