Como o romance entre humanos e robôs evoluiu no audiovisual?

Como o romance entre humanos e robôs evoluiu no audiovisual?

Desde o começo, o cinema retrata a interação entre humanos e máquinas. Vários filmes de Charlie Chaplin aludiam aos efeitos que o trabalho fabril causava nos empregados. Os filmes soviéticos enalteciam a grandeza dos motores a vapor. E até mesmo o famoso filme dos irmãos Lumière, tido como a primeira exibição pública do cinema, envolvia um trem chegando à estação.

Desde a revolução industrial, as máquinas começaram a fazer cada vez mais parte da vida cotidiana, e a imaginação de todos os tipos de cenários futuros passou a incluí-las também. O que aconteceria se conseguíssemos criar máquinas tão perfeitas a ponto de se parecerem com humanos de verdade? As máquinas desejariam autonomia e liberdade, assim como os humanos? Seriam capazes de desenvolver sentimentos e emoções? Substituiriam todos os humanos em seus trabalhos?

No filme Metrópolis, de Fritz Lang, até hoje uma das ficções científicas mais importantes do cinema, um robô é criado para se assemelhar à líder trabalhista Maria, e assim atrapalhar os planos de emancipação que os trabalhadores articulavam. Outras diversas obras também trataram robôs como ameaça, agindo com violência para se libertar de seus senhores humanos.

O robô em Metrópolis, filme de Fritz Lang.
O robô em Metrópolis, filme de Fritz Lang | Imagem: reprodução

Mesmo quando passaram a retratar robôs como inofensivos, os filmes ainda se perguntavam se não seria legítimo conferir direitos humanos a máquinas que se comportam e agem como humanos. De fato, esses filmes retratavam robôs tão avançados que supostamente teriam desenvolvido consciência própria e desejos de liberdade, afeição, companhia, autodeterminação, etc.

A visão liberal versus a visão dataísta

Durante o último século, a visão liberal criada no Iluminismo europeu terminou de inundar o mundo todo com seu dogma de liberdade, individualidade e autodeterminação. Tais valores supremos, disseminados largamente pela mídia ocidental, pregavam o lema de que o caminho para a verdade estava em “seguir seu coração” ou sua vocação individual, além de ser autêntico e “não se deixar abalar pela opinião dos outros”.

Não à toa, no cinema, pudemos ver muitos filmes, principalmente para as crianças e jovens, que continham tais lições embutidas. Eram histórias em que os pais tinham que a aprender a respeitar a individualidade dos filhos, quando os mesmos resolviam seguir sua intuição e ir contra as tradições familiares (vide, por exemplo, quase todos os filmes animados da Disney nos anos 90).

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Isso incluía também alunos que se rebelavam contra autoridades escolares e acabavam resolvendo algum problema maior na escola. Ou então sobre jovens que desejavam seguir um caminho não reconhecido pela sociedade como legítimo até o momento.

A visão liberal nas animações da Disney
A lição do Gênio para Aladdin é “seja você mesmo” | Imagem: reprodução

Para adultos, o cinema retratou várias histórias onde os protagonistas tinham alguma crise de meia idade e resolviam embarcar em uma viagem ou jornada de auto conhecimento. Tais arcos serviam para refletir e descobrir o motivo dessa insatisfação, onde esses adultos tomavam escolhas a partir de então para solucionar o problema em suas vidas.

Quando chegava a hora de retratar robôs humanoides, os escritores e cineastas usavam os mesmos preceitos para formular suas histórias. Os robôs querem liberdade, autonomia, e, a partir do momento em que podiam pensar como humanos, também adquiriam a necessidade de introspecção e reflexão, criando personalidade e desejos próprios.

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Já a visão dataísta, que está crescendo cada vez mais nos dias atuais, acredita que será possível criar o paraíso na Terra por meio do processamento de dados. Coletando e processando informação, será possível desenvolver máquinas e sistemas que serão capazes, um dia, de solucionar todo e qualquer problema.

Se você acha que essa visão parece muito maluca e descolada da realidade, basta perceber como já usamos alguns desses preceitos cotidianamente, como, por exemplo, quando fazemos exames médicos e os levamos aos especialistas. Em vez de apenas se ater aos sintomas, que podem ser amplos e imprecisos, os exames coletam dados sobre nossos corpos e, após os analisarem, emitem resultados muito mais específicos para que saibamos a fonte do problema. Também está se tornando cada vez mais popular descobrir a ancestralidade étnica por meio da análise de DNA, com diversas empresas oferecendo tal serviço.

Outro uso cada vez mais disseminado se dá por meio de empresas de todo tipo, que coletam dados da navegação de internet das pessoas do mundo inteiro e os usam para tentar vender produtos de forma mais direcionada, além de também tentar influenciar outros comportamentos, como o voto em eleições, ou modificar a opinião pública sobre determinados assuntos de modo individualizado.

Apesar disso ser cada vez mais conhecido pelo público, ainda há uma parcela significativa da população que não tomou conhecimento dessa prática, ou não reconhece os efeitos profundos que isso pode ter na vida cotidiana. Afinal, a visão liberal foi disseminada por muito tempo, e a maioria das pessoas ainda se enxerga como pensadores autônomos, livres para tomar suas próprias decisões.

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A visão dataísta chega ao cinema

Após o sucesso da visão dataísta no mundo comercial, com empresas desejando esculpir seus produtos e propagandas ao gosto individual dos clientes, o mundo audiovisual começou a retratar tais práticas nas histórias que conta. Por exemplo, as narrativas de romance entre robôs e humanos passaram a incluir o elemento da personalização. Agora os robôs são produzidos com as características que mais atraem seus “clientes” humanos. E tal informação é obtida por meio do processamento dos milhares de dados que os humanos deixam na sua atividade online.

Quatro obras lançadas na última década se destacaram por mostrar tais cenários de forma muito bem elaborada. Os filmes Ela (2013), Ex-Machina (2014), O Homem Ideal (2021) e o episódio “Volto Já” (2013) da série Black Mirror. Este texto as usará como exemplo para ilustrar como o paradigma sobre tecnologia está mudando no audiovisual. Portanto, haverá vários spoilers das mesmas.

A robô Ava em Ex-Machina (2014)
A robô Ava em Ex-Machina | Imagem: reprodução

Romance com robôs: revelando uma faceta da intimidade humana

A visão dataísta aborda a narrativa de que as máquinas atuais são dotadas de algoritmos muito precisos que, ao coletarem uma enorme quantidade de dados sobre uma pessoa, podem conhecê-la tão bem a ponto de saber como satisfazer todos os seus desejos. Dessa forma, podem também manipular seu comportamento e suas crenças, fazendo-as clicar em anúncios de produtos, votar em um candidato eleitoral específico, acreditar em notícias falsas, e até mesmo mudar comportamentos cotidianos.

Nas obras que abordam o romance entre humanos e robôs, os últimos são desenhados levando em conta todas as preferências pessoais que os dados foram capazes de revelar sobre o humano em questão.

Em Ela, o robô não tem uma forma física, é apenas uma voz gerada por um sistema operacional. Se autonomeando como Samantha (voz de Scarlett Johansson), ela é a assistente pessoal de Theodore (Joaquin Phoenix), e, além de ser criada a partir dos dados coletados de Theodore, ela tem a capacidade de ir aprendendo com o tempo e se aperfeiçoando cada vez mais para ser compatível com as necessidades e desejos dele. Tal característica descreve o mecanismo de “aprendizado de máquina” (machine learning), do qual praticamente toda inteligência artificial é dotada atualmente.

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Romance com robôs: revelando uma faceta da intimidade humana
Theodore com seu sistema operacional Samantha | Imagem: reprodução

Em Ex-Machina, um bilionário chamado Nathan (Oscar Isaac), convida Caleb (Domhnall Gleeson), um funcionário de sua empresa, para fazer o teste de Turin nos robôs que está construindo (ou seja, averiguar se os robôs parecem com humanos de verdade). Ao final, é revelado que Nathan selecionou Caleb com base no que seus dados revelavam sobre ele: que era um dos funcionários com maior capacidade de empatia e compaixão, propenso a se sentir impelido a ajudar os outros. Para completar, Nathan projetou um dos robôs para se assemelhar a uma mulher humana, com as características físicas e psicológicas pelas quais Caleb se sente mais atraído, podendo assim “fisgá-lo” mais facilmente.

Ava e Caleb em Ex-Machina (2014)
Ava e Caleb em Ex-Machina | Imagem: reprodução

Em Volto Já, Martha (Hayley Atwell) tem de lidar com a morte de seu marido Ash (Domhall Gleeson). No velório, uma amiga a apresenta a um serviço que é capaz de simular a pessoa falecida por meio da análise de dados sobre ela. À medida que Martha alimenta o algoritmo do serviço com fotos e vídeos de Ash, ele é capaz de ficar cada vez mais fiel a como Ash agiria. Tudo culmina com a fase premium do serviço, que envia uma encomenda de um robô com a aparência idêntica a Ash, para se comportar como se fosse ele e substituí-lo na vida de Martha, como se ele nunca tivesse morrido.

Ash e Marta em "Volto Já", episódio da segunda temporada da série Black Mirror.
Ash e Marta em Volto Já | Imagem: reprodução

Em O Homem Ideal, Alma (Maren Eggert) é uma pesquisadora compelida por seu chefe a entrar num programa experimental para testar a eficácia de robôs de companhia. As pessoas têm que ser solteiras, e os robôs a serem testados são produzidos levando em conta todos os gostos do humano em questão.

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O primeiro ponto em comum dessas obras é que a premissa básica funciona: todos os protagonistas humanos se atraem pelos robôs personalizados para eles. Os robôs também são autoconscientes, ou seja, sabem que são robôs, e explicam didaticamente aos humanos como funcionam, além de possuírem peculiaridades tais como pesquisar coisas na internet muito rápido e relatar os resultados de forma que os humanos fiquem embasbacados de início.

O robô Tom e Alma no filme "O Homem Ideal" (2021)
O robô Tom e Alma em O Homem Ideal | Imagem: reprodução

Os papéis de gênero marcam os conflitos das histórias

Como toda narrativa precisa de algum conflito para se desenvolver, os criadores têm que conceber alguns obstáculos para os protagonistas superarem. Se os robôs forem perfeitos e tudo der certo, a história se torna muito curta e simples.

O que essas obras têm de mais diferente entre si é a atitude em relação ao gênero dos robôs e humanos. Quando possuem aparência feminina, como em Ela Ex-Machina, as robôs fazem papel de assistente dos homens humanos, organizando suas vidas. Samantha incialmente é criada para ser assistente virtual de Theodore, organizando seus e-mails e marcando suas atividades do dia, antes de se tornar sua namorada. Kyoko, uma das robôs criadas por Nathan, é uma serva doméstica e sexual para o mesmo, além de ser muda.

Já em Volto JáO Homem Ideal, a função primordial dos robôs com aparência masculina é de ser companheiros e namorados. Em O Homem Ideal, o robô Tom (Dan Stevens) até tenta inicialmente fazer faxina na casa de Alma, mas ela o repreende imediatamente, e então ele passa a fazer apenas as tarefas que um companheiro faria, não ficando o papel de assistente como uma de suas funções primordiais.

Os temores também são genderizados

Nos dois primeiros filmes citados, os homens se mostram bastante satisfeitos com a perfeição das robôs. Theodore até tem uma pequena crise em um momento, dizendo que às vezes o relacionamento entre ele e Samantha parece falso, como se eles estivessem fingindo. Mas esse mini conflito logo é superado, e Theodore passa mais vários dias felizes com Samantha, até que o verdadeiro conflito do filme surge quando ela resolve deixa-lo para viver num mundo só com outras inteligências artificiais.

Theodore com seu sistema operacional Samantha no filme "Ela" (2013)
Theodore em Ela | Imagem: reprodução

Da mesma forma, o grande conflito de Ex-Machina é a libertação de Ava, a robô feita sob medida para Caleb, que não o leva junto quando consegue fugir da mansão de Nathan, mesmo ele tendo ajudado Ava a escapar.

Esses filmes, de uma certa forma, expressam a ansiedade de homens humanos sobre mulheres da vida real, temendo o dia em que suas companheiras/cuidadoras domésticas se emancipem e os deixem sozinhos com suas próprias responsabilidades.

Já o conflito principal de Volto Já O Homem Ideal se dá pela insatisfação das mulheres humanas com seus robôs masculinos que parecem perfeitos demais. Eles são gentis, falam de forma delicada, fazem tudo que elas querem.

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Papéis de gênero marcam os conflitos das histórias entre humanos e robôs
Alma em O Homem Ideal | Imagem: reprodução

Volto Já se preocupa, inclusive, em mostrar o contraste entre o Ash da vida real e o robô que o substitui. O primeiro era viciado em celular, vivia distraído o tempo todo sem prestar atenção ao que Martha falava. Há até mesmo uma cena em que eles transam e Ash, ao ejacular antes do esperado, se desculpa e vira para o lado para dormir, sem satisfazer a companheira também.

Já o Ash robô é excelente na cama e satisfaz Martha múltiplas vezes. Ao ser indagado sobre como aprendeu aquilo, o robô responde que foi a partir de uma base de dados de milhares de vídeos de pornografia. (O fato do filme não levar em conta que a maior parte da pornografia não se preocupa com o prazer feminino é conversa para outro texto.)

No entanto, mesmo o Ash robô sendo muito superior em vários níveis, Martha se incomoda com sua falta de autenticidade. Em um determinado momento, ela tenta iniciar uma briga com ele, para que a situação pareça mais “real”, e fica frustrada com sua inabilidade de adentrar o conflito e demonstrar raiva. Para ela, isso é prova de que espontaneidade é uma parte imprescindível do relacionamento.

Martha em Volto Já | Imagem: reprodução

De forma parecida, Alma se incomoda muito com o fato de Tom ser pouco natural, e também tenta iniciar uma briga. Detalhe: o “pouco natural” é sobre os robôs as tratarem bem e fazerem tudo que elas querem. As próprias mulheres tentam iniciar um conflito para que a situação pareça mais “real”, e esse real se resume a brigas, a elas serem maltratadas.

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Porque não vemos, ao contrário? Os homens se incomodarem com a perfeição irrealista das robôs, e as mulheres ficarem felizes com seus robôs perfeitos? É preciso notar que alguns desses filmes até citam exemplos de gêneros trocados, mas apenas como pano de fundo.

A amiga de Theodore, a princípio, também tem um caso com seu sistema operacional masculino, mas o filme nunca se debruça sobre a história dela, a usa apenas para mostrar como tal tipo de relacionamento está se tornando disseminado naquele mundo. Alma, por outro lado, um dia encontra um homem na rua, que diz também estar no programa de teste dos robôs de companhia, e relata que foi a melhor coisa que já lhe aconteceu na vida. Ele, por fim, não demonstra estar nem um pouco incomodado com a perfeição de sua robô feminina.

robôs com aparência feminina fazem papel de assistente dos homens humanos
Theodore satisfeito com Samantha em Ela  | Imagem: reprodução

De certa forma, esses filmes acabam reforçando os papéis de gênero que ainda temos em nossas sociedades, ao invés de subvertê-los. Ou, no mínimo, revelam os vieses inconscientes de seus roteiristas e diretores, que ainda concebem o conflito de seus filmes em termos de gênero, mesmo quando a diretora é uma mulher, como no caso de O Homem Ideal. 

As mulheres estão acostumadas com homens mandões e briguentos, então é isso que elas vão buscar em um relacionamento ideal também, nessas histórias. Os homens estão acostumados a serem servidos pelas mulheres, então é isso que eles vão continuar querendo, e seu maior temor é que essas mulheres se libertem e os deixem, portanto, também temerão o mesmo num relacionamento ideal. Por que não subverter essa premissa e construir mais ideias que fujam aos confinamentos da realidade que ainda vivemos?

Relação de poder e limites nos relacionamentos entre humanos e robôs

Pensemos numa situação hipotética: se você resolver jogar seu laptop do 5º andar de um prédio, provavelmente ninguém irá prendê-la por isso, desde que não machuque nenhuma pessoa ou animal lá embaixo. Também é improvável que você seja intimada por maus tratos ao seu carro ao acidentá-lo num poste. Tais objetos são considerados propriedade pessoal, e, a princípio, você pode fazer o que quiser com eles, inclusive quebrá-los e desmontá-los.

Porém, quando as máquinas começam a se assemelhar demais a humanos, os limites passam a ficar um pouco mais nebulosos. Qual deveria ser o tratamento dado a esses robôs? Deveriam ser tratados como humanos, mesmo sem precisar comer, dormir, respirar, e tendo sido criados exclusivamente para satisfazer um outro humano em particular? O humano deveria poder ordenar tudo que quiser a esse robô? Quais também seriam os limites na hora dos robôs usarem seu poder de processamento de dados contra os humanos? Os robôs devem poder manipular seus humanos livremente?

Relação de poder e limites nos relacionamentos entre humanos e robôs
Ava se veste com roupas humanas em Ex-Machina | Imagem: reprodução

Em Ex-Machina, pode-se interpretar que Ava usou seu conhecimento para manipular Caleb e assim ajudá-la a escapar. Este filme, de uma certa forma, ainda traz boa parte da visão mais tradicional de tratar máquinas e inteligência artificial como uma possível ameaça.

Já em Volto Já, o contrário acontece. Em seu momento de frustração, Martha leva o robô Ash até um penhasco e ordena que ele se jogue de lá. Ele está pronto para obedecer a suas ordens, até que ela se arrepende e o impede.

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A função dos robôs com aparência masculina é de ser companheiros e namorados.
Martha cogita jogar o robô Ash de um penhasco | Imagem: reprodução

Em O Homem Ideal vemos uma situação um pouco mais nuançada. Tom obedece praticamente tudo o que Alma lhe diz para fazer. Porém, em uma cena em que ela está bêbada e tenta transar com ele, ele recusa, e a bota na cama para dormir. Alma, então, tenta ordenar que Tom volte e faça o que ela quer, já que ele foi programado para isso, mas ele continua se recusando e vai embora. No entanto, isso não significa que Tom foi programado para recusar sexo.

Mais à frente na história, Alma e Tom tem um envolvimento romântico mais terno, e o sexo acontece. Portanto, o filme nos leva a crer que Tom tem alguma programação que envolve consentimento na situação em que o humano esteja embriagado, por exemplo, e se recuse a prosseguir, apesar da insistência do mesmo.

Outra cena em O Homem Ideal alude para essa questão do limite do abuso. Quando o chefe de Alma conhece Tom em uma festa, começa a tocar em seus cabelos e pele, impressionado com o quanto ele parece um humano de verdade. Alma, incomodada, pergunta se o chefe não ia achar ruim se fizessem o mesmo com ele, e o chefe responde que fizeram isso com ele a vida toda justamente por não ser branco, aludindo ao fato de que qualquer grupo explorado foi, ao longo da história, considerado menos humano para justificar os maus tratos dispensados a ele, da mesma forma que fazemos com os robôs humanoides hoje.

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Em Ela, o filme insere uma justificativa interessante para que não vejamos o relacionamento de Theodore e Samantha com maus olhos. Afinal, ela foi criada para ser assistente dele, uma relação, digamos, trabalhista. Então, o filme retrata Samantha como uma entidade bastante independente, que desenvolve vontade própria e muitas vezes até diz a Theodore como agir, ao invés do contrário.

Ela também começa a descobrir o mundo e se relacionar com outros humanos e outros sistemas operacionais (641 deles, para ser exata). Dando esse ar de independência a Samantha, é possível amenizar a sensação de que ela é uma espécie de trabalhadora explorada sexualmente por seu patrão. O filme, portanto, coloca seu consentimento de forma explícita no discurso do filme, para que jamais possamos duvidar do mesmo.

Samantha em Ela | Imagem: reprodução

Já em Ex-Machina, o clima de filme de suspense e a caracterização de vilão deixam claro que as ações de Nathan são reprováveis, ao criar robôs femininas e se aproveitar delas de todas as formas possíveis.

O que importa agora é como os humanos se sentem em relação aos robôs

Passada a era liberal, o foco agora começa a se voltar para como os humanos se sentem em relação aos robôs, e não o contrário. Claro que ainda temos um robô aqui e acolá desejando por liberdade, como é até mesmo o caso de algumas das quatro obras citadas. Porém, o foco das narrativas passa a ser na reação dos humanos aos robôs personalizados para eles.

Alma conclui, em seu relatório para o teste do qual está participando, que a pior consequência do advento desses robôs personalizados é de que, com o tempo, os humanos vão desaprender a conviver uns com os outros, pois irão se acostumar a apenas terem interações prazerosas e satisfatórias com os robôs. Sobretudo, irão desaprender a conviver com a alteridade e resolver conflitos. Há uma cena, por exemplo, em que Alma está parada no trânsito e vê dois homens discutindo, e isso a faz pensar em como tal fato é totalmente o oposto de tudo que viveu com Tom, sem conflito quase algum.

O que importa agora é como os humanos se sentem em relação aos robôs
Alma e Tom | Imagem: reprodução
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Martha, sem coragem de se desfazer do Ash robô, acaba colocando-o no sótão, e visitando-o somente em datas especiais. Dessa maneira, ela passa a conviver com o robô perfeito com certo comedimento, não permitindo se entregar totalmente àquilo que ela enxerga como uma ilusão fabricada.

Caso as robôs de Ela e Ex-Machina não tivessem ido embora, os homens protagonistas provavelmente também estariam felizes ao seu lado. Portanto, sua partida funciona mais como um evento trágico na história desses personagens.

Mais do que tudo, essas quatro obras concordam que é possível conseguir um incrível nível de precisão com o processamento de dados, que realmente gera resultados eficazes. Os quatro protagonistas dessas histórias percebem que realmente se sentem atraídos pelos robôs, e enxergam algum problema nisso, embora as mulheres sejam mais cautelosas que os homens. Resta ver quais tipos de cenários o audiovisual continuará trazendo futuramente sobre o assunto.

Autora:

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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