Novela e ficção científica: entre clones e mutantes

Novela e ficção científica: entre clones e mutantes

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Filhos que não sabem quem são os pais, irmãos separados no nascimento, romances proibidos e vilões regenerados pelo amor. Do que estamos falando? De uma novela bem melodramática, com uma mocinha sofredora que dá a volta por cima no último capítulo? Ou será que é da saga Star Wars?

À primeira vista, o universo das telenovelas brasileiras e o da ficção científica parecem não ter muito em comum. Porém, as coisas não são bem assim. Para começo de conversa, o melodrama é essencial para muitos clássicos do gênero. Mas também há vários casos de novelas que incorporaram elementos sci-fi.

Luke Skywalker e Leia Organa - ficção científica
Irmãos separados no nascimento: novela ou ficção científica? (Imagem: Reprodução)

De acordo com o professor do departamento de cinema da Unicamp Alfredo Suppia, os elementos de ficção científica costumam ser levados mais a sério nas novelas do que no cinema brasileiro.

O Brasil não tem exatamente uma tradição cinematográfica de ficção científica, ao contrário dos EUA, onde o gênero science fiction é tido como um dos mais rentáveis filões de Hollywood, ou mesmo da Europa e Japão. A ficção científica no cinema brasileiro é esporádica e, muitas vezes, tratada de forma paródica”, diz Suppia em sua tese sobre cinema brasileiro de ficção científica, defendida em 2007.

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O cinema brasileiro mudou bastante nos últimos 13 anos. As telenovelas, também. Ainda assim, de viagens no tempo a distopias, passando por clones e mutantes, a ficção científica volta e meia aparece nas telinhas dos brasileiros – e não é só na hora da Tela Quente.

Entrando na máquina do tempo

Primeira novela diária: 2-5499 Ocupado
2-5499 Ocupado foi a primeira novela diária. (Imagem: Reprodução)

O título de primeira telenovela brasileira é um tanto quanto disputado. De acordo com Nilson Xavier, do site Teledramaturgia, a pioneira foi ao ar pela TV Tupi em 1951. Chamava-se Sua Vida Me Pertence. Já a primeira novela diária foi 2-5499 Ocupado, exibida pela Excelsior em 1963.

As telenovelas se tornaram a principal mídia de ficção de massa brasileira. E foi nelas que gêneros pouco explorados no país ou malvistos pela crítica tradicional encontraram espaço para florescer. É o caso do realismo fantástico (Fera Ferida), da fantasia (Deus Salve o Rei) e até mesmo do horror (Vamp).

A ficção científica apareceu nas telenovelas pela primeira vez ainda em 1965, em forma de paródia. Na época, a Record era conhecida por ter um grande time de comediantes. Portanto, nada mais natural do que investir em novelas cômicas. Escrita por Marcos César, Ceará Contra 007 parodiava os filmes do agente secreto James Bond e trazia Adoniran Barbosa, Ronald Golias e Jô Soares em uma trama de espionagem industrial.

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Mas Ceará Contra 007 só pode ser considerada ficção científica se dissermos o mesmo da franquia 007. E isso está longe de ser consenso. O pesquisador Darko Suvin usa a noção de novum para definir o que pode ser considerado ficção científica. O novum é qualquer objeto, fenômeno, personagem ou local validado pelo método científico que introduz algo novo no universo do autor e do leitor. Como é praticamente impossível encontrar vídeos de Ceará Contra 007, fica a pergunta: o poderoso limpador Jabá Sintético da trama poderia ser considerado um novum?

Porém, as dúvidas param por aí. Exibida pela TV Excelsior, Os Diabólicos (1968-1969), de Teixeira Filho, deixa claro só pela sinopse a que gênero pertence: após fazer uma descoberta de interesse mundial, um cientista (Henrique Martins) morre e tem seu cérebro transplantado para um pintor (Carlos Zara).

Super Plá misturava história em quadrinhos com novela
Super Plá misturava história em quadrinhos com novela. (Imagem: Reprodução)

A primeira novela da lista com cenas fáceis de encontrar na internet é Super Plá (1969-1970), de Bráulio Pedroso, exibida pela Tupi. A trama dialogava com o universo das histórias em quadrinhos: um bancário amante de gibis chamado Plácido (Rodrigo Santiago) se transformava em herói após tomar o refrigerante Super Plá.

Contatos imediatos

Ainda nos anos 1960, a Excelsior exibiu uma novela que chama atenção tanto pela trama quanto pelo elenco. Com Pelé e Regina Duarte, Os Estranhos (1969), de Ivani Ribeiro, surfava na empolgação da era espacial. A trama tinha como protagonistas alienígenas do planeta Gama Y-12 que ajudavam a solucionar os problemas humanos. Mas um problema que eles não conseguiram resolver foi a audiência. Apesar do elenco, a novela foi rejeitada pelo público.

Imagem de divulgação da novela Os Estranhos
Pelé e Regina Duarte estrelaram Os Estranhos. (Imagem: Reprodução)

Os alienígenas também estiveram presentes em Começar de Novo (2004-2005) e O Amor Está no Ar (1997), ambas da Globo. Na primeira, de Antônio Calmon e Elizabeth Jhin, os alienígenas aparecem por meio de Vó Doidona (Marília Pêra), que jura ter sido abduzida, e seu neto Pepê (Pedro Malta), que conhece uma família que parece vinda de outro planeta.

O Amor Está no Ar, de Alcides Nogueira, tem como cenário uma cidade apinhada de ufólogos após o aparecimento de luzes misteriosas no céu. A primeira a ver os possíveis sinais de vida extraterrestre, Luísa (Natália Lage) se envolve com o misterioso João (Eriberto Leão) sem saber que ele é um alienígena. A novela teve uma boa audiência, ao contrário de Começar de Novo, que ficou abaixo do esperado para o horário das 19h.

Robôs mordomos e vilãs

Os robôs fizeram sua estreia nas novelas em Transas e Caretas (1984), de Lauro César Muniz. Para chamar atenção para as personalidades distintas dos irmãos Thiago (José Wilker), apaixonado por tecnologia, e Jordão (Reginaldo Faria), apegado às tradições, Muniz deu ao primeiro um mordomo robô. Construído pela equipe da emissora, Alcides era movimentado pelo ator anão Quinzinho.

Alcides, da novela Transas e Caretas
Alcides, o robô mordomo de Transas e Caretas. (Imagem: Reprodução)

Tempos Modernos (2010) também tentou emplacar uma personagem robô. A trama de Bosco Brasil se passava em um prédio inteligente em São Paulo. Em um dos apartamentos, vivia o dono do edifício (Antônio Fagundes), que se informava sobre a vida dos moradores por meio de um supercomputador. Grazi Massafera vivia a androide Deodora, vilã que acabou virando humana devido à rejeição do público.

Flávia Alessandra teve mais sorte como a Naomi de Morde e Assopra (2011). Na história de Walcyr Carrasco, o cientista Ícaro (Matheus Solano) criava uma réplica da esposa desaparecida. A novela começou mal, mas acabou tendo uma audiência razoável para o horário. A trama também contava com Zariguim, um robô real comprado em uma feira de tecnologia no Japão.

Naomi (Flávia Alessandra) e Zuriguim em Morde e Assopra.
Naomi (Flávia Alessandra) e Zuriguim em Morde e Assopra. (Imagem: Reprodução)
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A história de Naomi é a que mais levanta pontos interessantes entre as que envolvem robôs, discutindo possessividade e descoberta de sentimentos. Tratada como propriedade por Ícaro, Naomi luta contra o fato de não conseguir amar e de ter que lidar com memórias que não são suas.

A androide é transformada em vilã quando a Naomi original volta para casa. Mas isso não faz com que a trama se torne menos interessante. Ao ser julgada por seus crimes, a segunda Naomi revela ao mundo sua verdadeira identidade e sai impune. Afinal, as leis humanas não se aplicam a máquinas.

Passado, presente e futuro

Nas telenovelas, a viagem no tempo costuma acontecer por mágica ou misticismo. É o caso de Amazônia (1991-1992), da extinta Manchete, e Espelho da Vida (2018-2019), da Globo. Porém, duas tramas apresentaram o tema por outro viés.

Marcos Pasquim em Kubanacan
Em Kubanacan, Marcos Pasquim era o viajante do tempo Leon e seu pai, Esteban. (Imagem: Reprodução)

Resgatada pela internet em forma de meme, Kubanacan (2003-2004), de Carlos Lombardi, trazia Marcos Pasquim como um viajante temporal. Sem memória, Leon acaba assumindo a identidade do próprio pai, Esteban. Já O Tempo Não Para (2018-2019), de Mário Teixeira, contava a história de uma família do século XIX no Brasil do século XXI.

Para proteger a filha Marocas (Juliana Paiva) após o fim de um noivado, Dom Sabino (Edson Celulari) parte com a família, os criados e os escravos para a Europa. Entretanto, o navio afunda perto da Patagônia, e os passageiros são congelados no mar. Marocas é resgatada pelo empresário e surfista Samuca (Nicolas Prattes). Os outros são levados ao laboratório de criogenia Criotec.

A viagem no tempo serviu como forma de comentar as transformações ocorridas no Brasil ao longo dos últimos dois séculos. Apesar de momentos interessantes, a novela não deixou de ter suas falhas. Dom Sabino foi apresentado como um senhor de escravos bondoso e a novela foi acusada de atacar os professores da rede pública.

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O Tempo Não Para teve um começo promissor e chamou a atenção do público. Entretanto, após o despertar de todos os congelados, a trama estagnou e perdeu audiência. Dessa vez, o problema não foi a rejeição do público aos elementos de ficção científica, mas a dificuldade de manter a história interessante.

DNA de sucesso

Outra novela que ganhou força por meio de memes é a saga Os Mutantes (2007-2009), de Tiago Santiago. Dividida em três partes (Caminhos do Coração, Os Mutantes e Promessas de Amor), a trama é lembrada por cenas bizarras como a da Pisadeira (“meu destino é pisar”) e o encontro do Homem-Cobra com a Mulher-Aranha.

Imagem de divulgação da novela Os Mutantes
Os Mutantes marcou época por suas cenas bizarras. (Imagem: Reprodução)

Os Mutantes tinha como ponto de partida a história do policial Marcelo (Leonardo Medina), que tentava desvendar o assassinato da esposa e entender os poderes telecinéticos da filha. A investigação e o relacionamento com a acrobata Maria (Bianca Rinaldi) o levam ao Projeto DNA, envolvido com a criação de humanos mutantes.

A novela fez tanto sucesso que teve até álbum de figurinhas. Porém, a última parte da trilogia não deu tão certo assim. Promessas de Amor usava uma escola para adolescentes mutantes como pano de fundo para um romance mais realista. Para recuperar a audiência, Santiago até tentou voltar para o fantástico com uma quadrilha de lobisomens. Não rolou.

Lembrada com mais carinho (embora também renda sua cota de memes), O Clone (2001-2002), de Glória Perez, é outra novela que fala de genética. Animada pela clonagem da ovelha Dolly, a autora criou uma história que misturava religião com clonagem humana. Lançada pouco depois do atentado às Torres Gêmeas, a novela também foi responsável por oferecer um olhar mais humanizado sobre o islã para o público brasileiro. Em uma ótima análise da novela, o canal do YouTube Ora Thiago fala dessas e de outras questões relacionadas à trama.

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Giovana Antonelli e Murilo Benício na novela O Clone
Jade (Giovanna Antonelli) e Lucas (Murílio Benício) em O Clone: islã e clonagem humana. (Imagem: Reprodução)

Na história, o cientista Albieri (Juca Oliveira) faz um clone de seu afilhado Diogo (Murilo Benício), morto em um acidente de helicóptero. O cientista faz uma inseminação sem consentimento em Deusa (Adriana Lessa), que dá à luz Léo (Benício). O nome da personagem de Lessa, aliás, já é um forte indicativo dos temas abordados na novela.

Anos se passam e a existência de Léo vem à tona. A revelação impacta as vidas de Leônidas (Reginaldo Faria) e Lucas (Benício), o pai e o irmão gêmeo de Diogo, bem como a de Jade (Giovanna Antonelli), uma mulher muçulmana que teve um romance com Lucas na juventude.

O Clone foi um sucesso estrondoso. Exportada para mais de 100 países, a novela também teve uma versão em espanhol produzida pelo canal americano Telemundo.

O fim dos tempos

Em 1996, Explode Coração estava na última semana e a produção de sua sucessora, O Rei do Gado, estava atrasada. Para tapar o buraco no horário das 20h, a Globo transformou a minissérie de Dias Gomes, O Fim do Mundo, em uma mininovela.

A trama acompanhava os acontecimentos na cidade fictícia de Tabacópolis após o vidente Joãozinho de Dagmar (Paulo Betti) prever o fim do mundo. A cidade é assolada por acontecimentos estranhos, incluindo a queda de um OVNI, e os moradores resolvem tirar o atraso de todos os desejos não realizados. Mas o mundo não acaba, e eles se veem obrigados a lidar com as consequências de seus atos. A trama termina com uma chuva de meteoros caindo sobre Tabacópolis.

Dançando na linha que separa o realismo fantástico da ficção científica, O Fim do Mundo não foi a única novela a tratar do… bem, do fim do mundo. A ex-minissérie divide espaço com Apocalipse (2017), de Vivian de Oliveira. A novela foi a mais mal recebida do filão bíblico da Record, principalmente por ter alienado o público não evangélico com uma caricatura da Igreja Católica.

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Sérgio Marone na novela bíblica Apocalipse
Ricardo Montana (Sérgio Marone), o Anticristo do apocalipse tecnológico da Record. (Imagem: Reprodução)

A visão evangélica do fim dos tempos compartilha muitos elementos com a ficção científica, como a ideia de um governo global e chips de controle mental. Logo, não é estranho que uma adaptação de orientação evangélica do último livro da Bíblia siga o mesmo caminho. Na novela, o mundo se transforma em uma distopia quando o magnata Ricardo Montana (Sérgio Marone) revela ser o Anticristo. O criador da altamente tecnológica Cidade do Futuro forma um governo mundial, exige ser adorado como um deus e invade Jerusalém com um exército de robôs.

Capitão Barbosa

Nos anos 1980, o escritor Bráulio Tavares cunhou a expressão “síndrome do capitão Barbosa” para se referir à falta de elementos brasileiros na literatura de ficção científica nacional. “Um capitão de nave estelar chamado Barbosa passa muito menos credibilidade do que um capitão Jensen, ou Parker, ou Hirota”, explica Lady Sybylla. “Muitos autores não se sentiam confortáveis em criar cenários, enredos e personagens que tivessem tons brasileiros, com nome, maneira de falar e se comportar como a dos brasileiros.”

Hoje em dia, os escritores do gênero procuram abordar mais diretamente a realidade brasileira. Mas, para o grande público, a síndrome do Capitão Barbosa parece continuar sendo uma realidade. Embora nem todas as novelas de ficção científica tenham sido fracassos de público, uma grande parte teve problemas para manter a audiência. Ainda assim, elas não deixam de ter seu valor. Afinal, no mundo das telenovelas, não é tão difícil imaginar que um cientista brasileiro seja um pioneiro da robótica ou da clonagem humana.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

Tradutora, bacharel em Jornalismo e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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