[CINEMA] “Raw”: sobre tornar-se mulher

[CINEMA] “Raw”: sobre tornar-se mulher

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“Raw”, segundo longa-metragem da francesa Julia Ducournau, é um filme de horror que tem mexido com a cabeça e o estômago daqueles que o assistem. Premiado na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2016 como Melhor Filme pela FIPRESCI e exibido no Festival do Rio 2016, este longa-metragem de 90 minutos é uma experiência sobre os ritos de passagem que uma jovem mulher vegetariana de 16 anos de idade vai enfrentar ao sair da casa dos pais e ingressar na faculdade de veterinária.

A exploração desse novo universo hostil e sedutor que se abre para a protagonista, interpretada por Garance Marillier, vai retratando o quão difícil e perturbador é se adequar às expectativas sociais e culturais que se impõe, principalmente, para as mulheres. E como metáfora para essa forma de sobrevivência ao mundo capitalista e patriarcal que as mulheres precisam perpassar até tornarem-se mulheres (utilizando aqui o conceito de Simone de Beauvoir de que “ninguém nasce mulher, mas torna-se”) a diretora utiliza o canibalismo.

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Construindo uma atmosfera claustrofóbica em que a câmera constantemente está focada em super closes na protagonista, deixando o fora de campo agir no imaginário do espectador, Ducournau trabalha com a ideia de dimensão do desafio da natureza humana, da dificuldade de estabelecer uma fronteira, ainda que pequena, entre o bem e o mal dentro de nós mesmos. Sem qualquer julgamento moral, a jovem Justine vai se transformando em predadora – destaque para a ótima atuação de Garance – não por maniqueísmos, mas para contrapor e sobreviver em um momento em que a construção da sua própria identidade passa a ser a sua mais ferrenha antagonista.

Com uso constante de uma paleta de cores frias para contrastar com os momentos mais quentes de comilança sangrenta, a diretora – que também assina o roteiro – nos brinda com uma eficiente trama de horror na qual nenhum personagem é deixado de lado, sendo todas as subtramas que servem ao propósito da protagonista bem costuradas ao final. Numa clara homenagem ao cinema duro e cru (literalmente) de Claire Denis, que já abordava temática similar em “Desejo e Obsessão”, o filme de Julia Ducournau passa a ser obrigatório nos estudos feministas do cinema.

Por fim, impossível, ao assistirmos “Raw”, não pensarmos no excelente thriller “Mate-me Por Favor”, dirigido pela brasileira Anita Rocha da Silveira (recomendamos esse texto), fechando o ano de 2016 com uma dupla de filmes que flerta com o gênero do terror para abordar o universo da mulher, que está em plena fase de descobertas, auto-exploração, auto-afirmação e reconhecimento numa realidade extremamente misógina, homofóbica e antropofágica.


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Autora

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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