Watchmen – 1ª temporada: máscaras, dívidas históricas e representatividade

Watchmen – 1ª temporada: máscaras, dívidas históricas e representatividade

Watchmen, a HQ de 1986 escrita por Alan Moore e Dave Gibbons, foi pensada como uma resposta direta ao cenário político polarizado dos anos 1980: desde as tensões advindas da Guerra Fria ao capitalismo neoliberal, que alcançava seu ápice nos Estados Unidos com a era Reagan; é também parte de um contexto no qual a figura do super-herói é, à sua maneira, uma extensão de tudo isso. Com base neste espírito, o showrunner Damon Lindelof, e sua equipe de diretoras, diretores e roteiristas trabalhou duro para entregar uma obra em nove episódios que não apenas se mantivesse fiel ao material de origem, como também se mostrasse relevante para o século XXI. Para compreender o sucesso ou não dessa empreitada, é necessário revisitar o contexto que inspirou e possibilitou a gênese da graphic novel.

Com o esgotamento criativo das histórias em quadrinhos, autores britânicos como Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison realizaram, a partir do final dos anos 1970, uma revitalização de personagens já desgastados ou esquecidos de editoras como Marvel e DC Comics. A HQ de 1986, portanto, parte deste projeto de renovação narrativa e pretende desconstruir a pretensa inocência escapista do super-herói, demonstrando suas implicações políticas e simbólicas. Watchmen é basicamente uma grande história alternativa que insere os ditos “heróis” nos acontecimentos geopolíticos do século XX, e avalia as consequências disso para a cultura e para a sociedade, em especial a estadunidense.

Quem vigia os vigilantes, trinta e quatro anos depois?

Watchmen, série da HBO

A série da HBO se situa em um alternativo ano de 2019, após os eventos do quadrinho. Não há internet ou gadgets modernos à vista, e a humanidade se recupera lentamente da tragédia de Nova York, que se converteu numa espécie de 11 de setembro. A farsa de Adrian Veidt jamais foi descoberta, e a publicação do diário de Rorschach restringiu-se a combustível para teorias de conspiração.

Rorschach, aliás, tornou-se uma espécie de mártir da extrema direita, inspirando a criação de um grupo supremacista branco, a Sétima Kavalaria, que adota máscaras similares à usada pelo vigilante. Seus escritos, em conjunto com as medidas de reparação histórica às comunidades negras do país, realizadas pela gestão democrata do presidente Robert Redford (sim, o ator), acentuaram uma atmosfera de reacionarismo.

A animosidade crescente culminou na “Noite Branca”, ataque terrorista empreendido pela Kavalaria contra oficiais (de maioria negra) da polícia de Tulsa, Oklahoma, na noite de Natal de 2017. Motivado pelo atentado, o senador Joe Keene Jr. (James Wolk) implanta medidas, por todo o Estado, para que a polícia passe a ocultar suas identidades, não apenas nos registros oficiais, mas também através de máscaras e disfarces que em muito se assemelham àqueles dos vigilantes do passado.

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Logo no episódio piloto, somos transportadas para o Massacre de Greenwood, Tulsa em 1921, um plano de eliminação da população afro-americana da região levado a cabo pela Ku Klux Klan. Uma mulher foge com o filho pequeno, escondendo-o na traseira de um veículo que deverá levá-lo a um lugar seguro. A última coisa que a criança vê antes de ir embora é a destruição completa de sua família e de sua terra natal.

Já na Tulsa de 2019, somos apresentadas a Angela Abar (Regina King), que surge em um ambiente quase inofensivo, explicando o preparo de biscoitos como parte do dia das profissões, na escola do filho. Fica claro que Abar é um relâmpago preso em uma garrafa, um amontoado de emoções contidas ameaçando vir à baila, o que se evidencia quando conta aos alunos sobre sua aposentadoria da polícia após sobreviver à Noite Branca. Exceto que Abar jamais se aposentou, e tampouco mantém seus relâmpagos pessoais engarrafados por muito tempo. Levando uma vida dupla como mãe e esposa do subúrbio, Angela atua como a implacável policial mascarada Sister Night.

Angela Abar (Regina King)

Outros personagens, como Wade Tillman, o policial Espelho (Tim Blake Nelson) sobrevivente do 2/11, ajudam-nos a entender este mundo de Watchmen em 2019, no qual lulinhas inofensivas caem regularmente do céu, Ozymandias (Jeremy Irons) é dado como morto após um longo desaparecimento, e uma misteriosa construção conhecida como o “Relógio do Milênio” se impõe sob o céu de Tulsa, obra da industrial e trilionária vietnamita Lady Trieu (Hong Chau).

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Todas estas figuras colidem entre si a partir do final do primeiro episódio, com um assassinato. À diferença do quadrinho, no qual o algoz de Edward Blake, o Comediante, permanece um mistério por boa parte da obra, é Will Reeves (Louis Gossett Jr.) – a criança sobrevivente da tragédia de Greenwood, agora um idoso com mais de cem anos – quem assume a culpa pela morte do chefe da polícia de Tulsa, Judd Crawford (Don Johnson). Suas confrontações para com Angela Abar são a mola propulsora dos conflitos da série, sinalizando que, a despeito da suposta normalidade com que Abar e os demais levam suas vidas, nada nunca realmente esteve bem. E todos, incluindo a própria Sister Night, possuem seus esqueletos escondidos no armário, que se revelarão antes do juízo final.

O resgate dos grupos e minorias esquecidas em Watchmen

Nessa nova conjuntura (ou nem tão nova assim, afinal), os personagens do quadrinho servem como complemento a novos sujeitos e histórias, como a sub-trama de Adrian Veidt (Jeremy Irons) em seu exílio. Em outros casos, contudo, ajudam no projeto geral da série em suprir as incompletudes da HQ. Laurie Blake (Jean Smart), a Espectral II, por exemplo, tem o terceiro episódio inteiramente dedicado a si.

Filha de Sally Jupiter, a Espectral I, e treinada desde a infância para sucedê-la, a vigilante reagia às decisões de outras personagens, mais do que efetivamente decidia, servindo como mero pano de fundo e motivação de seus interesses amorosos por toda a graphic novel, mesmo em suas angústias particulares. Outrora a garota esquecida no meio de megalomaníacos fantasiados, Laurie agora é uma jocosa agente do FBI, parte de uma força-tarefa anti-vigilante, recrutada pelo senador Keene para investigar o assassinato de Crawford.

Laurie Blake (Jean Smart) em Watchmen

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Não se limitando a fazer justiça para a ex-Espectral, outras personagens (como Lady Trieu e, principalmente, Angela Abar) ainda ajudam a denunciar o não-dito no material de origem, através de reações diferentes e interessantíssimas ao racismo e ao colonialismo empreendidos em diferentes momentos da história dos Estados Unidos, sem jamais terem suas agências retiradas ou se tornarem meras vítimas de circunstâncias externas (algo que, mesmo em tom de denúncia, a narrativa de Moore deixou a desejar para suas personagens femininas).

Tais personagens dão continuidade à crítica ao fascismo e autoritarismo inerente do vigilantismo, trazendo consigo duas variáveis pouco exploradas anteriormente: questões de raça e gênero, e seus contínuos apagamentos para que a narrativa heroica ocidental – branca e masculina – possa prosperar sob quaisquer outras.

Debaixo do capuz

Angela Abar e Will Reeves no sétimo episódio de Watchmen

Em Angela Abar conhecemos uma outra face do vigilantismo, como paródia involuntária, reação à violência institucional e expressão de um profundo sofrimento interno. Nascida em um Vietnã às vésperas de sua anexação aos EUA após a guerra, em meio aos fluxos migratórios de populações afro-americanas em busca de oportunidades, uma Abar criança encontra refúgio nos filmes de vigilantes estilo blaxploitation – apropriações das identidades heroicas para o público negro, dentro da mitologia da série. Um deles, Sister Night, sobre uma freira que secretamente combate crimes de colarinho branco na inércia da polícia, determina a persona que adota quando adulta.

Este é o elo entre as histórias de Abar e Will Reeves, que, embora tenham se refugiado nas máscaras em épocas distintas, compartilham do mesmo sentimento de abandono. O episódio dedicado a Reeves, aliás, é um dos mais belos e viscerais da televisão dos últimos anos, e subverte ainda mais o material de origem. Este, como Abar, ingressa na polícia, assumindo uma identidade vigilante por sobrevivência – à diferença das desculpas pretensiosas usadas como motivações de boa parte dos heróis, Will recorre à máscara para combater as forças do racismo institucional, intocáveis pelo Departamento de Polícia de Nova York.

A compreensão de vigilantismo como fruto de experiências traumáticas já fora abordada antes, com o drama geracional de Laurie Blake/Juspeckzyk. Aliás, é ela quem endereça a questão para Angela, ao apontar a máscara como esconderijo de violências internalizadas que, jamais tratadas, são externadas no combate ao “crime” – seja lá o que crime significar. Vigilantes, na concepção de Laurie, tentam consertar no lado de fora aquilo que incomoda por dentro.

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Watchmen 1×06: This Extraordinary Being

A série nos mostra que há sofrimento debaixo de cada disfarce: Angela perdeu os pais quando criança; Wade Tillman sobreviveu à tragédia de Nova York em uma sala de espelhos de um parque de diversões, cercado de cadáveres desfigurados do lado de fora; Will sobreviveu, não apenas ao massacre de sua família e de sua terra, mas aos assédios da supremacia branca ao se tornar policial. Não por acaso, é Reeves quem revela a Abar, já nos últimos episódios, que não se pode curar e cicatrizar feridas debaixo da máscara. Feridas, afinal, necessitam de ar.

“Se não gosta da minha história, escreva sua própria”

Um dos principais temas da série da HBO é o processo de criação das narrativas, o que é dito e o que deixa de ser quando se conta uma história: seja nas narrativas oficiais de “vitória” e dominação dos EUA, no apagamento racial no mito do herói, da reconstrução de uma ancestralidade e legado, e do próprio silêncio na obra de Moore e Gibbons sobre esses temas, mesmo com as oportunidades ali deixadas.

Lady Trieu e sua filha Bian, então, surgem no contexto da série para nos lembrar das atrocidades cometidas pelos EUA durante a Guerra do Vietnã. O nome “Trieu” remonta à lendária guerreira do século III responsável pela expulsão das legiões chinesas do território vietnamita. Criada rigidamente pela mãe, Trieu não apenas compra as indústrias do desaparecido Adrian Veidt quando adulta, como também constrói seu próprio império empresarial. Bian, por sua vez, tem pesadelos frequentes com a invasão estadunidense durante a guerra. Tudo indicava uma crítica em vias de se desenvolver nos episódios seguintes.

Cena da primeira temporada de Watchmen, série da HBO

Embora com um gigantesco potencial, Trieu e suas motivações soam muito simplistas quando finalmente expostas, e não há como não se perguntar como soariam se a série tivesse se debruçado um pouco mais sobre seu passado, à semelhança de outras personagens. Assim, um dos poucos erros de Watchmen é não dedicar atenção devida à personagem, que surge intimidante e enigmática em sua primeira aparição, mas não parece sustentar o mesmo mistério no final da temporada. Há algo de genérico em objetivos que deveriam soar como moralmente dúbios, e um aprofundamento na narrativa anti-colonial seria decisivo para conferir maior complexidade à personagem.

A herança de Watchmen para o século XXI

Boa parte da mitologia da série é aprofundada na Peteypedia, banco de dados criado e atualizado pelo personagem Dale Petey (Dustim Ingram), agente do FBI e parceiro de Laurie Blake. À semelhança dos materiais adicionais ao fim de cada capítulo do quadrinho, as entradas organizadas por Petey possuem suas próprias nuances e, ainda que não sejam 100% necessárias para acompanhar a série, fazem toda a diferença para entender diversos fatos e acontecimentos ao longo da trama, e podem suprir a curiosidade de quem maratonou a série e deseja saber mais sobre o universo da história.

Este é um dos vários indicativos do primor com que Damon Lindelof e sua equipe realizaram o trabalho de transpor o espírito do quadrinho para uma história completamente original, em uma mídia própria. Fiel ao conteúdo de Moore e Gibbons, e mais fiel ainda ao que ajudou a idealizar nestes nove capítulos, o showrunner já esclareceu que não tem interesse em produzir uma segunda temporada, o que talvez seja para o melhor. Faz-se necessário, afinal, que se dê um passo atrás e deixe que a obra fale por si e comunique sua mensagem, sem interferências mercadológicas ou midiáticas.

Angela Abar como Dr. Manhattan

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Afinal, Lindelof e sua equipe criaram uma obra que, acima de tudo, incomoda: incomodou ao apresentar Rorschach (favorito de muitos fãs) como um ídolo da alt-right; ao ousar remexer nas sujeiras da história estadunidense e resgatar o Massacre de Tulsa; e novamente, ao apresentar sua versão do Dr. Manhattan, com direito a memes e piadas na semana seguinte à transmissão do episódio em que aparece pela primeira vez – comprovando, quase que de forma metalinguística, a necessidade de uma série como esta nos tempos atuais. Esta ousadia mostra que a única forma de manter fidelidade ao quadrinho de origem seria, inclusive, através da subversão dos pressupostos do próprio, superando-o em diversos aspectos.

Talvez o maior mérito de Watchmen tenha sido tomar de assalto o horário nobre da televisão para endereçar, direta e abertamente, o racismo institucional e as bases genocidas envenenadas sobre as quais a cultura e o “sonho americano” foram construídos, doa a quem doer. Tal é o legado político deixado pela série que, sem sombra de dúvida, consagrou-se como uma das produções mais originais e necessárias da década.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

20 Textos

Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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