Coisa Mais Linda: clichês, superficialidades e frases de efeito

Coisa Mais Linda: clichês, superficialidades e frases de efeito

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A Netflix estreou nesse mês de março uma produção brasileira que gerou comoção nas redes: o trailer de “Coisa Mais Linda“, série de autoria de Giuliano Cedroni e Heather Roth, prometia um romance nos anos 1950/60 no Rio de Janeiro, em que o surgimento da bossa nova se misturasse com uma história sobre a libertação feminina.

Ao conferir as críticas sobre “Coisa Mais linda” na internet, podemos perceber que a maioria foca nos pontos positivos na diversidade de temas tratados na série e em uma suposta representação de vários assuntos. Variedade de assuntos é raramente um ponto positivo se não estiver aliado à qualidade e profundidade da abordagem. Em outras palavras, mudar a maquiagem e não mudar o conteúdo é produzir narrativas semelhantes e comuns, mesmo que sejam muitas.

A evidente tentativa de “Coisa Mais Linda” abordar todos os temas caros ao feminismo e ao movimento das mulheres  -  como estupro, violência doméstica, aborto, racismo e maternidade  -  é ofuscada pela superficialidade em que cada tópico é tratado, e a série, ao mesmo tempo que sustenta um discurso textual que exalta a liberdade feminina, cai em lugares comuns e reforça estereótipos que diz querer combater.

Coisa Mais Linda
Cena de “Coisa Mais Linda” (Imagem: Netflix/divulgação)

Série ou novela? 

As opções e caminhos tomados pelo roteiro e direção transparecem a presença do ponto vista e olhar masculino sob as questões que supostamente estariam sob protagonismo das mulheres. Essa questão é explicada também pelo fato de que, mesmo presente nos créditos como diretora, Júlia Resende dirigiu apenas um dos episódios. A falta de pessoas negras nas equipes de criação também pode justificar a abordagem narrativa, que em certos momentos é incapaz de perceber seu próprio racismo.

Com um ritmo e texto novelesco, “Coisa Mais Linda” se assemelha aos produtos de minisséries das onze da rede Globo, que apesar de contar com uma verba de produção que garante uma consistência em termos de cinematografia e direção de arte, não escapa dos diálogos descritivos (a ponto de serem desconcertantes), mas que satisfazem um princípio básico da telenovela  –  em que o texto óbvio torna a espectadora capaz de entender o que se passa na cena sem a necessidade de assisti-la.

Durante alguns minutos do primeiro episódio de “Coisa Mais Linda”, podemos nos perguntar se o português falado não era dublado  -  e as atuações não ajudam. E quem poderia prever que a trilha sonora de abertura de uma série sobre bossa nova e mulheres seria “Garota de Ipanema”? Achamos que certos clichês já haviam sido superados. Porém, “Coisa Mais Linda” também repete o maior clichê da televisão brasileira: a representação do negro como inferior e serviçal e a ficcionalização do racismo e da misoginia para fins acríticos.

Tereza, Adélia, Lígia e Maria Luíza em cena de “Coisa Mais Linda” (Imagem: Netflix/divulgação)

A clássica negação do Brasil 

A narrativa  -  por mais que os pôsteres e anúncios da série tratem como um grupo de quatro amigas  -  é focada na protagonista Maria Luíza (Maria Casadevall), uma paulista da alta burguesia cafeicultora que, em uma visita ao marido no Rio de Janeiro, descobre que o cônjuge fugiu com o dinheiro e os planos de montar um restaurante. Em meio à uma crise, ela quase põe fogo no apartamento que seu marido abandonou e é socorrida por Adélia (Pathy Dejesus), empregada de uma das moradoras do prédio.

Adélia é a terceira negra a aparecer em cena  –  os dois primeiros eram o porteiro e o carregador de malas  -  e o faz para salvar Maria Luíza de sua crise de nervos, cena que relembra uma tradição das novelas globais, em que a “leal criada negra” é encarregada de acudir e proteger a pobre moça rica. Os tambores africanos e a imagem de Iemanjá são usados deliberadamente e com um esforço de apropriação para dar vazão para as emoções da protagonista branca.

A lateralidade da figura de Adélia é assumida pela narrativa desde sua primeira aparição, em uma normalidade assustadora, porém típica das novelas brasileiras, como explicou Joel Zito Araújo em seu livro [1] e documentário “A Negação do Brasil”. A persistência desses estereótipos em narrativas atuais e em produções de relevância demonstra o longo caminho que o audiovisual brasileiro tem a percorrer quando o assunto é o racismo normalizado da narrativa.

Coisa Mais Linda
Pathy Dejesus como Adélia em “Coisa Mais Linda” (Imagem: Netflix/divulgação)

Racismo suave da falta de crítica

Uma análise um pouco menos superficial das relações retratadas em “Coisa Mais Linda” nos revela uma mensagem confusa, produzida de forma tradicional e que reforça padrões de uma visão de época que pouco lembra a agitação política do Brasil do começo dos anos 60. Mesmo na época em que o aborto estava sendo discutido pelo movimento feminista, que o casamento estava sendo questionado enquanto instituição e que a politização da classe trabalhadora e média gerava assinaturas para organizações comunistas, a série permanece distante de qualquer visão crítica e se contenta em reforçar padrões que na verdade estavam em pleno declínio no período.

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É impensável para a narrativa de “Coisa Mais Linda” que cantoras e compositoras negras como Clementina de Jesus e Dona Ivone já estivessem, no início dos anos 60, atuando como artistas em meios musicais ou que, em poucos anos (1969), a primeira cineasta negra brasileira [2] (Adélia Sampaio) estaria ingressando nas distribuidoras do Cinema Novo – ou mesmo de Ruth de Souza, que nos anos 1940 fazia parte do grupo de Teatro Experimental do Negro. No mundo em que a série constrói, pessoas negras são serviçais e a personagem de Adélia permanece basicamente na mesma condição ao longo da história.

Não queremos dizer com isso que o racismo não existia na época ou que o papel da mulher não estivesse relegado à estrutura familiar e ao trabalho doméstico e mal remunerado: mas que a escolha da equipe de criação em expor de forma naturalizante, em um tom que sugere “era assim mesmo”, o racismo e a misoginia, reflete pouco estudo e superficialidade ao analisar relações sociais complexas que existiam naquela época. Um retrato preguiçoso do período.

Coisa Mais Linda
Cena de “Coisa Mais Linda”, com Mel Lisboa (à direita) (Imagem: Netflix/divulgação)

Questões importantes, abordagem retrógrada 

A problemática da série “Coisa Mais Linda” não se encerra nas relações raciais: a protagonista decide permanecer no Rio de Janeiro com apoio de duas cunhadas, Lígia (Fernanda Vasconcellos), amiga de infância de Maria Luíza e que sonha em ser cantora, apesar de ser casada com um homem violento, e Tereza (Mel Lisboa), editora de uma revista feminina que já morou na França e é casada com o irmão do marido de Lígia. As duas representam a liberdade com que Maria Luíza supostamente sonha (é impossível distinguir reações da atuação de Maria Casadevall, que parece adotar um duckface permanente) e por meio de suas histórias a narrativa de “Coisa Mais Linda” se propõe a tratar de temas como aborto, estupro marital, bissexualidade e violência masculina, mas falha miseravelmente ao dar um tom moralista em todas as situações.

Quando a série aborda o estupro marital, o fatalismo e a falta de saída caracterizam a dramatização. Quando trata do aborto, a série faz questão de expor uma suposta “contradição” e antagonismo entre as mulheres que sofrem com perdas gestacionais e quem decide interromper a gravidez – como se não pudesse haver solidariedade feminina em situações opostas. Quando levanta a questão da homossexualidade feminina, é com o mesmo desprezo por lésbicas, como se relações homossexuais fossem algo “menos sério” ou passageiro. A série chega ao cúmulo de romantizar a relação desigual entre empregada e patrão. De que adianta abordar assuntos importantes se o viés continua sendo o mesmo? É tão impossível assim para os roteiristas brasileiros pensarem em outra forma de contar essas histórias? 

A caracterização também é pouco imaginativa e a bossa nova se resume a um cantor mal educado e alcoólatra que vira par romântico de Maria Luíza. Nem se quer Nara Leão é lembrada na trilha sonora. O Rio de Janeiro também é genérico, as imagens da cidade parecem publicitárias  –  a própria publicidade faz aparição na narrativa (“Olha esse rádio motorola!”)  -  e o morro é o morro; qual morro é especificidade desnecessária para a produção de “Coisa Mais Linda” e o lugar acolhedor com sambistas agradáveis e alegres aparece como pano de fundo navegado pelo interesse da câmera nos atores brancos. O negro como fundo de tela e os corpos cortados pelo enquadramento não parecem irônicos para os diretores.

Coisa Mais Linda
Pathy Dejesus e Maria Casadevall em cena de “Coisa Mais Linda” (Imagem: Netflix/divulgação)

Para a espectadora brasileira, educada no padrão globo de qualidade, “Coisa Mais Linda” é, antes de tudo, reconhecível, uma narrativa à qual estamos acostumadas. A postura acrítica e a histórica se estabelece mesclando chavões e lugares comuns, e neste ponto, a série parece uma atualização do discurso novelesco, que agora acolhe desejos das redes sociais por narrativas focadas em mulheres. É surfando na onda da representatividade, sem precisar questionar estruturas ou oferecer histórias que desafiem concepções racistas e misóginas, que “Coisa Mais Linda” deixa clara a influência da percepção de mundo de seus realizadores.

Coisa Mais Linda” é uma série que, apesar de ser baseada na passagem da década de 50 para 60, diz muito sobre o pensamento brasileiro de agora, sobre nossa amnésia histórica e sobre nossa cultura audiovisual que é constantemente atrasada pelo monopólio das comunicações e do olhar. Um triste reflexo da preguiça criativa de nossa elite artística.

[1] ARAÚJO, Joel Zito: A negação do brasil: o negro na telenovela brasileira.
[2] FERREIRA, Ceiça; SOUZA, Edileuza Penha de: Formas de visibilidade e (re)existência no cinema de mulheres negras. IN Feminino e Plural: mulheres no cinema brasileiro, PAPIRUS, 2018.

Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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