[CINEMA] Uma Mulher Fantástica: A resiliência de uma mulher transexual (Crítica)

[CINEMA] Uma Mulher Fantástica: A resiliência de uma mulher transexual (Crítica)

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O filme Uma Mulher Fantástica, escrito e dirigido pelo chileno Sebastián Lelio (“Glória”, 2013), estreia nos cinemas amanhã (07/09) e conta a história de Marina Vidal (Daniela Vega), uma jovem cantora transexual que mantém uma relação amorosa com Orlando (Francisco Reyes Morandé), homem mais velho, proprietário de uma tecelagem, divorciado e pai de dois filhos.

Os dois vivem juntos há pouco tempo e dividem os cuidados da cachorra de Orlando, “Diabla”, a quem Marina é muito afeiçoada. Porém, Orlando sofre um aneurisma cerebral e morre. Assim como aconteceria com qualquer pessoa, a vida de Marina sofre um abalo de proporções elevadas com esse acontecimento. O filme deixa implícito que Marina e Orlando viviam meio retirados do resto do mundo, assim como qualquer casal em início de relação.

Ora, tendemos a nos exilar de tudo e de todos quando iniciamos uma nova relação afetiva, isso vale para amigos, familiares e colegas de trabalho. Entramos num estado de isolamento involuntário, como se estivéssemos dentro de uma bolha, onde se vive apenas para o objeto de nosso afeto. Portanto, quando Orlando morre, a bolha em que habitavam e nutriam com seu amor se rompe, e tudo que estava fora dela: a fúria da família, os olhares e comentários maledicentes, o preconceito e o julgamento dado ao casal e de Marina, e a incapacidade da sociedade em lidar com a questão da mulher transexual vem à tona.

Durante todo o tempo, entre a morte de Orlando e o fim do filme, Marina entra em um estado de choque profundo, como se estivesse vivendo um pesadelo sem fim. Sua vida é colocada do avesso, e ela se depara com o preconceito e a indignação das pessoas que não aceitavam sua relação com Orlando.

Desde sua chegada ao hospital com Orlando, passando pelo momento em que recebe a notícia do falecimento de seu companheiro, até a hora em que a família dele é acionada, tudo parece surreal e absurdo. A vida construída com Orlando e o que eles representaram um para o outro se perde no momento em que ele morre. Todos os planos que fizeram juntos e o que prometeram um para o outro, vão dando lugar à percepção de que o desejo da família do falecido não é outro senão o de eliminar qualquer vestígio de Marina na vida dele.

Uma Mulher Fantástica
Uma Mulher Fantástica (2017)

Muito provavelmente, se Marina fosse amante de Orlando, a família a trataria da mesma maneira, tentando a todo custo eliminar sua existência da vida do falecido. Mas o que dizer das outras pessoas envolvidas nesse episódio? Médicos, policiais, amigos, todos se comportariam assim diante de uma mulher que estivesse com seu amante no momento da morte dele? O palpite é que não. A questão, claramente, é centrada no fato de Marina ser uma mulher trans.

Fomos educadas a aceitar, com discrição, certos “delitos” cometidos pelos homens. Traições, vida dupla, duas famílias paralelas: são apenas alguns exemplos de situações corriqueiras, onde agimos de forma polida, normalizando questões de alcova que chegam ao conhecimento público, em situações como a de Marina e Orlando. Porém, Marina não era sua amante, era sua companheira e mulher. Mas, para a família dele e para a sociedade de modo geral, Marina, sendo uma transexual, é alguém fora de seu lugar, alguém que está exercendo um papel que não é seu, e isso provoca em todos um desconforto, logo transformado em violência.

Somos o reflexo de uma sociedade conservadora que passou por anos de tentativas de normatizar comportamentos, com a finalidade de controlar as pessoas e encaixá-las em determinadas funções e papéis. Dito isso, podemos compreender que temos uma “norma” que determina que o “normal” numa relação a dois é o encontro de um homem e uma mulher. Assim, qualquer relação que fuja desse desenho pré determinado soa alienígena e é atirada na vala da anormalidade, do excêntrico e do indesejado. E é dessa maneira anormal e odiosa que Marina é tratada por todos após a morte de Orlando. 

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Como toda pessoa que perde seu ente querido, ela quer apenas o direito de se despedir de Orlando e ficar com a cachorra do casal. A família de seu parceiro, no entanto, fará tudo para impedi-la.

Evidentemente, mesmo não estando no lugar de fala de Marina, tampouco conhecendo o sofrimento de uma transexual na sua luta por ser reconhecida pelo que é, uma coisa fica clara: mulheres e LGBTTT lutam contra a opressão, o conservadorismo e o machismo. Lutamos contra a ideia de que a sociedade patriarcal deva legitimar o que somos.

A violência que Marina sofre a partir disto não é uma novidade para nós, já que assistimos diariamente centenas de relatos em jornais, sites e redes sociais que noticiam a violência de gênero, fenômeno que não para de crescer, e muitas vezes, acaba banalizado e até “justificado”.

Entende-se por violência não só o ataque físico a outra pessoa, mas também aquele que atinge sua integridade moral e seus direitos como ser humano e cidadão. Está mais do que na hora de falarmos de sexo e desejo como pessoas adultas, e não como crianças inocentes e cheias de pudores.

Vale mencionar que Freud, em “Três Ensaios Sobre a Sexualidade” (1905) aborda a homossexualidade como uma posição libidinal, assim como a heterossexualidade, e que a “escolha” pelo objeto, independe de seu sexo. Estamos falando de um texto escrito no século 19. Portanto, em pleno século 21, uma boa medida para todo esse problema em torno do sexo e das relações amorosas seria assumirmos definitivamente que nosso interesse pelo outro, interesses esses que nos levam ao desejo sexual, passam por lugares que vão além de nossas genitálias.

Uma Mulher Fantástica
Uma Mulher Fantástica (2017)

Para nós, Marina é de fato uma mulher fantástica, sendo obrigada a provar isso até o último minuto do filme. A tragédia, para além dos fatos em si, talvez resida justamente nesse ponto: em pleno luto e tendo que lidar com a perda da pessoa amada, a personagem principal é exigida ao máximo, tendo que lutar contra tudo e todos para ser quem deseja ser, para não ser apagada da história de seu amor. É um esforço sobre-humano de sobrevivência e legitimação.

Saímos do cinema absorvidas pelo choque, pela indignação e pela vontade que conduzem Marina na busca pelo direito de enterrar seu homem e permanecer com sua cachorra. E ainda, não deixa de ser chocante o absurdo que move pessoas comuns a se comportarem como seres irracionais quando se sentem confrontadas por escolhas que diferem daquilo que acreditam ser o “normal”.

Marina é resiliente até o fim, sem nunca desmoronar e nem desistir de ser quem é ou de lutar pelo que deseja. Sejamos todos(as) Marina!

P.S. Em tempo, antes de Marina Vidal, o diretor Neil Jordan contou no cinema a história de Dil (vivida por Jaye Davidson) e Fergus (Stephen Rea) em “Crying Games”, conhecido no Brasil por “Traídos pelo Desejo”, de 1992. Mais uma dica!


Referências bibliográficas:
  • Revista pré-univesp – número 61 Dez 2016/2017 – Histórico da luta de LGBT no Brasil (http://pre.univesp.br/historico-da-luta-lgbt-no-brasil#.WbBJDLKGPIU)
  • Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade – 1905 – de Sigmund Freud – Editora Imago

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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