Colette: A vida de uma das escritoras mais famosas da Belle Époque!

Colette: A vida de uma das escritoras mais famosas da Belle Époque!

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De acordo com a historiadora Michelle Perrot, as mulheres sempre foram excluídas da História, exceto se apareciam como mães ou esposas. Ou então figuravam nas histórias para corroborar a afirmação de Pitágoras de que as mulheres representavam as trevas, vide Adão e Eva. 

Durante muito tempo, a produção cultural esteve na mãos dos homens. Sobrava às mulheres a organização dos salões literários, nos quais eram figuras centrais porque cuidavam daquilo que era “tarefa de mulher”, pavimentando o caminho de futuros escritores.

Na França, conhecida por sua verve progressista, não era muito diferente. No final do século XIX ainda vigorava o Código Napoleônico, que detinha as mulheres sob autoridade dos homens, como se fossem propriedade deles. Escrever? Nem pensar! No entanto, em meio a todas as dificuldades impostas pelo simples fato de ser mulher, uma figura se destacou e se tornou uma das mais celebradas escritoras francesas: Colette.

Como sua contemporânea, Camille Claudel, Colette teve seu trabalho roubado por um homem: seu marido, Monsieur Willy. Ele colheu os louros durante muitos anos da franquia de romances que ela escreveu. Foi apenas nos anos 30 que ela se libertou dele. Em 2018, a vida de Colette foi transformada em cinebiografia, e não há época melhor para discutir a (não) presença das mulheres na literatura e outras questões que permeiam a produção cultural feita por nós.

A redescoberta de Colette

Colette, dirigido por Wash Westmoreland, propõe-se a contar os principais eventos da vida da escritora, desde o casamento com Willy até seu envolvimento com outras formas de arte, como o teatro.

Em uma época em que iniciativas como o “Leia Mulheres” questionam a presença das mulheres na literatura, estimulando as pessoas a ler mais obras escritas por elas, Colette é um respiro que mostra o quanto as mulheres, em todas as épocas, desafiaram padrões para poder se impor em todos os espaços.

Algo chama bastante a atenção quando olhamos para a ficha técnica do filme: ele é uma produção fora do eixo europeu. Embora Jean Cocteau tenha rodado um filme sobre Colette em 1951, e outros telefilmes franceses tenham se debruçado sobre a escritora, é curioso perceber que só houve um rebuliço (tanto que o vimos em diversas listas de especulações para a Award Season 2019) quando foi exibido em inglês.

Dito isso, Colette é uma cinebiografia bastante comum, mas que acerta muito na maneira como retrata determinadas situações da vida da autora, como sua bissexualidade. O relacionamento entre Colette e Missy, uma marquesa que se vestia com roupas masculinas, é mostrado sem olhar masculino, por exemplo. Pequenos detalhes como esse fazem a cinebiografia criar vida, e esquecermos que o filme tem quase duas horas.

Uma vida dedicada a causar

Nascida em Saint-Sauveur-en-Puisaye, com o nome de Sidonie Gabrielle, a jovem Colette teve o destino reservado a todas as mulheres de sua época: o casamento. Em 1889, ela casou-se com Willy, um crítico musical e escritor. Na verdade, Willy gozava de prestígio a base do que outras pessoas haviam escrito. Ele usava diversos ghostwriters, como Jean de Tinan e Curnonsky. Depois de se casar com Colette, o casal foi morar em Paris, onde fervilhavam os salões literários.

É bem interessante, inclusive, observar a posição que as mulheres ocupavam nesses salões. Em Colette, elas aparecem cantando, ou declamando poesias, atividades consideradas femininas, que têm a ver com a suposta delicadeza inerente a nós. Muitas vezes as mulheres também atuavam como organizadoras dos salões, como é o caso de Madame Geoffrin, no século XVIII. Ela ocupava uma posição de prestígio na sociedade parisiense nessa época, e seu salão reunia a nata da literatura e filosofia. Como dissemos na introdução deste texto, elas eram as facilitadoras de talentos artísticos.

Durante uma crise de criatividade, Willy pediu à esposa para que ela escrevesse as memórias de seus tempos de escola, conforme a autora relata nas memórias, Mes apprentissages, de 1936:

Você deveria jogar no papel lembranças da escola primária. Não tenha medo dos detalhes picantes, quem sabe posso aproveitar alguma coisa… (Tradução livre)

Dessa forma, Colette escreveu em um caderninho as lembranças de sua adolescência que, mais tarde, deu origem a Claudine à l’école. Ao ler, Willy detestou o conteúdo. Ele usou o argumento mais machista possível para desconstruir a qualidade do que ela havia escrito: era feminino demais, por isso ninguém iria ler. Por conta disso, ele deixou de lado o romance. Porém, em um momento de crise e estimulado pela esposa, ele decidiu publicar Claudine. O livro torna-se um sucesso de público, e o filme acerta muito ao mostrar os impactos que o livro causou ao ser lançado.

Colette

Claudine à l’école foi um bestseller de sua época, além de um livro muito libertador para as mulheres. Ele era diferente de tudo o que já tinha sido escrito, muito porque era uma mulher (embora ainda não se soubesse disso) escrevendo sobre outras mulheres. Claudine era uma personagem sem medo de ousar, que destoava de tantas outras representações sempre engessadas das mulheres na literatura.

É interessante observar que, a partir do momento em que a crítica e o público abraçam a obra, Claudine não é mais uma porcaria de obra. Escritoras como Rachel de Queiroz e Clarice Lispector só puderam ser ovacionadas após terem sido acolhidas por “especialistas”. A isso damos o nome de cânone literário. E quem são as figuras por trás dele? Homens brancos e heterossexuais, é claro.

Para Willy, foi o auge de sua consagração enquanto escritor. O sucesso foi tamanho que a editora queria uma continuação. Ele não hesitou e pediu para que Colette a escrevesse. Assim nasceu Claudine à Paris, que se concentra na ida da personagem para a capital. Ele foi baseado na vida de Colette na cidade-luz.

Colette

Em 1901, Claudine à Paris foi adaptado para o teatro, com a atriz Polaire interpretando a protagonista. Como a personagem de Colette ganhou rosto, muitas mulheres passaram a imitar o corte de cabelo de Polaire, suas roupas e maneirismos, acreditando que imitavam Claudine. Paris estava sob o feitiço da personagem criada por Colette.

Ao contrário do que se poderia esperar, Colette buscou em outras formas de arte uma maneira de ter a própria voz, já que ela era constantemente silenciada pelo marido. É através da pantomima que ela descobre que seu corpo pode falar, já que suas ideias estão nas mãos de outro.

Em 1903, ela estreou em Rêve d’Égypte (Sonho do Egito), um espetáculo completamente orientalista no qual Colette dança sensualmente ao lado de sua amante, a marquesa Missy, e causa o maior rebuliço em Paris. Por conta do rechaço da família de Missy, as apresentações acabam tendo de ser canceladas.

Colette
Colette em Rêve d’Égypte. Imagem: Fotografias do estúdio Reutlinger.

Missy e Colette: o amor entre mulheres é político

A descoberta da bissexualidade de Claudine acontece durante o auge da fama do marido, quando Georgie Raoul-Duval, uma dama da sociedade, a aborda no Bois de Boulogne querendo jantar com ela e Willy.

A princípio você acredita que ela está interessada em Willy, mas, a partir do momento em que elas começam a flertar durante o jantar, percebemos que o marido está sobrando. Esse momento é bastante emblemático, pois é um indício do papel insignificante que Willy ocupava na vida da esposa. A essa altura ela já havia descoberto as traições dele, portanto, não estava mais tão apaixonada.

Georgie e Colette começam a se encontrar às escondidas, já que a dama também era casada. O filme retrata a relação entre as duas de uma forma bastante delicada, e a cena de sexo entre elas é breve, porém cheia de sensualidade. A produção também acerta ao mostrar o quanto o patriarcado não consegue admitir uma relação amorosa entre duas mulheres. Isso porque, ao saber que as duas estão se encontrando, Willy também tenta seduzir Georgie. Ele simplesmente não aceita não ser o centro de tudo. Estar com Georgie restaurou seu ego de macho ferido.

Colette

Irritada com a intromissão do marido, Colette escreve sobre a amante em Claudine à Paris. O resultado? Georgie e o marido mandam queimar todos os exemplares para que ela não seja comprometida. Assim é o fim parcial de Claudine à Paris. A bissexualidade de Georgie precisava permanecer no armário.

Depois de Georgie, Colette conheceu Missy, a mulher com quem ela viveria um longo relacionamento. Seu nome verdadeiro era Mathilde de Morny e foi uma figura muito importante durante a Belle Époque. Ela causou um escândalo na sociedade não apenas por declarar abertamente o interesse em mulheres, mas também por usar calças em público.

A origem de Missy é abastada, sendo que seus pais tinham ligações com Napoleão Bonaparte. Ela bem que tentou seguir as regras da época casando-se com Jacques Godart de Belbeuf, mas em 1903 divorciou-se dele para viver seu amor por mulheres de forma aberta e livre.

O filme coloca em evidência a possibilidade de Missy ser um homem trans. Em determinado momento, Colette refere-se à amante usando pronomes masculinos, o que causa confusão no interlocutor da escritora. Outras informações colhidas na Internet afirmam que Missy gostava de ser chamada de Max ou Oncle Max (Tio Max). Ela também passou por uma cirurgia para a retirada das mamas. Como não sabemos ao certo se isso é verdade, iremos nos referir a ela usando pronomes femininos.

Colette
Missy (Denise Gough) e Colette (Keira Knightley)
Colette
Missy e Colette. Imagem: Reprodução

As duas foram morar juntas após o divórcio de Colette e Willy. A relação entre elas foi de puro apoio e amor; Missy participava de todas as empreitadas de Colette. Uma delas foi uma apresentação no Moulin Rouge chamada Rêve d’Egypte (Sonho do Egito). Missy interpretava um arqueólogo que despertava uma múmia (Colette) com um beijo. Deu o maior escândalo quando descobriram a identidade de Missy. As apresentações tiveram de ser canceladas. 

Desse lindo amor sobreviveram as cartas trocadas por elas, lançadas em forma de livro pela editora Gallimard. A correspondência foi reunida por Michel Rémy-Bieth, contando com 150 cartas de Colette e apenas três de Missy. O relacionamento entre elas acabou após o segundo casamento de Colette, dessa vez com Henri de Jouvenel. No entanto, ambas entraram para a história como um dos maiores ícones LGBT+ da Belle Époque. Em uma época de contestação de valores burgueses, o casal simbolizou a liberdade e a ousadia de ser quem se é.

Ao lado de A Esposa, a grande promessa do Oscar para Glenn Close, o filme faz pensar que não estamos tão longe dessas tramas inventadas ou reais. Ainda há o preconceito contra mulheres que escrevem, seja na inserção delas no cânone literário ou no apagamento que acontece todos os dias, quando uma escritora casada com um autor consagrado precisa enfrentar a declaração de que ele teria escrito os livros dela.

A Esposa (2018), direção: Björn Runge

Infelizmente, Colette ainda não está sendo estudada nos cursos de graduação em Letras como deveria, ao lado de contemporâneos de sua época, como François Mauriac e Proust. A presença das mulheres em grandes prêmios literários é ridícula. Apenas 10,63% dos vencedores do Nobel são mulheres. Colette nunca venceu um Prêmio Goncourt, a maior honraria em termos de literatura da França. São 108 homens ganhadores desse prêmio versus 8 mulheres. É absurdo demais. 

Dito isso, um filme como Colette aponta o quanto é necessário discutir a ausência no espaço literário. Não estamos mais na Belle Époque, então por que ainda temos números absurdos como os citados no parágrafo anterior? Trata-se um problema estrutural.

É muito bom ver um filme como este, assim como A Esposa, entrando em premiações, pois o grande público poderá ter contato com essas discussões. Além disso, no caso de Colette, é uma forma de as pessoas terem um primeiro contato com sua obra!

Colette
Colette em 1890, com 17 anos. Imagem: reprodução

Em suas obras, como La Femme Cachée, livro que reúne alguns contos escritos por Colette de 1921 a 1923, publicados no jornal Le Soir, Colette transforma situações corriqueiras na vida de suas personagens em algo que causa espanto, pânico e horror.

Em La Main (A Mão), por exemplo, a escritora conta a história de uma mulher recém-casada que passa a madrugada olhando para as mãos do marido. A partir dessa observação, ela percebe que está presa à famosa Instituição Casamento e começa a ter horror da mão do marido que repousa em cima de seu corpo enquanto ele dorme.

Colette usa o passé simple, tempo verbal do francês equivalente ao nosso pretérito perfeito, para enumerar, como se fosse uma metralhadora, os pensamentos da personagem. O uso desse tempo verbal faz com que tenhamos a sensação de que a ação desenrola-se muito rápido e, assim como a personagem, experimentamos pânico.

Colette

Colette

Uma das principais obras da escritora, Chéri, foi relançada pela editora Record na ocasião do lançamento do filme homônimo estrelando Michelle Pfeiffer. É claro que ainda não é suficiente, visto que a escritora tem mais de 50 livros na praça. Portanto, sua cinebiografia de 2018 é um começo para que se descubra mais sobre ela.

A cinebiografia por si só é um gênero bastante batido em Hollywood, com aquele aroma de Oscar Bait, e que sempre retrata homens brancos e heterossexuais. Um filme sobre a vida de uma escritora bissexual rompe com as mesmas narrativas de sempre. Por isso, Colette é um filme interessante de ver.

Colette, o filme, pode não ter qualidades excepcionais de filmagem, mas ele nos ganha por descortinar a vida e a obra de uma das maiores escritoras francesas. É provável que o filme não abocanhe nenhuma indicação, mas suas qualidades são inegáveis. Uma fotografia belíssima, figurinos bem construídos e uma construção saudável sobre o amor entre duas mulheres. Que possamos nos inspirar na vida fantástica desta grande autora!


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Tradutora e noveleira. Criou, em 2014, o canal sobre cinema clássico no YouTube, o Cine Espresso, para espalhar na Internet o amor pelos filmes esquecidos. Gosta de chá preto acompanhado de um bom livro.
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