[SÉRIES] Grey’s Anatomy: nem mesmo Cristina Yang conseguiu uma narrativa menos machista

[SÉRIES] Grey’s Anatomy: nem mesmo Cristina Yang conseguiu uma narrativa menos machista

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Grey’s Anatomy” completa sua décima quinta temporada e ao longo desses quinze anos Shonda Rhimes nos apresentou as mais variadas personagens, com histórias complexas e diversificadas. Inicialmente, a série tinha um núcleo de personagens principais que era composto por Meredith Grey (Ellen Pompeo), Cristina Yang (Sandra Oh), Izzy Stevens (Katherine Heigl), George O’ Malley (T.R. Knight) e Alex Karev (Justin Chambers). Contudo, este núcleo foi se modificando com o passar do tempo, proporcionando às espectadoras uma gama de sentimentos.

Quem é fã de “Grey’s Anatomy” sabe que Shonda não mede esforços para manter o texto em seu verdadeiro gênero e drama, sendo assim, aqueles que acompanham a série desde o início tiveram seus corações apertados com todos os plots e despedidas que ocorreram durante quinze temporadas.

AVISO: O texto contém spoilers a seguir

Uma das saídas mais dolorosas para os fãs da série foi a de Cristina Yang (Sandra Oh). Sua história é recheada de drama. Apenas com três anos de idade, Cristina presencia a morte de seu pai biológico em um acidente. E já com o instinto para salvar pessoas tenta salvá-lo, contudo seus esforços não foram suficientes, fazendo com que ela sentisse a última batida do coração de seu pai. Existe uma especulação de que esse evento foi o que fez com que Cristina se interessasse em Cardiologia. Com a morte de seu pai, a mãe de Cristina casa-se pela segunda vez. O seu padrasto é médico e por isso Dra. Yang resolve persuadir a carreira de médica.

Cristina inicia sua residência em Seattle Grace Hospital, onde conhece Meredith Grey (Ellen Pompeo), e quase que de imediato se tornam melhores amigas, dando uma a outra apoio ao longo da história. Presenciamos diversos momentos marcantes e inesquecíveis dessa amizade feminina, apesar de muitas vezes falhar no Teste de Bechdel, onde seus diálogos costumam ser sobre suas relações amorosas. Contudo, é de se admirar a dedicação e união dessas duas personagens ao longo da série, uma vez que a amizade delas e o laço criado é mais importante que seus parceiros.

Características de Dr. Cristina Yang

Grey’s Anatomy

Cristina é uma personagem bem construída em determinado estereótipo, como, por exemplo, a separação dicotômica do seu eu racional para o seu eu emocional, principalmente devido ao fato de ser de uma família coreana, pois dentro dos padrões asiáticos é de se esperar tal divisão. Contudo, a personagem em sua trajetória foi forçada a mostrar para o público que mesmo os personagens estereotipados podem e devem ser desconstruídos. No caso de Cristina, mesmo sendo colocada como um “robô” e constantemente focada em sua carreira, existe também o seu lado “fofo”, que normalmente transparece através de suas interações com sua melhor amiga.

Apesar de óbvia, a personalidade de Cristina nos faz gostar dela, não pela aparente tentativa de ser sempre a melhor, mas por ser sempre honesta em suas interações humanas. Porém, sua maior falha talvez seja a tentativa de manter sempre a sua racionalidade em controle de suas emoções. A importância de uma personagem asiática em uma série de peso norte-americana é indescritível, mesmo mantendo o estereótipo da etnia, pois ela proporciona à espectadora a oportunidade de se sentir representada. Por isso o papel de Sandra Oh em “Grey’s Anatomy” teve um impacto tão grande em seu público. A desconstrução do perfeccionismo asiático, da ideia de que todas(o) que são do oriente são mais dedicadas(o), contidas(o) emocionalmente, mais inteligentes e que não deixam nada atrapalhar suas carreiras, é tão grandiosa que demonstra claramente que não dá para ser impecável o tempo todo.

Relacionamento com Burke

Grey’s Anatomy

Infelizmente, nem tudo é perfeito e isso inclui alguns desconfortos na audiência de “Grey’s Anatomy”. Dra. Yang precisa aprender a lidar melhor com seus sentimentos e tal afirmativa é confirmada em seus relacionamentos amorosos. Na segunda temporada da série, foi um tanto desconfortável assistir sua submissão e devoção a Burke durante toda a interação dos personagens. A princípio, mostrar a vulnerabilidade de Yang com um aborto, já demonstra que a personagem precisa, em sentido literal, sentir na pele sua dor. Mas a gota d’água é que além de passar pela perda de um filho, ela ainda vivencia um relacionamento abusivo.

Quando Burke fica incapacitado devido ao tremor de sua mão, Cristina entra em um relacionamento onde além de fazer o trabalho do parceiro, se submete à pior reação que o mesmo poderia ter ao ser confrontado por Richard. Ao assumir que todo o trabalho cirúrgico em conjunto com Burke foi, na realidade, executado apenas por ela, Burke sente-se “traído” e rompe com ela o relacionamento. Ele a rejeita por ela ter dito a verdade

Essa relação de Cristina é a mais conturbada e problemática por várias razões e ilustra muito bem como o mercado de trabalho ainda é dominado pelos homens. O casal fazia uma pesquisa em conjunto, além de Yang operar os pacientes do namorado – que não conseguia admitir ao próprio chefe que estava incapacitado. Não sendo humilhação o bastante, ao retomarem a relação e ficarem noivos, Burke deixa Yang no altar. Ela foi a mão dele ao longo de 22 episódios, para, no fim, ser largada e ainda não receber nenhum crédito quando ele ganha o prêmio pela pesquisa que realizaram juntos. Mais um dos diversos casos onde o homem rouba o trabalho de uma mulher; tema retratado de forma primordial nos filmes “Colette” e “A Esposa“.

E por falar em primordial, umas das cenas mais icônicas de “Grey’s Anatomy” é a que Meredith corta o vestido de noiva de Cristina para que ela consiga respirar. É de um simbolismo tão forte, se libertar do padrão, se libertar da relação que não fazia bem para ela, e finalmente pedir ajuda, mesmo que fosse de uma forma metafórica.

Relacionamento com Hunt

Grey’s Anatomy

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Após o término complicado com Dr. Burke, a nossa doutora conhece e se envolve imediatamente com Hunt, um personagem que proporciona novos cenários para as espectadoras, mas, infelizmente, Cristina não é um robô e acaba se colocando em posições ainda de submissão e devoção, mas, dessa vez, por outro viés. Além de viver um triângulo amoroso e desnecessário com Hunt e Altmen, ela ainda se casa com Hunt por mero impulso, justificando que ele consegue ~entender seus traumas~. Por mais que ela tenha vivido em conjunto com ele, não significa que é uma boa ideia se casar com alguém que apenas entende a delicadeza da sua vulnerabilidade por ter vivido algo semelhante. Sem falar na falta de consideração de ambos personagens por Altmen.

De todas as desventuras vividas por Cristina Yang – e ela viveu dezenas – acreditamos que aquela possui maior simbolismo é a do aborto. Em seu relacionamento com Hunt, onde eles se casam e ela engravida, ela novamente resolve abortar. Essa decisão em si coloca muitas pautas a serem debatidas pela audiência. 

Esse tipo de diálogo confronta valores tradicionais do público, apesar de ainda estereotipados. A famosa dualidade de ser mãe ou focar na carreira de médica, tem sido confrontada por centenas de mulheres ao redor do mundo. Yang demonstra que dentro da sua construção como personagem, ela irá focar em sua carreira. Uma decisão óbvia, uma vez que até então todas as tomadas de decisão dela foram em relação a ser a melhor em seu campo de atuação. Infelizmente, não vemos Cristina em um relacionamento, nem casada, ou com filhos após seu rompimento com Hunt. Ela eventualmente se muda de Seattle e vai morar na Suíça, onde recebe uma oferta de emprego de Burke.

Porém, aceitar esse emprego demonstra que ela o perdoa e que ele, ao se aposentar e indicá-la, a qualifica como igualmente boa para o serviço. É perturbador que essa proposta venha de ninguém menos que um ex-namorado abusivo. Esse é um dos maiores erros de “Greys Anatomy, a tentativa de dar um final (ruim) a um relacionamento que nem deveria ter acontecido.

Efeito da personagem na audiência

Grey’s Anatomy

Personagens como Cristina Yang proporcionam ao público a capacidade de debater sobre a vida da personagem como um todo, e traz a tona uma série de eventos que no cotidiano não estamos muito interessadas em encarar. Como, por exemplo, discordar das tomadas de decisão dela; aceitar o pedido de casamento de Burke; ou até mesmo se submeter a tal relação por “amor”. É importante também saber interpretar a série como um todo, por isso analisar o seu enredo e seus personagens é algo necessário. Para muitos, a relação de Cristina com Burke não é abusiva, pois existe a romantização da submissão da mulher e da devoção eterna ao parceiro nas obras artísticas, assunto que nos dias de hoje é questionado com mais afinco por uma parcela do público.

Cristina tem um propósito na série. Além de demonstrar diversidade, dissecar o estereótipo tradicional do asiático, ela é o exato oposto de sua melhor amiga e por isso mesmo o contraste das duas torna a série tão intrigante. Enquanto Meredith é o coração e age de forma mais impulsiva, sempre em nome do “amor”, Cristina é o cérebro, sempre calculando o que é melhor para ela – um exemplo de que mulheres podem fazer escolhas e que tais escolhas não devem ser questionadas por não serem tradicionais.

As personagens femininas de Shonda Rhimes em “Grey’s Anatomy” estão longe de demonstrar a realidade das mulheres no mundo, contudo elas proporcionam de uma forma informal os dois lados da moeda. Quando se trata da tomada de decisão das mesmas personagens, elas trazem à tona debates que são pouco falados no cotidiano e mostram ao público maneiras diversas de enxergar a mesma situação.

Autora convidada: Marina Furtado é mineira, estudante Letras, um pouco geek, e precisava escrever para manter a insanidade intacta. Passa a maior parte do tempo criando mundos imaginários, desenvolvendo teorias mirabolantes e sendo terapeuta de personagens fictícios.

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