Bridgerton – 1ª temporada: divertida, romântica e sexy, mas…

Bridgerton – 1ª temporada: divertida, romântica e sexy, mas…

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Não é de hoje que o século XIX serve de cenário para histórias de ficção mais puxadas para o romance. O período que mais mexe com a imaginação de criadores, leitores e espectadores é o da Regência Britânica. A era durou oficialmente de 1811 a 1820, mas é frequentemente estendida até o início da Era Vitoriana, em 1837. Inspirados pelas obras de Jane Austen e das irmãs Brontë, livros, filmes e séries encantam o público com histórias de amores correspondidos ou não em tempos de casamentos arranjados. Bridgerton é o mais novo exemplar do gênero.

Criado por Chris Van Dusen e produzido por Shonda Rhimes – o grande nome por trás de sucessos como Grey’s Anatomy e How to Get Away with Murder –, o atual seriado mais assistido da Netflix é baseado na série de romances de mesmo nome escrita por Julia Quinn. Os livros acompanham a passagem dos irmãos Bridgerton pelo mercado casamenteiro de Londres entre os anos de 1813 e 1827. As trajetórias dos irmãos são marcadas pelo aparecimento do jornal de fofocas da misteriosa Lady Whistledown.

A família Bridgerton
Lady Bridgerton e sete de seus oito filhos. (Imagem: Reprodução)

A protagonista da primeira temporada do seriado é Daphne (Phoebe Dynevor), que acaba de ser apresentada à sociedade. Nos bailes da aristocracia e da alta burguesia londrina, ela conhece Simon Basset (Regé-Jean Page), duque de Hastings e amigo de seu irmão mais velho, Anthony (Jonathan Bailey). Para chamar a atenção de mais pretendentes, Daphne propõe a Simon um relacionamento falso. Avesso à ideia de casamento, o duque prontamente aceita para se livrar das mães ansiosas por lhe apresentar as filhas solteiras.

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A série conta com diversas tramas paralelas, algumas mais interessantes do que outras. É o caso do drama de Marina Thompson (Ruby Barker), que precisa se casar antes que sua gravidez indesejada venha à tona. Porém, o plano esbarra nos interesses românticos de sua prima, Penelope Featherington (Nicola Coughlan).

Outra personagem que merece destaque é Eloise (Claudia Jessie), irmã mais nova de Daphne que acaba chamando a atenção da própria rainha Charlotte (Golda Rosheuvel) em seus esforços para desmascarar Lady Whistledown (voz de Julie Andrews).

Penelope Featherington e Eloise Bridgerton
Nicola Coughlan e Claudia Jessie como as amigas Penelope e Eloise. (Imagem: Reprodução)

Entre Jane e Sabrina

Nenhuma experiência é universal. Por isso, é impossível dizer que todas as mulheres heterossexuais vão se deliciar com o tipo de romance e erotismo de Bridgerton. Ainda assim, a série é descendente direta de um gênero tradicionalmente vendido para o público hétero feminino: os chamados romance novels. A expressão não tem uma tradução direta para o português. No Brasil, é comum que os livros do gênero costumam sejam chamados de romances eróticos, muito embora alguns protagonistas jamais vão além de um simples beijinho.

Não dá para dizer ao certo qual foi a primeira história a contar com elementos de romance novel. Porém, o gênero só se estabeleceu como um dos principais da literatura de massa nos anos 1930. Foi então que a editora inglesa Mills & Boon começou a vender livros que apelavam para os desejos das mulheres da época. Os romances eram revendidos na América do Norte pela canadense Harlequin, que, depois, também começou a publicar suas próprias autoras.

Livros de Julia Quinn
Três dos livros da série de Julia Quinn. (Imagem: Reprodução)

Com subgêneros que vão do romance de época à ficção científica, os romance novels se desenvolveram bastante ao longo do século XX. As heroínas sempre muito jovens e virginais começaram a dividir espaço com mulheres maduras, e o amor cis-heteronormativo deixou de ser o único representado nas páginas dos livros. Ainda assim, os exemplares mais conhecidos do gênero continuam sendo obras como 50 Tons de Cinza, os romances das autoras Danielle Steel e Nora Roberts, e os bons e velhos “Sabrina”, fáceis de encontrar em qualquer banca de jornal.

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E é dessa família literária que Bridgerton faz parte, mesmo que o DNA de Jane Austen também esteja presente no universo de Julia Quinn. O que, é claro, não diminui em nada o valor da série.

Chamados de “literatura de mulherzinha”, os romance novels são frequentemente criticados. O que está em jogo é raramente a qualidade literária das obras, mas o fato de que elas servem para despertar a libido de mulheres. Basta lembrar dos inúmeros memes que surgiram após o lançamento de 50 Tons de Cinza, alguns sugerindo que as fãs da série precisavam mesmo era de “50 golpes de cinta”.

Daphne e o duque em "Bridgerton"
O romance de Daphne com o duque é o ponto central da série. (Imagem: Reprodução)

O mesmo acontece no campo do audiovisual. Críticos e fãs muitas vezes não veem problema nenhum nas roupas que Margot Robbie usa para lutar em Esquadrão Suicida ou nas inúmeras atrizes jovens que já fizeram par romântico com Woody Allen. O mesmo não vale para as fantasias de comédias e dramas românticos, que viram alvos fáceis de piadinhas.

É importante não assistir a Bridgerton esperando uma mais uma adaptação de Orgulho e Preconceito, mas algo bem mais erótico e escapista. Embora a trama também tenha elementos de comédia de costumes e crítica social, o foco é o vai e volta do casal Daphne e Simon – um vai e volta bem satisfatório, diga-se de passagem, apesar de algumas falhas graves.

“Até que um rei se apaixonou por uma de nós”

Um dos pontos fortes de Bridgerton é a diversidade do elenco. Reconhecendo que a série tem mais compromisso com o escapismo do que com a história, Van Dusen e Rhimes não hesitaram em escalar atrizes e atores negros como lordes e ladies. Ainda há muito que criticar na forma como alguns estereótipos são reforçados, mas Bridgerton é um raro exemplo de obra de época em que os personagens negros não ocupam exclusivamente funções subalternas.

Rainha Charlotte na série "Bridgerton"
A rainha Charlotte e suas damas de companhia. (Imagem: Reprodução)

É claro que a nobreza e a alta sociedade europeias do período colonial eram bem menos brancas do que alguns gostam de dizer. Basta olhar para histórias como as de Alexadre Dumas e Dido Elizabeth Belle, ou até mesmo para os questionamentos sobre a ascendência da própria rainha Charlotte.

Porém, em 1813, a Inglaterra mal havia abolido a escravidão no próprio território, e, em outras partes do império, pessoas negras continuaram sendo legalmente escravizadas até 1843. Optar por deixar isso de lado em uma série como Bridgerton pode não agradar a galera que gosta de reclamar de incorreções históricas, mas é ótimo para fazer com que mais fãs do gênero se sintam bem-vindas e representadas.

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Entretanto, em vez de apenas abraçar a diversidade sem dar maiores explicações, Van Dusen e Rhimes optaram por embasar a decisão em uma alteração histórica que joga a trama de Bridgerton para um universo paralelo.

Mais ou menos no meio da temporada, Lady Danbury (Adjoa Andoh) diz para o duque de Hastings que a posição deles na sociedade se deve ao fato do rei ter se casado com uma mulher negra. Simon responde com um comentário a respeito do status social dos personagens negros da série. E para por aí. O assunto jamais volta a ser abordado.

Lady Danbury em "Bridgerton"
Adjoa Andoh como Lady Danbury. (Imagem: Reprodução)

A criação dessa “história alternativa” mexe com a suspensão de descrença da espectadora. Afinal, dizer que a simples existência de uma rainha negra seria suficiente para mudar a mentalidade racista de todo um país não faz sentido. Obama não deu fim ao racismo nos Estados Unidos, e a mídia britânica parece competir para saber quem é capaz de ofender Meghan Markle com mais eficácia. E se existe a possibilidade da rainha Charlotte realmente ter sido negra, bom, vemos que as coisas não funcionariam bem desse jeito.

Dar uma desculpa para a presença de personagens negros na trama levanta questionamentos que Bridgerton não tem a maturidade necessária para responder. Qual é a situação de outras minorias étnicas na alta sociedade da série? A escravidão foi abolida nas colônias britânicas? Qual é a relação da Inglaterra com outras potências coloniais, como Portugal?

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Parece chatice ficar tocando nesses assuntos no meio de um seriado que não tem nada a ver com eles – e é! Mas é difícil não especular quando os roteiristas e produtores nos jogam para o campo da ficção especulativa.

Marina e Colin em "Bridgerton"
Ruby Barker como Marina Thompson. (Imagem: Reprodução)

Até onde vai o romance?

ATENÇÃO: SPOILERS
AVISO DE GATILHO: ESTUPRO

O relacionamento de Daphne Bridgerton com o duque de Hastings é marcado por segredos e mentiras. A principal de todas é a de que Simon não pode ter filhos. Na verdade, o duque fez uma promessa no leito de morte do pai de que jamais daria continuidade à linhagem dos Basset. Porém, Simon deixa de lado essa parte da história em suas conversas com a futura esposa, que acaba se resignando a abrir mão de seu sonho de ser mãe.

Ignorante a respeito de como funciona a reprodução humana, Daphne demora a estranhar que o marido sempre interrompe o sexo antes do orgasmo. Só depois de um tempo é que ela pergunta a uma criada como se engravida. Agora bem informada, Daphne força o marido a ir até o fim no ato sexual, mesmo com ele pedindo para ela parar.

Duque de Hastings
O duque de Hastings: um homem cheio de segredos. (Imagem: Reprodução)

É uma cena de estupro. Não há outra forma de descrevê-la. Isso, em si, não é nenhum problema. O problema é que, assim como no caso do racismo, Bridgerton não tem a maturidade necessária para tratar do tema. E, portanto, não trata. As ações de Daphne são apresentadas como uma vingança proporcional à mentira contada pelo marido. O casamento é brevemente abalado por uma crise de confiança, mas logo tudo se resolve. O duque reconhece que errou em mentir para Daphne, e a temporada termina com o casal dando as boas-vindas ao seu primeiro filho.

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O estupro feminino é muito usado na ficção para punir determinadas personagens, torná-las mais fortes ou simplesmente para chocar. Algumas obras erotizam a violência e parecem existir só para atiçar a libido do público masculino. A série Game of Thrones, por exemplo, foi muito criticada pelo excesso de cenas de estupro envolvendo suas principais personagens femininas, algumas das quais nem estavam nos livros.

Já com o estupro masculino, a coisa é um pouco mais complicada. Quando cometida por um homem, a violência é tida como uma humilhação e costuma ter a função de castigar o personagem. Já quando cometida por uma mulher, ela às vezes nem é tratada como uma violência. O estupro é ignorado ou, pior ainda, usado como alívio cômico.

Daphne Bridgerton
A história de Daphne se beneficiaria de algumas alterações no roteiro. (Imagem: Reprodução)

É parte da forma como a masculinidade é construída na nossa sociedade a ideia de que os homens devem sempre desejar sexo, bem como a divisão entre “sexo forte” e “sexo frágil”. Assim, são poucas as obras de ficção que entendem homens e até mesmo meninos vítimas de abuso sexual como vítimas quando a agressora é uma mulher. Combater a masculinidade tóxica também passa por reconhecer homens como possíveis vítimas de estupro para além da homofobia, misoginia e transfobia de expressões como “virar mulherzinha na cadeia”.

Porém, assim como no caso do racismo, o estupro não é um bom tema para ser tratado em uma série tão escapista quanto Bridgerton. Talvez a resposta para o problema fosse simplesmente deixar a cena de fora. Ela já havia sido criticada por algumas leitoras dos livros e passou por alterações na adaptação para a Netflix. Quem sabe um pouquinho mais de ousadia e criatividade não bastasse para salvar a série dessas críticas?

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Daphne e Simon
Daphne e o duque: final feliz? (Imagem: Reprodução)

Bridgerton é, no geral, uma série divertida, bonita, sexy e gostosa de assistir. Os episódios fluem de um jeito que é difícil não dar play no próximo, e os personagens são, em sua maioria, apaixonantes. Isso não significa que o seriado não tenha seus problemas. Alguns ainda podem ser resolvidos em temporadas seguintes: um episódio sobre a vida de Lady Danbury, por exemplo, pode ajudar a desenvolver um pouco mais o universo alternativo da série. Outros defeitos, porém, ficarão para sempre onde estão, muito embora pudessem ter sido facilmente evitados.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Tradutora, bacharel em Jornalismo e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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