“Sex Education” retrata a importância de se falar honestamente sobre sexo

“Sex Education” retrata a importância de se falar honestamente sobre sexo

Nem toda série sobre adolescentes é só para adolescentes. Estreia que tem chamado a atenção na Netflix, Sex Education é uma produção britânica criada por Laurie Nunn, que tem como mote a iniciação sexual de garotos e garotas da escola Moordale, e traz estrelas como Gillian Anderson (Arquivo X, The Fall) e Asa Butterfield (A invenção de Hugo Cabret, Ender’s game, O menino do pijama listrado) contracenando como mãe e filho.

Se à primeira vista a narrativa parece recair em um clichê sobre as dificuldades dos jovens em começar a vida sexual, a série mostra ao longo de seus episódios que o mote é usado para discutir assuntos profundos e que ressoam na nossa vida adulta. AVISO: O texto não contém spoilers.

Em suas primeiras cenas, Sex Education (Netflix, 2019) causa a impressão de que se trata de uma série dos anos 80/90. A trilha sonora, o figurino, a textura da fotografia e até os eletroeletrônicos nos levam a crer que estamos em um universo na mesma linha temporal que Stranger Things, Dark, ou outras séries atuais de sucesso. Mas não subestime o poder hipster dos realizadores ingleses: apesar das referências óbvias (e talvez um pouco exageradas), a narrativa se desenrola na década de 2010, no interior da Inglaterra.

O título da série, em português, “Educação Sexual”, dialoga tanto com a necessidade dos jovens de aprender de forma franca sobre sexualidade, próprio corpo e o prazer, com a realidade da personagem principal, Otis (Asa Butterfield).

Sex Education
Otis (Asa Butterfield) e Eric (Ncuti Gatwa)

Otis é o novato em Moordale, filho de uma terapeuta sexual e virgem. Ao contrário de sua mãe Jean (Gillian Anderson), que fala abertamente de sexo com seus pacientes e que mantém múltiplos relacionamentos casuais, Otis se vê envergonhado com a naturalidade da mãe, e como um bom adolescente, têm dificuldades em se abrir sobre esses assuntos com adultos. Toda essa questão entre mãe e filho têm as raízes em um evento do passado, em que Jean descobre a traição de seu marido por meio do filho pequeno.

Essa “educação sexual”, tão combatida no Brasil e demonizada por setores religiosos, ainda é ineficaz mesmo na Inglaterra, como a série pontua. Com uma direção conservadora, o ensino médio de Moordale trata a questão da educação sexual simplesmente como uma “praga de chatos”, e o diálogo entre estudantes interessados em sexo com os professores constrangedores parece impossível.

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Jean (Gillian Anderson) e Adam (Connor Swindells)

Essa dificuldade institucional, que se relaciona com a forma como lidamos com o sexo socialmente, e que não responde aos questionamentos dos jovens sobre desejo, relacionamento e até mesmo sobre o funcionamento do próprio corpo e a prevenção de doenças, é o foco da série e onde se desenvolve a saga de Otis. Nesse vácuo de orientação, bombardeados pela pornografia e a cultura da objetificação, e confusos sobre como iniciar a vida sexual, os estudantes de Moordale acabam tendo que resolver a questão por si mesmos.

Ao mesmo tempo que a temática “highschool” que costumamos ver em Hollywood esteja presente em seus estereótipos —  o garoto nerd, as patricinhas populares, o atleta queridinho da direção e a cool girl alternativa — a série inova logo de cara pelo seu esforço de inclusão: estudantes negros, árabes, asiáticos e caucasianos convivem em um retrato mais diverso do que estamos acostumados. É revigorante ver na tela atores não-brancos em protagonismo, relevância e por que não, quantidade.

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O melhor amigo nerd de Otis, Eric (Ncuti Gatwa) vive seu próprio drama familiar, em que sua homossexualidade ainda é tratada como um tabu e seu pai, mesmo que bem intencionado, recorre a sensos comuns para tentar convencê-lo a não se vestir da maneira que gosta. Eric também tem que conviver com o bullying constante de Adam (Connor Swindells), o filho do diretor que sofre secretamente com os abusos e imposições do pai. Em Sex Education as aparências enganam, e o avatar escolar dos estudantes de Moordale esconde questões profundas, mas completamente relacionáveis.

Otis, apesar de virgem e incapaz de se masturbar por conta de questões psicológicas que vão desde seus traumas de infância até sua timidez atual, acaba percebendo sua aptidão para conselhos sexuais após ajudar Adam a resolver um problema de ejaculação, e sua fama de terapeuta espalha na escola.

Nesse processo, Otis faz uma nova amiga, Maeve Riley (Emma Mackey), conhecida na escola por “morder pênis”, a garota é sacaneada pelos populares por ter uma mãe viciada em drogas e por ser pobre, e ao mesmo tempo que é temida e adorada por sua inteligência e estilo. Maeve está sempre precisando de dinheiro para pagar o aluguel do trailer em que mora sozinha, desde que o irmão a abandonou, e acaba vendo no talento de Otis uma oportunidade para fechar as próprias contas.

O arco da história de Maeve é o das injustiças: sobrevivente de múltiplos abandonos, ela sonha em fazer faculdade e se aplica na escola, mas vê seus méritos serem entregues à terceiros quando é obrigada a vender suas redações e trabalhos escolares para conseguir se sustentar. Ela se relaciona às escondidas com Jackson (Kedar Williams-Stirling), o orador e atleta da escola, cotado para o campeonato de natação regional, mas se nega a se abrir e a se aproximar do garoto por conta das diferenças sociais entre eles.

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Maeve Riley (Emma Mackey) e Jackson (Kedar Williams-Stirling)

Ela é amiga e confidente de Aimee (Aimee Lou Wood), e as duas dividem cigarros, jogam baralho e confessam segredos escondidas, uma vez que Aimee faz parte do grupo de garotos populares e não pode ser vista com Maeve. Apesar da aparência durona e estilosa, Maeve é constantemente obrigada a jogar os jogos sociais e a se lembrar de onde ela vem e o que ela é. Ela leva consigo um passado sofrido, um presente conturbado e um futuro desafiador e a sua amizade com Otis faz o garoto perceber as distâncias que os separam, mas também um carinho que pode servir de ponte.

Ao longo dos episódios, diversos casos e questões sexuais levantadas pelos estudantes que vão procurar Otis em busca de aconselhamento aparecem, que vão desde a obrigação das meninas em fazer sexo oral, os mecanismos psicológicos necessários para o orgasmo masculino, o sexo lésbico e gay, o conhecimento corporal provocado pela masturbação feminina, e até questões biológicas como o vaginismo.

Sex Education vem disposta a tratar de questões que os jovens precisam saber, têm vergonha de perguntar, e que nós, adultos — e o sistema educacional como um todo — temos tido dificuldade em responder com honestidade. A série não teria razão de ser se os jovens estivessem tendo acesso à educação sexual de qualidade. Mas enquanto a sociedade, as escolas e a cultura não se mobilizam, os jovens vão dar seus próprios jeitos de resolver seus problemas.

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Feminista Raíz
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