[LIVROS] No Café Existencialista: A influência da filosofia nos movimentos sociais

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Imagine-se em um café, sentada com conhecidos, discutindo assuntos do cotidiano. De repente, surge à mente uma reflexão profunda. Embora seja do senso comum a ideia de que a filosofia é algo distante da realidade humana, as grandes discussões filosófica surgem e surgiram de cenários não muito distinto do apresentado. No Café Existencialista, publicado pela Editora Objetiva, vem, de maneira bastante agradável, mostrar a forma com que grandes filósofos quiseram demonstrar a presença cotidiana da filosofia e, mais do que isso, que ela é essencial às modificações da existência.

A britânica Sarah Bakewell, formada em filosofia pela Universidade de Essex, soube conduzir bem a história dos grandes filósofos do século XX. Mesclou história, narração e filosofia, nesse desenvolvimento das teorias fenomenológicas e existencialistas que incentivaram mudanças no modo de pensar do ser humano. Mas o que seriam essas teorias?

No Café Existencialista
Sarah Bakewell (Reprodução)

Jean-Paul Sartre estava em um café com Simone de Beauvoir e Raymond Aron, quando manifestou o desejo de desenvolver uma filosofia diferente. Não queria se situar num mundo de abstração distante da realidade humana, como fizeram os filósofos gregos. Não que os pensamentos de Sócrates e Platão devessem ser ignorados. Afinal, muita fora a contribuição deles no desenvolvimento da sociedade humana.

O que Sartre e outros pensadores contemporâneos a ele queriam, era algo que pudesse exprimir as necessidades do homem naquele e em qualquer instante da vida. Ele queria poder olhar para o copo à sua frente e desenvolver uma reflexão.

Inspirado pelas ideias de Heidegger, desenvolveu uma filosofia sobre os fenômenos do mundo e o ser. Enquanto a fenomenologia aborda o mundo com um conjunto de fenômenos (interpretações variadas de acordo com o mundo em que se situa), o existencialismo aborda o ser humano enquanto ser histórico e dominado pelas angústias, seja por sua finitude temporal ou por sua ânsia de justificar os fenômenos do mundo.

Sartre, ainda, dará um passo além. Falará da liberdade do homem enquanto ser existente. Desenvolverá a ideia de que o ser humano é influenciado por sua vivência, mas livre para se auto-determinar. Explicará que tão importante quanto os valores que guiam as escolhas, são as possibilidades de escolhas. E que escolher, implica em responsabilidades.

O pensamento de um ser humano livre para se determinar no mundo, servirá de inspiração a movimentos sociais, então, despontantes. Se somos livres para ser quem desejamos ser, por que obedecer às regras impostas por grupos dominantes?

No Café Existencialista
Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir, que manteve um relacionamento de anos com Sartre, escreverá sobre o posicionamento da mulher na sociedade. Abordará também as questões do ser e do fenômeno do mundo. Questionará as tradições e a construção do papel da mulher – uma verdade universal ou uma verdade construída culturalmente?

A escritora francesa falará sobre a condicionante do contexto, a qual sujeita o ser humano a uma constante ambiguidade: o desejo de libertar o mundo das amarras de suas experiências, sendo um ser moldado por elas. Conforme ela, o existencialismo seria a filosofia mais adequada aos processos de luta da humanidade, por trabalhar justamente tanto a questão da liberdade quanto a questão da contingência.

“Temos de fazer ao mesmo tempo duas coisas quase impossível: entendermo-nos como seres humanos limitados pelas circunstâncias e, mesmo assim, continuar a perseguir nossos projetos como se realmente tivéssemos controle da situação.”

Sarah Bakewell tem o mérito de desenvolver a filosofia existencialista também se baseando nos pressupostos dela. Se esta filosofia pressupõe o homem como ser condicionado pelo tempo e pela história, seria incoerente deixar de abordar o contexto e a vida de seus principais pensadores. Sendo assim, sua escrita é uma narrativa da vida desses personagens da história da filosofia e do mundo.

No Café Existencialista
Sarah Bakewell, quando era mais nova

Ela escreve sobre a influência da Segunda Grande Guerra na construção de uma nova justificativa em um mundo descrente. Homens e mulheres perderam a confiança na própria humanidade e passaram a ver em si a possibilidade de mudanças. O coletivo mostrou-se inseguro. O mundo, então, voltou-se a um individualismo – e hoje, pode-se perceber que, diante da insuficiência de respostas de um individualismo extremistas, crescem movimentos de coletivização, alguns dos quais tão extremos quanto.

A autora escreve ainda sobre a experiências pessoais dos autores, tão importantes quanto as experiências do mundo para a construção do pensamento. O ser humano, conforme a própria filosofia existencialista, afinal, é movido por sua subjetividade. O historicismo não reflete apenas a experiência histórica coletiva, mas a história pessoal também.

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Há, por óbvio, críticas à filosofia existencialista, as quais não são profundamente abordadas no livro. Habermas, por exemplo, com sua filosofia da linguagem e teoria sistêmica, critica a irrealidade em que se baseiam as teorias de Heidegger e Sartre. Ainda que tenham inspirado movimentos sociais, o existencialismo e a fenomenologia não trabalham a ideia de que existem sistemas que limitam a atuação de alguns indivíduos.

A ideia do livro No Café Existencialista, no entanto, é apresentar de forma leve e contextualizada, também com a inserção de fotografias, o pensamento dos autores dessa tendência filosófica. O objetivo é mostrar às leitoras e leitores que a filosofia não precisa amedrontar. O medo de refletir sobre o mundo talvez seja uma imposição do próprio mundo. A reflexão, porém, está presente no dia-a-dia e pode ser realizada a qualquer momento. Fugir disso, é colocar a responsabilidade nas mãos de outras pessoas.


No Café ExistencialistaNo Café Existencialista

Autora: Sarah Bakewell

416 páginas

Editora: Objetiva

Este livro foi fornecido pela editora para resenha

Onde Comprar: Amazon

 


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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