WandaVision – 1×03: Now in Color

WandaVision – 1×03: Now in Color

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Após chamar a atenção de público e crítica com a disponibilização de seus dois primeiros episódios na plataforma Disney+, WandaVision mantém sua audiência não apenas atenta aos mistérios e idiossincrasias rodeando suas personagens principais, como também sedenta por mais.

Desde sua estreia em 15 de janeiro, WandaVision tem chamado a atenção por seu bem-sucedido amálgama entre “uma carta de amor à era de ouro da televisão estadunidense”, nas palavras da showrunner Jac Schaeffer, e um thriller psicológico nas entrelinhas de cada riso nervoso ou elemento fora do lugar no idílico cotidiano suburbano da cidadezinha de Westview.

Neste terceiro episódio, “Now in Color”, somos apresentadas aos vibrantes visuais Techincolor inaugurados pela entrada do universo da série ao estilo dos anos 70. Na abertura, não se economizam referências a programas da época, como The Brady Bunch, sempre incorporando a recorrente iconografia dos hexágonos – também presente nos dois episódios anteriores.

Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) em "WandaVision"
Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) em “WandaVision”. (Imagem: Marvel Studios/Disney/Divulgação)

Adentrando o vale da estranheza em WandaVision

“Now in Color” inicia já com a expectativa em relação à gravidez repentina de Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen), observada ao fim do capítulo anterior. Ainda tentando se encaixar em Westview e não levantar olhares desconfiados da vizinhança, Wanda e Visão (Paul Bettany) decidem manter a gestação em segredo. Seguindo a toada de esquetes engraçadinhas com os poderes do casal, a Feiticeira Escarlate acidentalmente provoca apagões na vizinhança e aciona os sprinklers de incêndio de sua casa a cada contração do vindouro bebê.

Tudo indica que o episódio seguirá o ritmo pré-estabelecido nestes primeiros momentos da série: humor pastelão característico das sitcoms de cada época intercalado com interferências externas, pequenas “falhas na Matrix” que deixem suficientemente claro à audiência que algo está muito errado por trás da atmosfera de comercial de margarina da produção. Neste terceiro capítulo, contudo, o clima de estranheza e perigo se torna ainda mais escancarado.

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Pequenas situações, como as do vizinho Herb (David Payton) perfurando o muro em frente ao quintal de Wanda e Visão com um olhar vidrado e sorriso no rosto sem sequer se aperceber do que faz; ou um glitch no meio do episódio, quando Visão verbaliza suas desconfianças para a esposa; tudo isso, seguido de um retorno imediato ao ritmo dos seriados tradicionais, contribui para criar um clima enervante de perturbação, uma tensão em vias de se romper. Nesta linha, é impressionante como a série transita entre os dois ambientes – familiaridade e estranheza – de forma tão fluida, o que só torna tudo ainda mais aterrorizante.

A interação entre Wanda e a personagem “Geraldine” (Teyonah Parris) é um dos pontos altos do episódio, momento no qual não apenas a feiticeira expõe pequenos retalhos de seu passado – desde a lembrança do irmão, Pietro, até uma canção sussurrada em sua língua materna –, como também deixa bastante claro o quão longe é capaz de ir para manter a ilusão que (aparentemente) projetou para si, ao mais mísero sinal de ameaça. É também através de Geraldine que temos os primeiros vislumbres do mundo exterior, para além da projeção idílica em que se deram os acontecimentos até então.

Os caminhos traçados pelo Universo Cinematográfico da Marvel

Tem se observado a muito comentada intencionalidade, por parte da equipe criativa por trás do show, de se reconhecer e se mapear o passado da Feiticeira Escarlate no MCU. Primeiramente, no que tange à história pessoal de Wanda até então, através dos pequenos “comerciais” que entremeiam os episódios – em que o primeiro (a torradeira “ToastMate 2000”, que também pode ser interpretada como uma afável referência às piadas, nos quadrinhos, sobre o sintozoide Visão ser uma “torradeira falante”) sinaliza o bombardeio de Sokovia que quase matou os gêmeos Maximoff e assassinou seus pais, realizado com armamento das Indústrias Stark.

Já o segundo (um relógio da marca Strücker) referencia o período em que os Maximoff se submeteram aos experimentos do barão Von Strücker com a joia da mente localizada no cetro de Loki, por parte da Hydra; e o mais recente (o sabonete “Hydra Soak”) também apontando diretamente para a relação entre os poderes de Wanda e os tais experimentos empreendidos pela organização.

"Comercial" em WandaVision.
“Comercial” em WandaVision. (Imagem: Marvel Studios/Disney/Divulgação)

Secundariamente, também se observa um desejo de reconhecer as raízes da personagem no Leste Europeu – um empreendimento iniciado aos trancos e barrancos com o diretor Joss Whedon em Vingadores: Era de Ultron, que apresentou uma Wanda feroz, de sotaque pronunciado, avessa a Tony Stark e a tudo o que os Vingadores representavam até então, mas logo abandonado pela direção dos irmãos Russo em favor de uma personagem de falas diminutas e aparições bastante pontuais em meio à multidão de figuras que se instaurara nos últimos capítulos da Saga do Infinito nos cinemas. Aqui, Wanda menciona o nome do irmão com um sotaque carregado que não escutávamos desde 2015, além da própria cantiga de ninar em sussurrada sokoviano.

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Muito já se discutiu por aqui sobre o tortuoso caminho de Wanda Maximoff no MCU: questões como o apagamento de sua origem romani, grupo historicamente perseguido e marginalizado na Europa – posto que interpretada por Elizabeth Olsen, uma atriz branca –, bem como de sua ascendência judaica, decisivas para a caracterização da personagem nas HQs, tão importantes que pautam o preconceito sofrido junto do irmão antes de serem acolhidos por Magneto na Irmandade dos Mutantes, até o mais recente resgate de sua ancestralidade na série de quadrinhos Scarlet Witch (2015), de James Robinson.

O fato é que, seja por contendas contratuais da época relacionadas aos X-Men e ao universo mutante na Fox, seja por uma falta de cuidado diante da profusão de personagens que povoam o Universo Cinematográfico da Marvel, Wanda recebeu, na melhor das hipóteses, um tratamento bastante irregular. A série parece reconhecer tais questões em alguma medida, especialmente neste último capítulo.

Traçando linhas de continuidade entre o passado e o presente: quem é a Wanda Maximoff de WandaVision?

Visão e Wanda Maximoff em WandaVision (2021) e suas contrapartes dos quadrinhos na capa de "The Vision and the Scarlet Witch" #1 (1985)
Visão e Wanda Maximoff em WandaVision (2021) e suas contrapartes dos quadrinhos na capa de “The Vision and the Scarlet Witch” #1 (1985)

Levando em conta que estes três primeiros episódios se dedicam a estabelecer uma base para o que vem a seguir, sustentada por atuações afetadas que (propositalmente) mais emprestam o jeitão dos programas antigos que efetivamente revelam a personalidade das protagonistas, e também considerando a intenção de se explorar a história pregressa de Wanda Maximoff, indaga-se qual seria o motivo para se escolher justamente a mídia televisiva clássica como pano de fundo para investigar a personagem.

Citam-se as entradas anteriores do casal nos quadrinhos – desde a série de HQs dos anos 80 The Vision and the Scarlet Witch, as primeiras a inserir as duas figuras heroicas no cotidiano suburbano, até a mais recente e mais citada The Vision (2016), de Tom King, que reinsere Visão em um ambiente doméstico, desta vez com a atmosfera sombria que serve de influência direta para a série. Entretanto, é possível aduzir ainda mais desta escolha estética.

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Em entrevista à edição de dezembro de 2020 da Emmy Magazine, Elizabeth Olsen comenta brevemente sobre a intenção, por parte do presidente da Marvel Studios Kevin Feige, de se explorar o passado de Wanda como uma jovem do Leste Europeu cujo acesso à cultura estadunidense se deu primordialmente por reprises de sitcoms antigas. Tal qual países da América Latina, como o Brasil – em que muitas de nós crescemos assistindo a episódios repetidos de comédias como Três é Demais e Eu, a Patroa e as Crianças, por exemplo –, observa-se uma vivência bastante similar em países pós-soviéticos, nos quais o entretenimento televisivo mais acessível era sinônimo de séries como Jeannie é um Gênio, décadas após suas exibições originais.

Parece coerente com uma personagem cuja trajetória tenha sido pautada pela influência dos EUA em sua vida – desde o trauma de infância ocasionado pelo belicismo imperialista das Indústrias Stark, até o ódio à interferência heroica do Homem de Ferro (e dos Vingadores) que motivou a aquisição de seus poderes. Espera-se, portanto, que esta faceta substancial por trás da estética empregada em WandaVision seja endereçada em algum momento.

Cena de WandaVision (2021).
Cena de WandaVision (2021). (Imagem: Marvel Studios/Disney/Divulgação)
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Ainda assim, um dos principais méritos da produção é permitir que a audiência se deixe levar por seus limites, independentemente do quão bem inteirada ela esteja do universo dos quadrinhos, ou mesmo do próprio MCU. As referências e easter eggs, motivadores de teorias e discussões internet afora, não impedem, em momento algum, que se aproveite a atmosfera da série pelo que ela se propõe a entregar naquele momento. Desta forma, unindo formatos televisivos familiares a uma atmosfera de mistério que se evidencia desde o princípio, WandaVision tem conseguido agradar às mais diversas audiências, e mostra que veio para ficar.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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