[6° OLHAR DE CINEMA] La Familia: A masculinidade tóxica como um entrave da paternidade

[6° OLHAR DE CINEMA] La Familia: A masculinidade tóxica como um entrave da paternidade

O filme de abertura da 6° edição do Festival Olhar de Cinema em Curitiba, La Familia, é o primeiro longa-metragem dirigido pelo venezuelano Gustavo Rondón Córdova. O filme, que teve sua estreia mundial na semana da crítica do Festival de Cannes desse ano, foi o primeiro representante daquele país a ser selecionado para esta mostra paralela, o que demostra que, apesar da atmosfera austera em que se encontra no cenário político e econômico, o setor cinematográfico venezuelano, de certa forma, está com fôlego renovado.

Na cerimônia de abertura, Aly Muritiba, um dos diretores do festival, deixou claro que além da estética original e instigante dos filmes que serão exibidos ao longo dos próximos 7 dias, a preocupação com um cinema atento às questões políticas e sociais é uma marca do Olhar de Cinema. Nesse sentido, La Familia cumpre de forma satisfatória essa função, pois se trata de um thriller social em que vemos em tela a dificuldade de comunicação e relacionamento entre um pai e seu filho de 12 anos de idade, que estão à margem da sociedade. 

A violência é o motor do filme, que tem na sua cena de abertura uma imagem de várias crianças brincando de se agredir. Meninas são, desde o primeiro momento, excluídas, e todas as características relacionadas a um universo tido como feminino são vistas de forma negativa por estas crianças e adolescentes que vivem na periferia da cidade de Caracas. A estética utilizada por Gustavo Rondón não é inovadora, na medida em que filmes como “Pelo Malo” (2013), dirigido por sua conterrânea Mariana Rondón e “7 Caixas Paraguayas” (2012), de Tana Schémbori e Juan Carlos Maneglia, já o fizeram de forma, inclusive, mais eficiente. 

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Logo nos minutos iniciais de La familia vemos Pedro (Reggie Reyes) ferir gravemente um outro menino durante uma briga de rua. Andrés (Giovanni García) sabendo que naquela região da cidade a lei é a do “olho por olho, dente por dente”, empreende uma fuga na tentativa de salvar seu filho da represália e vingança por parte dos familiares do menino ferido. O olhar da câmera deixa clara a crítica social do diretor, que também assina o roteiro, quanto à ausência do Estado nos bairros à margem da sua principal cidade. E é neste momento que o espectador se aproxima da difícil relação entre um pai e um filho cuja a única forma de comunicação se dá através de um ciclo de violência. Uma masculinidade tóxica é apresentada de forma bastante contundente, expondo as mazelas de uma sociedade que só percebe seus pares através da disputa de autoridade.

La Familia

Uma casa em reforma, onde trabalha como pintor, é o local escolhido por Andrés para se refugiar com seu filho. A cada buraco coberto na parede, a cada porta lixada, a cada nova tarefa ensinada a aquele menino arredio, as relações entre os dois vão sendo recosturadas e reestruturadas, porém com algumas emendas mal resolvidas. Um pequeno delito praticado por Andrés ao trabalhar como garçom em uma festa na área nobre da cidade, acaba por reaproximar pai e filho, mostrando mais uma vez que aquilo que os afasta é ao mesmo tempo o que os aproxima, já que Andrés também não consegue viver dentro da legalidade. Nova teia é produzida entre os dois, que agora não se percebem mais tão assimétricos, e a questão de classe fica ainda mais evidente no filme, levando a conclusão de que ambos são produtos do meio sócio-cultural em que vivem.

A trilha sonora diegética é empregada de forma a marcar os vários momentos na qual a trama se situa, não apenas geograficamente, mas principalmente socialmente. Além disso, um ponto alto do filme é o constante clima de tensão e suspense com o qual a narrativa é construída dando ritmo cadenciado ao roteiro. 

A opção de Gustavo Rondón em suplantar a figura materna da trama, apesar de interessante, pode criar uma armadilha para um roteiro que se encerra em si mesmo, sufocando possibilidades afetivas entre dois homens que em comum têm apenas uma foto e poucas memórias de uma mulher que os liga. A cena final é bastante similar à já vista em “Baronesa” (2017), de Juliana Antunes, paradoxalmente filme de encerramento do festival, onde temos novamente a figura de uma casa em construção em uma região mais rural da cidade, onde novos alicerces e caminhos podem se abrir.

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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