CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 3×04: God Bless The Child

CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 3×04: God Bless The Child

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Depois do lançamento em conjunto de três episódios iniciais, The Handmaid’s Tale, série produzida pela rede de streaming Hulu e baseada nos livros homônimos de Margaret Atwood, volta a ter um episódio por semana. O retorno da série foi morno. E era impossível dizer se havia finalmente parado com a exibição de violência, característica da série – algo que levanta debates entre o uso da violência na mídia pela crítica ou por um entretenimento insensível às dores das mulheres ou aos efeitos da reprodução da violência em tela – ou se apenas aguardava para inseri-la em outros momentos. E ainda é difícil revelar essa informação. Talvez os produtores estejam à espera de um momento que cause maior choque, quando ninguém mais esperar.

O quarto episódio de The Handmaid’s Tale, intitulado “God Bless The Childsegue, então, a linha dos três primeiros. Contudo, embora também mais morno, volta a trazer flashbacks, atos de agressão – ainda que não tão incômodos quanto outros já explícitos, porque não se tratava de violência sexual – e a emocionar. Foca, assim, na trajetória de June (Elisabeth Moss) em sua tentativa de implodir Gilead. Mas também foca no retorno de Emily (Alexis Bledel) à sua antiga vida, embora nada possa ser igual após a experiência traumática pela qual ela passou.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS

God bless the child

Holly (Cherry Jone) e June (Elisabeth Moss)
Holly (Cherry Jone) e June (Elisabeth Moss) (Foto: Reprodução)

“God Bless The Child”, como o próprio nome revela (“Deus abençoa a criança”) aborda o batizado em Gilead. Ou seja, quando as crianças são abençoadas pelo Deus de um regime baseado no cerceamento da liberdade e na submissão feminina. E é interessante que, embora outros nascimentos tenham sido registrados em The Handmaid’s Tale, a sessão coletiva de batizado venha apenas após o nascimento e desaparecimento de Nichole. Talvez seja até um pouco forçado. A série, contudo, não se esforça em justificar as razões por não realizar a sessão antes. Por outro lado, todavia, é também interessante ver novas facetas da rotina de Gilead, além dos casamentos e do ordenamento de jovens meninas.

Isto desperta, assim, em June a memória do batizado de Hannah. No passado, Luke (O-T Fagbenle), Moira (Samira Wiley) e Holly (Cherry Jones) unem-se para batizar Hannah segundo a vontade de June. Apesar das críticas à religião, era a vontade dela, como mãe, que sua filha fosse batizada. E no presente, uma jovem Nichole também passa por esse ritual nos braços, então, de seus padrinhos, Luke e Moira. Ambos, apesar tudo pelo que passaram, respeitam o que seria a vontade da mãe de Nichole, June, e prometem protegê-la. Afinal, ela não tem culpa dos “pecados” da sociedade de que vem. Não tem culpa de ter sido originada de um sistema que cresce sobre o estupro de mulheres. Não tem culpa de ter tido que fugir para crescer em liberdade.

O retorno de Emily em The Handmaid’s Tale

Emily e Oliver
Emily (Alexis Bledel) e Oliver (Charlie Zeltzer) (Foto: Reprodução)

Diferentemente de Nichole, contudo, Emily não pode simplesmente receber a bênção de um Deus e seguir em frente. Tampouco pode apagar as memórias do que viveu em GIlead e seguir sua vida como se nada tivesse acontecido. Algo aconteceu para ela. E algo aconteceu para sua família.

No terceiro episódio de The Handmaid’s Tale, intitulado “Useful“, Emily toma coragem e liga para sua antiga esposa, Sylvia (Clea DuVall). E apesar de ser bem recebida, fica claro o incômodo das duas que não sabem, então, como reagir à situação. Não é, contudo, de se estranhar. Enquanto Emily estava submetida a formas de violência diversas, Sylvia estava cuidando do filho das duas, vivendo uma vida que também fora marcada pela violência – pela retirada brutal de um ente, pela fuga. Mas a dor é diferente.

Sylvia e Oliver (Charlie Zeltzer) aprenderam a viver com a perda, mas podiam viver. Oliver ainda tinha uma de suas mães lendo história de ninar. E por mais que as fotos de Emily continuassem em sua estante, ela não estava ali para ser parte de sua história. E é nesse fluxo de uma vida em movimento que Emily precisa entrar. O movimento, entretanto, é doloroso. Desperta as memórias do que se perdeu, mas também desperta a incerteza do próximo passo. Será que ela está pronta para um abraço? Até onde vão, enfim, os traumas da violência, considerando as diferenças individuais.

O reencontro de Emily com Sylvia e Oliver é, sem dúvidas, o ponto alto do episódio. Emociona ver outro lado da história, uma que trata sobre o depois, os efeitos do trauma e da violência.

A ira acumulada de Gilead

June (Elisabeth Moss)
June (Elisabeth Moss) (Foto: Reprodução)

É preciso notar que a personagem de Emily ganha mais destaque a cada temporada. O que, no entanto, ainda não estava tão claro era por que a personagem mexia tanto com as pessoas. E a resposta a que se pode chegar, assim, é porque Emily mostra uma fragilidade real, mas que The Handmaid’s Tale não se permite colocar na protagonista June.

Por um lado, é uma escolha de demonstrar diferentes reações ao efeito Gilead. E isto se revela também com as explosões de Tia Lydia (Ann Dowd). Desde que foi esfaqueada por Emily, passou a ter rompantes de ira direcionados às aias. No episódio anterior de The Handmaid’s Tale, deu uma carga de choque em June. Neste, espancou Janine (Madeline Brewer), a única aia que mostrou compaixão com ela.

Por outro, todavia, parece se apegar à concepção da mulher invencível. Ou seja, Emily conquista pela vulnerabilidade que gera reconhecimento. Mas a protagonista June precisa ser exemplar. E apesar de momentos de vulnerabilidade de June já terem sido brevemente representados na temporada anterior, é possível que, entre tantas idas e vindas, tantos obstáculos superados, a série esteja perdendo um pouco de June como mulher real? E se June não fosse capaz de suportar todas as dores de Gilead? E se ela não for?

Trata-se da linha tênue entre a fragilização das personagens femininas e o endeusamento delas, uma separação que afasta a realidade de mulheres que são fortes, mas não o são a todo momento. Sim, June sofreu e muito na série, e não se pretende diminuir as suas dores. Mas chega um momento em que se pergunta: por que e como até agora ela conseguiu? June está longe, contudo, de sair ilesa de Gilead. De forma diferente de Emily, ela também sente, no entanto, os efeitos de Gilead.

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O conflituoso sentimento da vítima de estupro

Comandante Fred (Joseph Fiennes)
Comandante Fred (Joseph Fiennes) (Foto: Reprodução)

Pela primeira vez, o sentimento que ela nutre em relação a Fred Waterford (Joseph Fiennes), é mostrado pela perspectiva da discussão acerca do conflituoso sentimento da vítima de estupro. E é importante, desse modo, evidenciar esse dilema. Como a personagem diz, o sentimento não é ódio, mas não é amor.

Na primeira temporada de The Handmaid’s Tale, uma relação ambígua começou a se formar. June chega, inclusive, a acreditar no afeto de Fred, o que logo se revela como mais da misoginia do personagem. Ela, contudo, se utiliza também do vínculo estabelecido entre eles como forma de estratégia política. Mas, o que há de fato ali para que, mesmo não sendo mais sua aia, ela mantenha uma relação de cordialidade, longe do ódio que acredita que deveria nutrir por ele?

A questão é mais profunda. A maior parte das pessoas acredita que o estupro se dá por um modelo estereotipado de ausência de consentimento. Acham, assim, que todo estupro ocorre num beco escuro, por um desconhecido que, através da força física, viola o corpo de uma mulher. Mas desconhecem que os números revelam uma realidade de estupros praticados dentro de lares, por conhecidos, pessoas com quem a vítima mantém um vínculo, através de violência psicológica – quando não também pelo uso da violência física.

June morou no lar de Fred, conviveu com ele e Serena (Yvonne Strahovski). Compartilhou segredos sobre contravenções ao sistema. E embora fosse sua aia, criou vínculos na tentativa de sobreviver ali. Por essa razão o sentimento de June é finalmente descrito através de um conflito real, vivenciado por vítimas de estupro que nem sempre odiarão seus agressores ou se desvincularão deles ou cortarão o contato, embora racionalmente saibam o que eles fizeram com elas.

As mulheres divididas de The Handmaid’s Tale em um processo de união

Serena Joy (Yvonne Strahovski)
Serena Joy (Yvonne Strahovski) (Foto: Reprodução)

Enfim, a resposta para a sobrevivência de June – além de uma óbvia escolha de séries com, claramente, um protagonista – talvez resida nas estratégias empregadas por ela. Como ela observa a Serena no episódio anterior de The Handmaid’s Tale, as mulheres devem observar os homens até que possam agir. E como alguns comandantes discutem em “God Bless The Child”, “as espertas são um problema”. Assim, enquanto todos se reúnem para a cerimônia de batizado, June observa os homens. Mas também observa as mulheres separadas por suas castas e cores. Busca, desse modo, quem ali pode ser sua aliada, pois é uma falácia acreditar que todas as mulheres se aliarão à resistência. Algumas, como em qualquer minoria oprimida, apoiarão, inclusive, o sistema, na negação de sua condição.

E ela precisa contar, então, com a ajuda de Serena para isso. Serena, que um dia foi porta voz do movimento pró-Gilead, pode utilizar a voz que também liderou algumas esposas em um subversão do sistema, mas que não tinha pretensão de romper com ele à época – para buscar aquelas que as ajudariam a implodir o regime de Gilead. Não significa, contudo, anular a violência das esposas em relação às aias. Ou ignorar as diferenças e privilégios que as marcam. Afinal, as esposas continuam sendo mulheres que aceitam os filhos roubados de outras, que estimulam estupros, que humilham e agridem outras, e muitas vezes o fazem defendendo Gilead. Mas sua própria conivência é condicionada pela situação de ser mulher em Gilead. E para June, importa mais tê-las como aliadas, conscientizando-as de que o sistema lhes dá privilégios, mas também as oprime, do que expurgá-las do movimento.

As filhas de The Handmaid’s Tale

The Handmaid's Tale
(Foto: Reprodução)

O episódio, enfim, mostra uma cena clássica do livro “O Conto da Aia“, em que Serena Joy – bastante diferente da personagem da série – oferece um cigarro a Offred. O que isto significa? Talvez um acordo entre elas, uma união entre diferentes mulheres. Se as forças externas não podem libertá-las, elas usarão as ferramentas disponíveis para se auto-libertar. June tenta convencer Fred a dar mais poder a Serena para tê-la ao seu lado novamente. E Serena retribui com informações sobre Hannah, falando onde a menina estudará para que June possa visitá-la.

E no fim do episódio, a confirmação às duas de que Nichole chegou bem ao Canadá. Nos braços de Luke, a menina aparece em um protesto a favor de Chicago, o que também reforça a ideia de que a guerra está chegando a The Handmaid’s Tale.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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