As Ineses: a desconstrução da “família de bem”

As Ineses: a desconstrução da “família de bem”

Compartilhe

O filme “As Ineses”, comédia deliciosa sob direção do argentino Pablo José Meza (“Buenos Aires 100 Kilômetros”) e roteiro de Victoria Mammolitti, tem estreia prevista para 14 de fevereiro nos cinemas nacionais. O enredo inusitado do longa conta a história de duas mulheres, Carmen (Brenda Gandin) e Rosa (Valentina Bassi), ambas com o mesmo sobrenome Garcia, que estão prestes a dar à luz e seguem juntas para a maternidade. Com elenco argentino, em sua maioria advindos de telenovelas, vale destacar a presença do ator e rapper brasileiro André Ramiro, conhecido pelo papel de André Mathias em “Tropa de Elite I e II”.

Carmen já é mãe de duas filhas e tem que lidar com a expectativa do marido Pedro (Luciano Cáceres) que deseja fortemente um filho homem. Por sua vez, Rosa é casada com o brasileiro Ramón (André Ramiro) e aguarda a chegada do primeiro bebê. A entrada no hospital se dá em meio a atropelos e certa correria, pois ambas estão prestes a parir. Tudo indica que na maternidade do lugarejo onde vivem há apenas um obstetra que realizou todos os partos daquele dia fatídico. Vemos, então, o nascimento de três bebês, mas somente as famílias Garcia se encontram numa situação inusitada e inesperada.

As Ineses
Carmen (Brenda Gandini) e Rosa (Valentina Bassi)

Acontece que ao verem suas filhas, sim são mulheres, Ramón e Pedro, bem como Dominga, a avó materna de uma das meninas (vivida pela divertidíssima María Leal), estranham as diferenças físicas entre as bebês e suas famílias. Restam às mães resolverem o impasse e decidirem o destino dessas pequenas, que por fim recebem o mesmo nome, Inés Garcia. Com isso, o filme passa a explorar uma questão muito interessante a respeito da maternidade e das várias possibilidades de formarmos uma família de maneira muito saudável e leve.

Há uma aura em torno da maternidade que vende a ideia de que quando uma mulher engravida, um fenômeno mágico, diríamos até divino, ocorre e somos tomadas de amor e ternura por esse ser que está dentro de nós e que, em 9 meses, se transformará em um bebê. Esse assunto já foi abordado diversas vezes em outros textos do site, mas deixaremos em destaque o da maternidade compulsóriaque reúne o maior número de filmes sobre o tema da maternidade.

As Ineses

Gerar um ser é algo realmente surpreendente por diversos aspectos, imaginem: a natureza feminina permite que o encontro entre dois corpos (mulher e homem), em determinado período do mês, desde que não ocorra nenhuma forma de impedir o curso natural das coisas, resulte na fecundação do útero feminino e, dessa forma, na geração de um ser que se transformará por 42 semanas no ventre dessa mulher, resultando um bebê.

Definitivamente isso é incrível do ponto de vista biológico e, por que não, humano. Afinal, somos capazes de criar outros indivíduos semelhantes a nós, lhes dando a vida e os trazendo ao mundo para juntos cumprirmos o fundamento mais básico da evolução dos seres vivos: nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Porém, em meio ao fenômeno físico e biológico incrível que nos capacita gerar vidas, somam-se mitos religiosos, ideias patriarcais e conceitos romanceados do que é a gestação de um bebê.

Portanto, não é incomum que uma mulher grávida (seja como for a concepção dessa gravidez – afinal, quem pensa nisso, não é mesmo?) sofra com um tratamento diferenciado e altamente carregado de fantasias, que sugere a mágica em torno dessa gravidez. São “grávidas mágicas”, mulheres que ao verem seu teste positivo, ou ainda aqueles indivíduos da sociedade que ao se depararem com uma barriga de gestante, imediatamente põem-se a falar com tamanha ternura e amor, fazendo planos, dando ou recebendo conselhos, clamando à virgem maria ou ao divino espírito santo, como se estivessem diante do próprio bebê já nascido, ignorando por completo o gap que existe entre a concepção do feto e o seu nascimento.

É aí que entra a proposta interessante do longa “As Ineses”: ao se depararem com as bebês imediatamente após o parto, as duas mulheres não observam as diferenças físicas que o restante da família nota. Muito ao contrário, exaustas com seus partos, elas anseiam depois de descansadas, poderem ver de fato suas filhas.

As Ineses

Ao receberem cada uma sua bebê, Carmen e Rosa foram paulatinamente criando seus laços de afeto, independente das características físicas das meninas, iniciando, dessa forma, o processo de apaixonarem-se por suas crianças que finalmente estavam materializadas em seus braços.

Isso é a maternidade! Não é que não nós acreditamos ou não achamos franco quando as grávidas se dizem apaixonadas por seus fetos, suas barrigas e seus filhos que ainda serão paridos, não… É realmente apaixonante essa ideia! Mas é uma ideia, e a maternidade é algo que construímos com o outro, a partir da interação com este outro, mesmo que este outro não venha de nosso ventre. Caso contrário, como explicar mulheres que adotam bebês e crianças e constroem com elas laços tão fortes e vitais quanto uma mãe que gerou e pariu seu filho?

As Ineses

Leia também:
>> [CINEMA] La Familia: A masculinidade tóxica como um entrave da paternidade
>> [CINEMA] “Estranha”: sobre maternidade e visibilidade lésbica
>> [CINEMA] “Lembro mais dos corvos” e “Tea for Two”: a visibilidade da mulher trans

A maternidade é algo que acontece gradualmente, respeitando cada uma dessas relações, o tempo e a capacidade física e mental dos seres envolvidos nesse incrível fenômeno biológico que é chamado de procriação. Nunca nos esqueçamos que muitas mulheres sofrem de depressão pós-parto. Algumas repudiam suas crias em função do histórico de suas gestações, outras abandonam as crianças por não serem capazes de amá-las ou criá-las. Afinal, a capacidade de gerar uma vida não é a mesma coisa que amor e maternidade. Tudo nos leva a crer que a maternidade é algo a ser construído e pode levar tempo e depender de diversos fatores.

Seguindo essa lógica, o filme “As Ineses” afirma que para se criar uma criança basta amor (e ele pode vir de qualquer lugar, de quem quer que seja, não importando a quantidade de pessoas envolvidas), e não uma fórmula ultrapassada advinda de uma sociedade patriarcal e com fundamentos religiosos que determinam como deve ser a formação das famílias e o quão nocivo pode ser qualquer construção familiar que não obedeça o desenho “papai, mamãe e filhinhos, todos vivendo juntos e ‘felizes’ sob a tutela das leis divinas e dos HOMENS”!

As Ineses” é um filme gracioso, com muito humor, e que de quebra nos propõe reflexões profundas sobre a maternidade e a construção do conceito mais precioso do patriarcado, “A FAMÍLIA DE BEM”.

https://www.youtube.com/watch?v=Ll0ZZONvjKI


Compartilhe

Written by:

41 Posts

Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
View All Posts
Follow Me :