Sex Education – 4ª temporada: os desfechos que nem sempre são finais

Sex Education – 4ª temporada: os desfechos que nem sempre são finais

Em setembro houve a estreia da tão aguardada última temporada de Sex Education. A Netflix mantém seu costume de lançar todos os episódios de uma vez, proporcionando uma maratona repleta de emoções para os fãs.

As emoções começam a aflorar desde os trailers, que dão uma prévia do cenário atual. A escola apresenta novos personagens, trazendo perspectivas frescas para o aguardado “clímax final”. Como o próprio trailer sugere, “nada dura para sempre”.

E é definitivamente isso que devemos levar dessa série que nos deixa órfãs. Acompanhamos a vida e o amadurecimento (ou não) de diversas personagens e, no fim dessa temporada, tivemos desfechos para situações específicas, o que, pelo menos na nossa imaginação, não significa o fim do caminho ou das experiências.

O que devemos assimilar dessa série que nos cativou é que nada é eterno. Acompanhamos o crescimento e desenvolvimento (ou falta dele) de diversas personagens ao longo das temporadas. Mesmo que esta temporada traga encerramentos para algumas tramas específicas, isso não significa o fim de jornadas ou experiências, pelo menos em nossa imaginação.

Aviso: pode conter spoilers leves da série

4ª temporada de Sex Education: o tempo passou, a maturidade aconteceu, mas nem sempre foi bonito de acompanhar 

Quando a série começou, seguimos a jornada do inexperiente Otis (Asa Butterfield), que, inspirado pelos conhecimentos adquiridos através de sua mãe terapeuta sexual, decide abrir uma clínica na escola de Moordale com a ajuda de Maeve (Emma Mackey). Foram muitas histórias, experiências diversas e um aprendizado que nem sempre ocorreu da melhor maneira, é importante ressaltar. Agora, três temporadas depois, chegamos à quarta e última temporada, cumprindo a promessa feita.

Eric (Ncuti Gatwa) e Otis (Asa Butterfield) na quarta temporada de Sex Education
Eric (Ncuti Gatwa) e Otis (Asa Butterfield) na quarta temporada de Sex Education | Divulgação

A liberdade da nova escola surpreende até mesmo as mentes mais libertárias. A estrutura organizacional, na qual os estudantes têm voz ativa na definição das regras e necessidades, destaca-se. Isso é evidenciado por protestos em relação à falta de acessibilidade, como um elevador frequentemente quebrado, que cria conexões, às vezes um tanto forçadas, entre algumas personagens.

Falando sobre personagens e personalidades, a última temporada deixa claro que não existem coadjuvantes. Todas as histórias são importantes, pois são únicas, e cada pessoa é única devido às suas peculiaridades. Como sabiamente observado na vasta terra de ninguém chamada internet, “todo mundo é tão problemático nessa série que é até reconfortante assistir”.

Certamente, existem muitos traumas e dores presentes. A sensação de abandono devido à morte, a rejeição que causa uma sensação similar de abandono e a percepção de um mundo que, às vezes, simplesmente desmorona. Contudo, é injusto limitar Sex Education à representação da realidade bruta e dolorida, pois a série abrange muito mais do que isso.

Pessoas brutas que amam e a redenção de seus pecados

Michel (Alistair Petrie) e Adam (Connor Swindells) na quarta temporada de Sex Education
Michel (Alistair Petrie) e Adam (Connor Swindells) na quarta temporada de Sex Education | Divulgação

É impossível não torcer pelo amadurecimento da família de Adam (Connor Swindells) como um todo. Ele próprio iniciou essa jornada como um homofóbico praticante de bullying e evoluiu para uma pessoa bissexual, superando a vergonha de se assumir.

Entretanto, o mais fascinante é acompanhar a trajetória de seu pai, Michel (Alistair Petrie), que está sinceramente comprometido em corrigir seu comportamento tóxico. Não foi uma jornada visivelmente fácil, mas, quando percebemos, estamos torcendo para que um homem branco, que antes era um brucutu, tenha sucesso, afinal, todos merecem uma segunda chance quando a buscam.

Para ser dita a verdade, fica explícito que o tema central da temporada é fazer com que as personagens encontrem sua própria verdade ou seu caminho, de uma forma ou de outra. Mesmo que em histórias menos desenvolvidas, como a de Aisha (Alexandra James), onde o uso da linguagem de sinais passa a ser mais valorizado.

Em uma das histórias mais aprofundadas, vemos Eric (Ncuti Gatwa), uma pessoa homossexual criada em uma igreja homofóbica, questionar suas próprias convicções para tentar se encaixar em situações que o forçam a esconder sua verdadeira identidade. No final, Eric percebe que ser dono da sua própria verdade é também conseguir transmiti-la para as outras pessoas e isso é lindo de ver.

Precisamos falar sobre Ottis e Maeve, mas não só sobre eles

Ottis (Asa Butterfield) e Maeve (Emma Mackey) na quarta temporada de Sex Education
Ottis (Asa Butterfield) e Maeve (Emma Mackey) | Divulgação

Em relação ao arco de evolução das personagens de Sex Education, vale a pena destacar três em particular.

O primeiro é Otis, que enfrenta desafios significativos em seu processo de amadurecimento e, em alguns momentos, parece insensível às suas próprias vantagens.

Às vezes, ele pode fazer com que o espectador queira entrar na tela e lavar a jaqueta que ele insiste em usar por quatro temporadas. No entanto, também desperta o desejo de correr e abraçá-lo quando, sem querer, exibe seus nudes no telão da escola no primeiro dia de aula.

Por outro lado, Maeve mais uma vez demonstra uma força que vai além do que se espera de alguém da sua idade. A narrativa de sua vida a coloca em situações que exigem uma coragem que geralmente não se espera de uma pessoa no final da adolescência. É triste e bonito, também inspirador e reflexivo.

Aimeé, interpretada por Aimeé Lou Wood
Aimeé (Aimeé Lou Wood) em Sex Education | Divulgação

Por último, mas não menos importante, temos a querida Aimeé, interpretada por Aimeé Lou Wood. Ela é dona e protagonista de sua própria história, onde descobre, por meio de sua arte, como superar seu trauma e entender que pessoas que se sentiram abandonadas podem ser amadas. Ao acompanhar sua jornada, paramos de assistir à série desejando ser suas amigas.

O timing do fim é perfeito, o que não significa que não ficaremos com saudade de Sex Education

Quando a temporada foi lançada, houve muitas dúvidas sobre a qualidade do roteiro, já que ela decidiu mudar quase que completamente o rumo da história, como havia sido anunciado, na suposta última temporada. Isso envolveu a introdução de novos cenários, escolas e histórias.

Porém, a temporada toma seu tempo, sem pressa de resolver todas as questões, e apresenta episódios longos que, surpreendentemente, não se tornam cansativos. Além disso, a série nos brinda com paisagens deslumbrantes do interior da Inglaterra e uma trilha sonora envolvente, o que contribui para uma condução habilidosa da trama. Mas é no último episódio que tudo desmorona.

Com quase uma hora e meia de duração, esse episódio, com características de um filme, amarra todas as pontas soltas da narrativa. Isso culmina em momentos catárticos para as personagens, nas quais elas gritam, choram, encontram a liberdade e a cura. Embora seja angustiante chegar ao final, é reconfortante testemunhar um processo de redenção que, mesmo na ficção, pode servir de espelho e suporte para os processos da vida real.

Sex Education abordou em todas as temporadas temas como violência doméstica, acessibilidade, religião, sexualidade, problemas familiares, positividade tóxica, entre tantas outras questões.

Só nos resta concluir o óbvio: vamos sentir saudade da série, porque suas personagens, tão reais, parecem fazer parte da nossa vida cotidiana. Sentimos suas angústias, compartilhamos de seus momentos de desespero, acompanhamos suas jornadas de cura e nos identificamos com elas, pois são “gente como a gente”.

Talvez a única exceção seja a tentativa de algumas delas de evitar fofocas, mas, em um país como o Brasil, onde programas de televisão como o “Casos de Família” fazem sucesso, é difícil não se encantar com um pouco de informação compartilhada. No mais, agradecemos a Sex Education por nos proporcionar risadas, lágrimas e até mesmo alguns momentos constrangedores.

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Uma adolescente emo virou uma hipster meio torta que sem saber muito bem o que fazer, começou jogar palavras ao vento e se tornou escritora e tradutora. Também é ativista dos direitos humanos. Além disso é lésbica, Fé.minista, taurina. E, principalmente, adoradora de gatos e de café.
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