A 13ª doutora e a gentileza como sabedoria em “Doctor Who”

A 13ª doutora e a gentileza como sabedoria em “Doctor Who”

Nas últimas duas temporadas de Doctor Who nós viajamos pelo tempo e espaço com a 13ª Doutora (Jodie Whittaker). Conhecemos (e amamos) os novos companions: Yasmin Khan (Mandip Gill), Graham O’Brien (Bradley Wash) e Ryan Sinclair (Tosin Cole); e reencontramos velhos conhecidos, como o Mestre (Sacha Dhawan), Capitão Jack Harkness (John Barrowman), a tropa Judoon, os Cybermen, Daleks, entre outros. Por fim, mergulhamos mais profundamente no passado da doutora e do planeta Gallifrey. Agora, emergimos esperando mais respostas na próxima temporada.

Atenção: o texto a seguir contém spoilers da 11ª e 12ª temporadas de Doctor Who

I am my own woman

A Doutora ainda é a personagem multifacetada, dinâmica e genial que conhecemos e amamos. Em sua 13ª regeneração, contudo, ela continua fiel à sua missão de proteger a Terra, à sua tradição pacifista e, principalmente, à sua promessa de ser sempre gentil.

A personagem se destaca, principalmente, por seu apelo à não-violência e por sua piedade. No entanto, apesar de serem visíveis as diferenças e dificuldades que ela enfrenta, através do tempo e espaço por ser uma uma mulher, sua história e seus conflitos trazem uma discussão importante, mas não são completamente baseados em seu gênero. 

A 13ª Doutora (Jodie Whittaker) em Doctor Who
“Se eu ainda fosse um cara, eu poderia seguir com o trabalho e não ter que perder tempo me defendendo!” | GIF: reprodução

With a little help from my fam

Um ponto forte das duas últimas temporadas são os companions e a importância que é dada às suas jornadas pessoais. A relação entre as personagens nasce de exposição suas fragilidades e de seus esforços corajosos para se tornarem fortes, através de suas interações e apoio recíproco. Graças às suas vulnerabilidades, as histórias dos quatro passageiros da TARDIS se entrelaçam e eles se tornam a família que cada um escolheu.

Ryan e Graham conheceram a Doutora ao perderem Grace (Sharon D. Clarke). Em seguida, ao passarem tanto tempo juntos na TARDIS e para lidarem com o luto, precisaram desenvolver uma relação de avô-neto que nenhum dos dois sabia bem como fazê-lo.

Além do luto, Ryan convive com a dispraxia, uma disfunção neurológica que torna mais difícil controlar os movimentos do corpo, e com questões não resolvidas com o pai, que o fazem constantemente duvidar de si mesmo.

Ryan Sinclair (Tosin Cole), Graham O'Brien (Bradley Wash) e Yasmin Khan (Mandip Gill) em Doctor Who
Ryan (Tosin Cole), Graham (Bradley Wash) e Yasmin (Mandip Gill) em Doctor Who | GIF: reprodução

Ambos começam a viajar com a Doutora para lidar com a dor e é no tempo que passam juntos que descobrem como se tornarem genuinamente próximos um do outro, como serem de fato uma família, para além das denominações de “avô” e “neto”. Já Yaz, por sua vez, ainda está descobrindo como enfrentar alguns traumas de seu passado e melhorar sua relação com sua família no presente. 

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Além disso, os atuais companions são humanizados, apresentando jornadas próximas de nós e de pessoas que encontramos em nossas vidas e isso é um aspecto excelente das temporadas. Se nos lembrarmos que o Doutor sempre afirma que nunca conheceu alguém que não fosse especial antes, então somos capazes de encontrar o especial no corriqueiro, no cotidiano e em cada um de nós.

Do mesmo modo, em todos os episódios a importância e as vantagens do trabalho em grupo é exaltada em algum ponto. A Doutora continua sendo um gênio, mas o seu interesse também está em resolver questões em grupo e garantir ação e autonomia para todos.

Nesse sentido, as jornadas pessoais dos companions são tão importantes quanto às da Doutora e o entrelaçamento delas é que proporciona o crescimento para todos. Sem dúvida, nenhuma de suas aventuras seria bem sucedida sem uma ajuda dos amigos. 

Cena de Doctor Who | Imagem: divulgação/BBC

Uma questão do passado em Doctor Who

Na 12ª temporada, a Doutora descobre que ela não é quem sempre pensou ser: nativa de Gallifrey e integrante da raça dos Senhores do Tempo. Ela, no entanto, viveu inúmeras vidas antes do que imaginava ser sua primeira, antes mesmo de fugir de Gallifrey, antes da história que conhecemos. Agora, além de lidar com seu planeta (ainda!) destruído, ela perde sua origem e a certeza de quem é.

Ruth (Jo Martin) é uma doutora que, fugindo de Gallifrey, apagou sua própria memória e se disfarçou de humana. A doutora fugitiva, ao que parece, não é nenhuma das regenerações passadas que já conhecemos, mas uma vida além das vidas que a própria doutora conhece e se lembra. 

Ruth (Jo Martin), a doutora fugitiva.
Ruth (Jo Martin), a doutora fugitiva | GIF: reprodução

Os quebra-cabeças de quem foge

É difícil, contudo, não se apaixonar pela doutora fugitiva assim que a conhecemos. Além do mistério que a envolve, sua personalidade é marcante e nos faz desejar saber mais sobre ela. A doutora nos instiga não só para saber onde ela se encaixa no contexto maior, mas também por si mesma.

Juntando as peças que temos, sabemos que a doutora fugitiva viaja em uma TARDIS que já tem a aparência externa de uma cabine policial, não reconhece a chave sônica e nem se lembra da 13ª regeneração. Além disso, carrega uma arma, o que é uma atitude impensável para a doutora em quase todas as suas vidas. 

Além disso, a grande questão para nós é onde a regeneração de Ruth se encaixa. As teorias mais populares até agora supõem que a doutora fugitiva é parte do passado. Portanto, especula-se que Ruth pode ser uma das vidas em Gallifrey das quais a doutora não se lembra e que, como descobrimos, são inúmeras – ou mesmo uma regeneração desconhecida.

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A doutora fugitiva em Doctor Who
A doutora fugitiva | Imagem: reprodução

A mais popular dentre as teorias é a de que a doutora fugitiva é uma regeneração entre o segundo doutor (Patrick Troughton) e o terceiro (Jon Pertwee) da série clássica. No entanto, nunca assistimos a essa regeneração como chegamos a ver vimos as outras.

Voltando para a série clássica, o segundo doutor, no episódio The War Games, é mandado em exílio à Terra durante o século 20 pelos Senhores do Tempo, e apesar de ser obrigado a mudar sua aparência, não assistimos sua regeneração. Em seguida, na temporada seguinte, apenas nos é mostrado o terceiro doutor caindo da TARDIS no episódio Spearhead From Space.  

Contudo, Chris Chibnall, o atual escritor da série, já afirmou que Ruth não é uma doutora de um universo paralelo, nem um truque, mas de fato, a doutora. Além disso, o empolgante é que a própria Jo Martin disse à Radio Times (em uma entrevista incrível) que não só reprisaria seu papel como doutora, mas que deseja um spin-off para ela. 

“Quando você pensa em quanto sci-fi existe por aí –  meu deus – e o pequeno papel que as mulheres têm neles, e é sempre em conjunção à história do homem, é a jornada do homem. E eu estou farta disso. Quero nossa história. Nos deixe liderar alguns desses shows. Vamos! Está na hora. Porque é muito mais rico para todos.”

As Doutoras | Imagem: BBC/divulgação

Pontos fortes 

Em ambas temporadas, as atuações são brilhantes. Os episódios têm uma boa dose de ação, balanceada com momentos de sensibilidade e outros de introspecção. Os episódios mais bem desenvolvidos e podem facilmente ser contados entre os melhores já escritos na série, como Rosa e Demons of the Punjab, por exemplo.

No entanto, ao contrário do que se tem dito, Doctor Who, desde a série clássica, sempre abordou questões ambientais, políticas e sociais, como racismo, xenofobia e até mesmo sexismo. Entretanto, tais temas, de fato, têm sido mais destacados nas temporadas recentes. Junto a isso, a diversidade do elenco das duas últimas temporadas é também um ponto positivo e importante de ser mencionado.

Pontos fracos

Contudo, apesar de serem duas boas temporadas, a escrita de alguns episódios deixaram a desejar. O desenvolvimento dos antagonistas, em geral, tem sido malfeito e lacunar. Em alguns casos, como Arachnids in the UK e The ghost monument, eles são uni facetados ou mesmo opacos.

Da mesma forma, muitas vezes a escrita dos episódios não é bem desenvolvida e episódios com ótimas premissas, como Revolution of the Daleks e Can you hear me?, são pouco ou nada aproveitados. A impressão é que, por vezes, o episódio se perde em meio às diversas informações que levanta, trazendo uma conclusão incompleta.

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Arte promocional do episódio "Revolution of the Daleks"
Arte promocional do episódio “Revolution of the Daleks” | BBC/divulgação

Apesar do brilhantismo dos companions, o desenvolvimento de Yasmin Khan também é vago. Duas temporadas depois e só tivemos pinceladas sobre sua história, que parece ser muito rica e atravessada por questões familiares, de autoestima e pelo bullying, mas não sabemos muito além disso.

O que esperar da 13ª temporada de Doctor Who

As duas últimas temporadas nos apresentaram questões novas e profundas acerca do passado da Doutora e de Gallifrey. Ela não pertence à raça dos Senhores do Tempo e nem é de Gallifrey. Temos mais mistérios do que respostas.

Por fim, esperamos entender, junto com ela, mais sobre seu passado e as implicações de inúmeras outras vidas, além de conhecer mais sobre a Yaz, o novo companion, Dan (John Bishop) e, quem sabe, encontrar mais alguns velhos amigos no caminho. Portanto, como disse William Faulkner: “O passado nunca está morto. Nem sequer é passado. Dessa forma, até para uma viajante do tempo, o passado pode ser um novo lugar a se descobrir.

“E você já foi limitada por quem você foi antes?” | GIF: reprodução

Doctor Who continua fiel ao seu ideal de lidar com as diversas facetas humanas, da mais gentil à mais cruel, metaforizando-as em outros mundos, universos e criaturas diversas. A Doutora, mesmo enfrentando tantas incertezas sobre seu próprio passado, parece se lembrar (e quando necessário, é lembrada por seus amigos) de seu próprio lema: “Always be kind” (“Seja sempre gentil”).  Afinal, com a Doutora, mais do que nunca, o ódio é sempre tolo e a gentileza sempre sábia.

Todas as temporadas de Doctor Who (2005 – presente) estão disponíveis no streaming do GloboPlay.


Edição por Isabelle Simões. Revisão por Gabriela Prado.

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Historiadora e escrevedora de frases longas. Entusiasta de diálogos. Fala de literatura e de história até na mesa do café.
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