American Gods – 02×03: Muninn (resenha)

American Gods – 02×03: Muninn (resenha)

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O terceiro episódio da segunda temporada de American Gods apresentou um ritmo diferente dos dois anteriores e expandiu arcos e interações entre personagens, assim como mitologias, antigas e novas, que abrangem o conteúdo do livro. Personagens icônicos voltaram à narrativa e abrilhantaram ainda mais a série.

[CONTÉM LEVES SPOILERS DE O HOMEM SEDUTOR E MUNINN]

Shadow (Ricky Whittle) finalmente consegue escapar, com a ajuda de Laura (Emily Browning), das torturas de Mr. Town (Dean Winters). O trem em que estavam  sofre um imenso acidente quando bate em Betty, o carro de Mr. Wednesday (Ian McShane), um sacrifício dedicado a ele mesmo, Odin, uma vez que o automóvel revelou-se ser a encarnação de um berserker, um antigo e poderoso guerreiro nórdico. Vendo seu carro renascer como uma nova criatura, Mr. Wednesday e Laura partem rumo à cidade de Cairo, ao encontro dos deuses egípcios, pois o corpo dela se despedaçou após o acidente de trem e, ao ter o corpo reestruturado por Mr. Íbis (Demore Barnes), Mr. Wednesday faz com que ela o ajude a rastrear Argos (Christian Lloyd), personagem da mitologia grega responsável pela vigilância de Io, uma princesa e amante de Zeus. 

Salim (Omid Abtahi) e Jinn (Mousa Kraish) encontram Iktomi (Julian Richings), deus aranha da mitologia Lakota (norte-americana), e conseguem pegar Gungnir, a lança de Odin. Mad Sweeney (Pablo Schreiber) vaga sem rumo pela estrada e é acudido pelo ônibus de uma banda cristã em turnê. Já Technical Boy (Bruce Langley) finalmente encontra a Nova Mídia (Kahyun Kim) e prossegue em suas investidas, assim como Mr. World (Crispin Glover), de descobrir os detalhes dos planos de Odin.

Devery Jacobs em cena de “American Gods”. Imagem: reprodução

No meio de sua peregrinação solitária até Cairo, a mando de um dos corvos de Odin, Muninn, Shadow conhece Sam Black Crow (Devery Jacobs), uma garota de descendência indígena que parece conhecer a fundo os pensamentos dele. Um dos pontos interessantíssimos do episódio é justamente a interação dos dois: há muito tempo Shadow não se conectava com a fragilidade da realidade e das relações humanas travadas entre as pessoas que nela habitam. Sam funciona, na série, como uma ponte entre os pensamentos de Shadow no episódio anterior, sobre sua mãe e os momentos que passaram juntos até a morte dela, e sobre o que já vem acontecendo em sua vida. Os sentimentos do personagem, de reconexão consigo, de restabelecimento de sua fé no incompreensível e da angústia pela falta de perspectivas palpáveis, são momentaneamente apaziguados através da conversa com a garota, que conta a ele sobre seus antepassados e a importância de sua própria história. 

Cena de “American Gods” – personagem Argos. Imagem: reprodução

A memória, elucidada pelo próprio título do episódio, uma vez que Muninn é o corvo que a representa, fazendo par com Huginn, o pensamento, é o ponto principal da narrativa. Além da passagem de Sam, os espectadores viajam até a Grécia Antiga para desbravarem a história de Argos, o gigante de cem olhos, que, nos dias atuais, precisa adotar uma personificação cyberpunk, unindo-se à tecnologia e aos serviços de segurança e monitoramento para conseguir sobreviver, e é a ele que Mr. World pede ajuda para seguir os passos de Shadow e Mr. Wednesday. 

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Ao ser ordenada a matar Argos, Laura sente o próprio coração bater, algo que acontecia apenas pela presença e pelo toque de Shadow. O sacrifício que realizou, motivado pela promessa de Mr. Wednesday de que ela teria um tempo maior de existência, fez com que a personagem pensasse, pela primeira vez em muitos episódios, em si mesma. Talvez Laura agora siga com as próprias pernas e trabalhe cada vez mais sua autonomia e autoestima e possamos ver ainda mais o potencial que tem, fora a sua motivação por redenção com o marido.

O visual da Nova Mídia, totalmente diferente da personagem interpretada por Gillian Anderson, faz muito sentido dentro da perspectiva atual dos comportamentos em redes sociais. Com milhares de seguidores e pessoas conectadas, a jovem é uma deusa muito forte e com muito potencial dentro da proposta dos novos deuses. O momento em que se conecta, através do sexo, com Argos é passível de uma leitura a respeito da interação da mídia e dos mecanismos de observação e coleta de dados de seus usuários: de um lado, temos a personificação da vigilância, aquele que tudo vê e guarda informações, e, do outro, a antropomorfização do fácil acesso ao que o mundo tem a oferecer – consciente ou inconscientemente. Há a vontade da mídia de ser enxergada de volta e fazer parte dos processos ativamente, uma interpretação possível para a cena do enlace entre os dois personagens.

Imagem: reprodução.

De longe, Munnin foi o melhor episódio da temporada até agora. A construção imagética das cenas continua equilibrada entre os detalhes minuciosos, assim como os planos abertos, que dão dimensão da vastidão dos territórios em que os diversos personagens estão passando para organizarem os planos de Mr. Wednesday e Mr. World. A forma como o flashback da história de Argos foi apresentada ficou interessantíssima e fez, literalmente, um passeio histórico pelas ruínas da memória da história mundial (incluindo uma visita à Biblioteca de Alexandria). Este episódio termina com um saldo muito positivo e grandes expectativas para o que irá acontecer.


Deuses Americanos Come to Jesus Deuses Americanos

Editora Intrínseca

Ano de publicação: 2011.

574 páginas

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Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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