Paper Girls: um ótimo coming of age, mas uma aventura fraca

Paper Girls: um ótimo coming of age, mas uma aventura fraca

O ano é 2019. Prestes a ir para a cama, a assistente jurídica Erin Tieng (Ali Wong) se assusta ao ouvir um barulho vindo da sala de estar. Ela se levanta para dar uma olhada e se depara com quatro meninas pré-adolescentes que parecem saídas de uma festa temática dos anos 80.

O ano é 1988. Aos 12 anos, Erin Tieng (Riley Lai Nelet) sai em sua primeira rota de entrega de jornais na cidadezinha americana de Stony Stream, na manhã seguinte ao Halloween. No caminho, ela encontra adolescentes valentões, novas amizades e combatentes de uma guerra temporal.

Dá para contar a história de Paper Girls, nova série de aventura e ficção científica do Prime Video, começando por qualquer um dos pontos acima. Baseada na história em quadrinhos homônima de Brian K. Vaughan e Cliff Chiang, a série conta a história de quatro jovens entregadoras de jornais pegas no meio de um longo conflito entre facções de viajantes no tempo pelo direito de mudar o futuro. Erin, KJ (Fina Strazza), Mac (Sofia Rosinsky) e Tiffany (Camryn Jones) pulam de década em década, tentando voltar para casa e escapar dos soldados da Velha Guarda.

Elenco de Paper Girls
Erin, Tiffany, KJ e Mac | Imagem: Divulgação
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Com crianças de bicicleta, elementos sci-fi e um cenário oitentista, é fácil encarar Paper Girls como uma resposta da plataforma da Amazon ao sucesso de Stranger Things, da Netflix. E, de um ponto de vista mercadológico, a série é exatamente isso. Porém, não apenas a história original de Vaughan e Chiang é anterior ao seriado da Netflix como Paper Girls também foge da nostalgia acrítica das aventuras de Onze (Millie Bobby Brown). Por meio dos dramas pessoais das personagens, a série nos apresenta a uma década de 80 bem pouco romantizada.

E é exatamente nesses dramas pessoais que Paper Girls se sustenta. A série faz alterações significativas na forma como as histórias das protagonistas são contadas nos quadrinhos, e o resultado é um conjunto de belas cenas sobre crescer e se descobrir.

Mas embora a série acerte na parte dramática, no campo da aventura, ela perde grande parte do vigor e da originalidade dos quadrinhos. Apesar de ter ótimos atores como seus principais vilões, Paper Girls falha em transmitir a sensação de perigo que deveria permear a trama, resultando em uma série fraca, que funciona mais em partes do que pelo todo.

Novos futuros (e passados também)

Para quem leu Paper Girls, a primeira coisa que chama a atenção na série do Prime Video são as mudanças que foram feitas na trama. Logo de cara, a forma como as meninas se conhecem é um pouco diferente, assim como a reação da Erin adulta ao encontrá-las. O dispositivo futurista que as protagonistas ganham de seus amigos do futuro também é distinto do original: nos quadrinhos, o aparelho tinha o logo da Apple na parte de trás, o que dava a dica de que se tratava de um computador. Já na série, o dispositivo não é identificado por nenhum símbolo. Efeitos de ter sido comprado pela plataforma de streaming da concorrência…

Riley Lai Nelet e Ali Wong em Paper Girls
Erin Tieng em duas versões | Imagem: Divulgação

Mas, brincadeiras à parte, a maioria das mudanças tem motivo para ser. Como uma história em quadrinhos, Paper Girls foca na parte da ação. Embora Vaughan e Chiang deem um bom espaço para a vida interior das personagens, o principal são as aventuras e os perigos que elas enfrentam. Além do mais, com um total de 30 edições, Paper Girls é uma série relativamente curta. Com boa vontade, daria para adaptá-la para uma minissérie. Assim, boa parte das alterações feitas por Stephany Folsom e sua equipe de roteiristas serve para expandir a história e dar mais profundidade ao universo da trama.

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Vaughan e Chiang, por exemplo, nunca se deram ao trabalho de nomear as duas facções que lutam pelo controle do futuro. São apenas adolescentes contra old-timers, ou pessoas dos velhos tempos. Já na série, os dois grupos são batizados de Inimigos da Hora Padrão e Velha Guarda, respectivamente. Personagens foram adicionados e partes da história central foram alteradas para dar camadas extras à trama. O próprio final da primeira temporada da série é totalmente inédito. O objetivo parece ser estender a trama e adicionar camadas a personagens que eram mais unidimensionais nos quadrinhos.

Quem mais se beneficia dessas alterações são justamente as quatro personagens principais. Mesmo as menores mudanças nas histórias de Erin, Mac, Tiffany e KJ já bastam para torná-las mais complexas e inseridas na trama maior da qual se tornam parte. As alterações também ressaltam o caráter anti-nostalgia da obra, que já estava presente nos quadrinhos.

Cena de Paper Girls
Anos 80, crianças de bicicletas, mas bem pouca nostalgia | Imagem: Divulgação

A premissa de uma organização de adolescentes lutando por um futuro melhor contra um grupo de velhos antiquados já é suficiente para dar o tom de Paper Girls: independentemente da mídia, a série não vê com bons olhos quem vive preso ao passado. Por meio das protagonistas do seriado, as espectadoras são apresentadas a uma versão bem pouco romantizada da década de 80, diferente daquela que vemos em séries como Stranger Things.

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Ao contrário da Hawkins 100% inclusiva da série da Netflix, na qual a única classe verdadeiramente oprimida são os nerds, a Stony Stream de Paper Girls é marcada por racismo, machismo, homofobia e conflitos de classe. Tiffany é apresentada ao público ajudando Erin a se livrar de um vizinho racista, KJ sofre assédio de garotos mais velhos, e Mac vive em um lar pobre e abusivo, cujos problemas passam despercebidos em meio à euforia neoliberal e o anticomunismo da Era Reagan. O passado, em Paper Girls, não parece nunca brilhante. É sempre o futuro que se apresenta como promissor. A grande decepção das meninas é descobrir que o futuro também não é tão grandioso assim.

Quase todas as personagens principais se decepcionam em algum nível ao descobrir quem se tornam depois de grandes. A exceção fica por conta de KJ. O choque das garotas ao perceber o quão ruim o futuro pode ser e a vontade de mudar o que vai acontecer casa bem com a trama da guerra temporal. Assim como os guerrilheiros adolescentes, elas querem um futuro melhor, mas a Velha Guarda não permite que elas retenham o conhecimento necessário para mudar suas vidas.

As personagens femininas de Paper Girls
KJ protege as amigas | Imagem: Divulgação

Essa parte das decepções é um dos acertos de Folsom na adaptação da obra original, pois cria uma correlação entre os dramas pessoais das personagens e a trama maior que as cerca. Além disso, as adições e alterações feitas nas histórias de Erin, Mac, KJ e Tiffany também enriquecem a vida interior das personagens. Mas algumas tramas dão mais certo do que outras.

Paper Girls: uma ou quatro séries de coming of age

Como um drama de amadurecimento, Paper Girls é quase irrepreensível. A principal crítica que pode ser feita à série nesse sentido é que falta um pouco de imaginação para mostrar os sentimentos das personagens sem obrigá-las a se explicar umas para as outras em cafés e salas de estar. As quatro tramas de coming of age também poderiam ser divididas em quatro seriados distintos sem muito prejuízo umas para as outras. Ainda assim, são belas histórias sobre entender que crescer também significa mudar.

A história mais fraquinha é a de Tiffany. A ambiciosa CDF tem um choque ao descobrir que sua versão adulta (Sekai Abenì) abandonou a faculdade para atacar de DJ em raves clandestinas. Essa pequena decepção não é suficiente para gerar tensão dramática, e os roteiristas da série tentam corrigir o problema com uma revelação bombástica que parece descolada do resto da trama. O fato de que Tiffany ainda se tornará importante mais para a frente, com um dedo na invenção da viagem no tempo, dá a sensação de que a personagem está fazendo tempestade em copo d’água quando reclama de não terminar a faculdade.

Sekai Abenì e Camryn Jones como Tiffany Quilkin
Sekai Abenì e Camryn Jones como Tiffany Quilkin | Imagem: Divulgação

Assim como nos quadrinhos, Tiffany é uma das versões adultas das personagens que mais se envolve nas aventuras das meninas. A diferença fica por conta da natureza do envolvimento. O mesmo vale para Erin, a primeira paper girl adulta que as meninas encontram, que mergulha diretamente na ação.

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O drama de Erin com sua versão adulta é um pouco mais envolvente do que o de Tiffany. Além de ver suas ambições profissionais irem por água abaixo, Erin também é obrigada a lidar com o fato de que perdeu toda a família que tanto amava. Sua mãe já não está mais viva e sua irmã, Missy (Jessika Van), mal fala com ela. A resolução da trama das duas Erins também é um grande choque para a versão pré-adolescente da personagem, embora deixe a sensação de que todas as lágrimas e discussões que vieram antes não valeram de nada. Contudo, o problema ainda pode ser resolvido em uma segunda temporada da série. Basta que Erin se reencontre em outro ponto do tempo.

As duas personagens que mais crescem com as mudanças feitas por Folsom são justamente as que nunca chegam a conversar consigo mesmas. O arco de despertar sexual e autoaceitação de KJ ganha novos tons, bem mais vibrantes, por meio das conversas da menina com a namorada de sua versão adulta. De quebra, ela ainda descobre uma paixão por cinema quase tão forte quanto sua paixão por outras garotas.

Mac e Dylan: de longe os melhores personagens de Paper Girls
Mac e Dylan: de longe os melhores da série | Imagem: Divulgação
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Já a história de Mac é tão envolvente que daria uma série própria, sem guerra temporal nem nada. Nos quadrinhos, Mac descobre que morrerá de câncer aos 16 anos ao bater na porta da própria casa e se deparar com um morador desconhecido. Na série, ela ganha um irmão que se tornou médico e quer adotá-la para diagnosticar a doença a tempo de salvá-la.

Toda e qualquer cena de Mac com o irmão, a cunhada e as sobrinhas é deliciosa de assistir. Os diálogos são ótimos e a química entre os atores é inigualável. Sofia Rosinsky é de longe o grande destaque do elenco adolescente da série, e Cliff Chamberlain dá a Dylan camadas de alegria, medo e dor que vão muito além das falas do personagem. Junto com Adina Porter, os dois formam o top 3 de atuações de Paper Girls.

Faltou alguma coisa…

Conhecida pelos trabalhos em American Horror Story e True Blood, Adina Porter está assustadora como a implacável Prioresa, uma soldado de elite da Velha Guarda. Outro velho conhecido do público, Jason Mantzoukas (The Good Place, Brooklyn 99) está divertido como sempre, embora tenha pouco tempo para mostrar a que veio. O ator faz o papel do Avô (ou Grande Pai, na tradução dos quadrinhos), o líder da facção anti-mudanças.

Mas as boas atuações não são suficientes para imprimir no público a sensação de que as protagonistas estão realmente em perigo. Falta tensão à Paper Girls. A ação e o suspense parecem ter sido adicionados de última hora, como se os roteiristas tivessem se esquecido de que estavam fazendo uma série de aventura e ficção científica. Dá até para imaginar alguém na ilha de edição, com a série já quase pronta, batendo na cabeça ao perceber que ficou faltando alguma coisa.

Jason Mantzoukas e Adina Porter na série da Amazon Prime Video
Jason Mantzoukas e Adina Porter como o Avô e a Prioresa | Imagem: Divulgação

A própria guerra temporal não parece importante: seus efeitos não são sentidos ao longo da trama. Enquanto, nos quadrinhos, as vidas de pessoas comuns eram interrompidas por monstros que se aproveitavam de falhas no espaço-tempo e robôs gigantes lutavam no meio da rua, na série, esses elementos ficam restritos a algumas cenas rápidas nos últimos episódios. Embora sejam bem escritos, os dramas pessoais das personagens também parecem descolados da trama de fundo: os choques e descobertas não acontecem em meio à ação, mas intercalados com ela.

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A fotografia e a direção de arte série também falham em capturar o estilo colorido e impactante de Cliff Chiang. Da falta de criatividade no design das tecnologias futuristas à iluminação apenas corretinha, passando pela higienização da aparência dos Inimigos da Hora Padrão, nada no visual de Paper Girls chama a atenção – nem para o bem, nem para o mal. Dá para ver que eles tentaram preservar a atmosfera dos quadrinhos, embora com uma maquiagem televisiva, mas não deu certo.

Quando um livro ou um quadrinho é adaptado para o cinema ou a TV, é comum que fãs da obra original se incomodem até mesmo com as menores mudanças. No caso de Paper Girls, é curioso notar que os pontos negativos da série estão mais ligados àquilo que os produtores, diretores e roteiristas tentaram manter do que a qualquer alteração. A impressão que fica é de que eles queriam fazer outra série, que até teria bastante potencial, mas acabaram ficando presos a um material preexistente.

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Tradutora, jornalista, escritora e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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