The Sandman: a louvável adaptação do quadrinho de Neil Gaiman

The Sandman: a louvável adaptação do quadrinho de Neil Gaiman

The Sandman, série inspirada na magnífica obra em quadrinhos de Neil Gaiman, estreou dia 5 na Netflix e já se tornou uma das adaptações mais queridas do público. Com uma trama envolvente, um texto rico em poesia e filosofia, fotografia de encher os olhos e atuações impecáveis, The Sandman fez história em sua primeira semana de estreia, seguindo em primeiro lugar no top 10 das séries mais assistidas do streaming no Brasil e em mais de oitenta países, servindo de palco para inúmeras discussões e recepções positivas ao redor do mundo.

[Aviso: parte 1 do texto livre de spoilers]

Os fãs de Sandman esperavam há anos por uma adaptação do quadrinho que fizesse jus à sua magnitude e importância na nona arte e na literatura. Entre muitas idas e vindas, projetos abandonados e expectativas frustradas, finalmente a série saiu do Sonhar para ocupar um espaço gigantesco no mundo desperto – e no coração dos fãs, novos ou antigos.

Apesar das grandes expectativas, havia insegurança por parte do público para esta estreia, uma vez que Sandman é uma obra gigantesca em conteúdo e adaptá-la não seria tarefa fácil; como dar vida, nas telas, a um universo extremamente original, que homenageia mitologias, eventos históricos e elementos variados da cultura pop, de modo que sua essência se mantivesse?

Pôster oficial de The Sandman
Pôster oficial de The Sandman | Netflix.

Ao lado de Allan Heinberg e David S. Goyer, Neil Gaiman se encarregou da produção da série, e é tangível o seu cuidado, carinho e atenção aos detalhes, que são tão preciosos na obra, desde o início. The Sandman é uma carta de amor aos fãs de longa data da HQ, aos apaixonados por uma boa fantasia e uma excelente introdução a quem teve ou terá seu primeiro contato com a história do quadrinho a partir da série.

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Na adaptação, Morpheus (Tom Sturridge), o Rei dos Sonhos e Pesadelos, tem interrompida a caçada ao Coríntio (Boyd Holbrook), um de seus pesadelos mais perigosos, ao ser invocado por Roderick Burgess (Charles Dance), um ocultista que deseja aprisionar a Morte para reviver o filho, Randall. Passando um século aprisionado em uma redoma de vidro, e extremamente enfraquecido e sofrendo traumas terríveis, Morpheus se aproveita da distração de um dos guardas que o observa para conseguir escapar e voltar ao seu reino.

Morpheus (Tom Sturridge), o Rei dos Sonhos e Pesadelos em "The Sandman"
Morpheus aprisionado | Netflix.

Ele perde, ao longo dos anos aprisionado, os seus três objetos de poder: o elmo, o rubi e a algibeira de areia, e terá, então, de encarar os próprios erros e fantasmas do passado para consegui-los de volta, passando por locais e situações extremamente perigosas.

Os dez capítulos de The Sandman adaptam os arcos Prelúdios e Noturnos e A Casa das Bonecas. Sobretudo no primeiro deles, os espectadores são apresentados à mitologia do quadrinho, à importância de Sonho para o seu reino e para o mundo desperto, uma vez que seus anos de aprisionamento surtiram efeitos catastróficos em ambos os lugares, e à definição dos Perpétuos, incluindo a aparição de alguns deles e de outros personagens importantes para o arco narrativo de Morpheus, como é o caso de John Dee (David Thewlis) e Lúcifer (Gwendoline Christie).

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Lúcifer (Gwendoline Christie) em The Sandman
Lúcifer | Netflix.

A Casa das Bonecas surge nos quatro últimos episódios da série e acompanha Rose Walker (Kyo Ra), bisneta de Unity Kinkaid (Sandra James-Young), uma senhora que, na adolescência, foi acometida pela doença do sono e passara anos em coma. Além de conhecer pela primeira vez a bisavó, Rose terá de peregrinar em busca de Jed (Eddie Karanja), seu irmão caçula que sumira após a separação dos pais e, no meio de tudo isso, fará descobertas com um potencial catastrófico sobre a própria existência.

Rose Walker (Kyo Ra) na série da Netflix
Rose Walker | Netflix.

A série se mantém muito bem ao longo de todos os episódios. Alguns fatores foram alterados para que fizessem mais sentido na adaptação e pudessem dar mais profundidade e tridimensionalidade aos personagens. Isto acontece, em um primeiro momento, no episódio um, “O sono dos justos”. Enquanto no quadrinho Roderick Burgess desejava aprisionar a Morte para obter riquezas e vida eterna, na série descobrimos que ele tivera Randall, outro filho além de Alex (interpretado quando novo por Benjamin Evan Ainsworth e, na adolescência, por Laurie Kynaston), que morrera na Campanha de Galípoli, que de fato ocorreu na península de Galípoli, entre 1915 e 1916, ano em que Sonho é aprisionado, e a motivação maior para Roderick capturar a irmã mais velha de Morpheus seria, justamente, reviver seu querido filho.

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A preocupação de Roderick com Randall faz com que Alex seja deixado de lado, o que culmina na rejeição da criança, que carrega o sentimento de desprezo do pai por toda a vida, algo que fica acentuado na série, diferente da HQ.

Outro fato importante na mudança da HQ para as telinhas é a presença de Jessamy, um corvo guardião de Morpheus que aparece brevemente no quadrinho durante a história “Thermidor”, em que Sonho solicita uma perigosa tarefa à Johanna Constantine em plena Revolução Francesa. A ave ganha destaque na série e serve de gancho para que compreendamos os terrores vividos por Sonho no cárcere e sua conexão com seus pares do Sonhar.

Além de Jessamy, Ethel Cripps (interpretada quando jovem por Niamh Walsh e, já adulta, por Joely Richardson), personagem mencionada na HQ como frequentadora do círculo de amizades de Roderick Burgess e, mais para a frente, reaparecendo como a mãe de John Dee, também ganha destaque na série e muita autonomia, sendo uma das melhores personagens femininas desta temporada.

Porém, a mudança mais importante feita na trama de The Sandman é a presença do Coríntio como um vilão gigantesco dentro da jornada de Sonho. Enquanto na HQ ele tem um papel importante apenas no arco A Casa das Bonecas, na série ele está presente desde o primeiro episódio, causando inúmeros assassinatos no mundo desperto e fazendo com que, em meio ao seu caos pessoal, Morpheus tenha de tentar capturá-lo.

O Coríntio em The Sandman
O Coríntio | Netflix.
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É pela visão de Coríntio, criatura nascida no Sonhar, que os espectadores são apresentados à importância e força de Sonho; é o vilão, inclusive, quem ensina Roderick a manter Morpheus aprisionado por muito mais tempo em sua mansão em Wych Cross, Inglaterra, e é ele quem também explica o conceito dos Perpétuos, a família de Morpheus e as sete representações antropomórficas de conceitos que regem a humanidade: Desejo, Desespero, Delírio, Destino, Destruição, Morte e Sonho.

A importância da diversidade em The Sandman

Neil Gaiman precisou lidar muitas vezes, ao longo destes dois últimos anos em que o elenco de The Sandman foi confirmado, com a rejeição dos atores e o questionamento incabível vindos de uma minoria de supostos fãs da obra e trolls da internet.

A importância da diversidade em The Sandman
Morte | Netflix.

Enquanto que a obra é progressista desde a década de 80, apresentando personagens LGBTQIA+ e de diferentes etnias, o que proporciona discussões ricas e importantíssimas sobre os temas, a série não poderia simplesmente ignorar um fator que faz de Sandman um quadrinho tão magnífico, apenas para agradar os preconceituosos de plantão: há muito espaço na série para personagens gays, lésbicas, bissexuais e não-bináries, personagens masculinos da HQ que, na adaptação, foram alterados para excelentes personagens femininas, além da representatividade negra e asiática.

O próprio Gaiman, em diversas entrevistas, comenta sobre a importância de proporcionar voz às minorias tão violentadas pela sociedade, sobretudo por elas também fazerem parte de seu círculo de amizades; desde sempre ele quis ver seus amigos, amigas e amigues retratados no quadrinho e, ainda mais agora, com a adaptação da Netflix, estes grupos puderam ser ainda mais priorizados e terem suas histórias contadas na pele de personagens tão diversos.

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Paul e Alex Burgess, o primeiro casal gay de The Sandman, observam Sonho aprisionado.
Paul e Alex Burgess, o primeiro casal gay de The Sandman, observam Sonho aprisionado | Netflix.
Hal Carter, personagem gay, dança em sonho com sua personagem drag, Dolly.
Hal Carter, personagem gay, dança em sonho com sua personagem drag, Dolly | Netflix.

Sandman é uma obra que dialoga com problemas sociais e fala, essencialmente, sobre pessoas em suas mais diversas manifestações; acreditar que variedades de corpos, gêneros, sexualidades e etnias não deveriam estar presentes na série é contrariar o que o quadrinho é em sua essência.

Há, inclusive, um trecho no episódio cinco, “Sem parar”, em que Judy (Daisy Head), uma personagem lésbica que vai ao restaurante em que John Dee, em posse do rubi de Morpheus, escolhe suas vítimas para brincar com seus medos e inseguranças, menciona algo importante e que não aparece com frequência em muitas obras: relacionamentos abusivos entre casais homossexuais.

Johanna Constantine, personagem bissexual, e sua ex-namorada, Rachel.
Johanna Constantine, personagem bissexual (em destaque), e sua ex-namorada, Rachel (ao fundo) | Netflix.

A personagem esperava Donna, sua namorada, para uma conversa, após terem discutido na noite anterior. Sabe-se que Judy foi agressiva com a namorada e na HQ os leitores são informados de que ela, de fato, a havia agredido. Esta discussão acontece, também, na obra autobiográfica Na casa dos sonhos, da escritora norte-americana e de origem cubana Carmen Maria Machado.

Desejo, irmane não-binárie de Sonho, personagem responsável por muitas das problemáticas em que o protagonista se envolve, é interpretade por Mason Alexander Park, atore também não-binárie, cuja interpretação está impecável e leva para as telas toda a potência que el Desejo dos quadrinhos emana.

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Desejo é interpretade por Mason Alexander Park, atore também não-binárie.
Desejo | Netflix.

As personagens femininas também roubam a cena e abrem espaço para as mulheres reais tão bem trabalhadas por Gaiman. Lucienne (Vivienne Acheampong) e Morte (Kirby Howell-Baptiste), ambas interpretadas por mulheres negras, transmitem toda a comoção que os personagens do quadrinho carregam, em interpretações emocionantes. Johanna Constantine (Jenna Coleman) e Ethel Cripps são igualmente fortes, dinâmicas e donas de seus próprios destinos, assim como Lúcifer, que apesar de ser mencionado com pronomes masculinos, tem na imagem de Gwendoline uma mulher de extremo poder e presença marcante.

Lucienne (Vivienne Acheampong), a bibliotecária do Sonhar.
Lucienne | Netflix.

Os personagens de diferentes etnias, sobretudo os atores e atrizes negros, são importantíssimos para além dos contextos de discussão acerca das violências e racismos sofridos pelo grupo; muito se fala na importância de vivências negras serem retratadas para além do sofrimento, onde há a oportunidade de vivenciarem carreiras, situações e acontecimentos que não estejam somente atrelados aos destinos fatídicos que muitos deles têm ao longo da vida, no mundo real e na ficção.

Morte (Kirby Howell-Baptiste) em cena do sexto episódio de The Sandman.
Morte e Franklin | Netflix.

Em The Sandman, pessoas negras aparecem em cargos de poder e de extrema responsabilidade, como ocorre com Lucienne ao assumir a condução do Sonhar após a partida de Morpheus e Mazikeen (Cassie Clare), braço direito de Lúcifer no Inferno, ou tem suas particularidades celebradas, como Rose que quer ser escritora, Jed que é fã de super-heróis e, a Morte, de musicais; a série mostra que vidas negras não precisam – e não devem – existir atreladas à dor. Existem possibilidades para que floresçam além dela.

As excelentes referências em The Sandman

Uma característica importante de Sandman, sem sombra de dúvidas, é a enorme quantidade de referências às diversas mitologias mundiais, literatura e períodos históricos, algo que a série resgata muito bem e que possibilita uma melhor apreciação da obra.

Além de no primeiro capítulo Roderick mencionar a Campanha de Galípoli, evento que aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, em que as forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas tentaram invadir a Turquia para tomarem posse do estreito de Dardanelos, outro evento histórico marcante foi utilizado como inspiração por Neil Gaiman e também aparece na série como um efeito colateral da prisão de Sonho: a pandemia do sono, que teve seu início em 1916, mesmo ano em que Morpheus é capturado, e tinha como duas de suas características a letargia (tanto que o nome da doença no mundo real e na série é encefalite letárgica) ou a insônia.

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A enfermidade se alastrou pela Europa e pelos Estados Unidos, e seus principais sintomas, além dos já citados, se assemelhavam aos da gripe, como dor de cabeça e garganta inflamada. Até hoje a causa da pandemia, que chegou a durar em alguns pacientes até dez anos, é um mistério.

Hob Gadling e Morpheus na série.
Hob Gadling e Morpheus | Netflix.

É também no final do episódio seis, “O som das asas dela”, que Sonho conhece Hob Gadling (Ferdinand Kingsley) em uma taverna inglesa, o homem que diz que a morte é estupidez e ele próprio não morreria. Morte, então, decide presentear Hob com a imortalidade e, Morpheus, com um excêntrico experimento antropológico: ele e o homem se encontrariam naquele mesmo lugar, a cada cem anos, para discutirem o que mudou na vida de Hob e no restante da sociedade.

A passagem, que se inicia em 1389, traça uma linha do tempo por mais de seiscentos anos em que o mundo e a sociedade britânica mudaram completamente; eventos e pessoas históricas, como o Papa Urbano, Henrique VIII, a Inquisição, o surgimento da prensa, Jack, o Estripador e, até mesmo, William Shakespeare (Samuel Blenkin) e a peça Rei Lear, e Christopher Marlowe (Angus Yellowlees) e sua peça A Trágica História de Doutor Fausto, são mencionados ou aparecem para abrilhantarem ainda mais o texto do episódio.

Morpheus na série.

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Quanto às obras literárias e de arte evocadas em The Sandman, têm-se a menção de dois livros no episódio um, durante uma conversa entre Alex e Paul, o jardineiro dos Burgess. Alex está lendo A Handful of Dust, de Evelyn Waugh, escritor britânico conhecido como um dos maiores satiristas ingleses, e Paul sugere que ele leia Vile Bodies, do mesmo autor. A Handful of Dust é uma referência direta tanto ao poder de manipular areia que Morpheus tem, adormecendo todas as pessoas ao soprá-la em seus olhos, quanto ao verso do poema The Waste Land, de T. S. Elliot, que diz I Will Show You Fear in a Handful of Dust (Mostrarei a você o que é medo em um punhado de pó), frase associada ao personagem desde os primórdios do quadrinho.

Morpheus e Gilbert em cena de The Sandman.
Morpheus e Gilbert | Netflix.

Além destas duas referências a obras literárias, o personagem Gilbert (Stephen Fry) também tem forte inspiração no universo dos livros, uma vez que se assemelha a um dos ídolos de Neil Gaiman, o também escritor britânico G. K. Chesterton.

O quadro "Natividade com São Francisco e São Lourenço" (1609), pintura de Caravaggio, é uma referência mencionada por Ethel Cripps.
Natividade com São Francisco e São Lourenço (1609), de Caravaggio.

Ademais, Ethel Cripps, que na vida adulta rouba e revende obras de arte, menciona, para um possível comprador, uma espada de Masamune, um dos maiores ferreiros de espadas japoneses, enquanto em sua parede há o quadro Natividade com São Francisco e São Lourenço (1609), uma pintura de Caravaggio que, na vida real, está desaparecida desde 1969, roubada do Oratório de São Lourenço em Palermo, na Itália.

O texto de The Sandman é poesia pura!

A HQ carrega em seu cerne um texto riquíssimo, repleto de poesia e filosofia, que fazem os leitores refletirem acerca da importância de sonhar, dormindo ou despertos, e da função que isto tem em nosso cotidiano, afinal, tudo o que existe algum dia foi um sonho.

Muitos dos diálogos presentes no quadrinho aparecem de forma literal na série, e muitas novas passagens foram acrescentadas para somar àquilo que já fazia parte do cânone de Sandman.

Morpheus e John Dee: comparação entre quadrinho e série.
Morpheus e John Dee (imagem do quadrinho e da série) | Netflix.

É por meio de Sonho, Morte, Lúcifer, John Dee e Gilbert que algumas das falas mais marcantes da série são ditas e reflexões acerca da existência humana são esmiuçadas, algo que repercutiu positivamente nas redes sociais desde o seu lançamento.

O sexto episódio de The Sandman é o favorito de Neil Gaiman.
Morte e Morpheus em cena do sexto episódio, um dos melhores da série e o favorito de Neil Gaiman.
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Uma série que começa com um aprisionamento tão duro de Morpheus e se passa, no tempo presente, em 2021, também conversa muito acerca das privações que o mundo inteiro vem passando por conta da pandemia de covid-19. Quantos sonhos não foram aprisionados ao longo destes fatídicos anos? Quantas perdas, temores, aflições não foram geradas em cada um de nós, que dentro de nossas redomas de vidro – físicas ou mentais – observamos, assim como Morpheus, a vida passar sem perspectivas de melhora?

Sandman nunca esteve tão atual em seus propósitos informativos e lúdicos, pelos quais o reflexo dos nossos costumes podem ser visualizados e, sobretudo, questionados e contemplados.

Os aspectos técnicos louváveis de The Sandman

O conteúdo de The Sandman soma-se à excelente execução técnica da série: da escalação dos atores, que estão incríveis em seus papéis e ao darem vida aos personagens icônicos do quadrinho (até mesmo aqueles que têm pouco tempo de tela roubam a cena, como as misteriosas companheiras Zelda e Chantal, interpretadas respectivamente por Cara Horgan e Daisy Badger, as vizinhas de Rose Walker na moradia da Flórida, e Mervyn Pumpkinhead, cuja voz é de Mark Hamill, o Luke Skywalker de Star Wars), passando pela belíssima fotografia, trilha sonora imersiva, transições de cena e figurino, assinado por Sara Arthur, e que carrega de forma fidedigna as personalidades de cada um dos personagens, a série é deliciosamente bem-conduzida e não à toa figura entre as mais assistidas pelo público na última semana, elevando-a aos trending topics do Twitter por vários dias ininterruptos e recebendo um certificado de excelência no Rotten Tomatoes.

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Desejo em cena da série.
Desejo | Netflix.
Lucienne visita Caim e Abel.
Lucienne visita Caim e Abel | Netflix.
O Sonhar na série The Sandman
O Sonhar | Netflix.
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A ambientação da série e os efeitos visuais e práticos são espetaculares e conseguem traduzir para as telas a atmosfera sombria e encantadora dos quadrinhos. Menção honrosa à ambientação do Sonhar e do Inferno, dois locais opostos, mas belos em suas constituições.

Tom Sturridge dá vida a um Morpheus que é a junção do personagem do quadrinho, com sua sobriedade e introspecção, mas que também sofre pequenas alterações em sua personalidade para se encaixar melhor no contexto da obra e no peso do cárcere e dos erros cometidos no passado. O Perpétuo, que muitas vezes é monossilábico ao interagir com seus pares, conversa através do olhar com os espectadores, pelo qual consegue demonstrar pavor, raiva e emoção.

Todas as interações de Morpheus com os demais personagens são fabulosas, mas o destaque recai sobre o convívio dele com Lucienne, Morte e Matthew, o corvo, cuja voz é de Patton Oswalt, e funciona como um excelente alívio cômico para as tensões da série.

(Aviso: parte 2 com spoilers)

The Sandman surpreendeu em diversas alterações positivas no roteiro, que mudaram as origens, destinos e participações de alguns personagens fixos de Prelúdios e Noturnos e A Casa das Bonecas, bem como trouxeram alguns de outros arcos e deram a eles uma maior importância dentro da narrativa.

A primeira mudança interessante, já no primeiro episódio, é a origem de John Dee. Enquanto no quadrinho conhecemos apenas a mãe dele, Ethel, na série, a personagem se envolve com Roderick Burgess e em seguida engravida de um filho do magus, que à jovem que o aborte, fazendo com que ela fuja da mansão com os objetos de Morpheus e mais algumas peças de valor de Roderick.

Dee vem a ser o protagonista do assustador episódio “Sem parar”, em que ele faz seis pessoas completamente desconhecidas de refém em um restaurante, e brinca com seus sentimentos e medos por meio do rubi de Morpheus, até que todos acabem mortos ao final.

John Dee e o rubi.
John Dee e o rubi | Netflix.
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John Dee ganha uma maior profundidade e descola-se de seu personagem da DC, o Doutor Destino; em The Sandman, ele se torna um homem vulnerável, que cresceu sem conhecer a figura paterna e vê na mãe, que também comete crimes para sobreviver e criá-lo da melhor forma que pode, o seu exemplo a seguir. Ao passo que erra incontáveis vezes e, inclusive, é encarcerado em um presídio de segurança máxima, vê na fuga do local e na busca pelo rubi uma forma equivocada de se redimir dos seus próprios erros e consertar o mundo que ele enxerga como decadente. O personagem interpreta as vidas das pessoas ao seu redor a partir de sua própria concepção de moralidade, do que é certo ou errado para si.

Ao induzir as pessoas no restaurante a cometerem barbaridades contra si e os demais, acaba esquecendo que ser humano algum é unilateral; apesar das falhas de caráter, havia ali sonhos e dificuldades que os levaram a serem quem eram, algo que Morpheus tenta explicar para ele no final do seu arco narrativo.

O episódio em questão, inclusive, apesar de ser uma legítima história de horror, e uma das mais marcantes e chocantes de Sandman, adotou em seu texto um tom um pouco mais brando do que na HQ, que proporciona descrições e confissões para lá de bizarras e problemáticas.

Judy e Bette em The Sandman
Judy e Bette | Netflix.
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Na série, as dinâmicas entre os personagens ganham mais tempo de tela ao invés do teor extremamente gráfico do quadrinho, e mudanças interessantes na condução dos personagens foram feitas, como ocorre com Bette (Emma Duncan), a garçonete, que nos quadrinhos é abertamente homofóbica, enquanto na adaptação há apenas a sugestão de que ela não concorda com o fato de Judy ser lésbica, inclusive tentando apresentá-la para Mark (Laurie Davidson).

Quando Bette é rejeitada por Marsh (Steven Brand), o cozinheiro, vê em Judy o amor e a aceitação que tanto proporcionava aos outros, mas que não tinha para si. Com a interferência do rubi, as duas se envolvem no decorrer do episódio, dando a entender que Bette possivelmente fosse bissexual, mas por conta do próprio preconceito não se permitia vivenciar algo diferente da heteronormatividade.

Porém, antes de instaurar o caos no estabelecimento e nos arredores, Dee encontra Rosemary (Sarah Niles), uma mulher bondosa que oferece a ele uma carona após a fuga da prisão. A tensão da cena ocorre à medida que o personagem vai revelando os crimes que cometera e Rosemary percebe que corria sério risco de vida. No entanto, o final da personagem, diferente dos quadrinhos (na história “Passageiros”, apesar da bondade da personagem, Dee a mata ao terminar a viagem), causa alívio e surpresa em quem facilmente havia se afeiçoado à sua história de vida.

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Outro fator importante é John lhe presentear com o amuleto da imortalidade que pertencera à mãe, para que Rosemary consiga enfrentar as maldades do mundo sem perecer e continuar protegendo as filhas.

Gregory na série
Gregory | Netflix.

E por falar em morte, a cena gráfica em que Jessamy é morta por Alex ao tentar salvar Sonho foi uma surpresa chocante! Além dela, o final de Gregory, a gárgula que mora no Sonhar e era o animal de estimação dos irmãos Caim (Sanjeev Bhaskar) e Abel (Asim Chaudhry), também foi de cortar o coração. Para ter forças de recriar o Sonhar, Morpheus precisava retomar algo que havia criado, e restou a Gregory ser destruído para que isto acontecesse. O personagem, na verdade, é morto na HQ pelas Erínias nos arcos finais de Sandman, quando elas vão atrás de Morpheus em seu reino, com a ajuda de Lyta Hall.

Lyta (Razane Jammal) é outra surpresa na narrativa de The Sandman. A personagem da DC, filha da Mulher-Maravilha com Steve Trevor, aparece em Sandman quando, após casar com Hector (na série, interpretado por Lloyd Everitt), e assumir a identidade de Fúria, uma super-heroína, perde o parceiro, que também é um super-herói, e decide se abrigar no Sonhar, onde descobre que está grávida do marido e reencontra o fantasma dele.

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Lyta Hall e Hector
Lyta e Hector | Netflix.

Ela cruza o caminho de Rose Walker e só tem um grande destaque nos arcos finais de Sandman, sobretudo em Entes Queridos, quando, após ter o filho Daniel sequestrado, imagina que foi Morpheus quem o capturou, uma vez que, quando gerava a criança no Sonhar, ouviu do Perpétuo que ele teria direito sobre a vida dele. Lyta sofre um colapso mental e sai vagando por universos fantásticos atrás de Daniel, até que encontra as Fúrias e, ao lado delas, parte para fazer justiça com as próprias mãos.

Na série, Lyta é muito amiga da família de Rose, e é com ela que a garota viaja para a Inglaterra, após a morte da mãe, para conhecer a bisavó, Unity. Sabe-se que Lyta perdera Hector tempos antes, e inclusive vê e conversa com o fantasma dele. Em determinado momento, Hector conta que construíra uma casa na dimensão do Sonhar para que os dois ficassem juntos novamente e, do reencontro onírico, Lyta engravida e mantém a gestação no mundo desperto, mas é alertada por Sonho de que o bebê seria dele por ter sido gerado em seus domínios.

Gault em The Sandman
Gault | Netflix.
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Ainda no arco de Rose Walker, conhecemos uma nova personagem que não aparece nos quadrinhos, Gault (Ann Ogbomo), um pesadelo que escapara do Sonhar com Coríntio e O Verde do Violinista (que, mais tarde, descobrimos se tratar de Gilbert), e acabara tomando a forma de Miranda Walker (Andi Osho), mãe da garota e de Jed. O irmão caçula de Rose, que estava sofrendo maus tratos em um lar temporário, tinha nos sonhos uma válvula de escape para os terrores sofridos no mundo desperto, mas a interferência de Gault o fazia crer que ele era o novo Sandman, sem que separasse o que era fantasia da realidade. Ela criara um mundo diferente do Sonhar, onde poderia viver feliz com Jed.

No final, Morpheus consegue intervir, mas condena o pesadelo a um local obscuro do Sonhar, mesmo ela implorando para ser transformada em algo bom, como Lucienne fora um dia. Inflexível, Morpheus só muda de ideia no final do último capítulo, ao analisar que até mesmo os pesadelos podem ter uma segunda chance, e a oferece um lindo par de asas para que tenha um novo destino.

Em Sandman, a função de Gault na narrativa é a de Bruto e Glob, dois pesadelos que escapam do Sonhar e criam um reino paralelo onde comandam os sonhos do garoto.

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No magnífico episódio quatro, “Uma esperança no inferno”, Morpheus encontra Lúcifer para que ele diga quem está com o seu elmo, informação dada pelas Graças (Dinita Gohil, a Donzela, Nina Wadia, a mãe e Souad Faress, a anciã). O próprio Sonho descobre que Choronzon (Munya Chawawa), um duque do inferno, era quem estava com o objeto, mas o demônio não cederia fácil assim: para o Perpétuo reconquistar o elmo, teria de participar de um duelo.

No quadrinho, é o próprio Choronzon quem disputa com Morpheus, mas na série alteraram para Lúcifer, a fim de acrescentar um teor ainda mais dramático à cena (e a mudança ficou espetacular!). O duelo repercutiu muito bem nas redes sociais, inclusive gerando diversos memes engraçados.

Por fim, no emocionante episódio “O som das asas dela”, além da excelente interpretação de Kirby, que transmite aos espectadores toda a doçura da personagem, em uma sequência em que ela mostra a Morpheus que os problemas pessoais dele não são nada perto da finitude da vida humana e da dificuldade de seu ofício, há também um acréscimo brilhante ao final dele, com a história “Homens de boa fortuna”.

Morpheus e Morte
Morpheus e Morte | Netflix.
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Após se despedir da irmã, Sonho vaga pelas ruas de Londres e se depara com a taverna em que conhecera Hob Gadling, em 1389, e fizera com ele o acordo de se encontrarem no mesmo local e na mesma data a cada cem anos, para que conversassem sobre as mudanças observadas por Gadling na sociedade e se realmente valia a pena ser imortal, como ele pensava.

Morpheus e Rob haviam discutido na última vez em que se viram, em 1789, pois o homem comentara com ele que, finalmente, entendera o motivo pelo qual Sonho insistia naqueles encontros: para ter um amigo e deixar a solidão de sua existência um pouco mais leve.

Sonho, que desde sempre foi orgulhoso e teimoso, o abandona na taverna e, por ironia do destino, acaba preso em 1916, faltando ao encontro de 1989 e fazendo Hob crer que eles nunca mais se reencontrariam.

É neste último ano que Hob descobre que o então pub seria vendido e demolido para se tornar um empreendimento imobiliário, o que inviabilizaria os encontros dele com Morpheus. No fim do episódio, vemos Sonho em frente ao local fechado, mas com um aviso de que a nova taverna se encontrava ao lado. Hob Gadling, dono do estabelecimento, fica feliz ao reencontrá-lo e confirmar, pelo próprio Morpheus, que os dois eram sim, de fato, amigos.

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A ligação entre Morte e Hob Gadling, duas antíteses por excelência, cujas histórias existem separadas no quadrinho, fez um enorme sentido, pois tudo o que a irmã mais velha de Sonho queria para ele era que passasse a viver – e é com Hob Gabdling que ele começa a colocar em prática a valiosa lição.


The Sandman é uma adaptação poderosa e funcionou muito bem nas telas da Netflix, pois suas histórias dentro de histórias têm um potencial gigantesco de encantar e fazer até mesmo quem já as conhece refletir sobre si e sobre os outros. Aguardamos ansiosas a renovação para uma segunda temporada e as surpresas que Gaiman e companhia prepararão!

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Autora:

101 textos

Formada em Letras, pós-graduada em Produção Editorial, tradutora, revisora textual e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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