[SÉRIES] Crazy Ex-Girlfriend: uma comédia romântica ao contrário

[SÉRIES] Crazy Ex-Girlfriend: uma comédia romântica ao contrário

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Quem não gosta de uma boa comédia romântica? Se você disse “sim”, uma das pessoas a quem agradecer é Aline Brosh McKenna, roteirista e produtora americana. Ela conta com roteiros clássicos do gênero em seu currículo, como “Vestida Para Casar, “Compramos um Zoológico e, mais notoriamente, “O Diabo Veste Prada. Com credenciais como essa, parece fácil entender por quê ela decidiu embarcar em “Crazy Ex-Girlfriend, série exibida pela The CW desde outubro de 2015. Após conhecer o trabalho de Rachel Bloom, comediante americana, no YouTube, Aline entrou em contato e as duas iniciaram uma parceria para co-escrever Crazy Ex, que seria uma série musical de comédia (e romance).

(O texto abaixo contém spoilers leves sobre o primeiro capítulo)

Aline fez a escolha perfeita para um show que, na superfície, é uma comédia romântica musical centrada na personagem (e ex-namorada louca, como diz o título) Rebecca Bunch (Rachel Bloom, em uma demonstração múltipla de talentos). A premissa é simples: Rebecca é uma advogada em Nova York, que apesar de estar prestes a se tornar sócia na firma em que trabalha, é profundamente infeliz. Em um encontro aleatório com seu ex-namorado de infância Josh Chan (Vincent Rodriguez III), ela descobre que ele está se mudando de volta para sua cidade natal: West Covina, na Califórnia.

Rebecca decide largar tudo para perseguir o ex e reconquistá-lo, contando com a ajuda de personagens chave em qualquer comédia romântica: a melhor amiga, o chefe meio estúpido, o barman que tem um crush secreto nela — e claro, a atual namorada de Josh, que é uma vilã linda e absolutamente malvada. Um elenco comum, composto de clichês que habitam o universo de comédias românticas. Claro, há os números musicais — mas é apenas mais uma comédia romântica comum, certo? Errado. E é aí que está a genialidade de Crazy Ex-Girlfriend, e a genialidade da dupla McKenna-Bloom. 

Crazy Ex-Girlfriend
Da esquerda para a direita: Heather, a vizinha de Rebecca; Darryl Whitefeather, o chefe de Rebecca; Greg, o bartender apaixonado por ela; Rebecca Bloom, Josh Chan, o interesse romântico e Paula Proctor, a melhor amiga

“Crazy Ex-Girlfriend” é, simultaneamente, uma carta de amor e uma sátira ácida aos clichês de comédia romântica — e ainda por cima é um musical. Episódio por episódio, a série vai revelando a humanidade o que existe nos clichês apresentados no início — suas nuances, seus desejos e, lógico, a grande ironia de usarmos modelos fictícios para adequar nossos relacionamentos. Através da combinação perfeita de ironia e sagacidade, os personagens nos fazem questionar nossa obsessão com o “amor romântico de Hollywood” — e como incentivar certos comportamentos (como o de atravessar o país e se mudar para a mesma cidade do seu ex-namorado) pode ser tóxico e realmente maluco. Não no sentido “fofo” da palavra, e sim no clínico.

Rebecca e sua obsessão com narrativas ficcionais são o verdadeiro piloto da história, e é impossível não se fascinar por uma mulher que revela seus medos e falhas como uma metralhadora. Ela não é a personagem mais aprazível da televisão, especialmente por conta de sua personalidade egocêntrica e manipuladora — mas é incrível ver personagens femininas tão complexas na televisão.

Crazy Ex-Girlfriend

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Ainda que esse seja o show de Rebecca Bunch, o elenco de apoio brilha em sua complexidade e talento, com menções especiais para Donna Lynne Chaplin, que dá vida à Paula Proctor (a melhor amiga de Rebecca, que a ajuda a maquinar esquemas para conquistar Josh) e Derryl Whitefeather, o chefe estúpido de bom coração (vivido por Pete Gardner). Enquanto Rebecca insiste que não se mudou para West Covina por causa de Josh, se enrolando numa complexa teia de mentiras, as vidas de todos vão se alterando à ela e suas histórias. Ah, e suas músicas: Crazy Ex é um musical, e utiliza desse meio com maestria.

Os números musicais são um espetáculo à parte, tanto paródias como homenagens dos gêneros que tentam reproduzir, e requerem um elenco versátil e talentoso. A série já conta com mais de 100 músicas originais, que variam de gênero entre pop, rock, country e tudo o mais no meio do caminho.

Logo no primeiro episódio temos o exemplo perfeito da mistura explosiva de paródia feminista da cultura pop que a série serve, com a música “Sexy Getting Ready Song” (ou “Música Sexy de Ficar Pronta”, em tradução livre). Nela, enquanto Rebecca se arruma para ficar pronta para encontrar com Josh, canta de maneira sensual sobre as coisas horrendas que as mulheres têm de se submeter para estarem “bonitas” (do tipo depilar o… Bom, vocês assistam aí em casa).

Crazy Ex-Girlfriend
Cena de “Sexy Getting Ready Song”

Com diálogos afiados, personagens que desafiam clichês, quebrando uma premissa que parece óbvia, “Crazy Ex- Girlfriend” é uma das melhores séries da atualidade. A obra aborda temas essenciais como feminismo, homofobia e a toxicidade nos relacionamentos hétero — tudo com muito humor! É difícil pensar em uma série que consiga, de maneira excelente, cobrir conceitos tão complexos e produzir números musicais hilários. É absolutamente imperdível — e como uma boa comédia romântica, vai te fazer rir, chorar, e assistir de novo!

Crazy Ex-Girlfriend está disponível no catálogo da Netflix Brasil, e está atualmente na 4ª e última temporada.

Autora convidada: Giulianna Domingues é feminista e escritora, antes de qualquer coisa. Não acredita em signos (coisa de sagitariana), mas é obcecada por cosmos. Já passou a noite numa livraria esperando pelo novo Harry Potter, devora livros como quem come pipoca e é obcecada por musicais. Mora na Califórnia, e nas horas livres trabalha no Google para impedir a chegada da SkyNet.

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