“Vermelho, Branco e Sangue Azul” é o clichê que deu certo

“Vermelho, Branco e Sangue Azul” é o clichê que deu certo

No dia 11 de agosto, estreou no Prime Video a adaptação cinematográfica do best-seller Vermelho, Branco e Sangue Azul. Escrito pela norte-americana Casey McQuiston, o livro lançado em 2019 conta a história de Alex (Taylor Perez), filho da presidenta dos Estados Unidos, e Henry (Nicholas Galitzine), príncipe da Inglaterra.

Após se envolverem em um incidente durante o casamento do irmão de Henry, ambos os países enfrentam uma crise internacional de imagem. Para contornar a situação, Alex e Henry são obrigados a simular uma amizade de longa data diante das câmeras, mesmo que na realidade se detestem. À medida que passam mais tempo juntos, um romance improvável e complexo começa a florescer.

Taylor Perez e Nicholas Galitzine na adaptação de "Vermelho, Branco e Sangue Azul"
Taylor Perez e Nicholas Galitzine na adaptação de “Vermelho, Branco e Sangue Azul” | Foto: Prime Video / Reprodução

“Vermelho, Branco e Sangue Azul” é bom filme, mas longe de ser uma adaptação perfeita

A adaptação cinematográfica da obra de McQuiston é agradável de se assistir, mas não atinge o mesmo nível de excelência de produções como Heartstopper, por exemplo. Embora consiga capturar a essência dos personagens e dar voz aos anseios habilmente explorados na narrativa original, o filme deixa de lado personagens essenciais cujas trajetórias foram de vital importância no livro: June (irmã de Alex), Catherine (mãe de Henry) e a Rainha Mary (avó do príncipe).

Catherine, apesar de mencionada uma ou duas vezes, não faz aparição alguma, enquanto Mary foi substituída pelo Rei James III (Stephen Fry). Quanto a June, ela sequer existe na trama. Embora tais mudanças não alterem drasticamente o enredo do filme para aqueles que não leram o livro, para os leitores (que constituem a maior parte do público, por sinal), essa omissão foi um balde de água fria.

Conforme o diretor Matthew Lopez, a ausência da irmã de Alex se justifica pela necessidade de focar a história exclusivamente em Alex e Henry, e o destaque a June poderia prejudicar a trama do casal. No entanto, a inclusão dela seria uma adição valiosa (como ocorre no livro), visto que o círculo de amigos e sua participação na jornada do casal ganham mais coesão com sua presença.

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Omissão de acontecimentos importantes da obra de Casey McQuiston

Na narrativa original, a primeira vez que Alex vê uma foto de Henry é em uma revista de sua irmã, e ela é a autora do discurso em que ele assume seu relacionamento (e amor intenso) pelo príncipe. A decisão de omitir esses elementos não pareceu das mais inteligentes, visto que retira uma das principais pessoas que une o casal protagonista.

“Se não é sobre Alex e Henry, não pertence ao filme – isso foi reforçado quando eu estava editando.”

Matthew Lopez para o BuzzFeed

A alteração do avô de Henry pela avó foi um erro grotesco e desnecessário. A trama original já havia estabelecido a Rainha como uma figura importante, e sua presença se encaixava perfeitamente na narrativa. A substituição de gênero do personagem parece ter sido uma escolha questionável, pois não teve qualquer impacto na dinâmica ou desenvolvimento da história.

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Cena da adaptação de “Vermelho, Branco e Sangue Azul” com Stephen Fry interpretando o Rei James III | Foto: Prime Video / Reprodução

Mudanças e erros na adaptação cinematográfica

Outros dois equívocos significativos envolvem o vazamento de e-mails e as trajetórias de Rafael Luna e Jeffrey Richards. Richards, o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, possui uma presença mais discreta no livro, mas desempenha um papel central nas discussões da trama, o que contrasta com sua única aparição no filme.

Uma das subtramas do romance gira em torno de Rafael Luna, um senador assumidamente gay e amigo do pai de Alex, que temporariamente se junta à campanha presidencial de Jeffrey como candidato a vice-presidente. No entanto, mais adiante é revelado que Luna se uniu à campanha de Richards com a intenção de expô-lo como um agressor sexual.

Nada disso é explorado no filme, em que Luna é substituído por um jornalista chamado Miguel Ramos, responsável pelo vazamento dos e-mails de Alex e Henry, sem mais desdobramentos. Além disso, os e-mails no longa carecem da profundidade presente na obra original, com a ausência de citações e referências a autores renomados.

Outras alterações também foram realizadas, como a remoção do vício em drogas da princesa Beatrice e o divórcio de Ellen e Oscar (que consequentemente eliminou Leo, padrasto de Alex e June, da trama). Além disso, o motivo pelo qual Alex detesta Henry também foi modificado (originalmente, o príncipe fora rude com Alex durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro).

Algumas mudanças são sutis, enquanto outras têm um impacto maior, decepcionando o público que esperava ver esses personagens tão aguardados em um longa-metragem.

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A história continua sendo mais do que uma comédia romântica comum

É inegável que o enredo de “Vermelho, Branco e Sangue Azul” apresenta um clichê evidente. Tanto no livro quanto no filme, temos o clássico plot de enemies to lovers (inimigos que se tornam amantes), acompanhado por uma dose de comédia e um drama envolvente que prende o público até o último momento, seja na tela ou nas páginas. No entanto, para aqueles que se envolveram genuinamente com essa narrativa, ela sempre significou muito mais do que isso.

A trama não se restringe apenas a um romance superficial; ela explora a política internacional enquanto mergulha na complexidade emocional que acompanha o processo de autodescoberta e aceitação dentro da comunidade LGBTQIAPN+ com muita naturalidade.

Apesar de ser um tópico delicado e desafiador, a intercalação habilidosa com momentos românticos e cômicos (embora menos frequentes no filme do que no livro) permitiu que a produção abordasse o assunto com sensibilidade, muitas vezes evocando lágrimas dos espectadores.

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Cena de “Vermelho, Branco e Sangue Azul” | Foto: Prime Video / Reprodução

Apesar da rapidez com que os eventos se desenrolam no filme, o enredo ainda conseguiu explorar aspectos fundamentais não apenas para a trama, mas também para a sociedade como um todo. A batalha interna, o temor do julgamento alheio e a apreensão diante das reações das pessoas ao redor foram retratados de forma coesa e intensa.

Além disso, a narrativa se aprofunda nas características singulares dos personagens, revelando que ser membro da comunidade LGBTQIAPN+ é apenas um aspecto de suas personalidades, não a definição completa de quem são. Alex e Henry são figuras inteligentes, comprometidas com causas relevantes, conscientes de sua influência no mundo e retratadas como seres complexos em sua totalidade.

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Apesar dos pesares, vale a pena prestigiar a adaptação no Prime Video

É claro que um filme com apenas duas horas de duração não pode ser completamente fiel a todas as descrições, ambientes e momentos emocionais presentes no livro. Apesar das limitações de tempo, a produção conseguiu transmitir a conexão, intimidade e desenvolvimento tanto dos personagens principais quanto dos secundários que permaneceram na adaptação.

A rapidez com que o romance entre Alex e Henry se desenvolveu foi uma concessão necessária para o formato cinematográfico, mas ainda assim manteve os espectadores cativados pelas trajetórias e conquistas dos personagens, apesar dos desafios enfrentados.

Assistir ao filme disponível no Prime Video é ver um recorte de tudo o que Casey McQuiston criou na obra original. Sim, vale a pena conferir o filme, mas é ainda mais gratificante ler a história completa – com todos os personagens e uma dose ainda mais intensa de romance, drama e comédia. Somente assim é possível compreender verdadeiramente por que “Vermelho, Branco e Sangue Azul” é um clichê surpreendente – e é por isso que teve tanto sucesso.

Colagem em destaque: Isabelle Simões para o Delirium Nerd.

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Uma jornalista apaixonada por música, literatura e cinema. Seus maiores hobbies incluem criar playlists para personagens fictícios e falar sobre Taylor Swift nas redes sociais.
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