Bridgerton: 2ª temporada empolga, mas perde o fôlego no final

Bridgerton: 2ª temporada empolga, mas perde o fôlego no final

A segunda temporada de Bridgerton chegou à Netflix no dia 25 de março com uma difícil tarefa a cumprir: atender às expectativas das fãs da série de romance lançada em 2020, cuja primeira temporada alcançou o topo da lista de mais assistidas da plataforma de streaming. E não foi sem motivo. Apesar de alguns tropeços feios, a primeira temporada de Bridgerton encantou o público com um uma trama leve e sensual – bem o tipo de escapismo de que todas precisávamos no fim do primeiro ano da pandemia. Porém, sem o carismático casal formado por Daphne (Phoebe Dynevor) e Simon (Regé-Jean Page) como protagonista, ficou a dúvida: será que a série conseguiria manter o público interessado?

A segunda temporada de Bridgerton é baseada no livro O Visconde Que Me Amava, o segundo da série Os Bridgertons da escritora Julia Quinn. Os romances contam as histórias dos irmãos Bridgerton em suas passagens pelo mercado casamenteiro da alta sociedade inglesa do período da Regência. Cada livro é dedicado a um dos oito filhos de Lady Violet Bridgerton (Ruth Gemmell). Com algumas alterações, a estrutura antológica dos romances é preservada no seriado da Netflix, criado por Chris Van Dusen e produzido por Shonda Rhimes.

Fogo brando: o romance de Kate Sharma e Anthony Bridgerton
Kate Sharma e Anthony Bridgerton são os novos protagonistas da série | Imagem: Divulgação

Portanto, enquanto a primeira temporada tinha como ponto central o romance entre Daphne e Simon – retirado do livro O Duque e Eu –, a segunda apresenta as fãs a um novo casal de protagonistas. Interpretados por Jonathan Bailey e Simone Ashley, Anthony Bridgerton e Kate Sharma vivem uma paixão proibida. E quem são os grandes inimigos desse casal, que não permitem que eles se entreguem ao amor que sentem um pelo outro? Eles mesmos.

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A segunda temporada de Bridgerton, portanto, aposta na clássica dinâmica enemies to lovers (ou “de inimigos a amantes”) e acerta (quase) em cheio. A história se desenrola de um jeito lento, mais preocupada com beijos que não acontecem do que com cenas de sexo propriamente ditas. O resultado é uma temporada um pouco mais “casta” do que a anterior, mas igualmente cativante – pelo menos até o sexto episódio. Daí em diante, a série perde o ritmo.

Além de Bailey e Ashley, os coadjuvantes também brilham na segunda temporada de Bridgerton. Enquanto o casal principal troca olhares nos salões de baile de Londres, Eloise (Claudia Jessie), Lady Portia (Polly Walker) e Benedict (Luke Thompson) vivem seus próprios dramas pessoais, que vão de falcatruas a amores inesperados. Mas, mesmo tendo ótimas cenas e potencial para três temporadas inteiras, as subtramas também perdem o fôlego no final.

Fogo brando: o romance de Kate Sharma e Anthony Bridgerton

O termo slowburn é um velho conhecido de autoras e leitoras de fanfics. Embora, em inglês, ele não seja usado apenas para se referir a trabalhos de fãs, no Brasil, foi nesse meio que ele se popularizou. Slowburn significa, literalmente, queima lenta e diz respeito a tramas que se desenrolam devagar, de maneira a gerar tensão e produzir uma catarse no momento do clímax.

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No caso de romances, o termo serve para descrever histórias em que os personagens demoram para aceitar seus sentimentos uns pelos outros e para concretizar os seus desejos. O vai-não-não de Elizabeth e Sr. Darcy em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, é um exemplo clássico de um romance slowburn. A segunda temporada de Bridgerton também é um exemplo, embora não tão clássico assim.

Claudia Jessie na segunda temporada de Bridgerton, série da Netflix
Eloise se prepara para ser apresentada à sociedade | Imagem: Divulgação

O primeiro episódio começa com toda a família plantada na porta do quarto de Eloise esperando a jovem sair de pluma na cabeça para ser apresentada à sociedade e começar a sua busca por um marido. Porém, para a felicidade de Eloise, quem está no centro do mercado casamenteiro de Londres deste ano é outro membro da família Bridgerton: seu irmão Anthony.

Cínico e arrogante, o visconde está decidido a encontrar uma esposa. Contudo, a ideia de casar por amor nem passa pela cabeça de Anthony. Seu objetivo é apenas achar uma mulher boa o suficiente para que ele possa cumprir seus deveres como visconde, ou seja, passar adiante o nome e a propriedade da família. É encantador, para não dizer o contrário…

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Mas o plano do visconde parece estar indo de vento em popa. Em todos os eventos sociais da temporada, ele é rapidamente cercado por pretendentes. A mais promissora de todas é ninguém mais, ninguém menos, do que Edwina Sharma (Charithra Chandran), nomeada o diamante da temporada pela Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel). Bonita, simpática, inteligente e treinada em todas as habilidades exigidas das jovens da época, Edwina é também ingênua e está perdidamente apaixonada por Anthony.

Porém, o visconde não está tão interessado assim em Edwina. Na verdade, ele está apaixonado por Kate, a irmã mais velha de sua noiva, que também nutre sentimentos por ele. Teimoso e movido por uma visão torta das próprias responsabilidades, Anthony vive em guerra contra o que sente por Kate. E ela, por sua vez, também faz de tudo para abafar a paixão pelo visconde. Afinal, o futuro da família Sharma depende de que Edwina consiga um bom casamento.

Charithra Chandran em Bridgerton
Edwina, a irmã mais nova de Kate e noiva de Anthony | Imagem: Divulgação

Kate e Anthony passam uma grande parte da temporada entre ofensas e beijos que nunca chegam a se concretizar. Ao contrário de Daphne e Simon, que chegaram aos finalmentes no meio da primeira temporada (sem falar no episódio da masturbação), Kate e Anthony só se entregam às suas paixões quase no finalzinho. Comparativamente, a segunda temporada de Bridgerton tem bem menos cenas de sexo. Na verdade, tem apenas uma. Isso, porém, não significa que os episódios não sejam carregados de tensão sexual. A diferença é que o tipo erotismo dessa temporada está mais para o de adaptações recentes de Jane Austen, como o Orgulho e Preconceito de Joe Wright, do que para um 50 Tons de Cinza.

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É o tipo de tensão que agrada e muito algumas pessoas (inclusive a autora deste texto), mas que não é para todas. É perfeitamente compreensível que algumas fãs da série cheguem ao fim da temporada decepcionadas com a falta de sexo na trama. E, mais para o final, essa ausência pode ser sentida até mesmo por quem está curtindo a dinâmica do casal principal.

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O final da segunda temporada de Bridgerton faz referência a "Razão e Sensibilidade"
O final da temporada faz referência a Razão e Sensibilidade | Imagem: Divulgação

Após o primeiro beijo de Kate e Anthony, a história começa a se arrastar, como se os roteiristas tivessem colocado a carroça na frente dos bois e agora precisassem inventar maneiras novas de manter os protagonistas separados. Isso não significa que os episódios finais da temporada não tenham seus ótimos momentos de paixão e sensualidade. Tanto a cena de Kate e Anthony no gazebo da família Bridgerton quanto o começo do último episódio, inspirado na versão de Ang Lee de Razão e Sensibilidade, são de tirar o fôlego.

Contudo, elas funcionam muito mais como cenas soltas do que como parte de um todo. É cansativo ver Kate e Anthony correndo em círculos, voltando sempre para as mesmas discussões, depois que tudo parece já tão definido. Como resultado, o beijo final entre os protagonistas é extremamente anticlimático, e o epílogo com o “felizes para sempre” do casal fica com cara de adição de última hora.

Entretanto, algumas mudanças na estrutura da história – como, por exemplo, trazer o acidente de Kate mais para a frente ou jogá-lo para depois do último baile – bastariam para dar à trama um andamento melhor.

Subtramas finalizadas às pressas

A história central de Anthony e Kate não é a única que empolga ao longo de vários episódios só para morrer na praia. Apesar das premissas interessantes, as três principais subtramas da temporada tem finais frustrantes. O caso mais grave é o de Benedict.

O segundo filho de Lady Bridgerton deseja se tornar um pintor renomado e é finalmente aceito na escola de artes da Royal Academy. Porém, suas expectativas e autoconfiança vão por água abaixo quando ele descobre que só conseguiu entrar na academia graças a uma doação feita por Anthony à instituição. Decepcionado, ele resolve abandonar os estudos.

Por si só, a história de Benedict não é ruim. Porém, o personagem tem pouquíssimo tempo de tela. Suas cenas são breves e servem apenas para levá-lo do ponto A ao ponto B em que ele precisa estar para ser o protagonista da próxima temporada, que deve ser baseada no romance Um Perfeito Cavalheiro.

Quando, no último episódio, Benedict decide confrontar Anthony, os dois nem mesmo têm uma cena própria para conversar. Benedict apenas diz algumas palavras para o irmão no meio de uma multidão, e Anthony responde no melhor estilo “aham, Cláudia, senta lá”.

Luke Thompson como Benedict segunda temporada da série
Benedict é aceito na escola de artes, mas há um porém | Imagem: Divulgação

Outra história que termina de um jeito decepcionante é a de Lady Portia Featherington com o primo Jack (Rupert Young). Dono de minas de rubi na América, Jack é o herdeiro do falecido Lorde Featherington, que chega a Londres para assumir os negócios e a propriedade da família. Certa de que Jack só está esperando a melhor oportunidade para colocá-la para fora de casa, Portia decide forçar um noivado entre ele e sua filha Prudence (Bessie Carter).

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Entretanto, Portia logo descobre que as minas de rubi de Jack não existem e que a única esperança para a situação financeira da família era que ele conseguisse se casar com uma mulher de família rica. Sem poder por um fim ao noivado da filha, Portia sugere que ela e Jack deem um golpe nos membros da alta sociedade londrina, convencendo-os a investir nas minas falsas. Feliz por não ser mais o único trambiqueiro da casa, Jack se apaixona por Portia.

Cena de Bridgerton na segunda temporada de Bridgerton
Jack, Portia, Penelope (Nicola Coughlan) e Colin (Luke Newton) | Imagem: Divulgação

O romance de Jack e Portia é uma típica história de núcleo cômico de novela que dá certo. Assistir aos dois picaretas se encantando um pelo outro é quase tão delicioso quando assistir às cenas mais intensas de Anthony e Kate. É uma pena, portanto, que a trama tenha sido usada apenas como ferramenta para salvar as Featherington da ruína em vez de se estender por mais algumas temporadas. A despedida de Jack é sofrida para Lady Portia, e para o público também.

O relacionamento entre Eloise Bridgerton e Theo Sharpe (Calam Lynch) é outro que merecia mais tempo de tela. O assistente de gráfica e a jovem nobre se conhecem durante a procura de Eloise pela verdadeira Lady Whistledown (voz de Julie Andrews). Theo a convida para reuniões sobre direitos trabalhistas e das mulheres, apresentando a mais rebelde dos Bridgerton a um mundo bem mais amplo e interessante do que o da alta sociedade. Pouco a pouco, os dois começam a compartilhar interesses e se apaixonam um pelo outro. Infelizmente, a história do jovem casal termina sem nem mesmo um mísero beijinho.

Claudia Jessie e Calam Lynch na segunda temporada de Bridgerton
Eloise se envolve com o assistente de gráfica Theo Sharpe | Imagem: Divulgação
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Dado o final da trama de Eloise nessa temporada, é possível que Theo retorne para mais alguns episódios no ano que vem. Porém, é muito improvável que os dois fiquem juntos. Para isso, Van Dusen teria que alterar drasticamente a história original de Julia Quinn. Intitulado Para Sir Phillip, Com Amor, o romance dedicado a Eloise termina com o casamento entre a jovem e o viúvo Sir Phillip Crane (Chris Fulton), personagem que é rapidamente apresentado na segunda temporada como o marido de Marina (Ruby Barker). Mudar a história de Eloise provavelmente não pegaria bem com os fãs dos livros.

Por outro lado, Para Sir Phillip, Com Amor é frequentemente considerado um dos livros mais fracos da série justamente por cercear a independência e o espírito questionador de Eloise. No romance, ela termina levando uma vida pacata no interior e cuidando dos filhos gêmeos do marido. No entanto, um relacionamento em pé de igualdade com um “radical político”, como Theo é chamado por Lady Whistledown, combinaria muito mais com a personagem. Ainda mais se considerarmos que o casamento de uma Bridgerton com um rapaz da classe trabalhadora desafiaria todas as normas da alta sociedade que Eloise tanto odeia. OK, talvez não fosse um final historicamente correto, mas maior o compromisso de Bridgerton nunca foi com o realismo.

Quanto aos livros, Van Dusen sempre faz algumas mudanças na hora de adaptá-los. Na segunda temporada de Bridgerton, por exemplo, pontos centrais do relacionamento de Kate e Anthony foram alterados, e a família Sheffield foi transformada em Sharma para uma maior representatividade. Em vez do condado inglês de Somerset, Kate e Edwina se mudam para Londres diretamente da Índia. Mexer com o material de base, portanto, nunca foi um problema para Van Dusen. Mas será que os produtores da série topariam uma mudança tão drástica?

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Tradutora, jornalista, escritora e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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