Um Amor Incômodo: a conflituosa construção da personalidade diante da ideia abusiva do amor

Um Amor Incômodo: a conflituosa construção da personalidade diante da ideia abusiva do amor

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Talvez a autora italiana Elena Ferrante, cuja verdadeira identidade era desconhecida até o ano passado, tenha se tornado conhecida no Brasil pela popularização da série napolitana, iniciada com “A Amiga Genial. Contudo, a primeira obra publicada pela autora foi Um Amor Incômodo, lançado no Brasil este ano pela editora Intrínseca. Com uma escrita mais crua, o livro mistura imaginação e realidade na construção da relação de mãe e filha em uma história marcada por violência e sexualidade.

É aniversário de Delia novamente, e ela aguarda a chegada da mãe em sua casa, quando recebe uma ligação. Amalia fala-lhe coisas estranhas, mas Delia não tenta mais compreender a mãe, sempre entregue a essas imprevisibilidades. E com surpresa, descobre que ela jamais chegará ao destino planejado.

Seu corpo é encontrado em uma praia. Trajava apenas um sutiã de uma marca conhecida; nada mais que isto. O modelo da peça moderna é estranho ao corpo de uma mulher que usava sempre as mesmas e gastas roupas. A ausência da peça inferior surpreende. No entanto, no corpo, não há sinal algum de violência. Cometera suicídio.

“Violência estava fora de cogitação: a violência que a autópsia podia apurar não fora apurada”

O enterro se dá na cidade de sua infância, onde reencontra parentes que acreditava que não mais veria. Suas irmãs, com quem pouco fala. Seu tio Filippo, um homem que se mistura à história de seu passado. E como ele ressurge o nome em torno do qual de constrói parte do que foi o drama da vida de Amalia e também de Delia. Caserta, o nome que desperta memórias e fantasias de uma Delia adulta e criança, incapaz de se enxergar fora da vida da própria mãe.

Durante a década de 50, Delia era apenas uma menina que convivia diariamente com a  violência doméstica. Em casa, um pai ciumento, uma mãe condicionada. Acusada de traições que não cometia, recebia como punição agressões físicas. Por vezes parecia que seus olhares, jeitos e passos eram afrontas ao controle do marido. A mulher que exalava a sensualidade retratada no quadros do pai de Delia, que liberava o corpo de sua esposa apenas para seu sucesso. Se Amalia era vítima ou vilã, era difícil para Delia dizer. Talvez tudo tenha sido moldado pelas palavras que ouviu.

“Devia ter largado a máquina de costura somente para ser fotografada; em seguida, após aquele instante, tenho certeza de que voltou a trabalhar, curvada, e nenhuma foto jamais a imortalizou naquela miséria da labuta comum, sem um sorriso, sem olhos brilhantes, sem cabelos arrumados para que parecesse mais bonita.”

Caserta era o pior dos supostos amantes. Mandava flores, presentes, mesmo que soubesse que Amalia seria punida por eles. O que parecia ser um arrebatador romance proibido é desconstruído como a obsessão de um homem que, como tantos outros, crê poder brincar com o corpo feminino conforme seus próprios desejos. O jovem sedutor transforma-se no idoso assediador.

Delia observava. Reproduzia em suas brincadeiras com Antonio, filho de Caserta, o que imaginava se passar entre Caserta e Amalia. Buscava os desejos que à sua mãe eram atribuídos, buscando ser diferente dela quando desejava ser ela. Até que uma história foi construída. E a narrativa foi revelada ao pai, que espancou a mãe, que ameaçou matar o amante. E a imagem de Caserta foi afastada para longe, como se ele pudesse ser apagado das memórias de uma criança que construída sua ideia de sexualidade.

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Quando a mãe morre, Dalia confronta sua infância, como uma menina cuja menstruação desce desavisada – o que poderia ser o simbólico da puberdade. É a passagem, a revelação. A morte da mãe a induz a descobrir os últimos meses de vida dela e a redescobrir seu próprio passado.

Um Amor Incômodo é incômodo de muitas maneiras. Retrata de forma mais crua o sexo, não de forma romantizada, mas em sua forma biológica e em sua reprodução das ideias de poder. A autora fala da menina e de seus desejos, da incoerência entre julgar e amar a mãe e suas formas do mesmo modo que vê o pai fazendo. Fala da menina que se descobre como ser sexual entregando-se à sexualização realizada pelos homens. Aborda a descoberta de “amores” incômodos de inúmeras maneiras.

Um irmão que ama uma irmã, mas que a trata como uma propriedade de outro homem. Homens que se odeiam, mas se apoiam enquanto unidos por uma sociedade que autoriza seus atos violentos. Um pai que ama o corpo de uma mãe, mas que só o liberta nos quadros. Um pai que ama uma mãe, mas não a valoriza – coloca seus feitos como inferiores aos dele. Um homem que ama uma mulher, mas odeia seu riso. Uma filha que ama a mãe, mas que a odeia tudo o que ela representa em sua vida. Uma filha que deseja profundamente ser a mãe, mesmo não desejando, por ter aprendido que aquele amor obsessivo era um ideal a ser perseguido.

“[…] Ele lhe recomendava: ‘Não ria.’ Para ele, aquela risada parecia açúcar espalhado de propósito para humilhá-lo. Na realidade, Amalia só procurava dar voz às mulheres de aparência feliz fotografadas ou desenhadas nos cartazes e revistas dos anos quarenta. […] Era assim que imaginava ser, e dera a si mesma a risada adequada. Deve ter sido difícil para escolher o riso, as vozes, os gestos que o marido podia tolerar. Nunca era possível saber o que era permitido ou não.”

O livro narra cenas de constante abuso e submissão de formas e locais distintos. Ninguém está fora desse universo recriado com base na brutalidade. Todos são criados dentro desse reflexo machista, em que a ideia formada em cima das mulheres é algo conflituoso. Por mais que Delia saiba das atrocidades do pai e apoie a mãe na separação, ela não consegue se esquivar do pensamento de que há algo de errado nas atitudes da dela, como se Amalia devesse ser como o pai queria ao mesmo tempo em que devia enfrentá-lo. E nessa confusão de sentimentos, molda-se a personalidade daquela que era a filha mais velha do casal.

“Minha mãe, que havia anos existia apenas como uma obrigação incômoda, às vezes, como um tormento, estava morta. Porém, enquanto eu esfregava vigorosamente o rosto, especialmente em torno dos olhos, percebi com ternura inesperada que, na verdade, Amalia estava sob minha pele, como um líquido quente que havia sido injetado em mim sabe-se lá quando.”

Pode ser que a escrita da autora tenha se refinado mais ao longo de sua trajetória. Pode ser que Um Amor Incômodo ainda não apresente a maturidade  que se conquista com  a experiência. Todavia, o livro, que é curto e rápido de ler, toca em sentimentos e verdades confusas presentes na sociedade e que ainda precisam ser melhor exploradas, verdades que definem as fantasias, os medos e as vidas de tantas mulheres como Delia e Amalia.

“Quantas coisas atravessam o tempo destacando-se, fortuitamente, dos corpos e das vozes das pessoas.”


Um Amor IncômodoUm Amor Incômodo

Autora: Elena Ferrante

Editora Intrínseca

176 páginas

Onde Comprar: Amazon


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Autora

135 Posts

Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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