[SÉRIES] Dix Pour Cent: os bastidores do cinema francês em uma comédia-drama divertida

[SÉRIES] Dix Pour Cent: os bastidores do cinema francês em uma comédia-drama divertida

As indústrias cinematográficas estabelecidas necessitam de uma gama de profissionais diferentes para funcionar. Atores, diretores, técnicos, produtores, distribuidores e agentes trabalham juntos para realizar e veicular as obras para o cinema e TV. E por mais que os trabalhos de bastidores de diretores, roteiristas e produtores já tenham aparecido como o centro de narrativas, os agentes (ou empresários) dos atores poucas vezes foram protagonistas. E não à toa! Conhecidos por abocanhar 10% dos rendimentos de seus clientes, os agentes são responsáveis pelos contratos, acordos e oportunidades dos atores que representam. Um trabalho burocrático, mas com uma variável humana extremamente específica: os atores. E para se destacar nessa profissão, a cara-de-pau e malícia são fundamentais.

Ambientada em Paris, o centro da produção cinematográfica francesa e palco de clássicos e da vanguarda, “Dix-pour-cent” (em português “Dez por cento”) é focada nesses profissionais, em especial, num grupo de agentes que fazem parte da empresa ASK, conhecida por representar as principais estrelas do cinema francês. São essas estrelas os temas de cada episódio, e nesse sentido a série aproveita os atores franceses que interpretam a si mesmos.

Desde Juliette Binoche apresentando a cerimônia de abertura do festival de Cannes e tentando fugir de um investidor assediador, passando por Monica Bellucci que pede ajuda à seu agente para conhecer “um cara normal”, até Isabelle Huppert workaholic quebrando contratos por trabalhar em várias produções ao mesmo tempo, “Dix-pour-cent” explora intimamente a relação agente/ator de uma forma metalinguística e divertida, fazendo referências a diretores, produções recentes e até a si mesma: o canal France 2 que produz o seriado também é retratado como um financiador de filmes dentro da narrativa.

Dix Pour Cent
Isabelle Huppert

Mas a história pessoal dos protagonistas também se mistura com a vida na indústria: Andrea (Camille Cottin), Mathias (Thibault de Montalembert), Gabriel (Grégory Montel) e Arlette (Liliane Rovère) são os sócios minoritários da empresa ASK, e têm que enfrentar o futuro depois que o sócio majoritário e chefe Samuel Kerr, morre repentinamente, deixando seus 60% de ações da empresa sem destino. Apesar de sócios, a relação dos quatro protagonistas não é nem de perto saudável. Os mais jovens, Andrea e Gabriel, são amigos próximos e acabam tanto operando juntos com seus atores quanto safando a cara um do outro. Andrea e Mathias têm uma rivalidade quase destrutiva, mas Mathias e Gabriel conseguem negociar até certo ponto. Ao mesmo tempo que Arlette trata Gabriel com carinho e condescendência, não poupa verdade com Mathias e Andrea. Obrigados a lidar com a incerteza do futuro da empresa, os quatro sócios se ajudam e se atrapalham ao longo do caminho.

Mathias (Thibault de Montalembert), Andrea (Camille Cottin), Gabriel (Grégory Montel) e Arlette (Liliane Rovère)

E pessoalmente, não são poucos os dramas que as personagens enfrentam. Já no primeiro episódio de “Dix-pour-cent” somos apresentadas à Camille (Fanny Sidney), filha não reconhecida de Mathias que morava no interior com a mãe, e agora, com 22 anos, procura emprego na capital. Tratada como um segredo pelo pai, Camille chega na agência no momento em que a assistente de Andrea, cansada de suas grosserias, pede demissão e sai imediatamente do escritório. Camille, apesar de tímida, já apresenta certas qualidades importantes na profissão de agente: é observadora, discreta, ao mesmo tempo que sabe aproveitar uma oportunidade e não tem problemas em esconder segredos.

Contratada de imediato por uma Andrea apressada, Camille passa a integrar o time dos assistentes da agência ASK, sendo Noèmie (Laure Calamy) assistente de Mathias, e Hervé (Nicolas Maury) assistente de Gabriel. Arlette não possui nenhum assistente humano, mas é claramente assistida por seu cachorrinho Jean Gabin, que a acompanha em reuniões pela agência e também habita seu escritório, suas saídas e encontros com atores e diretores.

Dix Pour Cent
Arlette (Liliane Rovère)
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Mantendo segredo sobre sua paternidade, Mathias começa a ter problemas com a presença da filha em seu ambiente de trabalho, percebendo que o segredo não demorará a ser revelado para sua família “oficial”. Preocupado apenas com os próprios problemas, ele também não lembra de mencionar à Camille que seu filho é ator e agenciado pela ASK: Hippolyte (François Civil) é da mesma idade de Camille e a relação dos dois na agência se torna inevitável.

Gabriel também tem seus próprios problemas internos no trabalho: além de desorganizado e dependente de Hervé, Gabriel vê em Sofia (Stéfi Celma), a recepcionista da agência que luta para se tornar atriz de cinema, um talento, e ao mesmo tempo que trabalha para lançá-la, se envolve com ela. Sofia enfrenta a resistência das produções de Paris: sempre escalada para papéis subalternos ou objetificantes, ela encara um racismo velado dos franceses, mas não deixa barato. Ela reage com uma agressividade justificada, mas que fatalmente se volta contra ela, restringindo mercados, e ao desagradar e reagir à abordagens de diretores abertamente racistas, ela acaba perdendo oportunidades.

Sofia (Stéfi Celma), Camille (Fanny Sidney), Hervé (Nicolas Maury) e Noèmie (Laure Calamy)

A mistura das relações pessoais com o trabalho é um problema sério na agência, a ponto de uma auditoria ter sido instalada para investigar as transações e contas da ASK. A fiscal Colette Brancillion (Ophélia Kolb) é designada para tarefa, um pouco depois de coincidentemente ter dado match em um aplicativo lésbico com Andrea (Camille Cottin), que logo a dispensou por Colette admitir que procurava um relacionamento. Agora, no cargo de fiscal das contas da empresa, Colette tenta evitar Andrea, que tenta seduzi-la a cada encontro.

Nos relacionamentos, Andrea emula o homem heterossexual: descompromissada, ela tem dificuldade de manter algo sincero com as várias mulheres com quem se relaciona. Mas ao longo dos episódios, vemos uma Andrea mais responsável emocionalmente desabrochar e sua jornada se torna mais profunda conforme seu relacionamento com Colette se desenvolve.

Dix pour cent
Andrea (Camille Cottin) e Colette Brancillion (Ophélia Kolb)

Ao mesmo tempo que “Dix-pour-cent” abraça temas pessoais particulares de seus personagens, o pano de fundo da indústria do entretenimento acaba aglutinando as narrativas, e a realidade dos atores e das relações pessoais entre os profissionais da mídia torna a compreensão das forças sociais dentro desses sistemas fácil de se identificar. As personagens interagem com roteiros de Quentin Tarantino (e sua exigência de que atrizes façam cirurgias plásticas para parecerem jovens) entregam documentos e encomendas para Léa Seydoux e usam Gerard Depardieu e suas constantes visitas à Rússia como forma de espantar novos candidatos para as vagas de agente. Até a própria abertura exibe uma cena em que Andrea, Mathias, Gabriel e Arlette assinam o próprio contrato da série, em mais uma sacada metalinguística.

Para quem se interessa pelo lado de dentro das produções audiovisuais, a série é cheia de referências ao processo cinematográfico e brinca com os elementos da realidade, tornando a ficção apenas uma versão de um mundo que realmente existe. Mas não são apenas as referências à indústria que tornam a narrativa de “Dix Pour Cent” interessante: a série também cria seu próprio universo e aproxima à espectadora de suas personagens de uma forma criativa e engraçada. Vale a pena ver!

A produção do canal France 2 chega com três temporadas na Netflix.

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Feminista Raíz
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