Beasts of Burden: 5 motivos para ler e enfrentar os mistérios do além-túmulo em ótima companhia
Beasts of Burden: 5 motivos para ler e enfrentar os mistérios do além-túmulo em ótima companhia

Beasts of Burden: 5 motivos para ler e enfrentar os mistérios do além-túmulo em ótima companhia

O que os animais de estimação fazem quando os donos não estão por perto? Caçam pequenos insetos, tiram uma longa soneca, correm atrás do próprio rabo e, é claro, unem-se em bando para resolverem problemas sobrenaturais envolvendo os próprios parceiros de espécie. “Beasts of Burden: Rituais Animais” é o mais novo lançamento da editora Pipoca & Nanquim, e traz uma proposta um tanto diferente para as leitoras; na obra roteirizada por Evan Dorkin e ilustrada por Jill Thompson, cães e gatos são, além de fofinhos, paladinos irrefreáveis contra o mal que assola e promete tirar o sono da pacata cidade de Burden Hill.

A ideia central do quadrinho surgiu quando, ao ser convidado para participar de uma antologia de terror, Evan Dorkin (Milk and Cheese e Dork) decidiu criar uma história sobre uma casa mal-assombrada. Por vontade de ir além do costumeiro, inventou, então, uma casinha de cachorros mal-assombrada, fator crucial para que os demais elementos de Beasts of Burden viessem à vida.

A história Abandono, cujo enredo traz como elemento principal um cãozinho atormentado por um fantasma em sua casa, deu origem à série de pequenas histórias, narradas sob o ponto de vista de cinco cães (Pugs, Branquelo, Campeão, Rex e Jack) e um gato (Órfão). O grupo, com a ajuda do “Cão Sábio” (uma espécie de mentor-xamã canino), investiga fenômenos paranormais nas redondezas, que vão de invasões de sapos malignos, cães zumbis, passando por rituais de magia negra. E acreditem: quando o horror se instala, não há fofura que amenize os eventos que seguem. 

Abaixo, listamos cinco motivos para que você leia “Beasts of Burden” o mais rápido possível (e saiba para quem recorrer em caso de atividades animalescas aparentemente inexplicáveis):

1) As personagens de “Beasts of Burden”

Mesmo o quadrinho começando e se desenrolando sem que a leitora saiba muito sobre a vida dos animais, fora os episódios que acarretam na resolução de algum problema, a empatia é imediata. Além de muito fofos, cada um dos cachorros e gatos presentes na obra possui uma característica particular e é quase impossível não se apaixonar por todos logo nas primeiras páginas.

De longe, Pugsley, ou simplesmente Pugs, é um dos personagens mais engraçados; o pug “esquentadinho” não tem papas na língua e enfrenta quem quer apareça em seu caminho. Por outro lado, o husky siberiano Campeão é o ponderado da turma e dono de um dos passados mais tristes dentro do grupo (a história Um Cachorro e Seu Menino é de cortar o coração). Por mais que ele funcione como um líder para o grupo, os demais cachorros e o gato Órfão possuem seus momentos claros de protagonismo. A dinâmica entre eles é espetacular, e em conjunto funcionam como uma “única célula contra as forças do mal”.

Até mesmo as personagens secundárias, como Dimpna, a gata-bruxa, Miranda, uma cadela sacerdotisa e Kid Fujão, o gato amigo de Órfão são importantes e ganham o coração da leitora, mesmo com poucas participações.

Beasts of Burden

Beasts of Burden

Apesar do ar fabular que a narrativa apresenta, os animais não possuem traços humanizados além de pequenas características personificadas como “o brigão”, “o medroso”, etc., e o fato de a comunicação entre eles ser efetiva. Eles possuem problemas/vontades referentes às espécies e não deixam sua vida canina/felina totalmente de lado (apesar de os seres humanos aparecerem poucas vezes ao longo das histórias, a diferença entre eles e os animais é muito bem delimitada).

2) As referências e o gore

Beasts of Burden é uma excelente obra de terror e, para tanto, possui referências a diversas outras obras do gênero, tanto literárias quanto filmográficas. Muito de Stephen King é homenageado, como os livros Cemitério (Pet Sematary) e Cujo: Cão Raivoso, além dos clássicos filmes sobre zumbis Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos (Let Sleeping Corpses Lie, de Jorge Grau), que inclusive é parafraseado no título da história Não se Deve Profanar o Sono dos Cães, e A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead), de George A. Romero. Justamente por isso, muitas cenas chocantes e sangrentas aparecem ao longo da HQ (como dissemos, não se deixe enganar pela fofura).

Ainda sobre Stephen King, a relação entre o Pugs, Rex, Campeão, Jack, Branquelo e Órfão lembra muito a da obra Conta Comigo (Stand By Me, o filme, e The Body, o conto) e, mesmo a história não possuindo um tempo cronológico definido, ambienta a leitora nos melhores clássicos dos anos 80, assim como em Os Goonies.

Beasts of Burden

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3) Os diálogos de “Beasts of Burden”

A comicidade do quadrinho é uma obra-prima à parte. Os trocadilhos feitos e as expressões adaptadas de ditados humanos farão a leitora gargalhar do início ao fim da HQ. Um excelente trabalho de tradução feito por Marília Toledo, que captou muito bem o espírito descontraído dos animais.

Beasts of Burden

4) As aquarelas de Jill Thompson

Jill Thompson foi a escolha primordial de Evan Dorkin ao imaginar sua história se metamorfoseando em quadros. Responsável pela arte de quadrinhos aclamados como O Monstro do Pântano, Mulher-Maravilha, Orquídea Negra e Sandman, a artista carrega em sua bagagem diversos prêmios Eisner. Em Beasts of Burden, as aquarelas parecem ter vida: Jill retrata os animais de forma impressionantemente realista, e cada quadro apresenta inúmeros detalhes que, mesclados ao texto, somam à experiência de apreciação do conjunto da obra.

Beasts of Burden

Beasts of Burden

5) A edição de luxo 

A edição em capa dura trazida pela editora Pipoca & Nanquim remonta aos clássicos livros de contos de fadas: a lombada do quadrinho é estruturada por um material que lembra couro e as cores, fontes e ilustração da capa, vistas de longe, aparentam prenunciar um simples compilado de fábulas, mas o olhar mais atento captará os esqueletos, fantasmas e sapos gigantes aterradores que aguardam a leitora ao virar da primeira página.

Feito com muito carinho, o primeiro volume da antologia traz oito histórias curtas intituladas Abandono, Nada Familiar, Não se Deve Profanar o Sono dos Cães, Um Cachorro e Seu Menino, Aglomeração Tempestuosa, Perdido, No Templo das Tentações Felinas e Acontecimentos Fúnebres. Algumas histórias se interligam e pontas soltas são deixadas para o segundo volume. Destaque para Abandono, Um Cachorro e Seu Menino e Perdido, histórias com uma extrema carga emocional, e que explicitam que os verdadeiros monstros por traz das atrocidades com as quais os animais precisam lidar são, na verdade, os próprios humanos.

O quadrinho conta ainda com uma série de extras contendo um posfácio escrito por Evan Dorkin, alguns sketchbooks feitos por Jill Thompson, bem como breves descrições sobre seu processo criativo e capas alternativas para as histórias. 

Jill Thompson

quadrinho terror

Beasts of Burden
“Grandes ou pequenos… Gordos ou magros… Esse é o destino a que estamos fadados. Fechamos nossos olhos e dormimos.”

Beasts of Burden: Rituais Animais” é a prova viva (ou morta) de que o horror e o terror podem ser multifacetados, quebrar estereótipos do gênero e, ainda assim, entreter, amedrontar e encantar. Uma leitura excelente e uma grande surpresa para os lançamentos de 2017. Vai ficar de fora dessa?


Beasts of Burden: Rituais Animais

Evan Dorkin (autor) e Jill Thompson (arte)

Editora Pipoca & Nanquim

188 páginas

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Escrito por:

86 Textos

É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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