Dirty Dancing: aborto, sororidade e direitos

Dirty Dancing: aborto, sororidade e direitos

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Muita gente se lembra de Dirty Dancing como um romance leve que passava na Sessão da Tarde e que colecionou uma legião de fãs do sexo feminino pelo mundo. Não à toa: é um dos raros filmes que mostram o despertar da sexualidade feminina de forma respeitosa e empoderada. Nada de mocinhas passivas que esperam que as coisas aconteçam com elas. A protagonista Frances “Baby” Houseman é uma adolescente engajada e com enorme vontade de mudar o mundo para melhor, e acaba o fazendo em escala menor a partir de pequenos gestos de empatia quando vai passar as férias de verão num resort com sua família.

A roteirista de Dirty Dancing, Eleanor Bergstein, concebeu o filme a partir de algumas de suas experiências próprias em férias de verão. E nota-se vários traços feministas no enredo, como o nome da protagonista, em homenagem à primeira mulher a trabalhar no gabinete presidencial americano, algo que a própria Baby menciona no filme. A roteirista também tinha sido nomeada em homenagem a outra mulher importante na política americana – Eleanor Roosevelt.

Um dos traços feministas mais significativos vem da sororidade que Baby tem com Penny, uma das funcionárias do resort, que trabalha como instrutora de dança. Baby está sempre ajudando os outros e, quando fica sabendo que Penny tem um problema, não hesita em oferecer apoio, mesmo sem saber realmente o que está se passando.

O tal “problema”, que nunca é referenciado explicitamente no filme, é que Penny está grávida de um babaca que também trabalha no hotel. Ela não quer levar a gravidez adiante, mas a trama se passa nos anos 60, quando o aborto ainda não era legalizado nos Estados Unidos. Penny então precisa de dinheiro para tentar fazer o procedimento de modo informal. Baby arruma o dinheiro e se disponibiliza a substituí-la em uma apresentação de dança que seria no mesmo dia, e daí vem o mote principal do filme: as inúmeras aulas de dança e o romance que desabrocha entre Baby e o atraente Johnny Castle.

O mais incrível de Dirty Dancing – e inclusive um sinal de que a trama estava muito à frente de seu tempo – é que Penny em nenhum momento é julgada por escolher abortar. Seus amigos a respeitam e fazem de tudo para ajudá-la, e o filme também não aborda a situação de uma forma que leve os espectadores a condená-la. Não existe sequer uma questão moral colocada em cheque, tal qual em filmes mais recentes como “Juno”. O filme simplesmente apresenta a situação com naturalidade, e o dilema está mais em como fazer com que Penny consiga o que precisa.

Em um momento, Penny diz a Baby que está com medo, e Baby oferece consolo, dizendo que vai ficar tudo bem. É bastante significativa a inclusão de apoio e solidariedade entre mulheres. Na maioria dos filmes do gênero é mais costumeiro encontrar mulheres que competem pelo bonitão principal. Mas em Dirty Dancing Penny nunca é enquadrada como inimiga de Baby, por mais que nas primeiras cenas fique claro que Baby deseja estar no lugar de Penny quando esta dança com Johnny.

Dirty Dancing

Outro ponto muito positivo é responsabilizar os homens por seus atos covardes de desrespeito e abandono. Quando Baby descobre que foi Robbie que engravidou Penny, ela vai até ele e tenta fazer com que ele assuma suas responsabilidades.

Quando ele se recusa a prestar qualquer tipo de auxilio, dizendo que Penny dormia com todos e que “algumas pessoas contam, outras não”, Baby responde “você me enoja, fique longe de mim e da minha irmã, ou farei com que você seja demitido”, e em seguida derrama água nas calças dele – uma maneira bastante simbólica de “apagar o fogo” do cara.

A irmã de Baby tenta flertar com Robbie, mais como birra por Baby toda hora tentar alertá-la sobre o embuste que Robbie é. Mas a irmã acaba vendo com os próprios olhos, quando o pega na cama com outra mulher.

Johnny também é repreendido, recebendo uma forte rejeição do pai de Baby por este pensar que foi ele quem engravidou Penny e a deixou fazer um aborto inseguro. E o condena por, segundo o que ele pensa, ter largado a parceira nessa situação e ir atrás de sua inocente filha, Baby.

O pai mantém essa postura até descobrir que Robbie, e não Johnny, era o babaca responsável por tudo. Ele tinha dado um auxilio financeiro como estímulo para Robbie seguir na faculdade, mas toma o dinheiro de volta imediatamente após descobrir a verdade. Com tudo isso, o filme deixa clara a mensagem de que atitudes machistas são totalmente abjetas e merecem ser repreendidas, não importa se cometidas por um cara simples como Johnny, como o pai pensava, ou um riquinho como Robbie.

Por fim, Dirty Dancing mostra bem os perigos que a proibição do aborto representa para a saúde das mulheres. Penny volta passando muito mal após fazer o procedimento inseguro e Baby corre para buscar a ajuda de seu pai, que é médico. Penny fica bem, mas é triste saber que na realidade muitas mulheres não tem essa sorte. “O cara tinha uma faca suja e uma mesa dobrável. Eu podia ouvi-la gritando do corredor” é o que conta um dos colegas que a acompanhou no procedimento.

Quando Johnny pergunta por quê ele não chamou uma ambulância, ele diz que Penny temia que o hospital chamasse a polícia. E pensar que no Brasil e em muitos outros países ainda permanecemos assim, com mulheres morrendo em números alarmantes apenas porque a sociedade não admite que tenhamos autonomia sobre nossa vida reprodutiva. E mesmo nos Estados Unidos, ainda há muitos esforços de políticos conservadores para dificultar o acesso a abortos seguros, o que força muitas mulheres a também recorrerem a métodos informais e arriscados.

É difícil imaginar um filme como Dirty Dancing sendo feito hoje em dia, tamanha a controvérsia que iria gerar. E é ainda mais impressionante que ele tenha sido feito nos anos 80, com tal tema passando batido pelo grande público, ainda mais após o sucesso mainstream que o filme alcançou. É muito positivo que tantas mulheres que se tornaram fãs do filme tenham tido essa bela trama de empoderamento feminino como exemplo.

Além disso, ele também traz questões interessantes sobre classe, e também mostra a própria Baby tomando iniciativa de sua descoberta sexual, com um parceiro que a respeita e cresce junto com ela. E tudo isso sem precisar passar por nenhum makeover, olhem só!

Algo quase inédito no gênero romance é uma mulher conseguir o que quer sendo apenas ela mesma. O que precisamos é redescobrir essas pequenas pérolas e fazer com que cada vez mais produtos de entretenimento sigam os passos de filmes como Dirty Dancing.


28 de setembro é o dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e no Caribe e o presente que o legislativo brasileiro quer dar às mulheres neste mês é a proibição do aborto até mesmo nos casos já permitidos em lei. No mesmo dia também é lembrada a Lei do Ventre Livre, que foi promulgada no dia 28 de setembro em 1871, e considerava livres todos os filhos de mulheres negras escravizadas no Brasil.

Visando ocupar as redes sociais para ampliar e aprofundar o debate, além de incentivar a mobilização feminista para atos de ruas em resposta ao ultraconservadorismo, durante todo o dia 27 de setembro ocorrerá a II Virada Feminista Online #PrecisamosFalarSobreAborto. Você pode acompanhar toda a programação neste link, onde ocorrerá, inclusive, transmissões ao vivo com convidadas de outros países. 


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Autora

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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