[CINEMA] “Logo após”: quem pode abortar no Brasil?

[CINEMA] “Logo após”: quem pode abortar no Brasil?

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Assim como no multipremiado “Estado Itinerante” (2016), trabalho anterior da mineira Ana Carolina Soares, em “Logo após”, o tema da violência contra às mulheres novamente se impõe. Em seu mais recente curta-metragem, a cineasta aborda uma pauta caríssima aos debates feministas desde o início de suas lutas: a do direito ao aborto legal. A violência dessa vez parte do Estado que não garante medidas eficazes para uma questão que deveria ficar a cargo de ministérios e secretarias de saúde pública. O filme investiga em particular não o quê, mas quem tem o privilégio (onde deveria ser um direito) de realizar o procedimento de forma segura e indolor, ainda que, infelizmente, ilícito.

O ótimo primeiro plano do filme está em diálogo com a sequência de abertura do curta “Tentei” (2017) de Laís Melo. Vemos um plano de cima, fechado, mirando a protagonista deitada em sua cama, num claro desconforto que não a deixa dormir. Um corte seco muda o ângulo de câmera. Quando a protagonista Sônia (Andréia Quaresma) se levanta, vemos uma segunda cama. O quarto é dividido com sua mãe que apesar de muito carinhosa, desconhece os meandros da vida da filha. 

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Imagem: A Itinerante Filmes/Divulgação

Mais uma vez a televisão tem presença marcante como objeto cênico, aparecendo, talvez, como uma marca da diretora na composição de suas narrativas. O poder da mídia fica em evidência na quantidade de vezes em que o diálogo entre a protagonista e sua mãe é interrompido para colocar em relevo aquilo que é dito no noticiário. Aparelho que a mãe de Sônia insiste em desligar ou trocar de canal. Mas existem coisas que não podem mais ser dribladas ou simplesmente ignoradas. O filme revela, então, que a angústia de Sônia tem nome: Karolaine, moradora da região, vira notícia por conta de um aborto clandestino mal sucedido. O clima de paranoia se intensifica. 

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Imagem: A Itinerante Filmes/Divulgação

A partir daí, uma série de embates entre Sônia e sua mãe, que têm como pano de fundo questões relacionadas à religião, se colocam de forma mais frontal. Com isso, o roteiro escrito por Ana CarolinaKarla Moreira parece apontar na direção não apenas de uma crítica às instituições religiosas que pautam questões políticas que deveriam estar fora da esfera individual, mas também, de alguma forma, uma dimensão geracional é suscitada. A questão de classe social também fica evidente através das escolhas de locação em que o filme se situa. E aí retomamos a pergunta: quem efetivamente pode abortar de forma segura no Brasil?

Cabe ressaltar uma cena belíssima e angustiante, orquestrada pela música “Talismã”, da dupla sertaneja Leandro e Leonardo. Sônia em um dos raro momentos de autocuidado, vai ao salão da amiga e esta carinhosamente lava seus cabelos. Na cadeira ao lado está uma companheira que aparenta comungar alguns segredos. A potência da cena fica evidenciada na troca de olhares entre as duas a medida em que a música segue. A tensão se coloca através dos versos “Nos momentos mais difíceis/ Você é o meu divã/ Nosso amor não tem segredos/ Sabe tudo de nós dois/ E joga fora nossos medos”. Logo após, Sônia sai em busca da jovem Alice. A troca de isqueiros nunca foi tão poderosa e realça a chama da vida que de fato deve ser protegida num tema ainda tabu na sociedade brasileira. 

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Imagem: A Itinerante Filmes/Divulgação

Apesar da artificialidade com que alguns diálogos são encenados, é importante ressaltar que filmes que abordam essa temática na chave da ficção são fundamentais para contribuir com a fabulação do imaginário social acerca da relevância de um debate assertivo sobre aborto no Brasil. Nesse sentido, vale mencionar outros dois ótimos curtas-metragens que também abordam a questão: “A boneca e o silêncio” (2015), de Carol Rodrigues, e “A passagem do cometa” (2017) de Juliana Rojas.

Ficha Técnica:

Direção: Ana Carolina Soares

Sinopse: Logo após a história do aborto clandestino de Karolaine virar notícia na TV, Sônia movimenta-se para encontrar a jovem Alice.


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Autora

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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