Mulheres nos Quadrinhos: Rebeca Prado

Mulheres nos Quadrinhos: Rebeca Prado

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Caçadora de Pokémons nas horas vagas, a mineira Rebeca Prado desbrava as aventuras da vida cotidiana em suas publicações e também nos transporta a um universo viking que é surpreendentemente fofo, até você ler os balões da protagonista de “Navio Dragão”, Lif, a criatura que se mistura com sua criadora.

Rebeca Prado atua como ilustradora no mercado editorial, roteirista na Maurício de Sousa Produções e professora na Casa dos Quadrinhos, localizada em Belo Horizonte (MG). Com dois livros, uma publicação coletiva e três fanzines, tornou-se a shieldmaiden de sua própria trajetória. Enquanto Lif, sua criação viking, coleciona escalpos, Rebeca coleciona campanhas de financiamento coletivo surpreendentes. Logo no lançamento de “Navio Dragão”, sua primeira iniciativa no crowdfunding (2015), a quadrinista arrecadou aproximadamente R$ 38 mil reais – a meta a ser batida era de R$ 15 mil.

Navio Dragão.
Navio Dragão. Imagem: reprodução

Personalidade e trajetória

O Navio de Rebeca aportou nos eventos de HQs no Brasil e com ele o frio na barriga de desbravar novas terras. A autora é introvertida, mas possui um tipo de introversão diferente: lida bem com grandes multidões, fala em grandes eventos como o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) e a Comic Con Experience, mas não sabe o que fazer quando pessoas a abordam cara a cara para conversar sobre seus quadrinhos. Apesar da timidez, conversa da melhor maneira com quem aparece em sua mesa.

Uma dessas aparições foi a de Gail Simone durante o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de 2013, em Belo Horizonte. Simone é a criadora da primeira protagonista transgênero das histórias em quadrinhos em uma grande editora, a Batgirl, da DC Comics, durante a fase Novos 52. Além disso, foi a roteirista que mais escreveu HQs da Mulher Maravilha e também trabalhou para a Marvel nos números finais de Deadpool. No Brasil, ela encontrou uma viking tropical e trouxe o espelho do reconhecimento em que Rebeca pôde se olhar e validar seu trabalho.

Tweet Gail.
“Noite passada fiquei acordada com o Google para traduzir os quadrinhos adoráveis da @incbeka. COMPREM ESSES LIVROS. Rebeca Prado arrasa!” . Imagem: reprodução

Na hora, fui muito profissional. Mas, depois que ela saiu, eu achei que eu ia desmaiar, meu corpo ficou mole, minha cabeça ficou quente e eu pensava ‘meu deus, o que aconteceu?’. Eu não fui lá mostrar o meu trabalho pra ela, mas ela foi ver, isso que foi pra mim o mais interessante. Esse fato vai superar qualquer coisa ruim que tenha acontecido na minha carreira. Me agarro nisso várias vezes.”

Antes de pilhar a insegurança, a artista enfrentou muitas batalhas enquanto ainda aprendia a empunhar sua arma que hoje é utilizada com maestria: as cores. Rebeca estudou Artes Visuais com especialização em Cinema de Animação na UFMG e encontrou bastante resistência de colegas e professores por ter o desenho mais figurativo e não experimental, como a academia demandava. Na disciplina de “Composição e Teoria Cromática”, escutou do professor que o pano de limpar pincéis estava mais bonito que seu desenho. A aluna superou o mestre e hoje ministra a mesma matéria na Casa dos Quadrinhos.

Rebeca Prado.
Rebeca Prado. Imagem: reprodução

Seus pupilos, crianças entre seis e nove anos, são grandes avaliadores de seu trabalho. Removeram a armadura da Lif e no lugar deram uma saia, além de tirarem os sapatos da viking com o argumento de que a Turma Mônica vive descalça. Rebeca escuta as críticas e coloca em prática as edições dos pequenos leitores e alunos. A relação de troca que não experimentou na academia é hoje ensinamento para a sala de aula.

Viver é pesado

Vikings e navios à parte, Rebeca Prado também faz de suas experiências pessoais material de seus quadrinhos. Eventos simples e nada interessantes, como pagar boletos, a queda do pão com a manteiga pra baixo e a preguiça de eventos sociais, são a combinação perfeita para a criação de um humor leve e nada apelativo. Em seus roteiros, Rebeca sabe colocar nos leitores o riso das banalidades e das situações que até tiram do sério.

Viver é pesado.
Viver é pesado (2016). Imagem: reprodução

As tirinhas da série “Viver é pesado”, que podem ser encontradas na publicação Baleia #3, são como um abraço de consolação, aquele “eu entendo” que faltava nos momentos difíceis da vida adulta e que boa parte das pessoas se identifica, mas guarda pra si por medo de julgamentos. O livro também foi custeado via financiamento colaborativo e mais uma vez foi um sucesso, com direito à tarde de autógrafos na Casa dos Quadrinhos em 2016.

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Em 2018, Rebeca segue explorando as neuras dos habitantes do século XXI, mas em zine. “Credo (que delícia)” já mostra a que veio logo no título. Metáforas com rodinho de pia e lençóis de elástico compõem o drama da vida moderna sem abandonar o humor.

Credo que delícia.
“Credo que delícia” (2018). Imagem: reprodução

De sua estreia em 2013 com o zine “A raposa e as uvas”, passando no mesmo ano por “Baleia #1” e, no ano seguinte, por “Baleia #2” aos dias de hoje, Rebeca Prado desafia estereótipos, seja com o contraste das atitudes ácidas de Lif, em “Navio Dragão”, com seu traço delicado ou no rompimento de nichos que o mercado editorial, mesmo se abrindo, ainda insiste em enquadrar as mulheres. “Há uma visão de que mulher produz coisas pra crianças e para outras mulheres. Essas restrições acabam podando nosso espaço ali dentro”, afirma a artista. Rebeca não se intimida e luta como uma viking. Credo, que delícia!

Caso queira conhecer um pouco mais sobre o trabalho da Rebeca Prado, não deixe de conferir seu Instagram.


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

Rafaella Rodinistzky é graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela PUC Minas e atualmente cursa Edição na Faculdade de Letras da UFMG. Participou do "Zine XXX", contribuiu com a "Revista Farpa" e foi assistente de produção da "Faísca - Mercado Gráfico". Você tem um momento para ouvir a palavra dos fanzines?
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