[LIVROS] Clarice, de Benjamin Moser: Decifrando a humana-esfinge

[LIVROS] Clarice, de Benjamin Moser: Decifrando a humana-esfinge

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De diversas formas, Clarice Lispector foi uma sobrevivente. Nascida em meio às perseguições aos judeus, os denominados pogroms, e à guerra civil na Ucrânia, veio para o Brasil, ainda pequena, com a família no ano de 1922, parando em Maceió e, de lá, migrando para o Recife. A autora, de personalidade mística e indecifrável, é desmistificada pelo historiador e biógrafo norte-americano Benjamin Moser, em sua biografia Clarice, lançada em 2009 e relançada pela Companhia das Letras em 2017. Sendo um grande admirador de Clarice, Moser refez os passos da autora para compilar em mais de quinhentas páginas os episódios marcantes da vida da “Esfinge Brasileira”. O rosto angular, de bochechas salientes e olhar felino eram atrativos para diversos homens que por ela caíam de joelhos – mas que nunca conseguiriam enxergá-la como o ser humano comum e cheio de inquietações esboçadas em suas tantas heroínas literárias. Clarice venceu a morte precoce, doenças, fome e o instinto primitivo do indivíduo de se desesperar perante o questionamento e o propósito do ser. Virou um marco na literatura brasileira.

Pinkhas Lispector e Mania Krimgold Lispector eram judeus e viviam uma vida tranquila na pequena cidade de Savran, onde tiveram a primeira filha, Leah. A vontade do pai de ganhar o mundo e mudar de país como os demais conhecidos judeus foi atendida, mas com um alto preço: precisaram fugir durante o período da Primeira Guerra Mundial aos ataques sofridos à região em que moravam, na Ucrânia Ocidental, rumo a um continente completamente desconhecido, a América. Os atos de violência e antissemitismo na cidade de Haysyn, para onde haviam se mudado e tido a segunda filha, Tania, carregavam inúmeras vidas inocentes, por meio de assassinatos a sangue frio, sem distinção de sexo e idade, e também estupros de meninas e mulheres. Segundo Moser, Clarice confidenciou a uma amiga que em um desses pogroms, Mania Lispector fora estuprada e, do ato horrendo, adquiriu sífilis. Leah, que no Brasil mudou o nome para Elisa, escreveu em seu romance No Exílio, que o trauma decorrente daqueles pogroms (aproximadamente mil, apenas naquele ano – meados de 1920 – e naquela região) foi o que deixou Mania em um estado aterrador de doença física e psicológica até o fim de sua vida.

Muito se questiona sobre a verdadeira data de nascimento de Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector, em Tchetchelnik, pois a própria chegou a dar diversas datas diferentes em entrevistas, mas a que mais se aproxima da realidade data de 10 de dezembro de 1920. Algum tempo antes disso, segundo o autor, em meados de 1919, ocorrera o ataque à mãe de Clarice:

“Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe.” (pág. 45)

A família enfrentou a fome e o desespero que a guerra trazia consigo. Elisa Lispector utilizou o episódio vivido por ela e pela família para escrever uma cena de No Exílio:

“Ethel mexeu-se, estremunhada, e pediu pão:

– Agora não tem, filhinha. É noite. Amanhã eu compro.

– Mas eu quero. Papi trouxe, eu vi. Eu vi pão branco.

Após tornou a adormecer, sugando o polegar num recurso instintivo para enganar a fome.” (pág. 47)

Após mudarem para a Romênia e Mania ser internada para cuidar de sua saúde, os Lispector conseguiram passaportes para embarcarem ao Brasil em janeiro de 1922. Antes disso, passaram por Hamburgo, Bucareste e Praga e, nesta última, vieram rumo ao Brasil, a bordo de um navio em situações muito precárias.

A imundície e um fedor intensificado pela má ventilação criavam na maioria desses navios uma atmosfera que o relato de um norte-americano descreve como “quase insuportável… Em muitos casos, pessoas, depois de se recuperarem do enjoo de mar, continuam deitadas na cabine numa espécie de estupor, por respirarem um ar cujo oxigênio foi quase totalmente substituído por gases poluídos.” Uma investigadora norte-americana, disfarçada de camponesa da Boêmia, descreveu os minúsculos aposentos onde os imigrantes eram empilhados uns sobre os outros, as valas abertas que serviam de latrinas, o cheiro do vômito produzido pelos passageiros mareados. “Tudo”, concluiu ela, “era pegajoso e desagradável ao toque. Toda impressão era repulsiva.” Em seu livro, Elisa menciona o calor e o ar sufocante, peçonhento, no cubículo. Uma noite, quando estava estendida na cama sem conseguir dormir, um rato enorme passou por cima de seu travesseiro, roçando seu rosto, “os pequeninos olhos fuzilando por entre o pelo cinzento e repelente”. (pág. 61)

Ao chegarem em Maceió, foram recebidos pela irmã de Mania e seu esposo, Zina Krimgold e José Rabin, que haviam embarcado para o Brasil anos antes da família. A alegria de se verem livres dos horrores da Rússia não durou muito tempo; sendo hostilizado pelo próprio cunhado, que junto com a esposa procuravam menosprezar e inventar histórias para colocar Mania contra Pinkhas, estes decidiram mudar rapidamente para um lugar próprio e mais tranquilo, e escolheram o Recife como berço de seu recomeço. Para tanto, abrasileiraram seus nomes russos: Leah tornou-se Elisa, Pinkha, Pedro, Mania, Marieta, a pequena Chaya, Clarice e Tania foi a única que manteve o nome, por também ser encontrado em terras brasileiras. O bairro Boa Vista, uma comunidade judaica, acolheu Pedro e sua família, fazendo-os sentir mais uma vez em casa. A infância vivida no Estado nordestino foi fundamental no desenvolvimento da pequena Clarice que, até sua fase adulta, contrariava o que muitos pesquisadores e críticos postulavam sobre suas origens. De forma alguma queria ser relacionada ao seu país de origem, pois dentro de seu coração sempre fora pernambucana.

Clarice
Tania, Mania e Clarice.

“Um entrevistador perguntou: “Sabemos que você passou toda a sua infância aqui no Recife, mas o Recife continua existindo em Clarice Lispector?”. Ela respondeu: “Está todo vivo em mim”. (pág. 77)

Ao entrar no jardim de infância, Clarice mostrava-se muito enérgica, esperta e cativante. O passatempo da família era pedir que ela imitasse as professoras e demais pessoas com quem mantinha contato, ao passo que Clarice dava um show de interpretação. Foi nesta idade em que começou a contar e nomear os objetos de casa, como os azulejos das paredes sob o teto em que morava, aguçando assim a invenção de histórias que, muito antes de irem para o papel, já existiam em seu imaginário de criança. Toda essa imaginação serviu para poupar Clarice de saber a cruel história de sua família e a situação da mãe, que adoecia cada dia mais. Em um mundo de castelos e sonhos, Clarice vivia, para que a dor só viesse à tona anos depois, quando já grande, passou a se culpar pela morte da mãe, tornando-se restrita e calada.

A mãe, debilitada e paralítica, era motivo de preocupação da pequena Clarice, mesmo sem compreender o todo da situação. Mania era muito dependente das filhas, principalmente de Elisa, a mais velha. Aos poucos a família fechou-se em uma melancolia muito característica da personalidade de Clarice, o que mais tarde refletiu em seus escritos. Ao avançar a idade da alfabetização, a autora passou a escrever suas fabulações, mas fugia das costumeiras histórias de “era uma vez”. Suas redações impressionavam os professores que se deliciavam com a escrita tão precoce da menina e indagavam como aprendera a escrever tão bem com tão pouca idade. Na época, Clarice não saberia responder. Escrevia o que lhe vinha à mente e não se preocupava com convenções e textos pré-concebidos. Em entrevista à TV Cultura, a autora disse ter descoberto muito tempo após a morte da mãe, que Mania mantinha diários e escrevia poesias. A irmã também era inclinada às artes literárias, então por aí pode ter começado a vontade nata de tecer histórias e erguer tramas por um viés psicológico que apenas Clarice conseguia esmiuçar.

Em 1930, o estado de saúde de Mania agravou-se, findando a vida da mulher que aguentara tantas dores físicas e na alma, aos quarenta e dois anos. Mesmo sem a presença da mãe, a menina viu-se cercada da forte presença feminina das irmãs, que a inspiraram a ser uma mulher decidida e protagonista de seu próprio caminho:

“Aos 91 anos, Tania ainda se lembrava de seu assombro diante da reação do pai quando, na adolescência, ela saiu em defesa do “amor livre” e proclamou que não iria se casar. Para uma garota da pequena e conservadora comunidade judaica do Recife nos anos 1930, aquilo era uma provocação, e Tania se preparou para a reação. “Outros pais teriam batido numa filha que dissesse uma coisa assim. Tenho certeza de que ele ficou chocado, mas em vez de agredir perguntou por que eu pensava daquele jeito. Conversamos a respeito. E então, como tenho certeza que ele sabia que eu faria aquilo, acabei esquecendo a coisa toda.” (pág. 103)

A própria Clarice relata que uma vez sonhara que havia sido expulsa da Rússia, pois, segundo o homem no seu sonho, “só mulheres femininas eram permitidas” – e ela não se considerava feminina. Para tanto, afirmou que duas atitudes dela entregavam sua postura de “transgressora” às regras machistas: “1°: eu acender meu próprio cigarro, mas uma mulher fica esperando com o cigarro até que o homem acenda. 2°: eu mesma tinha aproximado a cadeira da mesa, quando deveria esperar que ele fizesse isso para mim. (pág. 21)”. Desta forma, demonstra-se que as meninas Lispector, mesmo criadas em um meio patriarcal, no qual o pai era a palavra final da casa, possuíam voz e eram compreendidas por Pedro (voz esta que ecoa nas obras mais famosas de empoderamento feminino de Clarice, como A Paixão Segundo G. H.).

Aos treze anos, Clarice decidiu: ia ser escritora. O gosto literário da jovem era variado e ia de romances de banca a Fiodor Dostoiévski, mas foi O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, que a impactou e foi peça definitiva no início de sua carreira. Uma história intrigante envolvendo Clarice e uma colega, Reveca, foi contada por Moser na biografia: dizendo a Clarice que possuía em casa o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, fez com que Clarice fosse à sua casa todos os dias atrás de pegá-lo emprestado, mas toda vez Reveca inventava uma desculpa para não entregar o livro e aumentar a ansiedade de Clarice. Desconfiando da atitude da filha e estranhando as visitas frequentes de Clarice, a mãe de Reveca descobriu a brincadeira maldosa da menina e entregou o tão sonhado livro à autora. Mesmo apaixonada pelas letras, Clarice também era muito boa em matemática e, durante a infância, trabalhou como professora de reforço nas casas da vizinhança.

Clarice

A família Lispector mudou-se para o Rio de Janeiro em 1935, e Clarice tinha, então, quatorze anos. Elisa ainda ficou no Recife por alguns meses, a fim de concluir seus trabalhos, mas logo mudou-se para junto do pai e das irmãs e, passando em um concurso, começou a trabalhar como funcionária pública. Em 1936, Clarice concluiu o ginásio e começou um curso preparatório na Faculdade de Direito da UFRJ. A questão social do nordeste estava cravada na pele da menina, que sonhava ser advogada para poder ajudar a diminuir as injustiças na vida de quem precisava. A escolha do curso foi encarada com estranhamento pelos conhecidos, uma vez que a profissão era mais voltada aos homens e poucas pessoas com a origem pobre de Clarice conseguiam alcançar aquele lugar; e era justamente por elas que Clarice escolhera o curso. Um reflexo de sua preocupação social reflete na história da retirante alagoana Macabéa, de A Hora de Estrela. Clarice também queria ser advogada para reformar as penitenciárias.

“A carreira, porém, não foi o que motivou Clarice a entrar na escola de direito. A ânsia por justiça estava inscrita em seus ossos. Ela tinha visto a horrível morte da mãe, e seu brilhante pai, incapaz de estudar, reduzido ao comércio ambulante de tecido. Cresceu pobre no Recife, mas sempre teve consciência de que sua família, apesar das dificuldades, estava melhor de vida que muitas outras. “Em pequena”, escreveu mais tarde, (…) bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas. Em Recife eu ia aos domingos visitar a casa de nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como me prometer que não deixaria aquilo continuar’.” (pág. 120)

Após a morte do pai, em 1940, em decorrência de uma inflamação na vesícula biliar, Clarice passa a se interessar por jornalismo, vindo a publicar seus primeiros contos em jornais locais, sendo boa parte de seus contos de temática feminista. Tania, que nesta altura havia se casado com um judeu comerciante, abriga as duas irmãs em seu apartamento. A partir de seu primeiro contato com a revista Vamos Ler!, Clarice alavancou na escrita e veio a trabalhar também como tradutora. Conheceu grandes nomes da literatura, como Raquel de Queirós e Vinicius de Moraes, com os quais adquiriu experiências para seus próximos escritos.

Clarice conhece Maury Gurgel Valente, também então estudante de direito, que viria a se tornar diplomata e casar com a autora. Os dois se casaram em 1943, mesmo ano em que Clarice publicou Perto do Coração Selvagem, seu primeiro livro. Ora aclamado pela crítica, ora rejeitado, Clarice viu-se em meio à criação de sua aura mítica, pois o romance fora comparado ao de autores estrangeiros famosos, como James Joyce e Virginia Woolf, ao passo que ela não teve contato com nenhuma obra que pudesse influenciá-la. Por conta do sobrenome Lispector, alguns críticos maldosos chegaram a dizer se tratar de um pseudônimo de algum escritor, pois para eles as mulheres da época não seriam capazes de escrever tão bem como Clarice. Vítima do machismo manifestado de várias formas, Clarice equilibrava-se em tentar ser apenas uma mulher comum, apaixonada pelas palavras, e combater as opiniões que a colocavam em um pedestal, pois ela própria discordava dessa visão que a sociedade tinha sobre ela. Somando-se a escrita incomum e intensa, baseada no fluxo de consciência de suas personagens e reflexões existenciais, a aparência eslava e marcante e os “erres” arrastados, que colaboravam para o ar estrangeiro da autora (e nada mais era do que um problema de dicção), Clarice era vista como um ser enigmático, uma esfinge a ser decifrada; a jovem escritora causava furor e apaixonava todos que a conheciam.

“’Ao vê-la, levei um choque’, disse o poeta Ferreira Gullar, relembrando o primeiro encontro entre os dois. ‘Seus olhos amendoados e verdes, as maçãs do rosto salientes, ela parecia uma loba – uma loba fascinante. (…) Imaginei que, se voltasse a vê-la, iria me apaixonar por ela’. ‘Há homens que nem em dez anos me esqueceram’, admitiu Clarice. ‘Há o poeta americano que ameaçou suicidar-se porque eu não correspondia…’ O tradutor Gregory Rabassa recordava ter ficado ‘pasmo ao encontrar aquela pessoa rara, que era parecida com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf’.” (pág. 14)

Com o marido, viajou para diversos países, incluindo a Itália, no período da Segunda Guerra Mundial. Trabalhou como voluntária no centro de atendimento aos soldados, auxiliando as enfermeiras e lendo textos para os feridos. Teve dois filhos, Pedro e Paulo e, no período da adolescência, Pedro foi diagnosticado com esquizofrenia, levando Clarice a se separar do marido por conta das viagens que a faziam deslocar-se muito e não possuir um lugar fixo para cuidar da saúde do filho. Em 1966, Clarice adormeceu, deixando seu cigarro cair e incendiar boa parte de seu quarto. Foi hospitalizada e quase precisou amputar a mão, ficando internada por dois meses.  

Clarice
Clarice e Maury.

Escreveu para o Correio Feminino, utilizando o pseudônimo de Helen Palmer e, em 1975, foi convidada a participar do Primeiro Congresso de Bruxaria, na Colômbia. O episódio levou Clarice a ser chamada de “bruxa da literatura”, e muitas lendas cresceram ao seu redor após sua participação, na qual leu o conto O Ovo e a Galinha. Tchetchelnik, lugar onde nascera, mas do qual não gostava de falar, possuía uma aura mística e conectada ao divino, por suas diversas manifestações espirituais, suas catedrais e sinagogas simples, mas cheias da devoção de seu povo – e isso transcendeu e foi impresso na vida e na obra de Clarice, tal sua prosa cheia de poesia e vista como algo “do outro mundo”.

Clarice

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Logo após o lançamento de A Hora da Estrela, a autora faleceu, vítima de câncer no ovário, prestes a completar seu aniversário de 57 anos, em 1977. Moser conta que a amiga, Olga Borelli, a qual levou Clarice em seus últimos dias de vida para o hospital, ouviu a autora inventar uma história enquanto ainda estavam no táxi, fingindo ir para Paris, viagem esta que até mesmo o taxista se ofereceu para participar. Em sua última entrevista, Clarice afirma que se considerava morta nos espaços de tempo em que se desconectava de suas obras terminadas e lançadas. A morte espiritual da autora só era suprimida quando escrevia. Os destroços de seu passado na Ucrânia, de suas perdas familiares e frustrações na vida adulta, foram minando aos poucos a menina Clarice que amava carnavais, contava azulejos, imitava pessoas e via a vida com os olhos da alma. Clarice, a cidadã do mundo, que não pertencia a lugar algum, mas tinha o mundo inteiro dentro de si. Há algo mais humano do que isso?

A biografia escrita por Benjamin Moser, lançada em 2009, fez com que Clarice Lispector se tornasse conhecida e aclamada no exterior. No Brasil, uma autora equivalente a Moser é a professora e doutora em Literatura Brasileira e Portuguesa pela USP, Nádia Batella Gotlib, autora da biografia Clarice, uma vida que se conta (1995), que inclusive serviu de referência para a pesquisa do biógrafo.

Clarice
Clarice e Carolina de Jesus.

Na primeira edição de Clarice, lançada pela Companhia das Letras em 2011, o autor fez um comentário inapropriado e que gerou muita polêmica. Ao descrever uma fotografia de Clarice Lispector ao lado de Carolina Maria de Jesus, autora brasileira da importantíssima obra Quarto de Despejo, que narra as experiências vividas por ela em uma comunidade pobre da cidade de São Paulo (um marco para a literatura negra e feminista), Moser escreveu:

“Numa foto, ela aparece em pé, ao lado de Carolina Maria de Jesus, negra que escreveu um angustiante livro de memórias da pobreza brasileira, Quarto de despejo, uma das revelações literárias de 1960. Ao lado da proverbialmente linda Clarice, com a roupa sob medida e os grandes óculos escuros que a faziam parecer uma estrela de cinema, Carolina parece tensa e fora do lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro”(pág. 25, 1ª edição).

O comentário racista, menosprezando a importância de Carolina e colocando-a em posição inferior à Clarice, foi cortado da reedição de março de 2017. Moser não admitiu ter errado e, sim, ter escrito o parágrafo como um aviso de que as “aparências enganam”. Na nova edição, há um parágrafo comentando o encontro das duas grandes autoras, mas a questão social de Carolina ainda assim é relativizada, para que as experiências de Clarice pareçam mais doloridas:

“Nas fotografias, ela parece tudo, menos estrangeira. À vontade em casa na praia de Copacabana, ostentava a dramática maquiagem e as vistosas joias da grande dame do Rio de sua época. Não há nenhum traço da miséria do gueto na mulher que desce as encostas da Suíça ou singra as águas do Grande Canal numa gôndola. Numa foto, Clarice aparece em pé, ao lado de Carolina Maria de Jesus, que escreveu um angustiante livro de memórias da pobreza brasileira, Quarto de Despejo, uma das revelações literárias de 1960, que transformou sua autora numa das raríssimas negras a alcançar sucesso literário naquela época. Numa sociedade ainda sofrendo sob a herança de quase 400 anos de escravidão, onde a cor da pele estava fortemente vinculada à classe social, poucos adivinhariam que a loira Clarice, com a roupa sob medida e os grande óculos escuros que a faziam parecer uma estrela de cinema, tivesse origens ainda mais miseráveis que as de Carolina.” (pág. 22)

Moser possui escrita acessível, apesar de o livro precisar ser apreciado aos poucos, por conta da carga de informações, trechos de entrevistas dadas pela autora em vida, depoimentos de amigos íntimos e familiares e, também, palavras de críticos literários. Um ponto positivo para a obra de Moser dá-se pela presença de um grande contexto histórico, não apenas europeu, situando a leitora na condição dos judeus durante os séculos XIX e XX, mas também sobre a História do Brasil, a partir do período em que os Lispector chegaram.


ClariceClarice,

Autor: Benjamin Moser

Companhia das Letras

Onde comprar: Amazon

Ano de publicação: 2011 (relançamento: 2017)

554 páginas

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Este livro foi cedido pela editora para resenha.

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ClariceClarice, uma vida que se conta

Autora: Nádia Battella Gotlib

EDUSP

656 páginas

Onde comprar: Amazon


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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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