Promethea: as vozes femininas na criação literária de Alan Moore

Promethea: as vozes femininas na criação literária de Alan Moore

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Não é “apenas uma história”, como muitos costumam dizer por aí quando apontamos questões problemáticas em certas peças de entretenimento. E é exatamente sobre isso que trata “Promethea“, uma das mais grandiosas obras de Alan Moore, em parceria com J.H. Williams III e Mick Gray.

O que diferencia a vida real da ficção? Em algumas situações, é difícil dizer. Nos apegamos a personagens de histórias o tempo inteiro: escrevemos fanfics sobre eles, embarcamos em seus dramas e os vivenciamos como se fossem nossos. É bem verdade que estas personagens não estão fisicamente entre nós, mas o que elas nos fazem sentir é bem real. Seus reflexos no mundo em que vivemos também são tão reais quanto.

Os sentimentos de personagens fictícios e eus-líricos são capazes de, direta ou indiretamente, moldar a visão que temos do mundo e influenciar em nossas escolhas e decisões. É só pensar nas aulas de literatura do ensino médio, repletas de homens (poetas ou romancistas) ditando tendências e movimentos culturais a partir de seus personagens. É um círculo vicioso: a realidade, o contexto cultural, influencia a ficção, tal qual a própria ficção influencia a realidade que a originou, reforçando, referenciando, ou naturalizando comportamentos já existentes.

Promethea
“Se ela não existisse, teríamos de inventá-la”

Numa versão futurista da Nova York de 1999, a estudante universitária Sophie Bangs empenha-se em um trabalho de pesquisa a fim de completar seu artigo científico sobre uma personagem fictícia com diversas incursões na literatura e nos quadrinhos chamada Promethea, agora esquecida e ignorada.

Após uma entrevista mal-sucedida com Barbara Shelley, viúva do autor da última encarnação da personagem nos quadrinhos, a jovem é perseguida e atacada por uma criatura espectral. Quem intervém em seu auxílio é a própria Barbara, transformada em Promethea. Mas não por muito tempo: a mulher já não é suficientemente forte para deter a criatura, e o manto da personagem deve ser repassado para aquela invocou sua energia após tantos anos de ostracismo.

Em meio ao medo e desespero, Sophie incorpora a entidade e derrota o espectro. Este, entretanto, é apenas o início de sua jornada pelos confins da realidade, uma preparação para a missão final de Promethea na Terra: trazer o Apocalipse.

Alan Moore

Logo nas primeiras páginas de Promethea, a leitora é introduzida à mitologia da personagem através do artigo “The Promethea Puzzle: An Adventure in Folklore”, detalhando sua trajetória através das narrativas ficcionais e cada uma de suas cinco principais encarnações: como uma das damas da rainha Titânia das fadas, em uma narrativa poética do fim do século XVIII; como coadjuvante de uma série de tirinhas infantis em um jornal pertencente ao conglomerado do famoso magnata William Randolph Hearst, nas primeiras décadas do século XX; como heroína de ação na revista pulp Astonishing Stories, nos loucos anos 20; como “super heroína científica” na era de prata dos quadrinhos (aos moldes das histórias da Mulher-Maravilha dos anos 60 e 70); e, finalmente, reapresentada a uma nova audiência de leitores de HQs, com elementos de seu “lore” místico original.

É neste entroncamento entre fatos verídicos e fantasia que Alan Moore prepara as leitoras para o que as espera em cada uma das 32 edições que compõem a obra: tal qual Sophie perdida nos confins da Imatéria – reino fantasioso correspondente à imaginação humana, e lar das cinco Prometheas anteriores –, somos convidadas a questionar os limites entre realidade e ficção com apenas uma certeza: jamais saberemos, de fato, qual é qual.

Promethea
A Imatéria, lar das cinco Prometheas anteriores

Uma longa caminhada

Publicada entre 1999 e 2005 pela Wildstorm Productions, através do selo America’s Best Comics, em colaboração com o ilustrador J.H. Williams III (que mais tarde também ilustraria “Sandman – Prelúdio“), a série é a culminância da trajetória traçada por Moore desde seu retorno aos quadrinhos mainstream no início dos anos 1990, após uma série de desentendimentos com a DC Comics em função de royalties sobre suas histórias mais icônicas, dentre elas “Watchmen“.

Mago cerimonial assumido desde 1993, o autor se distancia em muito das abordagens mais obscuras e cortantes de suas obras anteriores para contar uma história colorida, brilhante e solar sobre as origens da ficção e criação, bem como sobre as raízes do ocultismo ocidental. Trata-se de mais uma de suas desconstruções sobre narrativas tradicionais de super-heróis, desta vez recheada de otimismo do início ao fim.

Nos compilados originais, Promethea fora dividida em três volumes, a fim de refletir cada um dos estágios da jornada de Sophie em busca de esclarecimento e iluminação: o primeiro, incluindo forte simbolismo do tarô; o segundo, uma jornada literal através da Árvore da Vida cabalística em cada um de seus dez estágios (chamadas “sephiroth”); e o terceiro, por fim, compreendendo a chegada do Apocalipse, ou o Fim do Mundo como o conhecemos.

Alan Moore

As primeiras edições de Promethea (de 01 a 12) refletem bem o clima de aventura das histórias em quadrinhos de super-heróis: Sophie deve conciliar a vida de adolescente universitária com seu ofício como a Promethea desta geração, no melhor estilo “vilão da semana”; intercalada com esta abordagem mais tradicional, a jovem viaja pelo reino da Imatéria e recebe o auxílio das cinco encarnações prévias da personagem, aprendendo mais sobre a natureza de seu alter-ego e o que ele representa.

Embora presente ao longo de toda a obra, o simbolismo das cartas de tarô é mais evidente no arco introdutório, em que quatro das Prometheas anteriores representam cada um dos chamados Arcanos Menores (Copas, Paus, Ouros e Espadas), personificando as qualidades que Sophie deve conquistar para ser uma Promethea completa.

Esta etapa inicial culmina em uma belíssima edição quase que inteiramente composta de painéis duplos (Capítulo 12, “O Teatro Místico da Mente”), uma verdadeira aula expositiva de cada uma das 22 cartas que compõem os Arcanos Maiores do tarô – isto é, os chamados “arquétipos”, compreendendo desde a carta número zero, “O Louco”, até a carta número vinte e um, “O Mundo”.

Promethea
Um dos vários painéis duplos ilustrando a grandiosidade da Edição 12

O arco seguinte, compreendendo as edições 13 a 25, já se afasta um pouco da narrativa de ação. Aqui, Sophie e Barbara, a Promethea anterior, embarcam em uma caminhada espiritual pelo sistema cabalístico da Árvore da Vida. É, talvez, o momento mais intimista da obra: há o desenvolvimento de uma amizade mais profunda entre Sophie e Barbara, que atravessam os percalços espirituais juntas; conhecemos um pouco mais de Barbara, sua relação com o falecido marido, o escritor e mago autoproclamado Steve Shelley, além de sua relação com a própria Promethea. As artes e ilustrações de cada uma das edições possuem estilos muito próprios, envolvendo a leitora na atmosfera dos estágios da Árvore e nos sentimentos das personagens.

O terceiro e último arco (edições 26 a 32) compreende, por fim, o Apocalipse que Promethea deve trazer sobre a Terra. A obra atinge, aqui, o ápice de sua experimentação, conjugando estilos narrativos e artísticos bastante diversificados, além de se inserir quase que totalmente na metalinguagem, e na relação criador-criatura-leitora. É quase como se quem lê também participasse dos acontecimentos destas últimas edições, numa conversa entre a leitora e as personagens. Interessante notar, também, o resgate do significado original do termo Apocalipse, do grego “revelação”, para acompanhar a mensagem solar e positiva da trama. A edição final, número 32, é um feito estupendo de arte e roteiro, em que todas as páginas agrupadas formam duas ilustrações distintas do rosto de Promethea.

Através da floresta de símbolos em Promethea

Promethea
A transição para os painéis fotorrealistas

Alan Moore e J.H. Williams III realizam um trabalho conjunto impecável no trato com as ilustrações e a história. Moore, roteirista de quadrinhos por excelência, sabe aproveitar o potencial da nona arte como ninguém, explorando com muita propriedade a capacidade narrativa desta mídia. Seus roteiros minuciosos ganham vida nas mãos habilidosas de Williams, que incorpora diversas técnicas – desde fotorrealismo até impressionismo – para gerar uma sensação de consciência alterada e psicodelia quase sobrenaturais, totalmente coerente com a mensagem principal da obra: de que a realidade é moldada pelo modo com que a consciência e a linguagem a encaram. 

Abusando de splash pages, painéis duplos, narrativas simultâneas e ilustrações que parecem nunca terminar (sempre continuando na página seguinte), os autores conduzem a leitora por uma viagem através de uma verdadeira floresta de símbolos.

Promethea

Pluralidade de vozes

Muito se fala sobre um pretenso caráter feminista da obra, posto que Promethea personifica o chamado “princípio feminino” e seu potencial imaginativo e criativo — sendo ela mesma uma versão feminina do titã Prometeu, que concedera o fogo à humanidade (o presente de Promethea, por sua vez, seria a imaginação).

Enquanto homem em uma sociedade patriarcal, Moore não pretende ser um “feminista” com Promethea. O autor reconhece seu lugar de fala e não trata suas personagens a partir de vivências que não possui, preferindo narrar sua história de uma perspectiva que domina: o princípio feminino ilustrado através das cartas de tarô, da cabala e das várias deusas mitológicas que compõem a iconografia religiosa (desde a Ísis egípcia até a prostituta escarlate Babalon).

Seu principal objetivo é traçar uma linha do tempo das tradições esotéricas ocidentais, empregando-as para falar da narrativa ficcional e de seu poder de alterar a realidade. De tal forma, abrir o encadernado à espera de um manifesto feminista e “empoderador” como foco principal da trama é um convite ao desapontamento; não porque Promethea seja ruim, mas porque o foco simplesmente não é este. E nem teria como ser.

Alan Moore

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Dito isto, há de se destacar, contudo, o cuidado no tratamento para com as personagens femininas ao longo de toda a obra. Promethea é, essencialmente, uma história sobre mulheres de todos os tipos: há mulheres não-brancas (a própria Sophia Bangs possui ascendência hispânica, assim como Barbara Shelley), lésbicas, bissexuais, mães solteiras, escritoras, ilustradoras, agentes do FBI, super-heroínas, jovens, idosas. Nenhuma personagem é igual à outra, todas tratadas dentro de seus dramas e particularidades pessoais – em suma, tratadas como seres humanos.

Suas relações interpessoais também refletem essa diversidade de personalidades e sentimentos. Observamos mulheres apaixonando-se umas pelas outras, estranhando-se, brigando, formando laços de amizade, cuidando umas das outras. Em raríssimas situações tais interações são norteadas por homens ou sofrem a interferência de um. Embora alguns possuam papéis importantes em certos pontos da obra, os personagens masculinos não passam de coadjuvantes: estão ali como auxiliares, observadores ou entraves ocasionais para a jornada das personagens femininas.

Destaque positivo para a relação explorada, ainda que brevemente, entre Sophie e Trish, sua mãe. Nos primeiros capítulos, Trish Bangs é apresentada pelas lentes da garota como uma mulher desempregada e alcoólatra, sempre recebendo namorados em seu apartamento. Ao longo da história, contudo, Sophie vislumbra a faceta mais frágil da mãe, desde sua juventude conturbada até todo o trabalhoso processo de criar uma filha sem o auxílio de mais ninguém. É comovente o modo como a jovem passa a enxergar Trish enquanto um ser humano com qualidades e defeitos, desejos e anseios, o que conduz a uma linda reconciliação entre mãe e filha na metade da trama.

Promethea

A amizade entre Sophia e Barbara também merece destaque por seu caráter cíclico, condizente com a mensagem de Moore de que o fim e o começo de todas as coisas se coincidem. A relação entre as duas se inicia quando Barbara deve repassar o manto de Promethea à mulher mais jovem, Sophia, e instruí-la em sua nova missão.

Já familiarizada com seu ofício de Promethea, iniciada nos mistérios da magia, e empenhada em auxiliar na missão pessoal da mais velha, Sophia então retribui o conhecimento adquirido, instruindo Barbara pelos caminhos (sephiroth) da Árvore cabalística. O companheirismo de ambas, e o apoio que encontram uma na outra nos momentos de angústia e alegria, é muito bem desenvolvido, além de ser um dos pontos altos da história.

Salvo raras exceções (como a romantização do estupro mitológico da deusa Selene pelo deus Pã como alegoria para a criação do mundo, culminando em uma splash page bastante perturbadora), Moore respeita suas personagens e trata de maneira cuidadosa cada uma de suas narrativas paralelas.

Promethea: De objeto a sujeito

Promethea ainda discute extensivamente sobre a relação entre a mulher e a criação/inspiração literária. Moore pontua a obra com diversos exemplos daquele velho clichê fetichista que já conhecemos: o poeta/escritor desesperançado que busca em sua musa a inspiração para completar sua obra-prima. A Promethea do século XVIII, que inspirara o poema épico de Charlton Sennett, é um caso explícito. Se tais exemplos ainda aparecem ao longo da obra, contudo, é para que sejam subvertidos logo em seguida: Sophie assume o controle da criação, pois necessita escrever poemas sobre Promethea para transformar-se nela e personificá-la.

HQ de Alan Moore

A ilustradora Grace Brannagh, a Promethea das revistas pulp, já sinaliza acerca do perigo do olhar masculino fetichista ao conduzir Sophie por seus domínios na Imatéria, onde precisa derrotar “Marto Neptura”, pseudônimo e personificação de todos os ghost-writers que sexualizaram a personagem durante sua passagem pela publicação Astonishing Stories. A transformação de Sophie (e de outras personagens, no decorrer da história) em Promethea, portanto, acaba por representar um resgate da força da inspiração feminina por parte da própria mulher. De objeto de contemplação e admiração masculina, esta passa a ser sujeito ativo no controle de suas criações, assumindo e ganhando voz para falar de si, para inspirar a si mesma.

Em suma, Promethea não apenas é uma obra desafiadora e densa, como também é envolvente e simbólica, com seus momentos de leveza; funciona tanto como uma introdução bastante completa e divertida dos princípios basilares do ocultismo ocidental, como também é um prato cheio de referências aos mais familiarizados, repleta de pequenos detalhes, impossíveis de um registro completo em uma primeira leitura.

Flertando a torto e à direita com a ficção científica, com a fantasia e com as histórias de super-heróis, referenciando de Aleister Crowley a Beatles, Promethea sintetiza de forma magistral a miscelânea de linguagens, símbolos, referências e imagens que é a nossa realidade – não muito diferente da vibrante e colorida Imatéria. O Apocalipse de Promethea é nada mais que o potencial de influência da ficção levado ao extremo: o Fim do Mundo que conhecemos é o fim de uma certa forma de encarar a realidade, suplantada por uma nova perspectiva que não surge do nada, mas fora cuidadosamente construída através das narrativas ficcionais do período anterior.

Promethea deixa como legado, por fim, um lembrete de que, não importa quão caótica ou perdida pareça, todas nós somos capazes de alterar a realidade em que vivemos; quando nada mais nos restar, temos o potencial de criar e destruir através da linguagem e da narrativa. Podemos, afinal, ser nossas próprias musas.


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Autora

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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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