Stranger Things: os horrores cotidianos no volume 1 da quarta temporada

Stranger Things: os horrores cotidianos no volume 1 da quarta temporada

Após quase três anos desde a estreia da terceira temporada, Stranger Things retorna à Netflix com o primeiro volume da sua quarta parte, causando imenso furor nas redes sociais e nos corações dos fãs de longa data. Sombria, dinâmica e repleta de surpresas, a série continua relevante e entrega momentos emocionantes do início ao fim dos sete primeiros capítulos.

CONTÉM PEQUENOS SPOILERS DA TERCEIRA E QUARTA TEMPORADAS DE STRANGER THINGS

O eletrizante final da terceira temporada de Stranger Things ditou o tom desta nova parte da série: após o incidente no shopping de Hawkins, o Starcourt, em que o Devorador de Mentes encurralou o grupo de Eleven (Millie Bobby Brown), tendo possuído o corpo de Billy (Dacre Montgomery), a cidade e seus habitantes nunca mais foram os mesmos.

Na ocasião, o irmão de Max (Sadie Sink) se sacrificou para que as crianças se salvassem, criando um trauma profundo na irmã, que impactou diretamente em seu convívio com a família e os amigos nesta quarta temporada.

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Além disso, outros moradores da cidade, vítimas do Devorador de Mentes, também morreram no que a população acreditou ser um incêndio que destruiu o local, e Hopper (David Harbour), ao pedir que Joyce (Winona Ryder) fechasse o segundo portal para o Mundo Invertido, criado pelos soldados russos, também foi dado como morto após a explosão inevitável da máquina.

Pôster da quarta temporada de "Stranger Things".
Pôster da quarta temporada de “Stranger Things” | Imagem: reprodução

Joyce, Eleven, Will (Noah Schnapp) e Jonathan (Charlie Heaton) mudam-se, então, para a cidade fictícia de Lenora Hills, na Califórnia, onde a garota e a nova família decidem recomeçar a vida, longe das perturbações da antiga cidade, ainda mais levando em conta que Eleven perdera os poderes após a batalha contra do Devorador de Mentes.

A trama da quarta temporada começa um ano após estes trágicos eventos, e acompanha a amaldiçoada Hawkins sendo ameaçada por um novo mal sobrenatural.

A quarta temporada e o ápice narrativo de Stranger Things

Está é, sem dúvidas, uma das melhores temporadas de Stranger Things – se não a melhor. Cada episódio, com mais de 1h de duração e muita história para contar, mostra toda a potência criativa deste universo. A série utiliza toda a base da história para resolver mistérios e unir pontas soltas do passado (como a origem de Eleven e o tempo que passou no laboratório de Hawkins), construindo aqui um enredo único, maduro, sólido e repleto de reviravoltas e cenas marcantes, que desde a estreia vêm gerando discussões positivas mundo afora.

Além da nostalgia típica dos anos  80, a que os irmãos Duffer (Matt Duffer e Ross Duffer, criadores da série) se agarram desde os primeiros episódios, lançados em 2016, observa-se agora ainda mais originalidade na trama, que caminha com as próprias pernas, ampliando os arcos narrativos individuais, tanto dos personagens principais quanto dos secundários, e fazendo com que a série exista e seja instigante para além das referências à cultura pop.

O grupo formado por Steve (Joe Keery), Dustin (Gaten Matarazzo), Robin (Maya Hawke), Max (Sadie Sink), Nancy (Natalia Dyer) e Lucas (Caleb McLaughlin)
O grupo formado por Steve (Joe Keery), Dustin (Gaten Matarazzo), Robin (Maya Hawke), Max (Sadie Sink), Nancy (Natalia Dyer) e Lucas (Caleb McLaughlin). Imagem: reprodução
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Desde o primeiro episódio, Stranger Things 4 adota um ritmo frenético: o momento para o descanso e superação acerca dos acontecimentos da temporada anterior fica subentendido na passagem do tempo para os próprios personagens, e o que os espectadores recebem são cenas de ação ininterruptas e cada vez mais tensão. Um dos pontos mais interessantes deste desenvolvimento narrativo é a criação imediata de diversos grupos que unem, principalmente, personagens que atuavam em polos opostos, como é o caso de Robin (Maya Hawke) e Nancy (Natalia Dyer) que, inclusive, formam uma dupla excelente. Esta heterogeneidade no aproveitamento de cada um dos personagens é um dos responsáveis por atribuir um espírito dinâmico e multifacetado aos novos episódios.

Ambientada em 1986, no período de spring break (o recesso de primavera dos Estados Unidos), os espectadores reencontram os queridos personagens de Hawkins voltando às suas rotinas, a fim de honrar a memória dos que partiram – mas nunca é fácil continuar em meio à dor da perda e dos demais problemas cotidianos.

Apesar das cores vibrantes da estação, dos reencontros, novos romances e amizades improváveis surgindo, Matt e Ross desenvolvem uma temporada imageticamente sombria, com cenas de mortes gráficas e muito gore, um horror que lida diretamente com aspectos muito palpáveis do íntimo de cada um dos personagens, sobretudo os adolescentes e seus diversos conflitos e demônios interiores.

O horror real – e visceral – da nova temporada

As temporadas anteriores apresentavam um aspecto do terror mais sobrenatural e deslocado das problemáticas cotidianas, uma vez que o núcleo principal da série era composto por crianças, e a forma de encararem o mal, apesar de aterrador, era de certa forma leve e aventuresca. Agora, os espectadores observam não só o crescimento literal dos próprios atores e de seus personagens, que atingiram chegaram à adolescência, como também a forma de lidarem com os horrores de Hawkins, estes fatores se mostrando muito mais aterradores e ligados aos seus diversos problemas pessoais.

Eleven (Millie Bobby Brown) na escola, em cena da quarta temporada.
Eleven (Millie Bobby Brown) na escola. Imagem: reprodução.

Há, sim, algo de sobrenatural e muito perigoso pairando no ar, mas a forma como o mal ataca nesta nova temporada está diretamente ligada ao psicológico de suas vítimas, por sua vez abalado por aspectos internos e externos.

A começar pelo arco narrativo de Eleven, observa-se ela constantemente tendo de lidar com a ausência da figura paterna e com o seu passado obscuro junto à perda dos poderes, enquanto tenta sustentar a imagem e convencer a si mesma de que está tudo bem, resolvendo os diversos problemas escolares, a ausência dos amigos e do namorado, e todas as mudanças que vem passando. A vontade de acertar e fazer parte daquele ecossistema novo e estranho é tão grande, que dela surge o questionamento e o medo: seria ela a heroína ou a vilã de todas aquelas histórias? Eleven vive o próprio filme de terror todos os dias, forçando-se a encarar um mundo diferente que parece não ter espaço para ela.

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O horror, agora, vincula-se à realidade: observamos adolescentes lidando com as novidades assustadoras do ensino médio, remoendo culpas do passado, sofrendo pelas perdas de entes queridos, pelo medo da solidão e do abandono, ameaçados por episódios de bullying vindos de colegas da escola e por pensamentos depressivos intrusivos, até mesmo enfrentando relacionamentos familiares tóxicos (Chrissy, interpretada por Grace Van Dien, ao ser perseguida por Vecna, tem lembranças da mãe fazendo comentários pejorativos sobre o seu peso; em dado momento, é possível até mesmo inferir que a garota sofre de bulimia).

Chrissy (Grace Van Dien) em um momento de desabafo com Eddie (Joseph Quinn)
Chrissy (Grace Van Dien) em um momento de desabafo com Eddie (Joseph Quinn). Imagem: reprodução.

São estas as feridas que Vecna, o novo vilão da série, utiliza para se infiltrar e torturar, principalmente os adolescentes, que enfrentam um mundo particular de mudanças e incertezas.

Vecna fazendo mais uma vítima no volume 1 da quarta temporada de Stranger Things.
Vecna fazendo mais uma vítima. Imagem: reprodução.

Vecna é a personificação de toda a angústia que muitas vezes o período da puberdade carrega. Transformando sonhos em pesadelos, e momentos que deveriam ser felizes em episódios de ansiedade, ele está sempre à espreita de sua próxima vítima fragilizada. Um enorme relógio antigo e suas badaladas funestas, é o sinal de que ele está por perto, um memento mori (do latim, “lembre-se de que vai morrer”) que aparece quando os personagens entram em transe ao serem atacados, como forma de alertá-los de que a morte está por perto e que possivelmente não haverá escapatória.

O relógio sinalizando que Vecna está por perto.
O relógio sinalizando que Vecna está por perto | Imagem: reprodução

O carisma e a contribuição dos novos personagens à trama

A cada temporada, a série surpreende com a chegada de novos personagens ao enredo; cada um deles, até mesmo os de menor destaque, contribuem em momentos importantes e, mesmo algumas vezes indo embora, deixam marcas para sempre no coração dos espectadores.

Eddie, personagem de Joseph Quinn.
Eddie, personagem de Joseph Quinn | Imagem: reprodução

Eddie Munson (Joseph Quinn) é o mais novo queridinho dos espectadores. Tido como “aluno problema” da Hawkins Middle School, ele é o carismático fã de heavy metal e o líder do Clube Hellfire, um grupo de RPG que promove campanhas de Dungeons & Dragons, e acolhe os nerds e excluídos da escola, incluindo Dustin (Gaten Matarazzo), Lucas (Caleb McLaughlin) e Mike (Finn Wolfhard).

O personagem, que a princípio sustenta a imagem de valentão, desbocado e deslocado das convenções sociais, se desconstrói desde o primeiro episódio, e mostra que a fragilidade, o medo e a necessidade de ajuda de seus pares podem ser demonstrados sem receios, e fazem parte da complexa aventura que é ser humano.

Argyle, interpretado por Eduardo Franco.
Argyle, interpretado por Eduardo Franco. Imagem: reprodução.

Outro destaque vai para Argyle (Eduardo Franco), o entregador de pizzas da Surfer Boy Pizza e o melhor amigo de Jonathan em Lenora Hills. Ele se destaca por protagonizar algumas das melhores cenas de alívio cômico da série e por ajudar o irmão de Will a enfrentar as dificuldades mudanças tão drásticas, como recomeçar em uma nova cidade, podem acarretar, bem como o medo que ele está sentindo de não ser aprovado na universidade. Argyle acaba entrando, sem querer, nas problemáticas envolvendo Eleven e o Mundo Invertido, e se torna um ótimo – e inesperado – aliado contra as forças do mal.

As tão queridas referências em Stranger Things

As referências musicais, cinematográficas, literárias e à cultura pop, no geral, talvez sejam os primeiros fatores que vêm à mente quando se pensa na série; trabalhadas de formas marcantes, cada uma das menções que ocorrem ao longo dos capítulos têm um porquê de estarem ali e abrilhantam ainda mais a série.

Vecna, vilão da quarta temporada de Stranger Things, no mundo invertido.
Vecna no mundo invertido. Imagem: reprodução.

A começar por Vecna, o terrível vilão da quarta temporada: tanto o nome, quanto a aparência dele e a forma como ataca, têm como base o personagem do RPG Dungeons & Dragons. Ele é nomeado assim pelos integrantes do Clube Hellfire, pois, justamente no primeiro dos ataques, a campanha que estavam fazendo no jogo tinha como missão derrotá-lo.

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Na mitologia do RPG, Vecna era um humano que se entregou às artes das trevas para vingar a morte da mãe, Mazzel, também feiticeira. Ele é considerado um dos vilões mais perigosos e mais difíceis de ser derrotado do universo de D&D, e os personagens de Stranger Things encararam o maior de seus desafios ao longo desta temporada.

Além disso, o último ataque de Vecna em Hawkins acontecera trinta anos antes, uma alusão ao espaço de tempo entre retorno e as novas aparições de Pennywise, o palhaço assassino da obra de Stephen King, It – A Coisa (a casa antiga em que Vecna se esconde lembra muito a que aparece na primeira parte da adaptação filmográfica do livro, dirigida por Andy Muschietti em 2017, onde os integrantes do Clube dos Perdedores vão ao encontro do vilão).

Freddy Krueger (Robert Englund) em cena de "A Hora do Pesadelo".
Freddy Krueger (Robert Englund) em cena de “A Hora do Pesadelo”. Imagem: reproução.

Outras referências aos filmes clássicos de terror acontecem na própria forma de Vecna matar suas vítimas, os possuindo até que levitem no mundo real e tenham o corpo trucidado, uma homenagem a O Exorcista (William Friedkin, 1974), e pelo fato de ele criar pesadelos lúcidos e atacar dentro deles, como Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo (Wes Craven).

Ainda sobre este último, uma grande surpresa aguarda os espectadores: no papel do idoso Victor Creel, o homem que teve a sua família inteira morta na década de 50, por uma manifestação sobrenatural que os protagonistas ligam ao Vecna, está Robert Englund, o próprio Freddy, em uma caracterização irreconhecível.

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Robert Englund e seu personagem em "Stranger Things", Victor Creel.
Robert Englund e seu personagem em “Stranger Things”, Victor Creel. Imagem: reprodução

Além delas, o bullying que Eleven sofre na nova escola, e uma das cenas em que ela enfrenta Angela (Elodie Grace Orkin), a garota popular, lembra o que Carrie White passa em Carrie, a Estranha, obra de Stephen King que também ganhou várias versões para o cinema.

Ainda se tratando de literatura, em certa cena Eddie compara a missão de encontrar Vecna no Mundo Invertido com a jornada de Sam e Frodo até Mordor, em O Senhor dos Anéis, obra clássica de Tolkien.

A arte como forma de salvação

A música do final dos anos 70 e início dos 80 volta com tudo nesta temporada, mas não somente como parte de toda a nostalgia do período que a série evoca, como também um fio que une os personagens às suas personalidades.

Kate Bush
Kate Bush. Imagem: reprodução.

Para além do uso das referências na construção da trama, os espectadores observam em Stranger Things 4 uma carta aberta dos irmãos Duffer à importância que a arte tem na superação de períodos difíceis.

A mais marcante, certamente, é a utilização da canção Running Up That Hill (A Deal with God), da cantora e fenômeno britânico Kate Bush, no arco de Max. A garota que aparece, desde a sua primeira cena, cabisbaixa e afastada dos amigos, tem em seu toca-fitas e fones de ouvido a única conexão satisfatória com a realidade.

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É através da música de Kate que Max enfrenta seus medos e traumas desde a morte de Billy, tendo Running Up That Hill como a sua canção favorita e de extrema importância em uma das cenas mais emocionantes da temporada, ocorrida ao final do episódio 4, “Querido Billy”, quando ela começa a ter visões sobre Vecna mesmo acordada.

A arte como forma de salvação na quarta temporada de Stranger Things
Sadie Sink em pôster oficial da quarta temporada. Imagem: reprodução.

A letra da canção conversa muito com o que a personagem passou ao longo de um ano de luto e tristeza, em que a relação com o namorado Lucas deixou de existir, e a única amiga, Eleven, mudara-se para longe, fazendo também com que ela rompesse laços com os demais amigos:

“(…)And if I only could
I’d make a deal with God
And I’d get him to swap our places
Be running up that road
Be running up that hill
Be running up that building(…)”

(E se eu pudesse, apenas,

Fazer um acordo com Deus

Eu o convenceria a trocar os nossos lugares

Percorreria aquela estrada

Subiria aquela colina

Escalaria aquele prédio)

A letra da canção, já em seu refrão, evidencia a depressão que Max esteve enfrentando e a vontade de trocar de lugar com Billy para que ele pudesse viver novamente, mesmo que para isto tivesse que fazer um acordo com Deus e enfrentar o que viesse pela frente.

(Nota: Nesta matéria do site Tenho Mais Discos que Amigos, vemos como o processo para que Kate Bush liberasse a canção para a série foi um tanto inusitado; a cantora é conhecida por não ceder facilmente suas canções para inserções no audiovisual. Raramente ela o faz e, para Stranger Things, só liberou Running Up That Hill após ver o roteiro da cena e conversar com os produtores. Porém a decisão final se deu a um fato surpreendente: Kate já era fã da série!)

Capa do álbum "Hounds of Love", de Kate Bush.
Capa do álbum “Hounds of Love”, de Kate Bush. Imagem: reprodução.

A canção, que pertence ao álbum Hounds of Love (1985), entrou para os topos de reproduções globais nos mais famosos serviços de música sob demanda nesta última semana, sem contar que o nome de Kate Bush fez parte dos trending topics do Twitter por uma semana ininterrupta, em função da série.

Eddie também é um personagem que vê na música um ombro amigo. Guitarrista de uma banda de rock, ele trata a própria guitarra como a personificação de uma companhia humana, e de acordo com o trailer da série, sua paixão terá um papel fundamental na segunda parte da quarta temporada.

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Eddie em campanha do RPG Dungeons & Dragons.
Eddie em campanha do RPG Dungeons & Dragons. Imagem: reprodução

Outra forma de expressar o amor pela arte se deve aos encontros do Clube Hellfire; Eddie e seus colegas encarnam verdadeiramente os personagens do jogo e enxergam nele uma distração da realidade tão cruel que os persegue: a falta de aceitação dos demais alunos da escola, as dificuldades nas matérias escolares e o medo das reprovações, bem como do futuro e das obrigações da vida adulta.

Confira, abaixo, a playlist completa com as canções que tocam na série:

Stranger Things termina a primeira parte da quarta temporada com um saldo extremamente positivo, uma incrível reviravolta e expectativas lá no alto para o lançamento da segunda parte, que acontecerá em 1º de julho. Quais terrores e ameaças ainda espreitam nas sombras de Hawkins?

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Formada em Letras, pós-graduada em Produção Editorial, tradutora, revisora textual e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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