Watchmen: misoginia no heroísmo, mulheres fortes e ilustração chamativa

Watchmen: misoginia no heroísmo, mulheres fortes e ilustração chamativa

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Watchmen” dispensa comentários. Referenciada frequentemente em listas e top 10 de “maiores quadrinhos de todos os tempos”, a minissérie em 12 edições, escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons (colorida por John Higgins) entre 1986 e 1987, é praticamente um consenso onde quer que seja citada. Os temas e abordagens introduzidos em suas páginas são referenciados até os dias atuais – haja vista os resgates realizados pela DC Comics através da minissérie “Before Watchmen”, bem como a introdução de seus personagens ao universo principal da editora na minissérie “Doomsday Clock”; também marca o princípio das disputas de Moore por controvérsias contratuais e royalties sob suas obras publicadas pela DC, antecipando seu afastamento das editoras de quadrinhos “mainstream”.

De tal forma que revisitar uma trama laureada e consagrada, até mesmo pela dita “alta literatura” (uma das primeiras histórias em quadrinhos a sê-lo, inclusive), parece ser tarefa das mais intimidantes, à primeira vista, diversas resenhas, reviews e críticas literárias de toda a espécie se dedicaram, e ainda se dedicam, a destrinchar a cruel simetria dos quadros meticulosamente roteirizados por Moore e ilustrados de forma competente, realista e detalhada por Gibbons, a genialidade das tramas e subtramas amarradas em um conjunto coeso e completo, esbarrando na metalinguagem em incontáveis ocasiões.

A razão de ser deste texto, portanto, é buscar o que a obra tem a nos oferecer após mais de 30 anos de sua primeira publicação e os novos aspectos a serem suscitados em modernas reanálises de uma das mais conhecidas desconstruções dos quadrinhos norte-americanos. Pioneira na subversão das convenções tradicionais dos super-heróis de então, em especial aqueles recém-adquiridos da extinta editora Charlton Comics pela DC (como Capitão Átomo, Questão e Besouro Azul), “Watchmen” tem como premissa a inserção de figuras mascaradas e as consequências sociais, culturais, econômicas e tecnológicas desta inserção numa realidade crível, próxima da nossa.

Spandex, política e conspirações em “Watchmen”

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Assassinato de Edward Blake, o Comediante (Imagem: divulgação/DC Comics)

A trama se inicia em 1985, com a morte de Edward Blake, arremessado da janela de seu apartamento em Nova York. Seria apenas mais um dos diversos assassinatos violentos investigados diariamente pela polícia da cidade, se não fosse por um detalhe: Blake é a identidade civil de um dos mais famosos super-heróis dos EUA e ídolo nacional, o Comediante. Diante do descaso da polícia para com as circunstâncias misteriosas do delito, é Rorschach quem toma para si a incumbência de investigá-lo, tratando-se do último herói clandestino na ativa após a promulgação da Lei Keene, em 1977, proibindo o vigilantismo. Embora a trama em si não tenha um protagonista único, é através de Rorschach, inicialmente, que temos nosso primeiro contato com o universo dos super-heróis aposentados dos Estados Unidos.

Importante ressaltar, neste momento, que a narrativa de “Watchmen” não se limita aos quadrinhos, trazendo documentos, cartas, entrevistas de alguns personagens e matérias jornalísticas ao fim de cada capítulo. Paralelamente à trama da morte de Edward Blake, entendemos um pouco mais do contexto de surgimento dos super-heróis no país através destes documentos. Conhecemos os “Minutemen”, grupo de vigilantes mascarados que surge ao fim da década de 30, através de trechos da autobiografia de um de seus antigos integrantes, o ex-policial Hollis Mason, identidade do super-herói Coruja.

Impulsionados pelas revistas pulp e quadrinhos de heróis popularizados na época, estes vigilantes atuam por toda a década de 40, perdendo força a partir de meados da década de 50, em função de mortes trágicas de alguns de seus membros, a aposentadoria de outros e ainda escândalos sexuais. Tem como alguns de seus integrantes os heróis Coruja, Justiça Encapuzada, Capitão Metrópolis, Espectral e Silhouette, além do próprio Comediante. Com a debandada dos Minutemen a partir dos anos 50, o Comediante passa a responder diretamente para o governo norte-americano, eliminando inimigos políticos.

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Os Minutemen, na arte de Darwyn Cooke (Imagem: divulgação/DC Comics)

A segunda geração se inicia nos anos 60, com o surgimento da entidade conhecida como Dr. Manhattan, único herói da narrativa que efetivamente possui poderes, adquiridos por seu alter-ego, o cientista Jonathan Osterman, após um trágico acidente radioativo. A exposição a fenômenos nucleares confere-lhe consciência cósmica e onisciência, além de poderes sobre a matéria a nível molecular, razão pela qual é considerado um deus. Sua mera existência possibilita uma série de aperfeiçoamentos tecnológicos, desde a popularização de carros elétricos até a criação de tecidos sintéticos holográficos; também implica em um papel decisivo na medição de forças da Guerra Fria, cujo ponto alto é sua participação na Guerra do Vietnã junto ao Comediante, trazendo não apenas vitória aos EUA como também sucessivas reeleições ao presidente Richard Nixon.

Novos heróis surgem neste período, aposentando os antigos: o intelectual Daniel Dreiberg assume o manto de Coruja após a aposentadoria de Hollis Mason, juntando-se ao herói Rorschach no combate ao crime organizado; a jovem Laurie Juspeczyk sucede a mãe, Sally Jupiter, como a segunda Espectral, envolvendo-se romanticamente com Dr. Manhattan; inspirado nas figuras históricas de Alexandre o Grande e Ramsés II, o jovem Adrian Veidt atua como o vigilante Ozymandias até meados dos anos 70, quando constrói um império multimilionário de entretenimento, produtos e serviços, rendendo-lhe a alcunha de “o homem mais inteligente do mundo”. O Comediante permanece na ativa, desmantelando governos de orientação marxista na América do Sul, a mando de Nixon. É esta geração que enfrentará a ira da população, que protesta contra a greve da polícia e a ausência de regulamentação da atuação dos mascarados, abrindo caminho para a Lei Keene, de 1977. Desta geração, apenas Rorschach (como vigilante ilegal), Manhattan e Comediante (ambos a serviço do Estado) continuam suas atividades ao início da história – ao menos até a morte deste último.

Estranhos acontecimentos se sucedem: em um programa de entrevistas, Manhattan é confrontado com a informação de que diversas pessoas de seu convívio (dentre elas sua ex-namorada, a cientista Janey Slater, e um antigo inimigo criminoso, Moloch) encontram-se acometidas de câncer em estado avançado, levando-o a exilar-se em Marte; Adrian Veidt, por sua vez, sofre um atentado; para Rorschach, tudo aponta para uma gigantesca conspiração destinada à eliminação dos vigilantes sobreviventes. Enquanto isso, Laurie separa-se de Dr. Manhattan, diante da crescente apatia e desconexão deste para com as emoções humanas, engatando um romance com Daniel, o segundo Coruja; face à morte de Blake e à possibilidade de desastre nuclear após o exílio autoimposto de Manhattan, as personagens veem-se obrigadas a enfrentar memórias reprimidas e esqueletos há muito escondidos no armário.

Ao longo de “Watchmen“, cada uma das personagens recebe um pano de fundo bem construído e um capítulo explorando um pouco de sua vida e sua relação com os acontecimentos narrados. Para além do conjunto de protagonistas, cujas ações testemunhamos durante a maior parte da narrativa (Rorschach, Coruja II, Espectral II, Dr, Manhattan e Ozymandias, além de flashbacks do Comediante), Moore ainda detalha muito bem o papel dos coadjuvantes na trama e mesmo aqueles que aparecem por poucos quadros possuem sua importância.

A esmagadora maioria das personagens principais é masculina, deixando entrever a conjuntura do mundo de “Watchmen“, em sentido geral, como um universo caótico tomado por homens. É a corrupção masculina e suas falhas enquanto indivíduos que figura como principal objeto de análise, decorrência do objetivo de desconstruir o mito do herói. Como veremos a seguir, a escolha de Moore e Gibbons por este caminho revela-se simultaneamente o ponto mais forte e o mais fraco da obra.

It’s a (Watch) men, men’s world

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Os heróis Coruja II, Espectral II, Rorschach, Comediante e Ozymandias em “Watchmen” (Imagem: divulgação/DC Comics)

Moore retrata, em suas personagens, visões morais antagônicas que interagem e reagem entre si a todo momento, gerando os conflitos que movimentam a narrativa. O mérito do autor reside na capacidade de delimitar a complexidade de todos sem que estes jamais se confundam entre si, mesmo que pensem de forma parecida.

O mais jovem dos Minutemen, Edward Blake, inicia sua atuação como Comediante aos 16 anos. Assume o papel de bobo-da-corte, menestrel, diante da realidade de injustiças, abusos, violência e morte que passa a testemunhar durante suas atividades como vigilante mascarado. No ato de se permitir vislumbrar os horrores da sociedade nua e crua, aqueles que a maioria das pessoas escolhe ignorar, é que decide encarar tudo como uma grande piada de mau gosto, convertendo-se em uma paródia ambulante da barbárie que testemunha. Como pontuado por Dr. Manhattan em suas reminiscências, Blake entende o que vê, mas simplesmente não se importa.

Na prática, vemos que ele interpreta esta compreensão como uma autorização para reproduzir os mesmos abusos que testemunha, sob a justificativa de que nada mais faz sentido. É o que o leva a uma tentativa de estupro contra a primeira Espectral, Sally Jupiter; a atirar contra a jovem vietnamita que dele engravidara durante a guerra e lhe cobrar a responsabilidade pela criança, a personificar o imperialismo norte-americano em missões homicidas pelo mundo. Fica bem claro, contudo, que Blake não se torna um indivíduo superior pela compreensão que adquire, mas uma criatura patética que esconde suas atrocidades com uma resposta inteligente. Um homem como ele só poderia morrer ao descobrir um plano grotesco o suficiente a ponto de atravessar e estilhaçar por completo até mesmo seu niilismo debochado. Assim, a narrativa não se limita a retratar Blake como um homem complexo, mostrando que, a despeito da justificativa e motivação por trás das violências que comete, estas jamais deixam de ser violências.

Após sua transformação em Dr. Manhattan, Jon Osterman adquire uma nova compreensão acerca das relações sociais e da vida. Capaz de enxergar fenômenos biológicos, físicos e químicos a níveis micro e macroscópicos, Jon passa a cultivar um crescente descaso pelos problemas humanos – segundo sua visão, todos estes dilemas seriam insignificantes em comparação à grandiosidade cósmica e quântica do universo. Manhattan ainda possui a habilidade de ver o tempo como um todo unitário, sem as divisões tradicionais de passado, presente e futuro. Desta forma, os capítulos narrados em sua perspectiva possuem uma estrutura não-linear, nas quais suas memórias, pensamentos do presente e acontecimentos do futuro acontecem todos simultaneamente. O conhecimento exato do que acontecerá em seguida implica em uma existência enfadonha. O personagem de Manhattan, portanto, é um exercício proposto por Moore em imaginar como um super-humano, de poderes comparados aos de um deus, viveria e pensaria em uma realidade como a nossa.

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Dr. Manhattan em “Watchmen” (Imagem: divulgação/DC Comics)

Assim como o Comediante, Manhattan também é cooptado pelo governo americano, tornando-se um símbolo de terror e potência bélica dos EUA frente aos demais países. Suas motivações são ligeiramente similares às de Blake, na medida em que não vê sentido no que faz. Se continua a atuar, contudo, é por enxergar a si mesmo como uma espécie de fantoche das maquinações do tempo, destituído de livre arbítrio – Dr. Manhattan toma decisões com base naquilo que o futuro lhe mostra, porque é a única coisa racional a ser feita e não há como fugir. A crítica de Moore a esta visão é demonstrar como Manhattan separa a si mesmo dos demais indivíduos, enxergando-os como meramente irracionais segundo sua lógica afiada, muito embora também possua emoções e desejos genuinamente humanos. Sua maior falha é a incapacidade de aplicar sua racionalidade infalível a ninguém menos que si mesmo: seu romance com a colega de laboratório Janey Slater (e com a Espectral II, mais tarde), além de seu próprio isolamento na superfície de Marte, demonstram que Jon ainda guarda uma humanidade com a qual é incapaz de lidar.

Neste esteio, é interessante notar que as características usadas para descrever Dr. Manhattan e seu aspecto inumano (a frieza lógica, a indiferença) coincidem com todos os estereótipos tradicionalmente atribuídos à socialização do gênero masculino dentro do patriarcado, em oposição à irracionalidade e melodrama comumente associados ao “Outro”, ao feminino inferior – o que se evidencia bastante nos flashbacks, em que tanto Slater como Juspeczyk são retratadas irritadas ou frustradas frente à figura estoica do herói. Não por acaso, o contraponto entre Dr. Manhattan e a humanidade é demonstrado principalmente pelas suas relações com mulheres. Desta forma, Jon é simultaneamente a reprodução do perfeito ideal patriarcal (com sua racionalidade rigidamente científica e corpo esculpido em azul, a cor convencionalmente atribuída ao homem) como também a representação de todas as mazelas deste mesmo ideal.

Rorschach e Ozymandias, por sua vez, partem de realidades distintas e quase excludentes. O primeiro, filho de uma prostituta e pai desconhecido, sofre uma série de maus-tratos e experiências traumáticas durante a infância, encaminhado para um orfanato e, logo em seguida, para um trabalho fixo numa loja de roupas femininas. Sua decisão pela carreira de vigilante se dá com a notícia do estupro e assassinato da jovem Kitty Genovese, crime mundialmente conhecido pela completa indiferença dos vizinhos que o testemunharam; utilizando-se do tecido holográfico projetado por Dr. Manhattan – semelhante aos tradicionais testes psicológicos de Rorschach, manchas em preto e branco projetando imagens no papel –, o rapaz decide assumir um alter ego justiceiro, arraigado a seus ideais de bem e mal quando a realidade miserável falha em lhe oferecer qualquer alento; ideais estes alimentados pela misoginia oriunda de suas lembranças da mãe, traços de homofobia e convicções políticas de extrema direita. Moore tem plena consciência da sociopatia de Rorschach, projetada como um contraponto irônico a heróis moralmente rígidos, como Questão e Mr. A, desafiando-nos a nutrir uma simpatia ambígua pelo personagem, que também é o mais próximo da decadência e das ruas de Nova York.

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Rorschach em “Watchmen” (Imagem: divulgação/DC Comics)

A outro giro, Adrian Veidt cresce em uma família imigrante abastada, tirando notas excepcionais nos estudos (tão excepcionais que Veidt conscientemente passa a diminuir suas médias para não despertar suspeitas); torna-se órfão aos 17 anos, quando toma a decisão de desfazer-se de toda a sua herança para comprovar a possibilidade de conquistar seu patrimônio do completo nada, tão somente através da meritocracia. Viajando pelo mundo com poucos pertences, o jovem recria o trajeto de seu grande ídolo, “Alexandre, o Grande”, o que lhe inspira a adotar o modus operandi dos grandes imperadores da antiguidade para o mundo contemporâneo. Ao fim de sua peregrinação, adota o nome grego de Ramsés II e torna-se, então, o combatente do crime conhecido como Ozymandias.

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Ozymandias em “Watchmen” (Imagem: divulgação/DC Comics)

A seu modo, Veidt adota convicções morais tão firmes quanto aquelas de Rorschach, construindo uma trajetória ambiciosa a longo prazo, cuja completude só é atingida quase 30 anos após seu início. Compreendendo a ínfima repercussão de sua atuação como herói para gerar qualquer mudança significativa no mundo, Ozymandias decide aposentar-se poucos anos antes da promulgação da Lei Keene; passa a dedicar-se totalmente ao seu império empresarial, sendo um dos poucos heróis a se manter nas boas graças da opinião pública até aquele momento. Rorschach o descreve como um “liberal hipócrita de tendências homossexuais”, seu oposto em praticamente todos os aspectos. Ao fim da história, contudo, compreendemos que os dois guardam muito mais similitudes entre si do que possa parecer à primeira vista.

Daniel Dreiberg, o Coruja II, é um intelectual rico que, em comparação às justificativas grandiosas ou filosóficas das personagens anteriores, assume a vida de vigilante por motivos bastante simplórios. Com muito tempo e dinheiro para gastar, Dreiberg encontra na vida de combatente do crime uma forma de realizar suas fantasias infantis mais selvagens, projetando toda a sorte de apetrechos e equipamentos no melhor estilo Batman (desde uma série de trajes especiais até um veículo aéreo e subaquático em formato de coruja). Junta-se a Rorschach no combate ao crime no submundo de Nova York, nos anos 60, com quem forma uma amizade duradoura, embora lamente não possuir a mesma determinação feroz de seu parceiro.

É uma das personagens mais mundanas da trama, de temperamento sensível e calmo e até um pouco sem jeito, lembrando o estereótipo de nerd tímido. Em se tratando de uma desconstrução de Alan Moore, contudo, Dreiberg também tem seus momentos – sua obsessão pela vida de vigilante é tamanha a ponto de influenciar até mesmo em sua libido; o fetiche por fantasias e máscaras de super-herói evita que consiga manter sexo com Laurie, até que se ambos se vistam em seus respectivos uniformes.

Feminilidade e relações entre mãe e filha – as mulheres vigilantes como objeto de análise em “Watchmen”

Laurie Juspeczyk (Espectral II) e Sally Jupiter (Espectral I) (Imagem: divulgação/DC Comics)

Enquanto os homens lidam com ideais, contemplações morais ou mesmo fantasias de juventude, as personagens femininas lidam com as consequências diretas das decisões destes primeiros, para bem ou para mal. O masculinismo de “Watchmen” é mais uma das facetas da desconstrução proposta, refletindo diretamente boa parte da misoginia camuflada dos quadrinhos heroicos da Era de Prata e suas convenções. Os diagnósticos apontados pelo autor e as falhas morais de seus protagonistas homens são bastante precisos em mostrar o pior da socialização masculina em um mundo corrompido tal qual o nosso. Mas será que Moore é capaz de superar este diagnóstico em sua própria narrativa?

As únicas personagens femininas de alguma relevância para os acontecimentos da trama são mãe e filha: Sally Jupiter e Laurie Juspeczyk, respectivamente a primeira e a segunda Espectrais – a primeira é uma coadjuvante e antiga integrante dos Minutemen; a segunda, por sua vez, é uma das protagonistas. Para além destas, as duas únicas personagens femininas a possuírem qualquer relevância na obra são Silhouette (alter ego de Ursula Zandt, uma das componentes dos Minutemen, expulsa do grupo ao se assumir lésbica, vítima de lesbocídio por um antigo inimigo) e Janey Slater, ex-namorada de Dr. Manhattan, substituída por Laurie quando mostra sinais de envelhecimento.

Imigrante polonesa, Sally Juspeczyk (mais tarde adaptando seu nome artístico para “Jupiter”, de modo a ocultar sua ascendência) é a primeira dos vigilantes mascarados a enxergar potencial artístico e econômico na carreira super-heróica, segundo Hollis Mason. Sempre acompanhada de seu pragmático empresário Laurence Schexnayder, é ela quem dá forma aos Minutemen no final dos anos 30, embora sua última ambição consista em uma carreira de atriz em Hollywood (algo que nunca atinge). Iniciando como heroína aos 18 anos, a primeira Espectral sabe muito bem como utilizar de seu apelo sexual para atrair publicidade e contatos, lutando contra o crime, vestida de pouco mais que um collant amarelo, meias arrastão e salto alto.

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Pressentindo a dicotomia entre as atividades violentas que desempenha (comumente associadas ao masculino) e sua posição como mulher, Sally preserva a performance da feminilidade como sua principal característica enquanto vigilante, buscando usar os estereótipos de gênero a seu favor – e, em última análise, deleitando-se na própria objetificação quando, vivendo em uma casa de repouso aos 65 anos, nada mais lhe resta senão rememorar os dias de glória já passados. É o que a faz lembrar, sob uma ótica saudosista, da tentativa de estupro sofrida nas mãos do Comediante e é o que também lhe leva a treinar a filha desde a infância para sucedê-la no manto de Espectral.

Já Laurie é uma jovem que dispensa o glamour de Sally. Com uma vida inteira dedicada a tão somente suceder Jupiter no vigilantismo, Espectral II teve a infância e a adolescência tomadas de si para tornar-se uma projeção das expectativas e desejos da mãe quando esta já não poderia satisfazê-los. Cresce rodeada por heróis aposentados, arrastada contra a vontade à primeira reunião dos “Crimebusters”, equipe de heróis proposta em meados dos anos 60 por outro antigo membro dos Minutemen, Capitão Metropolis. É lá que, aos 16 anos, conhece Dr. Manhattan, com quem passa a namorar.

Quando a narrativa se inicia, ela é mais uma dentre os vigilantes aposentados pela Lei Keene, não hesitando em deixar de lado o uniforme chamativo e sexualizado na primeira oportunidade – o que não diminui sua insatisfação e amargura, posto que passa a viver junto de Manhattan na base militar, onde este realiza experimentos para o Estado, mantida ali apenas por conveniência. A perda de privacidade de sua vida afetiva (sempre rodeada de agentes do governo), além do descaso de Jon pela vida humana, levam-na a abandonar o namorado e buscar amparo no colega Daniel, com quem se envolve pouco tempo depois. Junto de Dreiberg, Laurie Juspeczyk é a personagem mais próxima da leitora, seja pelo desejo de se afastar do legado da mãe, seja por dispensar as motivações elaboradas e filosóficas dos demais heróis.

É através destas duas mulheres que Moore tece suas críticas aos quadrinhos tradicionais, seja demonstrando as condições degradantes que vivenciam para realizar exatamente a mesma atividade que seus companheiros, seja questionando toda a fetichização envolvida no arquétipo da super-heroína, com suas roupas pouco práticas que priorizam os atributos físicos em detrimento da proteção em combate. A grande falha da narrativa, contudo, é que Laurie e Sally fatalmente não passam disso: meras ferramentas de denúncia.

Espectral II em uma conversa com Dr. Manhattan, comentando sobre o treinamento imposto pela mãe Imagem: “Watchmen” (divulgação/DC Comics)

No ato de discutir as condições nefastas vivenciadas por duas heroínas em um universo profundamente misógino, Moore trata-as muito mais como objetos de análise do que efetivamente sujeitos de suas narrativas, personagens capazes de tomar as próprias decisões sem depender dos homens que as cercam. O autor impede que ambas se desenvolvam para além da denúncia e da crítica, na medida em que todas as atitudes de Sally e de Laurie existem em função de algum personagem masculino.

O principal dilema de Sally durante toda a história se sustenta no caso amoroso que tivera com Edward Blake, mesmo após a tentativa de estupro, e seus sentimentos contraditórios de culpa, desejo e vergonha por se permitir, de forma que presume ser consensual, viver um breve romance com seu agressor. Observa-se, assim, o drama de uma mulher sexualizada e objetificada a vida inteira, cujos referenciais de afeto e carinho fatalmente se confundem com o abuso.

Imagem: “Watchmen” (divulgação/DC Comics)

Em se tratando de Laurie, embora grande parte de seu conflito se dê em relação a outra mulher (sua mãe), não há um único momento em que não esteja envolvida romanticamente com algum personagem masculino – passando quase que imediatamente de Dr. Manhattan para Dan Dreiberg. É a pedido de Daniel que Espectral II torna a vestir seu antigo uniforme (o mesmo que lhe fora imposto por Sally na adolescência) e retoma as atividades heroicas. Mais tarde, quando confronta Dr. Manhattan e relata sobre seu envolvimento com Daniel, o antigo namorado demonstra-se momentaneamente contrariado; Manhattan afirma que Laurie é seu último elo de ligação com o restante da humanidade, acusando-a de abandono. Mesmo quando Espectral II tem os holofotes da narrativa voltados para si por um breve momento, sua descoberta final só possui utilidade na medida em que serve para impulsionar Dr. Manhattan a se importar novamente com a vida humana para, então, tentar salvá-la do holocausto nuclear. A conclusão do arco de Laurie é eclipsada pelo de Manhattan.

Desta forma, embora Alan Moore acerte em cheio ao presumir as diversas violências que mulheres vigilantes precisam suportar no mundo de “Watchmen“, também falha em prover maior complexidade aos seus dilemas e decisões, posto que sempre são vividos em função de algum homem ou apagados pelo dilema de outro. Não é à toa que Laurie não é tão explorada em análises e críticas de “Watchmen” como Dr. Manhattan ou Rorschach, por exemplo. Assim, é possível elogiar a construção complexa dos protagonistas masculinos, perfeitos reflexos da realidade retratada na obra, ao mesmo tempo em que se aponta uma construção incompleta das protagonistas e coadjuvantes mulheres neste contexto, situação similar à observada em “V de Vingança“.

Para além do verbal, a importância do que não é dito em “Watchmen”

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Imagem: “Watchmen” (divulgação/DC Comics)

A leitora toma plena consciência dos EUA de “Watchmen” desde o princípio: desolado e abandonado, um totalitarismo simbólico travestido de democracia e repleto de manchetes de jornal e gigantescas peças publicitárias. O grande ponto de virada, aquele que efetivamente separa nosso mundo daquele retratado no quadrinho, é o triunfo dos Estados Unidos no Vietnã e os múltiplos mandatos de Richard Nixon em consequência (no mundo sombrio projetado por Moore, o presidente sequer sucumbe aos escândalos de Watergate). Nesta dimensão, os contornos fascistas e imperialistas da política norte-americana encontram-se praticamente explícitos, sem os disfarces ou maquiagens fornecidos na vida real, no período correspondente ao da HQ, pelo governo neoliberal de Ronald Reagan; grande parte destas impressões deve-se ao cuidado para com as ilustrações e as cores utilizadas nos cenários e panos de fundo, extrapolando o texto verbal.

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Imagem: “Watchmen” (divulgação/DC Comics)

O brilho aberrante das atrações pornográficas decadentes e o púrpura nostálgico dos anúncios de perfume contrasta com as prostitutas abatidas, crianças abandonadas, miseráveis e adolescentes de gangue, todos buscando seus destinos por não haver outra escolha, mesmo frente ao Armagedon. A paleta de cores diversificada, tanto dos cenários como das próprias roupas chamativas de boa parte dos super-heróis (muito similar àquela adotada pelos quadrinhos dos anos 50 e 60), contribui ainda mais para o contraste com os temas pesados abordados, incrementando a dramaticidade.

A disposição dos quadros em “Watchmen” é outro diferencial da história. Através de escolhas de enquadramento e interposições de cenas distintas, vislumbramos uma série de subtextos que nos aproximam um pouco mais das intenções da obra. Destaque para a arte de Dave Gibbons, cuja riqueza estética em cada um dos quadrinhos incrementa ainda mais a experiência de leitura – sempre haverá algum detalhe que não foi visto antes e que nos surpreende quando olhamos para o mesmo ponto mais de uma vez. As imagens ainda ganham independência em relação aos balões de diálogo, narrando a história em uma dimensão quase que inteiramente simbólica. Moore exige total atenção da leitora, tanto para a arte dos quadrinhos como para os diálogos e materiais “extras” disponibilizados ao fim dos capítulos, mostrando sua competência, mais do que comprovada, como um roteirista de quadrinhos por excelência.

Por fim, importante ressaltar a revista “Contos do Cargueiro Negro”, um quadrinho dentro do próprio quadrinho, que conversa com os acontecimentos da trama e guarda relações com o enredo principal, bem como as personagens de apoio: o jornaleiro, o garoto lendo revistas ao lado da banca, a taxista lésbica, entre tantas outras figuras que, entre os dramas dos protagonistas, deixam-nos entrever um pouco de suas preocupações mundanas e tornam a narrativa muito mais real e palpável. São estes pequenos detalhes que incrementam a carga dramática do desfecho e nos fazem sentir toda a dor e desespero de quem aguarda o início do Armagedom a qualquer momento.

Assim, a genialidade da série reside no detalhamento: seja no aprofundamento do contexto da história através dos textos de apoio que acompanham o quadrinho, pelas narrativas paralelas intercaladas ao enredo principal ou com as tramas e subtramas muito bem amarradas, a obra falha apenas onde não detalha com o mesmo cuidado. Mesmo meticulosa em denunciar um mundo corrupto, misógino e complexo, onde os tons de cinza frequentemente se misturam entre si, a narrativa peca ao não conferir agência às suas personagens femininas da mesma forma que confere a suas contrapartes masculinas, resultando numa crítica incompleta.

Naquilo que é capaz de denunciar, contudo, “Watchmen” comprova que ainda tem muito a nos dizer acerca do mundo em que vivemos, não muito diferente daquele em que aventureiros mascarados um dia ousaram deixar de ser meras histórias para se tornarem realidade. Seu maior trunfo é ser uma desconstrução da própria desconstrução: mesmo com suas personagens angustiadas e “pé no chão” em relação ao que era escrito até então (o que preconiza, nos quadrinhos dos anos 90, a moda dos anti-heróis moralmente ambíguos na aparência, mas pouco complexos na substância), Moore ainda nos deixa entrever um pouco de esperança, questionando não apenas o idealismo ingênuo, mas igualmente o cinismo cego e sem precedentes, mostrando a necessidade de se cultivar a empatia pelo outro, seja no cotidiano ou diante do Armagedom.

No fim das contas, não se trata tão somente de uma história sobre super-heróis. Acima de tudo, “Watchmen” é uma história sobre relações entre seres humanos, mascarados ou não.

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Imagem: “Watchmen” (divulgação/DC Comics)

Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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