The Last Kingdom: 5ª temporada se despede repleta de protagonismo feminino

The Last Kingdom: 5ª temporada se despede repleta de protagonismo feminino

A série The Last Kingdom chegou ao final. Após cinco temporadas, o público acompanhou a jornada do protagonista Uhtred (Alexander Dreymon) de volta para sua casa, em Bebbanburg. Após muitos anos de paz, saxões e daneses se encontraram novamente no campo de batalha, arrastando Uhtred, seus amigos, familiares e aliados de volta para o centro desses conflitos. 

A quinta temporada de The Last Kingdom estreou com poucas pendências a serem solucionadas, tendo como principal missão entregar um final digno da história épica que os fãs acompanharam com tanto afinco nos últimos anos. 

Aviso: o texto a seguir contém spoilers da temporada

The Last Kingdom e suas trajetórias definidas por mulheres 

The Last Kingdom e suas trajetórias definidas por mulheres 
Aethelflaed (Millie Brady) na quinta temporada | Imagem: Netflix

Desde a primeira temporada da série, os rumos de reinos e povos foram influenciados e muitas vezes definidos pelas ações de diversas mulheres. O protagonismo feminino na série cresceu e evoluiu com o passar do tempo, aprofundando cada vez mais a história e a personalidade de suas personagens. 

As mulheres em The Last Kingdom ganharam cada vez mais autonomia dentro da série, movendo-se em torno de seus próprios conflitos ao invés de existirem como mero suporte para o desenvolvimento de Uhtred. Elas começam e terminam guerras, lideram exércitos, formam alianças e lutam por seus povos e sonhos. 

Dois dos maiores exemplos de desenvolvimento feminino na série são as personagens Brida (Emily Cox) e Aelswith (Eliza Butterworth), que estiveram em espectros totalmente opostos durante toda a série. Ambas personagens tiveram trajetórias repletas de erros e acertos, esperança e sofrimento. E mesmo em meio a altos e baixos, a série continuou aprofundando suas jornadas e personalidades. 

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Brida teve um longo caminho buscando vingança e redenção. Mesmo nos momentos da série onde ela ocupou uma posição de antagonista, suas ações faziam sentido dentro da lógica da história e da personagem em si. Brida, portanto, nunca foi subvertida para beneficiar a narrativa de Uhtred. Toda a sua trajetória era centrada no sofrimento e nas vivências da própria personagem. 

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Brida (Emily Cox) na temporada final de The Last Kingdom.
Brida (Emily Cox) em The Last Kingdom | Imagem: Netflix

Toda a jornada da série envolveu dois povos divididos, que ansiavam pela paz para suas famílias mas também para suas culturas. Brida, por um lado, simbolizava uma resistência à invasão inglesa nas terras e nos costumes do povo danês. No entanto, apesar das dores e traições, não eram apenas questões pessoais que a levavam a buscar vingança contra Uhtred e contra os saxões. 

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Da mesma maneira, a rainha Aelswith começou como uma personagem que simbolizava uma forte oposição contra Uhtred e todos os daneses. Ela representava uma resistência grande a tudo o que lhe fosse diferente. No entanto, em sua própria jornada, ela evolui para uma mulher que não apenas reconhece a importância de respeitar as alianças com o povo danês, como também acaba se sentindo em casa estando perto de Uhtred e do espaço seguro que ele criou para as pessoas de diferentes culturas que decidirem ali habitar.

The Last Kingdom | crítica: série se despede com quinta temporada repleta de protagonismo feminino
Aelswith (Eliza Butterworth) em The Last Kingdom | Imagem: Netflix
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Além disso, personagens como Stiorra (Ruby Hartley) e Aethelflaed (Millie Brady) também representaram a figura de governantes capazes de olhar mais para os interesses dos seus povos do que de si próprias. Através da jornada dessas duas rainhas, The Last Kingdom mostra o esforço das pessoas comuns para zelar pela paz ao invés de lutarem guerras que não as representam de forma alguma.

A personagem Aethelflaed, por exemplo, destaca nessa quinta temporada o quanto sua liderança foi aceita pelo povo quando as pessoas perceberam que ela se preocupava em lhes assegurar boas condições de vida. 

As mulheres na quinta temporada de The Last Kingdom
Stiorra (Ruby Hartley) na quinta temporada da série | Imagem: Netflix

Ao contar a história da formação da Inglaterra, The Last Kingdom também não esquece de registrar todo o sangue derramado. Milhares de vidas foram perdidas e série retratou tudo o que foi suprimido e destruído nos anseios pelo poder – que dominou diversos personagens ao longo da narrativa.

Se Uhtred começa a história como um herói dividido entre dois povos, ele chega à temporada final como um personagem decidido a estar do lado de pessoas e não de governos. Finalmente ele é capaz de buscar seus próprios interesses e daqueles que ama. 

A quinta temporada de The Last Kingdom também foi uma despedida à rainha Aethelflaed, que morreu na série por conta de um câncer de mama e, portanto, não retornará para o filme Seven Kings Must Die, que se passará após os eventos da série. Sendo uma personagem bastante querida pelos fãs, Aethelflaed representou uma importante figura histórica que governou a Mércia em um período dominado por homens.  

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Aethelflaed foi uma das figuras históricas femininas do período da Inglaterra anglo-saxônica que mais recebeu atenção de historiadores e acadêmicos, apesar dos registros da época dificilmente dedicarem seu foco às mulheres. É interessante pontuar que a rainha ainda teve sua popularidade ignorada nas crônicas anglo-saxônicas, juntamente com registros da participação da Mércia no governo de seu irmão, o rei Edward. 

É possível ainda que o apagamento de Aethelflaed das crônicas anglo-saxônicas também tenha se dado, em boa parte, como uma tentativa de suprimir sua popularidade e, consequentemente, as chances de uma investida do povo da Mércia para reconquistar sua independência de Wessex, conforme afirmam o historiador F.T Wainwright e a historiadora Mary Dockray-Miller. Apesar disso, suas atividades constam em outros registros do período. 

A ênfase no governo de Aethelflaed e nas atividades de outras mulheres em The Last Kingdom é um lembrete de que a participação feminina sempre foi decisiva nos rumos da história, não apenas da série como da vida real. 

O protagonismo feminino na quinta temporada de The Last Kingdom
Eadith (Stefanie Martini) e Aethelflaed (Millie Brady) em The Last Kingdom | Imagem: Netflix

O destino é tudo!

The Last Kingdom chegou ao fim com uma temporada que se propôs a refletir sobre um tema que sempre foi central na série: o destino. Em meio às dores, arrependimentos e desilusões, a fé de muitos personagens, em suas diferentes certezas, se encontra abalada. E a fé é uma parte importante na narrativa. Enquanto alguns personagens se utilizam da religião como uma instituição que assegura o poder, outros genuinamente acreditam em um ou muitos deuses. No caso de Uhtred, a força quase sobrenatural que rege sua vida sempre foi o destino. 

Em determinado momento da série, Uhtred afirma para Aethelflaed que a maldição da vida talvez seja sempre questionar o que poderia ter sido diferente. No entanto, a sua fé no destino ainda esmorece momentos antes de ele finalmente partir para a batalha que selaria a retomada do seu lar.

Até mesmo sua filha, Stiorra, em certo ponto da quinta temporada, se revolta contra a ideia de um destino como uma história já escrita e com um fim inevitável. Afinal, como escrever um desfecho digno quando a tinta já está seca? O drama final dos personagens de The Last Kingdom, portanto, é encontrar uma vida onde o sofrimento não seja uma constante em suas rotinas. 

Uhtred (Alexander Dreymon) em The Last Kingdom
Uhtred (Alexander Dreymon) em The Last Kingdom | Imagem: Netflix
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Mas, se ao perder sua filha a rainha Aelswith pode ver enfraquecer a fé que a definiu por toda a sua vida, e se diante de uma tragédia semelhante Brida pode reencontrar a esperança para perdoar e buscar a própria redenção, talvez o futuro nunca esteja completamente definido. 

Portanto, o destino que entrelaça as vidas de diferentes personagens, formando uma tapeçaria na qual a história de The Last Kingdom se passa, não é imutável até que o último fio seja confeccionado. Escrever a própria história é uma escolha diária. Portanto, a vida de Uhtred e de todos os personagens que o acompanharam é um lembrete de que, embora o destino possa definir, ele também pode ser redefinido.

Por fim, mais do que se perguntar o que poderia ter sido, The Last Kingdom incentiva a espectadora a se perguntar: o que poderá ser a partir de agora?

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Estudante do curso de Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
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