Aline Valek: “a realidade já é bem absurda, se olharmos com atenção”

Aline Valek: “a realidade já é bem absurda, se olharmos com atenção”

Aline Valek conta histórias. A ilustradora e autora mineira, crescida em Brasília, é uma das grandes vozes da ficção insólita no Brasil. Insólito, no dicionário, descreve o que “é infrequente, raro, incomum, anormal”, o que “se opõe aos usos e costumes; contrário às regras, à tradição”. Ficção insólita é a que extrapola a realidade para o extraordinário, e Valek a escreve com maestria.

A autora está publicando na internet desde 2009, e entre o blog, o podcast Bobagens Imperdíveis e a newsletter Uma Palavra, já povoou as redes com uma infinidade de pensamentos. Seu olhar observador e suas pesquisas profundas são quase arqueológicas, desenvolvendo narrativas que nos guiam gentilmente para o fundo. 

Seus romances seguem a mesma linha: o sci-fi oceânico As águas vivas não sabem de si foi seu romance de estreia pela Rocco. Acompanhamos Corina, mergulhadora, em uma estação subaquática de pesquisa. Com trajes à prova da pressão marítima, os personagens exploram a profundidade abissal como astronautas em uma missão espacial. A narrativa cheia de detalhes nos envolve e arrasta para o fundo do mar.

Aline Valek centralizada, dos cotovelos pra cima, vista de frente. Ela está vestindo uma camisa escura, colares, um óculos de grau redondo, e seu cabelo cacheado está acima do ombro.
“A perspectiva não-humana acaba se manifestando em muito do que escrevo” (Aline Valek) | Imagem: Reprodução do site da autora

Cidades afundam em dias normais, seu trabalho seguinte, conta a história de Alto do Oeste – cidade que lentamente afundou em um desastre climático a conta gotas, e anos depois re-emerge. Somos guiados pelo olhar de Kênia, fotógrafa e ex-moradora, além dos relatos e diários encontrados pelo caminho. Somado aos romances, temos seus trabalhos de ficção curta, como o eBook Neuroses à Varejo.

Sua aparição editorial mais recente é na edição de Irmãs da Revolução: uma antologia de ficção especulativa feminista publicada pela Editora Aleph, que conta com nomes como Octavia Butler, Ursula K Le Guin, e Aline Valek na edição brasileira. Nessa entrevista, Aline nos conta como  funciona seu processo de pesquisa, quais são suas inspirações e como foi escrever A mulher que vestiu a montanha para a antologia.

Delirium Nerd: Aline, como é o seu processo de pesquisa e busca por referências? Há diferença quando é para ficção ou não ficção?

Escrever acaba sendo a justificativa perfeita para pesquisar tudo o que me interessa. É um processo caótico e obcecado, em que vou cavando um assunto até não dar mais. Parte dessa pulsão eu direcionava para transformar em episódios do meu podcast. A pesquisa muitas vezes tomava caminhos inusitados, o que se refletia nos roteiros.

Por exemplo, quando comecei a pesquisar sobre o caju para um episódio de Bobagens Imperdíveis, esbarrei nessa figura que foi um pioneiro do design brasileiro, o pernambucano Aloísio Magalhães. Comecei a cavucar a vida do homem inteira, fui atrás de tudo o que ele fez, li um bocado de artigos acadêmicos sobre ele, assisti vídeos, fui pedir pro IPHAN acesso à pesquisa que ele organizou sobre o caju, e quando vi, uma fruta tinha me levado por um caminho que passava por design, pelo desenvolvimento de políticas voltadas à cultura, pela própria identidade brasileira. 

Gosto de me manter aberta para deixar a pesquisa me levar por caminhos que eu não imaginava, mas também é fácil eu me perder em assuntos paralelos por pura curiosidade, como a vez em que uma pesquisa me levou a passar uma quantidade considerável de horas lendo sobre o processo de preparação da Ísis Valverde para interpretar uma sereia. Precisava? Não, mas fiquei fascinada em descobrir o esforço necessário para conseguir mergulhar com uma cauda. 

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A única diferença de uma pesquisa para ficção é que ela é direcionada a partir de um personagem. Por exemplo, para escrever Cidades afundam em dias normais, que é protagonizado por uma fotógrafa, pesquisei muito sobre fotografia, tanto para saber da parte técnica quanto teórica. Isso me ajudou a entrar na cabeça da personagem, a descobrir o que ela estava buscando quando empunhava a câmera dela. A maior parte das informações que eu pesquiso acaba nem aparecendo no texto, mas são os tijolinhos que me ajudam a chegar até ele.

Delirium Nerd: E quais são as suas influências, literárias e não literárias? 

Haruki Murakami, Julio Cortázar, Ariano Suassuna e Elvira Vigna são algumas das minhas principais referências literárias. Gosto muito da visão artística do Donald Glover. Os quadrinhos do Neil Gaiman conversam muito comigo. Acho Laerte genial. Carl Sagan também ajudou a formar minha visão sobre o universo. Essa lista poderia continuar por horas, sou feita dos pedacinhos de muitas pessoas.

Fundo amarelo, Aline Valek de perfil, com efeito azulado e foco na silhueta. Uma ilustração de abelha amarela está em cima da imagem.
Foi a internet que me tornou escritora, por mais que o Livro (…), seja considerado por muita gente o único meio capaz de validar alguém como escritora.” (Aline Valek) | Imagem: reprodução de promocional do podcast

Delirium Nerd: Na antologia Irmãs da Revolução o foco é a ficção especulativa feminista. Com essa premissa, como foi escrever seu conto “A mulher que vestiu a montanha”?

Eu tinha uma ideia de usar o corpo como ponto de partida. O corpo é o território explorado, invadido e capturado em função do lucro de alguns poucos ao decorrer de boa parte da história humana. Então criei uma personagem, a Devra, que me mostraria o que significa viver em um mundo completamente virtual em que as pessoas passam boa parte de suas vidas dentro de um corpo digital. Foi quando começou a surgir o contorno da narrativa e do mundo onde ela se passa.

No conto, o planeta ficou inóspito a tal ponto que as pessoas só conseguem viver em cidades subterrâneas, onde elas interagem, trabalham, viajam e conversam conectadas nessa grande plataforma chamada Virtuas. Devra é uma artista que cria cenários para turismo virtual, porque a única forma de ver paisagens diferentes é por meio desse ambiente digital, mas ela começa a se cansar de criar cenários de mentira. 

A história passa pela exploração do trabalho, mostra uma corporação exercendo poder sobre os corpos e vidas das pessoas, até mesmo reivindicando posse sobre as experiências delas, além de mostrar a pressão estética que molda a visão que temos de nós mesmas e nos leva a buscar a todo custo essa aparência ideal. A natureza dá um jeito de entrar pelas frestas da história e transformar a visão de Devra.

A perspectiva não-humana acaba se manifestando em muito do que escrevo, e neste conto essa invasão fazia todo sentido. O planeta também é nosso corpo, e está submetido à mesma exploração e repressão que mulheres, mas não só, conhecem muito bem. 

Delirium Nerd: Um traje que permite mergulhar no vazio abissal do mar, uma cidade que afunda no rio e emerge anos depois, uma mulher que quando ninguém está olhando fica invisível. O insólito sempre foi presente nas suas narrativas? O que te atrai nele?

A realidade já é bem absurda, se olharmos com atenção. Não sinto que estou inventando elementos muito distantes da realidade. E, quando acho que estou, vem a vida real e me esfrega na cara que ela sempre pode superar a minha imaginação no quesito absurdo. Basta uma olhada no noticiário para eu sentir que minha posição como autora de ficção especulativa está constantemente ameaçada. O insólito é só um ângulo de observação.

Há alguns dias li um artigo do André Araújo na Suplemento Pernambuco que revirou o que eu entendia como literatura insólita. O absurdo ou o fantástico é mais uma questão de onde e quando se lê determinada história, do que uma característica inerente à obra em si. E aquilo que é considerado “realismo” na literatura é apenas reflexo do que já foi naturalizado, estabelecido como padrão.

Por exemplo, o realismo mágico ser considerado insólito, no sentido de oposto à “realidade”, teria mais a ver com a literatura latino-americana, assim como a realidade latino-americana, ser colocada em um lugar de exótica e encantada pela lente europeia, que por sua vez seria mais “realista”.

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Então não deixo de estar bem ancorada à realidade quando escrevo minhas histórias, porque é nela que observo esses elementos que para mim são inexplicáveis, como o desentendimento entre pessoas que falam a mesma língua, o abandono, a violência, a experiência da solidão. São essas as coisas mais estranhas que eu busco investigar quando faço ficção. Uma forma de tentar entender o que para mim é verdadeiramente absurdo, surreal.

Delirium Nerd: Além de livros, você está na internet publicando desde 2009 – newsletters, podcasts, blogs. Como esses formatos, os algoritmos, a interação online influenciam a sua escrita?

Foi a internet que me tornou escritora, por mais que o livro (impresso, publicado de forma tradicional por editoras), seja considerado por muita gente o único meio capaz de validar alguém como escritora. O que publico no meu blog, no meu podcast, na minha newsletter, em ebooks, enfim, minha produção digital é parte integrante do meu projeto artístico, tanto quanto os romances. Acho que cada geração de escritores pôde tirar vantagem de alguma inovação da sua época.

Usar uma máquina de escrever permitiu escrever de uma forma diferente do que a galera que precisava escrever à mão, porque não tinha outra opção. E é isso, a internet é uma ferramenta. A agilidade de produção que ela permite pode tanto atrapalhar quanto ser usada como uma vantagem.

Gosto de poder escrever e lançar e já receber o feedback dos leitores assim, sem intermediários, o que me permite errar, testar e experimentar mais. Mas muitas vezes esse ritmo da internet já me levou à exaustão. A internet também me permite acesso a uma quantidade absurda de informação. O que seriam das minhas pesquisas sem ela? Ao mesmo tempo que é essa biblioteca praticamente infinita, é fácil se perder nesse labirinto e cair nas armadilhas da comparação, da cobrança, da busca por popularidade, que são forças extremamente anti-criativas.

Delirium Nerd: Aline, muito obrigada por estar aqui! Por onde as pessoas podem te encontrar e acompanhar seu trabalho?

Eu adoraria convidar as pessoas a conhecerem o meu site, em alinevalek.com.br! Sei que hoje em dia quase ninguém entra em site, mas recomendo a experiência de visitar outros ambientes que não sejam redes sociais, só para descansar as vistas. Também porque caprichei nesse espaço para receber bem as visitas, deu trabalho deixar bonito assim! E lá você encontra tudo, meus livros, meu podcast, o link para assinar minha newsletter, o link para meu curso, enfim, o melhor ponto de partida para me stalkear.

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Bia é formada em economia, pesquisadora e escritora. Obcecada por internet e cultura, gosta de escrever para entender o mundo. É leitora assídua de todo tipo de ficção, ama debater filmes e faz perguntas sobre quase tudo - pelo prazer de buscar a resposta.
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