Quando Deus era Mulher: o apagamento de mulheres e da Deusa ao longo dos séculos

Quando Deus era Mulher: o apagamento de mulheres e da Deusa ao longo dos séculos

E se a humanidade vivesse atualmente como em séculos atrás, quando deusas eram veneradas e mulheres eram priorizadas e respeitadas em seus cargos religiosos e políticos nas sociedades primitivas? Como o mundo, principalmente os homens, nos enxergariam e tratariam?

No mais novo lançamento da editora Goya (selo da editora Aleph), Quando Deus era mulher, a escritora, artista e acadêmica norte-americana Merlin Stone reflete acerca do tratamento oferecido às divindades femininas — sobretudo à Deusa primordial — e às mulheres na aurora dos tempos. Como elas foram sendo silenciadas com o passar dos anos até sentirem na pele, completamente, as dores e o peso de apenas existirem? A poderosa obra de Merlin trará as respostas.

Muitas de nossas dores foram articuladas por uma sociedade que se recusou a admitir que Deus foi mulher um dia.

(Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da agência Obvious, para o prefácio de Quando Deus era mulher, página 10.)

Parafraseando a escritora equatoriana María Fernanda Ampuero em um de seus contos1, ser mulher é engolir abismos. Desde pequenas, mulheres são ensinadas a saborearem caladas as profundezas da insegurança quanto à natureza dos próprios corpos e da necessidade de serem boas em tudo, mas de não se destacarem muito mais do que os homens.

Enquanto se desdobram em várias para conseguirem concluir as dezenas de tarefas corriqueiras, ainda têm de lidar com as violências de gênero que uma sociedade misógina e patriarcal não só pratica como também influencia outras pessoas a perpetuarem — mas nem sempre foi assim.

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Quando Deus era Mulher, livro da autora Merlin Stone, lançado recentemente pela Editora Goya (Aleph)
Quando Deus era Mulher foi lançado recentemente pela Editora Goya.| Imagem: Delirium Nerd

Em Quando Deus era mulher, livro lançado em 1976, Merlin Stone (1931-2011), em uma extensa pesquisa de quase uma década, se debruçou sobre os séculos nos quais as mulheres eram priorizadas e respeitadas nas sociedades, comportamento refletido de modo intenso na religião e nas formas de culto desde a Pré-História.

Este fato fica evidente por meio do descobrimento de monumentos e estatuetas de formas femininas em sítios arqueológicos, objetos e locais que evidenciavam o poder da mulher não somente como responsável pela origem da vida, como também pelas tomadas de decisões dentro de seus lares e nos demais setores de suas localidades.

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A Vênus de Willendorf
A Vênus de Willendorf | Imagem: divulgação

Uma figura marcante e muito conhecida quando relembramos as aparições da Deusa2 na Antiguidade é a estátua da Vênus de Willendorf, localizada na Áustria, datando do Paleolítico Superior (cerca de 25000 a.C.). A imagem da mulher com grandes seios, nádegas e barriga é vista até hoje como um dos símbolos mais marcantes Dela e de Sua relação com a fertilidade celebrada na época, um dos vieses de seu culto.

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No princípio, havia a Deusa — e somente Ela

Há quem diga que, desde que o mundo é mundo, o Deus cristão, grafado com “D” maiúsculo, onipotente e onipresente — assim como Zeus, Osíris e demais divindades masculinas —, existia e era cultuado entre seus adoradores, mas não foi bem isto que Merlin descobriu: datando do início do período Neolítico (7000 a.C.), no despertar do desenvolvimento humano, Deus era, sim, mulher.

A Grande Deusa, também conhecida como a Divina Ancestral, era quem nutria o mundo em toda a glória das descobertas no alvorecer dos tempos, momento histórico em que os mistérios do surgimento do dia e da noite, da existência das colheitas e dos demais ciclos de vida e morte começavam a ser desvendados.

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Segundo Merlin, o surgimento Dela remonta à memória que os habitantes do Neolítico tinham de suas ancestrais mulheres, uma vez que aspectos ligados a estas parentes, como o ato de sonhar com elas após um falecimento, por exemplo, era algo lido como um contato sobrenatural e inexplicável — logo, divino.

Juntando-se isto ao fato de que mulheres são capazes de dar à luz havia, portanto, diversas razões para que elas se tornassem o centro da Antiga Religião, cuja figura principal era a Deusa. E em uma sociedade que cultua uma figura feminina, todas as outras figuras femininas são vistas como sagradas.

Muitos textos arqueológicos mencionavam a religião feminina como ‘culto da fertilidade’, revelando, talvez, as atitudes com relação à sexualidade presentes em várias religiões contemporâneas e que podem ter influenciado tais autores.

Mas as evidências arqueológicas e mitológicas da veneração à divindade feminina como criadora e regente do universo, profeta, provedora do destino da humanidade, inventora, curadora, caçadora e líder valorosa nas batalhas, sugere que o título ‘culto da fertilidade’ pode ser uma grosseira simplificação de uma complexa estrutura teológica.” (pág. 21)

Porém, falar sobre a Deusa não é apenas falar acerca da existência de vida quanto à concepção pura e simples, mas sim de todas as ramificações do existir que derivam Dela e para Ela. A Deusa estava presente na pele de Suas sacerdotisas e nas funções das demais mulheres, que eram guerreiras, chefes de seus lares, donas de comércios e de terras e figuras detentoras da sabedoria e do poder soberano em suas regiões.

No Oriente Próximo, as divindades femininas eram conhecidas como Rainha do Céu. No Oriente Médio e em diversas regiões da Europa, a Deusa e Suas sacerdotisas tinham diferentes nomes e faces: Nut, Sarasvati, Brigit, Maat, Ísis, Astarte, Diana, Ishtar e Cerridwen foram apenas algumas das nomenclaturas utilizadas para cultuarem Ela, em todo o seu esplendor, potência e força — até que os homens decidiram intervir com truculência e iniciaram um processo aterrador de apagamento.

O apagamento da Deusa no decorrer dos séculos

Muito se especula acerca de quem iniciou de fato o grande apagamento da Deusa, para que um deus masculino tivesse soberania nas religiões, e em qual momento da História isso passou a acontecer.

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Em suas pesquisas, Stone identificou que a ideia de uma divindade masculina atrelada a uma feminina já datava da Antiguidade, quando as deusas, dentro de suas cosmogonias, passaram a juntar-se a uma figura que poderia ser um filho ou marido.

Em certos momentos do ano, o consorte/filho morria para que a Deusa o pranteasse e, com isto, desse início a uma nova estação do ano, uma vez que a natureza estava ligada aos ciclos de morte e renascimento. No entanto, a Deusa era soberana à figura masculina, este lhe servindo para o sexo e a reprodução, algo que as sacerdotisas reproduziam também nos templos, em nome Dela.

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A partir do momento em que os povos, sobretudo os indo-europeus, ou arianos, passaram a invadir locais em que o culto à Deusa era predominante, e tiveram contato com uma cultura vista por eles como libertina, tudo mudou.

Os templos passaram a ser destruídos no decorrer das conquistas, assim como as imagens das deusas; sacerdotisas eram violentadas e assassinadas junto a todos que frequentavam os templos e professavam sua fé, vista pelos invasores como impura; e a religião da Deusa foi estraçalhada e seus estilhaços atingem as mulheres até hoje.

Porém, foi com os hebreus, provindos da região de Canaã, liderados por Abraão, que as investidas contra a memória da Deusa ganhou ainda mais força. Não tardou para que principalmente o cristianismo e as escrituras bíblicas colocassem a Ela e a todas as mulheres como seres pecaminosos, frutos da desobediência — as filhas de Eva.

“(…) essas passagens sugerem que muitas das mulheres mais tarde vistas como esposas dos israelitas podem ter sido as moças que assistiram à morte de toda a sua família e a de seus amigos, e a destruição de sua casa e sua cidade.

A combinação de medo e trauma que devem ter sentido ao serem levadas dessa maneira para as tribos dos hebreus, somada às lembranças da religião e dos costumes de sua infância, devem ter tornado muito difícil a atitude e posição delas na vida dos homens desse povo.

Posto que não há listagem do número de mulheres nas tribos hebreias, essas passagens sugerem também que, quando os hebreus saíram do Egito, a porcentagem de homens deve ter sido muito maior. Cada um desses fatores pode ajudar a explicar a aceitação das novas leis patriarcais por parte das mulheres hebreias.” (pág. 204)

Vistas como pecadoras, sujas, endemoniadas, mulheres comuns, sacerdotisas, rainhas e guerreiras foram perdendo espaço para uma religião monoteísta e patriarcal.

A ideia de matrilinearidade, que não colocava a mulher acima dos homens, mas sim demonstrava sua importância na sociedade, caiu por terra e deu cada vez mais espaço para o patriarcado, para o machismo e a violência perpetrada de tantas formas e intensidades. Proibidas de expressarem a própria sexualidade, vistas como bruxas e feras, fomos sentenciadas ao claustro e às fogueiras para sufocarmos de qualquer maneira.

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Merlin Stone pontua que o projeto de apagamento da religião da Deusa foi um ato político, como tudo o que nos cerca. Reprimir mulheres com base em uma visão unilateral, masculina e problemática dos fatos é perigoso, mas infelizmente é algo que se vive todos os dias quando se é mulher.

Quando Deus era Mulher é uma obra que dialoga com o nosso tempo e, portanto, importantíssima para que os erros dos séculos passados não sejam repetidos no presente e reverberem no futuro de nossas meninas.

A Deusa nos dias atuais: onde A encontramos?

A completa obra de Merlin Stone nos ensina a encontrar a Deusa todos os dias dentro de nós mesmas, não apenas em uma perspectiva esotérica, como também dentro de nossas raízes, na memória coletiva do que nossas ancestrais viveram algum dia, nos exemplos de luta e força que tanto nos foram minados.

A Deusa desperta todas as vezes em que uma mulher não cede aos caprichos masculinos, quando ela levanta a própria voz e a de tantas outras para que, juntas, se façam ouvidas e, assim, retomem os espaços que nos são de direito desde o início dos tempos.

A Grande Mãe floresce em Marielles, Amelinhas, Ninas, Angelas, Octavias, Dandaras, Gals, Bethânias, em toda voz e resistência que Dela veio e que se ergue sobre um mundo que ainda há de mudar para melhor.

Quando Deus era Mulher convoca não somente as mulheres, como também os homens, a repensarem uma sociedade em que haja, de fato, a igualdade entre os gêneros, em que nenhuma mulher a mais precise ter seu templo — físico, psicológico ou espiritual — derrubado para que o patriarcado erga à força sua morada.

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Com uma escrita fluída e uma extensa bibliografia de apoio, Merlin Stone criou uma joia rara necessária, que agora está ao alcance dos leitores brasileiros em uma linda edição em capa dura, com diagramação confortável, cuja capa com a imagem da deusa grega da lua e da caça, Ártemis, e projeto gráfico são assinados pela vencedora do Prêmio Jabuti Giovanna Cianelli.

Além de Giovanna, todas as outras envolvidas no processo do livro foram mulheres, o que torna esta edição ainda mais especial: Angela Lobo de Andrade (tradução), Marina Góes (copidesque), Juliana Pitanga e Thaís Carvas (revisão) e Anna Beatriz Seilhe (coordenação).

Detalhes da edição de Quando Deus era Mulher

Detalhes da edição de Quando Deus era Mulher (2022), da editora Goya

Página da edição de Quando Deus era Mulher, lançada pela editora Goya

Capa traseira da edição de Quando Deus era Mulher, lançada pela editora Goya

Trecho de O Segundo Sexo na edição de Quando Deus era Mulher, da autora Merlin Stone

Imagem da Vênus de Willendorfna na página do livro Quando Deus era Mulher.
Fotos: Laís Fernandes para o Delirium Nerd.

Sobre a autora

Merlin Stone tornou-se uma das maiores referências em teologia feminina após anos se dedicando aos estudos de arqueologia e das religiões da antiguidade, sobretudo as cultuadas por mulheres.

Autora Merlin Stone
Merlin Stone | Imagem: divulgação

Quando Deus era Mulher é sua obra principal, cuja visão ampla inspirou o movimento feminista da década de 70 e serviu de base para o documentário Goddess Remembered, dirigido por Donna Read e lançado em 1989. A autora aparece em um trecho do documentário junto a diversas mulheres importantes para o cinema, a literatura e o culto à Deusa, como a célebre sacerdotisa e ecofeminista Starhawk. Você pode assisti-lo aqui.

Indicações de obras que conversam com Quando Deus era Mulher

Os filmes e álbuns abaixo evocam a potência feminina e perpetuam os ensinamentos da Deusa na contemporaneidade, além de nos fazer refletir sobre os papéis de gênero em nossa sociedade.

Ao final da lista, deixamos como indicação a nossa playlist de músicas que ecoam a voz da Grande Mãe através de grandes intérpretes do mundo todo, servindo de ótima companhia para a leitura arrebatadora de Quando Deus era mulher.

Documentário Goddess Remembered (1989)

Filme A Bruxa (2015)

If I Can't Have Lovem I Want Power (2021)

Minissérie As Brumas de Avalon (2001)

Álbum Deus é Mulher, Elza Soares

Álbum Dance Fever, Florence + The Machine

Álbum If I Can't Have Love, I Want Power, Halsey


O fato é que, no início de tudo, Deus era mulher e nós éramos respeitadas como sempre deveríamos ser — mas nunca será tarde demais para continuarmos lutando pela retomada do nosso espaço de glórias e reconhecimento (e a leitura da obra de Merlin Stone nos ajuda profundamente quanto a isto).

***

Notas:

1Conto “Irmãzinha”, de María Fernanda Ampuero. A frase ipsis litteris é “(…) Garotas sempre, sempre, sempre comem abismos”.

2Por uma questão de apagamento também de ordem semântica, utilizamos letras maiúsculas para nos referirmos ao nome da Deusa, aos seus pronomes e artigos, assim como a religião cristã se refere ao próprio Deus, uma vez que no livro Merlin frisa esta necessidade.


Quando Deus era Mulher Quando Deus era Mulher

Autora: Merlin Stone

Tradutora: Angela Lobo de Andrade

Editora Goya

304 páginas

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Escrito por:

108 textos

Formada em Letras, pós-graduada em Produção Editorial, tradutora, revisora textual e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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