[21ª MOSTRA DE TIRADENTES] “Vaca Profana”, “Pontos Corridos”, “Tentei” e “Todas as casas menos a minha”

[21ª MOSTRA DE TIRADENTES] “Vaca Profana”, “Pontos Corridos”, “Tentei” e “Todas as casas menos a minha”

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A Mostra de Tiradentes desse ano trouxe como temática o “Chamado Realista” que consiste numa perspectiva contemporânea que parece apontar para novas buscas estéticas de contato com o real e, principalmente, uma representação que traz na sua forma e estilo um certo desejo por uma dramaturgia, no caso da ficção, calcado no lastro da experiência de mulheres e homens. Neste sentido, destacamos alguns curtas-metragens que foram exibidos no primeiro final de semana do Festival.

Mostra de Tiradentes
“Vaca Profana”, de René Guerra

Último filme de uma trilogia que investiga o cotidiano de travestis, Vaca Profana, dirigido por René Guerra, promove uma dialética acerca do feminino. Com roteiro assinado pela fabulosa Gabriela Amaral Almeida, o curta-metragem confronta a vida de duas personagens interpretadas por Maeve Jinkings e Roberta Gretchen Coppola, essa última uma travesti cujo seu maior sonho é ser mãe. A fabulação do real utiliza como cenário uma ocupação liderada principalmente por mulheres.

A primeira cena deixa a força do protagonismo feminino em evidência, quando coloca em cena um grupo de mulheres confrontando um assediador. Mas o filme não é sobre isso. Vaca Profana é um curta-metragem poético que coloca em perspectiva aquilo que se convencionou chamar de “instinto materno”. O roteiro deixa claro que mãe é aquela que, de fato, pretende exercer a maternidade e não simplesmente aquela que concebeu uma criança. As alegorias criadas pelo diretor para compor a mise-en-scène produz uma das cenas de parto mais oníricas já vistas na cinematografia brasileira.

As dúvidas, desejos e angústias dessas duas mulheres, uma cis e outra trans, são colocadas na tela de forma orgânica e delicada, cujo mérito da cenografia aliada a uma fotografia que privilegia os contra planos é percebida no excelente resultado final. Vaca Profana apropria-se do título da música escrita por Caetano Veloso e imortalizada na voz de Gal Costa para reafirmar a letra da canção: “Respeito muito minhas lágrimas/ Mas ainda mais minha risada/ Inscrevo, assim, minhas palavras/ Na voz de uma mulher sagrada“. E esse sagrado nos remete ao poder que as mulheres precisam ter sobre seus corpos, ainda subjugado ao Estado.

Os outros filmes da trilogia dirigida por René Guerra podem ser vistos online. São eles o documentário “Quem Tem medo de Cris Negão” e o drama ficcional “Os Sapatos de Aristeu”. Este último foi laureado com inúmeros prêmios, dentre eles, o Grande Prêmio Canal Brasil em 2010.

Mostra de Tiradentes
“Pontos Corridos”, de Júlio Bezerra

Pontos Corridos, dirigido por Júlio Bezerra (que também protagoniza o filme) aposta na chave da comédia para traçar um retrato da melancolia e apatia que acomete os jovens da classe média. A primeira tomada é bastante convencional e mostra o diálogo de um pai e seu filho (interpretado pelo próprio diretor) sobre as angústias do rapaz acerca de seu futuro profissional e amoroso. Ao se despedirem, o filho entra em um táxi e toda atmosfera do filme se transforma. O caminho do centro do Rio de Janeiro até o aeroporto se transforma numa jornada divertidíssima ao som de “Listen To Your Heart” da banda Roxette.

As estrofes recitadas na canção ganham vida: “Sei que existe algo por trás do seu sorriso/ Eu tenho uma noção pelo aspecto dos seus olhos/ Você construiu um amor, mas aquele amor desaba aos pedaços/ Seu pedacinho do paraíso torna-se escuro demais/ Ouça seu coração enquanto ele está chamando por você/ Ouça o seu coração, não há mais nada que você possa fazer/  Eu não sei para onde você está indo e eu não sei por quê/ Mas ouça seu coração antes que você diga-lhe adeus“. Alguns minutos da música no ar e somos apresentados ao taxista que começa a interpretar a canção numa ótima atuação de Cezar Andrade. A linguagem de memes da cultura pop invade a cena e aquilo que aparentemente era um curta-metragem insosso sobre o retrato da melancolia da vida adulta burguesa dá lugar ao lúdico. Pontos Corridos é, portanto, um curta-metragem que aposta na potência dos encontros.

Mostra de Tiradentes
“Tentei”, de Laís Melo

A diretora e roteirista Laís Melo usa sua bagagem de jornalista investigativa para construir um filme sobre algo que costuma ser invisível na nossa sociedade: a violência doméstica contra mulheres. O título desse excelente curta-metragem dá conta da exata dimensão e potência que a atuação primorosa de Patricia Saravy revela. Tentei refere-se à tentativa de uma mulher casada em denunciar o marido agressor. A câmera na mão, trabalhada pela fotografia assinada por Renata Corrêa, nos coloca em cena junto com a protagonista, que traça uma jornada até a delegacia para tentar minimizar seu sofrimento. O não dito, a ausência de diálogos, é exercitado de forma extremamente eficiente pelo desenho de som do filme.

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De modo bastante perspicaz, Laís Melo elabora um roteiro verossímil, calcado em experiências coletadas em campo, para abarcar uma mulher, quase que universal, no sentido de conseguir exprimir em imagens situações de desencaixe e imobilidade que grande parte das mulheres já vivenciou, em maior ou menos grau. A cena que encerra o filme é de uma potência avassaladora e convida a todos (homens e mulheres) que a assistem a refletir o que de fato fazemos (ou deixamos de fazer) para colaborar com essa cultura permissiva da violência. Entrevistamos a diretora durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, em que ela conta um pouco mais sobre o processo de criação do filme.

Mostra de Tiradentes
“Todas as casas menos a minha”, de Julia Baumfeld

Todas as casas menos a minha é um curioso exercício de montagem realizado por Julia Baumfeld. Revisitar nossas memórias nem sempre é tarefa fácil. Neste instigante curta-metragem, Julia percorre arquivos de vídeo, gravados e armazenados por seus pais, para criar uma fabulação sobre sua própria biografia. Ao colocar na tela a ideia de não pertencimento ao lugar de origem, a realizadora se desnuda numa metáfora que nos atinge de formas múltiplas. Interessante notar que a escolha pelo uso de material de arquivo não é geralmente fácil, pois a concepção de um roteiro que ligue as imagens de forma a contar uma história (ou não) nem sempre acaba bem sucedido.

Porém, aqui vemos um exercício eficiente que abarca não apenas o micro, mas também o macro político que cerca a família de Julia. Ao vermos imagens com saltos temporais que remetem ao envelhecimento/amadurecimento das pessoas daquela casa, acessamos um pouco da estrutura em que se assenta uma família de classe média alta na lida com o trabalho. Construir uma casa que não se alicerça pelo diálogo, pode ser o primeiro momento de uma ruptura estrutural. Talvez seja um pouco de tudo isso o que Julia Baumfeld pretendeu conceber com seu filme.


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Autora

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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