Titane: a mente de titânio de Julia Ducournau

Titane: a mente de titânio de Julia Ducournau

Em Titane (2021), disponível na MUBI, a diretora francesa Julia Ducournau pode ter pensado a relação audiovisual entre humanos e máquinas mais intensa desde Sarah Connor e o Exterminador. Repleto de metáforas, o filme brinca com o absurdo, permeado por influências trash¹ e situações surreais.

No filme, conhecemos Alexia (Agathe Rousselle), uma jovem e silenciosa dançarina que, após um acidente na infância, tem que viver com uma placa de titânio na cabeça, em uma cena que lembra bastante os experimentos realizados pelos cientistas na personagem Eleven, da série Stranger Things (2016).

Aviso: o texto abaixo contém spoilers do filme

O advento dessa placa leva o público a se perguntar se isso a teria tornado menos humana, o que é corroborado pela cena seguinte, na qual a protagonista, após sair do hospital, demonstra afeição pelo carro, chegando a beijá-lo e abraçá-lo, mesmo que tenha sido onde sofreu o acidente. Afeição essa que cresce com a personagem, causando ainda uma maior sensação de estranhamento no espectador.

Cena de Titane (2021) onde Alexia coloca a placa de titânio após o acidente
Alexia com a placa de titânio após o acidente. | Imagem: reprodução

Os absurdos não param no tipo de relação que ela mantém com veículos. A protagonista de Titane mostra-se uma assassina sem remorsos, chegando a matar seus próprios pais, assumir uma nova identidade, sangrar óleo de motor e ter uma gravidez inesperada.

Titane e a mulher-máquina de Julia Ducournau

A própria diretora fala sobre o Titane ser aberto a diversas interpretações em uma entrevista para a companhia cinematográfica Altitude Films, “Eu gosto de conectar os pontos sozinha, como uma audiência ativa […] por isso gosto de fazer o mesmo para o meu público. Eu nunca explico nada”, diz. Assim, abre-se o debate para os múltiplos sentidos que o filme pode ter para cada pessoa.

Ducournau, que é bem familiarizada com o horror corporal – vide seus trabalhos antigos, como o filme Raw (2016) -, acrescenta esses elementos durante todo o filme, além de diversas cenas de gore². Discutir alguns acontecimentos do longa-metragem pode até parecer cômico de início, mas se trata de uma produção com uma atmosfera pesada, que aborda assuntos desconfortáveis de forma inusitada, surrealista.

Publicidade
Julia Ducournau e a atriz Agathe Rousselle
Julia Ducournau e a atriz Agathe Rousselle. Titane levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2021. | Foto: Jeanette Spicer para The New York Times.
Leia também >> “Eu sou um maldito monstro procurando por redenção”: Måneskin e a monstruosidade

As interações da protagonista com o pai são sempre breves, mas importantes para o enredo. Assim como Alexia, sua família também é silenciosa, distante. O primeiro momento em que a vemos ser afetuosa com alguém é com o carro da família. Ela até usa uma blusa com a palavra “mulher” e a figura de um robô. São os indícios iniciais da protagonista como mulher-máquina, à primeira vista, longe de sua própria humanidade. Sem laços fortes familiares, não vemos nenhum amigo seu ou alguém próximo. No entanto, é possível ser humano sozinho?

A única pessoa que vemos nos aproximar de Alexia antes de ela assumir sua nova identidade é sua colega de trabalho, a qual começa um breve relacionamento romântico. Tal relação, porém, termina após Alexia se sentir desconfortável com o avanço sexual de sua colega, o que talvez deixaria implícito algum tipo de abuso sofrido anteriormente.

A metamorfose da monstruosidade de Alexia

Ao sair do clube em que trabalhava, Alexia é abordada em um estacionamento vazio por um “fã” que diz estar apaixonado por ela e a pede um beijo. Vendo o perigo que aquela situação passava, sua única alternativa foi matá-lo antes que ele pudesse feri-la. Essa morte, portanto, desencadeia todas as outras que vemos no filme, como se agora ela decidisse se defender de qualquer situação que oferecesse qualquer risco de perigo sequer. Dessa maneira, a personagem ativa uma reação de “fugir ou lutar”, que frequentemente vítimas de abuso possuem, e, movida pelo medo, ela escolhe lutar.

Titane e a mulher-máquina de Julia Ducournau
Alexia (Agathe Rousselle) em Titane | Imagem: divulgação

De acordo com Pedro Arcoverde, do Centro de Psiquiatria do Rio de Janeiro, “O medo ativa um estado na nossa mente que é um estado de alerta em que nós passamos a prestar mais atenção nas coisas que estão à nossa volta, nos permitindo ter respostas rápidas”. No entanto, o que acontece na manhã depois do ocorrido, faz o espectador se perguntar se aquela morte realmente aconteceu ou foi apenas uma história que a protagonista contou a si mesma para suportar a dor de ter sofrido abuso sexual.

Ao acordar com hematomas na parte da coxa e virilha, ela mesma parece nem ter ideia do que aconteceu, situação semelhante foi retratada em I May Destroy You, baseada em uma situação real que aconteceu com a criadora da série, Michaela Coel, a qual relata o infeliz acontecimento em entrevista para o site E! Online:

“Eu dei uma pausa e fui beber com um amigo que estava por perto. Quando recuperei minha consciência, eu estava escrevendo a segunda temporada da série, várias horas depois. Eu fui sortuda – eu tive um flashback. Descobri que tinha sido abusada sexualmente por estranhos”.

Apesar de o filme se tratar de pura ficção, Titane abre espaço para a conscientização de um assunto real e tão denso.

Após descobrir que está grávida, Alexia começa sua transformação monstruosa. Conforme os meses vão passando, o seu corpo humano vai sendo suprimido por seu corpo máquina em uma metamorfose digna do clássico filme A Mosca (1986), de David Cronenberg. Portanto, a simbologia de suas relações íntimas com carros é uma metáfora para o tipo de relação perversa ocasionada nessa gestação e que agora a consome.

Publicidade
Leia também >> Tomie: a narrativa da monstruosidade feminina e a descentralização do homem
Horror corporal e a monstruosidade em Titane (2021)
Alexia carregando sua “arma” | Imagem: reprodução

Alexia, a mulher-máquina, fria, distante, decide que a situação era demais pra ela. A personagem precisava queimar seu passado e assumir uma nova identidade, a de um garoto desaparecido há anos. Ao som da significativa “She’s not there”, do The Zombies, ela acaba encontrando o que menos esperava, um lar.

Agora, sendo percebida pela sociedade como um homem, Alexia não sofre tanto com o assédio de antes. Ela não se sente tão fragilizada pelas circunstâncias, pelos olhares invasivos e comentários de baixo calão que vivenciava ao andar na rua, tanto que quando decide sair da casa até esquece seu prendedor de cabelo, que usava como arma para se sentir mais segura. Porém, logo a personagem é lembrada da crueldade que mulheres estão propensas a viver todos os dias, quando a garota que estava ao seu lado no ônibus é assediada por um grupo de homens e não pôde fazer nada.

A construção da monstruosidade de Alexia é feita durante o filme inteiro, mesmo antes da gravidez. É a monstruosidade que existe quando parte da sociedade sequer enxerga você como ser humano e sim como um objeto a ser desejado e possuído. Alexia, por fim, é o monstro que existe adormecido em cada uma de nós.

  • Trash¹ = Gênero de filmes marcado pelo exagero e o absurdo, muitas vezes feitos propositalmente com baixa qualidade técnica ou visual.
  • Gore² = Representações gráficas de sangue e/ou violência.
>> Aproveite 30 dias grátis na MUBI se cadastrando através desse link

Autora:

2 textos

Nordestina, jornalista, tradutora e graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). Pesquisadora de gênero e horror no audiovisual. Colaboradora da revista Corte Seco. Gosta de falar sobre quadrinhos, sci-fi e representatividade lésbica na mídia.
Todos os textos
Follow Me :