Língua Nativa: nomeando as inomináveis trajetórias femininas

Língua Nativa: nomeando as inomináveis trajetórias femininas

Língua nativa, obra feminista de Suzette Haden Elgin, é o mais novo lançamento da Editora Aleph — e um daqueles livros impossíveis de se largar até o final da leitura. Essencial para discussões sobre papéis de gênero, linguística e a intersecção entre os dois temas, o livro é uma fonte inesgotável para se debater o lugar das mulheres no mundo atual e nos cenários futuros. Abaixo, listamos cinco motivos para você conferir essa obra poderosa, transgressora e marcante.

Capa de Língua Nativa, livro de Suzette Haden Elgin.

O livro inicia com uma incrível introdução da escritora estadunidense Levi Zuma, que cita outra conterrânea importantíssima para o mundo da literatura e dos direitos civis e homossexuais: Audre Lorde. Escritora feminista, mulher negra, lésbica e ativista de ascendência caribenha, em seu texto de 1985, A poesia não é um luxo, ela relata a importância de se nomear o inominado por meio da criação literária, principalmente se tratando das existências plurais das mulheres:

Para as mulheres, portanto, a poesia não é um luxo. É uma necessidade vital à nossa existência.

Compõe a qualidade da luz sob a qual pregamos nossas esperanças e nossos sonhos em relação à sobrevivência e à mudança, primeiro transformadas em língua, depois em ideias, depois em ações mais tangíveis.

Por meio da poesia, ajudamos a dar nome ao inominado para que seja possível pensar a respeito disso.

(pág. 7)

Suzette Haden Elgin (1936-2015), pseudônimo de Patricia Anne Wilkins (a autora escolheu o nome para que suas iniciais formassem a palavra “SHE”, do inglês, “ela”), soube sintetizar muito bem as palavras de Audre em sua vida e em suas obras, levando a ideia de nomear o inominado como mote desta ficção distópica e do seu pensar.

Uma linguagem desenvolvida por e para mulheres

Língua nativa é fruto de vastas pesquisas feitas pela autora no campo da linguística experimental e por sua crença em um mundo em que a violência perpetrada pelo patriarcado deixaria de existir.

A comunicação por meio da criação de uma língua que sintetize o que as mulheres sentem e pensam nos mais variados contextos e sentimentos, para os quais não há um nome, é uma possibilidade que Suzette levanta e esmiúça em seu livro, um sonho possível de ser colocado em prática se já levarmos em conta que as mulheres, desde a aurora dos tempos, encontram formas de se fazerem ouvidas e entendidas, principalmente pela arte da escrita.

Para ela, a linguagem criada em Língua nativa poderia muito bem ser algo feito no mundo real, e serviria de mudança cultural por meio dos pensamentos e teorias das mulheres.

Sobre a sua própria definição da palavra “feminista”, Suzette diz:

Para começar, [“feminista”] contém em si termos ainda não definidos… E a maior parte dessa definição une uma porção de significados para os quais ainda não há palavras ou frases em inglês [ou português] – uma lacuna lexical. Isso eu não tenho como consertar. Mas seria algo mais ou menos assim:

Feministas são pessoas-devotadas-a-substituir-o-patriarcado-pela-Realidade-O

Realidade O é o termo que criei para abranger uma sociedade e uma cultura que possam ser sustentadas sem violências; o patriarcado necessita da violência, assim como seres humanos necessitam de oxigênio. (pág. 8)

A autora também criou a série de não ficção The Gentle Art of Verbal Self-Defense, foi poeta, escritora de ficção científica e fundadora da Science Fiction Poetry Association. Ela é considerada uma pessoa de grande prestígio, sobretudo no que tange a criação de línguas dentro da ficção científica, assim como fez em Língua nativa.

A história de Língua Nativa

Em Língua nativa, publicado em 1984, Suzette cria um mundo distópico em que as mulheres passam a ser descartáveis para a sociedade, com exceção de algumas delas que trabalham como linguistas, após o direito feminino ao voto ser revogado em 1991 nos Estados Unidos.

Salta-se, então, para o ano de 2205, época em que acompanhamos a consequência de severas restrições feitas às mulheres: submetidas às rígidas regras do patriarcado, as personagens precisam da permissão dos homens com quem convivem para realizarem suas necessidades mais básicas, sejam elas trabalhar, opinar sobre determinados assuntos pertinentes à própria família e até mesmo resolver questões relacionadas à saúde.

Em meio a isto, vemos que o mundo agora se divide entre leigos e linguistas; os leigos fazem parte da população que não domina as diversas línguas faladas na Terra, nem línguas alienígenas; esta função é de responsabilidade de treze famílias pertencentes à Linhagem, grupo de linguistas, popularmente chamados de lingos, e encarregados de traduzir e interpretar as mais diversas línguas terrenas e extraterrenas, a fim, também, de estabelecer negócios com nações vizinhas, daqui e de outros planetas.

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Quando não são mais consideradas úteis para suas famílias e para a sociedade, as mulheres linguistas são mandadas para as Casas Estéreis, local em que, reunidas, podem tricotar, cozinhar, conversar sobre os mais diversos assuntos, inclusive criar a própria língua secreta, transgressora e com potencial revolucionário, a láadan.

É por meio de Nazareth Chornyak, uma das linguistas mais célebres de seu meio desde a mais tenra infância, que os ventos da mudança começam a soprar — e prometem abalar até o mais confiante e vil dos homens.

Perfeito para os fãs do livro O conto da aia, de Margaret Atwood, que deu origem à série The Handmaid’s Tale, e do filme A chegada, baseado no conto “História da sua vida”, de Ted Chiang, Língua nativa evoca todo o poder das mulheres em uma narrativa que, em muitos momentos, apresenta e potencializa o horror de se viver em um mundo opressor.

Veja a seguir mais motivos para mergulhar de cabeça no universo do livro!

1. Língua Nativa é um alerta em forma de distopia

Samuel R. Delany, autor da space opera Nova (já em pré-venda na Aleph) diz ao The Paris Review que “a ficção científica não é apenas sobre pensar o mundo lá fora. É também pensar sobre como esse mundo pode ser”. Língua nativa viaja para longe, para o ano de 2205, a fim de denunciar as diversas formas de opressão sofridas pelas mulheres, mas elevadas à máxima potência em um contexto, infelizmente, não muito diferente do nosso.

Por meio de cenários futurísticos, em que pessoas e alienígenas, os chamados ARes (sigla de “Alienígenas Residentes”), travam acordos, fecham negócios e, estes últimos, fazem um intercâmbio cultural para que os terráqueos aprendam sobre suas línguas. Suzette ainda alerta para a importância de as mulheres andarem sempre atentas, amparando umas às outras, para que nenhum direito lhes seja retirado, pois uma coisa é certa: não parará por aí — ele não será o único e o futuro poderá ser catastrófico.

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A única forma de se garantir que a liberdade feminina, adquirida por meio de batalhas travadas há tantos anos e continuamente, se mantenha firme, é se manter vigilante a qualquer sinal de opressão, criando redes de apoio de mulheres, como as das Casas Estéreis, pois é somente em conjunto que nenhuma mulher retrocederá.

2. A linguística como instrumento de compreensão coletiva e de resistência

Ao redor do mundo, e em diferentes grupos, dialetos são criados como uma forma das pessoas se conectarem umas com as outras e de resistirem às diversas opressões sofridas, sobretudo se tratando de minorias. As línguas, por serem vivas, imprimem muito das personalidades e vivências de seus falantes, e têm potencial transformador, algo que acontece também com a língua mulheril, assim chamada por Suzette, em Língua nativa.

No Brasil, temos o exemplo do pajubá, língua utilizada pela comunidade LGBTQIAP+, com seus verbos e substantivos próprios adaptados das palavras utilizadas pelas religiões de matriz africana, que têm um histórico de acolhimento gigantesco para com a comunidade. O pajubá, inclusive, foi muito útil como código para a comunidade se proteger no período da Ditadura Militar.

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Já em Língua nativa, as mulheres criam a láadan para traduzirem aspectos do universo delas que não têm uma palavra definida, no que a autora chama de codificação lexical. Como exemplo, temos doóledosh, que significa “a dor ou a pena que vem como alívio quando a antecipação do que está por vir chega ao fim” (pág. 401); lowitheláad é “sentir, como se fosse na própria pele, a dor/o luto/a surpresa/a alegria/a raiva de outra pessoa” (pág. 402); e wohosheni, “uma palavra que significa o oposto de alienação; sentir-se junto, parte de alguém ou de algo sem reservas ou barreiras” (pág. 404).

O livro oferece um glossário rico em expressões ao final da leitura, e serve como guia enquanto o leitor observa a língua nascer.

3. Personagens femininas fortes e tridimensionais

Além de acompanharmos o mundo de 2205 pelos olhos de homens extremamente cruéis e impiedosos, também conhecemos o mundo de Língua nativa por meio de personagens femininas fortes, dinâmicas e importantíssimas para a trama.

A começar pelas Casas Estéreis, a autora cria uma alegoria para o que realmente acontece no mundo: quando uma mulher é vista como incapaz para o seu cargo, velha demais para ocupar certos espaços sociais, ou quando desafia as regras do patriarcado, ela é descartada como inválida, impura, inútil.

As menininhas ouviam histórias no colo das mães, quando elas tinham tempo para isso, caso contrário ouviam das mulheres nas Casas Estéreis. Ouviam como, muito tempo atrás, as mulheres podiam votar e exercer a medicina e pilotar espaçonaves.

Um mundo de fantasia para aquelas pequenas, tão fabulosa e cintilante quanto qualquer história com castelos e dragões. Ouviam como, naquela época, as mulheres haviam começado a dar os primeiros passos na direção de uma língua própria. (pág. 217)

E, contrariando a ordem natural do que a sociedade estadunidense espera dessas mulheres em 2205, é na suposta esterilidade da casa que elas florescem, juntas, rumo a um novo mundo mais justo para si e para as outras.

Destacamos aqui, primeiramente, Michaela Landry, uma jovem enfermeira que foi vendida (no universo do livro, mulheres que não são linguistas e que são consideradas extremamente belas e habilidosas em serviços do lar são colocadas em agências para serem ofertadas a homens leigos) como esposa para Ned Landry, uma criatura abominável que faz o possível para eclipsar a existência dela.

Michaela é colocada em uma posição de serviçal e só é exaltada por Ned por ser calada e uma excelente ouvinte, além de executar com maestria seus afazeres domésticos. Porém, um evento catastrófico mudará para sempre a vida da personagem, que após muitas provações terá contato com as mulheres das Casas Estéreis, tendo a percepção sobre si e sobre seus pares transformada.

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Já Nazareth Chornyak é uma das linguistas mais renomadas que já existiram. Desde criança, a personagem tem um talento especial para aprender línguas terrenas e alienígenas, e para ensinar aos demais cada uma delas. Importante em negociações com nações visitantes, Nazareth poderia ser exaltada e respeitada, mas é tratada com desdém e menosprezada até mesmo pelo pai, Thomas Chornyak, e pelo marido, Aaron. Ela é peça fundamental para a criação da láadan, e não demorará muito para que seu destino também se cruze com as vidas das mulheres nas Casas Estéreis.

Nazareth e Michaela, mesmo tendo vivências distintas, e até mesmo pertencendo a classes sociais diferentes, mostram que nenhuma mulher está imune às diversas formas de violência vindas do patriarcado. Ambas são personagens ativas que não têm medo de errar, e não se limitam aos papéis que lhes são impostos, encontrando uma força apoteótica dentro si mesmas para transgredirem as regras que aparentavam ser invioláveis.

4. Críticas sociais para além dos papéis de gênero

Para além das críticas ao patriarcado, Língua nativa também expõe as diferenças entre classes sociais, uma vez que os linguistas fazem parte de uma elite privilegiada, enquanto os leigos assumem os trabalhos de base na sociedade.

Além disso, Suzette se atenta e aponta os prejuízos causados por um ensino tradicional que restringe as crianças, literalmente desde o berço, a rotinas educacionais sufocantes e engessadas. Desde muito pequenos, os jovens linguistas têm de se comunicar com os ARes a fim de aprender suas línguas e ensiná-las às outras pessoas, e, para isso, deixam de lado as brincadeiras e o tempo com a família (que, para os homens da obra, é algo pouco importante).

5. A edição brasileira de Língua Nativa

A edição de Língua nativa trazida pela Editora Aleph apresenta muitas novidades, uma delas a Órbita, uma plataforma que expande a leitura e contém textos de apoio, entrevistas, incluindo a de Jana Bianchi, escritora e tradutora da obra para o português, e uma playlist com músicas imperdíveis para a imersão na trama. Ela pode ser acessada por meio de um QR code na folha de guarda do livro. Você pode acessá-la clicando aqui.

A capa e o design gráfico do livro também são um show à parte: assinados pela ganhadora do Prêmio Jabuti, Giovanna Cianelli, o projeto de Língua nativa é admirável e sintetiza toda a criatividade de Suzette por meio de cores e texturas muito plurais, assim como a história.

Adquirindo o livro aqui, você ganha um marcador de páginas especial e um card colecionável personalizado. Língua nativa é uma obra indispensável para todas as pessoas apaixonadas por distopias e que, sobretudo, lutam por um mundo justo e igualitário para todas, todes e todos.

Veja a seguir alguns detalhas da incrível edição:

Língua nativa: nomeando as inomináveis trajetórias femininas

Detalhes da edição de Língua nativa, lançado pela editora Aleph em 2023.

Detalhes da edição de Língua nativa, lançado pela editora Aleph.

Edição de Língua nativa, clássico do sci-fi que chega agora ao Brasil.

Detalhes da edição de Língua nativa, livro de Suzette Haden Elgin.

Citação de Audre Lorde no livro "Língua Nativa"

Primeiro capítulo do livro Língua Nativa.

Apêndice da obra Língua Nativa.

Dicas de obras audiovisuais para você curtir após a leitura transformadora de Língua nativa:

She's Beautiful When She's Angry - Dicas de filme pra quem gostou sobre do livro de Suzette Haden Elgin.

Mad Max: Fury Road - Dica de filme pra quem curtiu o livro Língua Nativa.

Moxie: Dica de longa pra quem curtiu o livro de Suzette Haden Elgin.

Don't Worry, Darling - Dica de filme pra quem curtiu a leitura.

A Chegada - Dica de filme pra quem curtiu o livro de Suzette Haden Elgin.

O Poder - Dica de série pra quem curtiu o livro de Suzette Haden Elgin.

The Handmaid's Tale - Dica de série pra quem curtiu o livro de Suzette Haden Elgin.

Crédito: Fotos/colagem por Laís Fernandes


Língua Nativa

Autora: Suzette Haden Elgin

Tradutora: Jana Bianchi

440 páginas

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Escrito por:

117 textos

Formada em Letras, pós-graduada em Produção Editorial, tradutora, revisora textual e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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