[SÉRIES] Homecoming: Julia Roberts em uma poderosa trama sobre poder e memória

[SÉRIES] Homecoming: Julia Roberts em uma poderosa trama sobre poder e memória

Baseada no podcast de mesmo nome criado por Eli Horowitz e Micah Bloomberg – que também atuam como roteiristas e produtores executivos ao lado de Sam Esmail – “Homecoming” conta com um elenco de figuras notórias, como Julia Roberts, Bobby Cannavale e Sissy Spacek.

Homecoming segue a vida da personagem Heidi Bergman (Julia Roberts), uma assistente social do Centro de Apoio Homecoming, uma instalação especial realizada pelo Geist Group. O objetivo da instalação é ajudar os soldados norte-americanos na transição para a vida civil, mas a razão pela qual eles precisam dessa ajuda não é clara. Aos poucos Bergman percebe que existe algo errado no verdadeiro propósito da instalação.

Ao mesmo tempo que acompanhamos a rotina de Heidi na instituição, a série relata a vida de Bergman no ano de 2022, já fora da instalação, morando com a mãe e trabalhando como garçonete. Quando um auditor do Departamento de Defesa dos Estados Unidos pergunta por que ela deixou a instalação, Bergman percebe que suas lembranças de sua antiga profissão foram apagadas e aos poucos ela vai lutando para resolver o quebra-cabeças dos anos que passou em Homecoming.

Homecoming
Amazon/Divulgação

Paranóia, conspiração e nacionalismo

Com 10 episódios de 30 minutos, a primeira temporada de Homecoming está disponível na Amazon Prime, dirigida por Sam Esmail, o criador de “Mr. Robot“, uma das séries mais interessantes dos últimos tempos e ganhadora de vários prêmios, como Emmy e Globo de Ouro.

Homecoming marca estreia de Julia Roberts como protagonista de TV, um formato que cada vez mais tem atraído grandes estrelas devido aos seus roteiros intrigantes e pela dificuldade de atrizes mais velhas terem papéis de destaque em Hollywood. Toda série é dedicada à figura da personagem de Julia Roberts, mais isso em nenhum momento ofusca os outros personagens.

Fica claro que Julia Roberts se dedicou demasiadamente à sua personagem, e tamanho esforço proporcionou sua melhor atuação desde “Erin Brockovich” (2000), filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz. Mas não é só de Julia Roberts que Homecoming se destaca, outros atores também proporcionam atuações formidáveis. Um dos grandes destaques da série foi Bobby Cannavale (que também atuou em “Mr. Robot”), interpretado o chefe de Heidi.

Amazon Prime/divulgação

Já no piloto de Homecoming percebemos que o thriller psicológico de Sam Esmail pretende brincar com a percepção do público. Do letreiro inicial ao estilo de planos-sequência e formato de tela, tudo lembra o estilo de “Mr. Robot”. Como o auditor do departamento de defesa, ficamos intrigadas pelo o que levou Heidi a virar garçonete – e no decorrer de toda a série as espectadoras terão algumas ótimas surpresas e respostas.

Homecoming é uma série norte-americana que possui em sua temática assuntos polêmicos para o público estadunidense, como a questão da reabilitação de veteranos de guerra. Para nós brasileiros que não lidamos com esse tipo de assunto, é difícil entender os traumas provocados por uma sociedade que vive constantemente em guerras e conflitos. É claro que no Brasil temos nossos próprios traumas em relação à violência urbana, mas existe uma particularidade sociocultural no descaso nos quais esses soldados são tratados quando retornam à sociedade norte-americana.

Homecoming
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Outras obras já abordaram essa temática de forma crítica, como “Nascido em 4 de julho” e “O Franco Atirador”. Num primeiro momento a trama lembra um pouco o filme “Sob o Domínio do Mal”, devido toda questão de fragmentação da memória e conspiração politica, talvez tal filme tenha sido umas das referências dos autores do podcast, contudo as escolhas estéticas não-convencionais de Sam Esmail torna Homecoming uma obra original.

Separadamente, cada episódio possui um ritmo lento e fica perceptível que a obra foi feita para uma maratona. Talvez um longa-metragem fosse um caminho até mais conveniente, pois a estrutura fragmentada e factual em alguns momentos pode levar à impaciência da espectadora, mas graças ao tempo reduzido, que às vezes nem chega aos 30 minutos, podemos sair de uma reviravolta para outra rapidamente.

Desigualdade de oportunidade e representação feminina na obra

Já faz muito tempo que Julia Roberts merecia um projeto como este. Como muitas outras atrizes de renome, ela vem sofrendo pela falta de papéis sólidos disponíveis para a sua idade. Quando ela escolheu esse projeto, recebeu duras críticas da mídia norte-americana, por ser uma obra considerada menor e que seria exibida na terceira maior plataforma de streaming do mundo, mas desde “Comer, Rezar, Amar” (2010) ela vem tendo dificuldades em encontrar bons papéis condizentes com a sua idade.

Essa questão não é uma exclusividade norte-americana. Fazendo um pequeno passeio pelo cenário do entretenimento em países como Brasil, Coréia do Sul e México, que possui uma forte indústria cultural voltada para o entretenimento televisivo, podemos enxergar diversas denúncias relacionadas ao preconceito contra atrizes mais velhas. Em contrapartida, os atores mais velhos continuam desempenhando papéis de galãs e contracenando com atrizes de 20 e poucos anos.

Homecoming
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O culto à juventude afeta a indústria de uma forma dramática. Os trabalhos são focados na aparência dos atores e atrizes. E no caso das mulheres o cenário é bastante cruel. Podemos lembrar do caso da atriz Maggie Gyllenhaall, que na época tinha 37 anos de idade e declarou ter passado por um momento de profunda indignação, quando alguns produtores disseram que ela era velha demais para interpretar a amante de um homem de 55 anos. 

A televisão, principalmente as plataformas de streaming, tem sido uma saída para essas grandes estrelas que já estão na casa dos 50 anos. Em Homecoming, além de Julia Roberts temos Sissy Spacek, que aos 68 anos de idade desempenha o papel da mãe da protagonista e cumpre um papel moral interessante na narrativa.

Todas as mulheres em Homecoming são desconcertantes na visão dos personagens masculinos. Fica nítido o incômodo do auditor do departamento de Estado para com sua chefe, que em uma das cenas amamenta seu filho no escritório e responde de forma ríspida sem subserviências; ou na relação do Colin com sua esposa, que claramente está mais preocupada na sua estabilidade do que nos sentimentos do marido.

Até mesmo na relação de Heide com seu namorado, que aparentemente é marcada pela insensibilidade dela, podemos enxergar a dificuldade dos homens em lidar com uma mulher em cargo de liderança, que não gira em torno do sentimento do companheiro.

Homecoming pode não ser uma obra tão marcante, e mesmo que não ganhe tantos prêmios como “Mr. Robot”, sem dúvidas é um projeto original que deixa espaço para um maior desenvolvimento em futuras temporadas!

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Graduada em Ciências Sociais. Cineasta amadora. Viciada em livros, séries e K-dramas. Mediadora do Leia Mulheres de Niterói (RJ).
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