Novos rostos para velhos conhecidos: a nova era de Doctor Who

Novos rostos para velhos conhecidos: a nova era de Doctor Who

Dizem que o barulho emitido pela Tardis é o som mais bonito do universo: pode transmitir esperança e confortar todos aqueles que o escutarem. Seja quando for, onde for, ou quem for. E assim é Doctor Who. Décadas vêm e vão e sempre há um sentimento novo à espera, uma nova história esperando para ser descoberta, um novo rosto para o último Senhor do Tempo.

Há alguns meses de completar seus 60 anos de vida, Doctor Who ganha destaque nas mídias com as novidades dos especiais que estão por vir e a próxima regeneração do Doutor. A 13ª regeneração está pronta para acontecer – mesmo que ninguém mais esteja, sejamos sinceros – e um novo ator já foi anunciado como um novo Doutor (ou será um velho Doutor?).

Se você ainda não viu a série, não se preocupe! Não traremos nenhum spoiler aqui. Todos os que sentirem o chamado para conhecer esse universo estão mais que bem-vindos.

Ela, Senhor do Tempo?

Impossível fazer qualquer comentário sobre a série em sua fase atual sem citar a brilhante Jodie Whittaker, que desde 2017 é quem dá vida ao Doutor. Além disso, vale citar que ela teve o desafio – e a honra – de ser a primeira mulher no papel. Entre os demais principais trabalhos da atriz estão: Broadchurch (ao lado de David Tennant, o 10° Doutor e Olivia Colman), Adult Life Skills e um episódio de Black Mirror.

Primeiramente, a pressão por uma mulher no papel já estava sendo feita há anos. Afinal, Doctor Who é uma das séries televisivas mais duradouras da História, e o papel do Doutor é um ícone da cultura popular britânica. E mesmo assim, apenas homens brancos haviam sido escalados como protagonistas.

Por isso, em 2017, quando Jodie foi anunciada como a 13ª regeneração, uma grande parte do fandom se emocionou: é usar do poder que esse personagem tem para levar inspiração a mais pessoas. Garotas e mulheres finalmente poderiam sentir o pertencimento de pilotar a Tardis e não serem apenas as acompanhantes do viajante.

Jodie Whittaker como 13ª Doutora
Jodie Whittaker como 13ª Doutora | Imagem: reprodução
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Em contrapartida, um movimento interno no fandom chamado “NotMyDoctor” evidenciou a misoginia de uma boa parcela dos que se consideram fãs. O “hate” contra os atores do elenco sempre ocorre. Mas nunca havia tido uma repressão tão forte de uma escolha de elenco quanto a de Jodie. Muitos ainda a culparam por coisas além de seu papel, a qualidade do roteiro, por exemplo.

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Mas a sua versão do Doutor não se deixou abalar: às vezes se esquecendo que era uma senhora e não um senhor e se deliciando com a cara de surpresa dos que esperavam um homem ao encontrar o lendário “Doutor”. Jodie Whittaker lidou com tudo como apenas um Time Lord poderia. Ou, melhor dizendo, uma Time Lady.

Dizer adeus faz parte

Todavia, tudo tem que terminar um dia. As despedidas são comuns na série: o Doutor, sendo um ser quase imortal, sempre precisa dizer adeus a alguém. Além disso, a cada 3 temporadas o ator principal é trocado por outro (a chamada “regeneração”, que agora acontece a cada 3 temporadas), fazendo com o que o Doutor tenha a chance de ser outro alguém; o que está, na verdade, na essência do personagem. Ele, que se fascina tanto com os humanos, está em constante mudança, processo mais humano possível.

E ainda, as perdas não se restringem à ficção. Os fãs também precisam lidar com constantes despedidas: os atores vêm e vão à medida que personagens queridos morrem e novos personagens surgem; o Doutor mesmo sempre muda, e deixa aquela saudade que reluta em se dissipar. Ao mesmo tempo que isso pode ser ruim (nem toda série é assim, na maioria delas temos sempre os mesmos personagens e atores), isso pode ser muito bom, pois temos a oportunidade de ver Doctor Who sob o olhar de outras pessoas. Parafraseando a Doutora:

“Dois corações. Um feliz, um triste.”

Jodie Whittaker em Doctor Who
Jodie Whittaker em Doctor Who | Imagem: reprodução

“Doctor Who Club”

E quem tem a vez de ser o Senhor do Tempo é Ncuti Gatwa, o jovem escocês que fez muito sucesso por Sex Education. Com um anúncio decepcionantemente fraco, a Bad Wolf, junto com a BBC (distribuidora tradicional da série) postaram uma foto do ator nas redes sociais e confirmaram que ele é o novo Doutor. O próximo Doutor? O 14º? Ou alguma regeneração passada? Ou futura? Não sabemos.

Mas o fato é que a recepção do público foi deveras positiva. O alcance foi surpreendente, nenhum outro anúncio repercutiu tanto e agradou tanto quanto o de Ncuti em muitos anos. E o mais legal: vários outros Doutores deram as boas-vindas ao novo Doutor, ao que Sylvester McCoy chamou de “Doctor Who Club”.

Peter Capaldi também falou a respeito: de acordo com o 10° Doutor, Ncuti tem uma linda história, um grande coração e muito talento. Jo Martin, que interpreta a Doutora Fugitiva (se pesquisar, cuidado com spoilers da 12° temporada), também se mostrou muito contente com a escolha do ator.

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Ncuti Gatwa e Russell T. Davies
Ncuti Gatwa e Russell T. Davies | Imagem: reprodução

Ncuti Gatwa é de Ruanda, mas viveu quase a vida toda na Escócia. Ficou famoso por interpretar Eric Effiong em Sex Education. O ator também está escalado para o filme Barbie, de Greta Gerwig. Sua escalação para a série foi uma surpresa muito boa. Afinal, é o primeiro ator negro interpretando o personagem (como Doutor da era vigente).

Apesar de ter se esperado uma mulher para o papel, não devemos encarar a escolha de Ncuti como um retrocesso, ou um sinal para os críticos de que a Era Jodie deu errado de alguma forma por seu gênero. Mas devemos pensar que existem outros grupos que ainda não se viram representados na série e que também merecem espaço. É preciso acolher Ncuti como Doutor, porque ele o é, simplesmente, não porque Jodie deixou de ser.

Espiando o futuro: expectativas e teorias 

Por fim, tanto quanto despedidas, os retornos estão muito presentes em Doctor Who. Com o fim da Era Whittaker, Chris Chibnall deixará o cargo de showrunner e dará lugar a alguém  bem conhecido pelos fãs: Russell T. Davies. O roteirista e produtor foi responsável pelas 4 primeiras temporadas da série atual e seu retorno pegou a todos de surpresa. Afinal, faz mais de dez anos que David Tennant regenerou em Matt Smith, quando Steven Moffat assumiu o posto de Davies. Rachel Talalay, diretora de alguns dos mais bem avaliados episódios também estará de volta.

David Tennant e Catherine Tate estarão de volta para o especial de 60 anos de Doctor Who.
David Tennant e Catherine Tate | Imagem: reprodução
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Agora, além de Davies, dois rostos muito conhecidos estarão de volta para o especial de 60 anos: David Tennant (10° Doutor) e Catherine Tate (Donna Noble). Além de serem alguns dos personagens mais queridos da série, o que não falta são teorias a respeito. Há quem diga que Ncuti não será o 14° Doutor (isso não está escrito em nenhum dos anúncios) e sim, Tennant. Ncuti seria, portanto, alguma regeneração passada, futura ou paralela. E Donna Noble? Como ela reencontra o Doutor?

Parece ficar claro, mais uma vez, a beleza da série e o motivo pelo qual ela ainda é tão assistida e querida pelo mundo todo: nesse universo – que, no fim, se assemelha muito ao nosso – tudo é possível. Todos os sentimentos têm seu lugar e importância. Criar teorias une os fãs e não faz perder a graça, mesmo depois de todo esse tempo. Portanto, allons-y!

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Estudante de Letras na Universidade de São Paulo, apreciadora de boas histórias e exploradora de muitos mundos. Seus sonhos variam entre viajar na TARDIS e a sociedade utópica onde todos amem Fleabag e Twin Peaks.
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