Mulheres nos Quadrinhos: Kelly Sue DeConnick

Mulheres nos Quadrinhos: Kelly Sue DeConnick

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Norte-americana nascida em Ohio, em 15 de julho de 1970, Kelly Sue DeConnick é autora e roteirista de histórias em quadrinhos, além de tradutora de mangás para a língua inglesa. Famosa pelas séries autorais Pretty Deadly e Bitch Planet, publicadas pela Image Comics, ganhou notoriedade por Captain Marvel em 2012, ao ser escolhida para dar vida à icônica personagem Carol Danvers. No mesmo ano, Kelly Sue também engatou um projeto com a Dark Horse Comics, trabalhando no reboot da personagem Ghost. Mais que um talento para criar e reinventar personagens, a roteirista é uma voz forte na luta pela visibilidade de mulheres dentro da indústria de quadrinhos. Prova disso é que, quando perguntada sobre como enfrentar o machismo e o sexismo, Kelly Sue é certeira: “seja aterrorizante!”

Carreira de Kelly Sue DeConnick

O primeiro contato sério com a indústria de quadrinhos foi ao escrever suas próprias histórias em um fórum, para seu amigo e também quadrinista Warren Ellis, que na mesma época convidou Kelly Sue para trabalhar no website Artbomb, catalogando edições de HQs. Mais tarde iniciou sua carreira como tradutora nas editoras Tokyopop e Viz, adaptando e traduzindo mangás do japonês para o inglês. Hoje também atua como editora e seu trabalho é reconhecido por quem acompanha os mangás cuidadosamente adaptados por ela: depois de 7 anos, Kelly Sue estima que tenha traduzido mais de 11 mil páginas de mangás, incluindo títulos de sucesso como Fruit Basket, Black Cat, Meru Puri e Slam Dunk.

Kelly Sue DeConnick
Reprodução: Internet.

Sua primeira obra autoral foi uma história em quadrinhos de 5 páginas publicada na CSI: Crime Scene Investigations – Dominos #5, de dezembro de 2004. A partir de então construiu parcerias de sucesso com diversos artistas, em especial com a ilustradora Emma Ríos, que faz parte de sua jornada de sucesso quase como ela própria. Deste encontro destacam-se Osborn – Limited Series, minissérie em 5 edições sobre o vilão Norman Osborn (Spider-Man/Marvel), publicada em 2011; e Pretty Deadly, indicada ao Eisner Awards em diversas categorias, como melhor roteirista (DeConnick) e melhor ilustradora (Ríos).

Ainda em andamento e com dois volumes publicados entre 2013 e 2016 pela Image Comics, Pretty Deadly é uma história em quadrinhos que mistura faroeste, contos de fadas e terror. Como uma fábula, começando com uma conversa cheia de mistérios entre uma borboleta e um coelho, Kelly Sue revela apenas o necessário para manter a leitora intrigada com Ginny Face da Morte e sua busca pelo homem que fez um acordo com a própria Morte, mas que tomou muitas decisões erradas pelo caminho. À primeira vista uma versão feminina de Hex, logo sentimos que Pretty Deadly é mais parecido com Preacher ou Sandman, recheada de realismo fantástico, mistério e aventuras sobrenaturais, muitas vezes brutais. A obra é tão linda e incrível que a primeira tiragem da edição #1 esgotou-se com 57 mil cópias!

Kelly Sue DeConnick
Reprodução: Internet.

E seu trabalho em grandes editoras também é notável. Responsável pela edição #43 de Aquaman, lançado em dezembro de 2018 pela DC Comics, Kelly Sue disse estar animada porque ele “é esse personagem que é parte da Liga da Justiça… mas também é considerado algo como de ‘segunda categoria’. Então ele está um pouco fora do radar e isso faz dele um azarão pra começar”, o que é um desafio que a roteirista gosta de encarar. Mas como nem tudo são flores, em resposta à preocupação daqueles que temem muitas mudanças no personagem, na mesma entrevista ela foi enfática ao dizer que está escrevendo o seu Aquaman e que sim, fez toda a pesquisa necessária pra isso.

Kelly Sue DeConnick
Reprodução: Site oficial Kelly Sue DeConnick.

Se pensa que essa foi a primeira vez que se incomodaram com as escolhas criativas da roteirista, engana-se! Quando assumiu a produção de Ms. Marvel e Captain Marvel, Kelly Sue logo mostrou a que veio. Por não reforçar estereótipos femininos nocivos, como o da “donzela em perigo”, fãs da Marvel Comics e de Carol Danvers acusaram-na de ser uma “feminista raivosa” ou de estar abusando da “agenda feminista” em suas histórias. E acreditem ou não, ela foi criticada antes mesmo que a primeira edição de Captain Marvel fosse publicada, em julho de 2012! No documentário She Makes Comics, Kelly Sue defendeu seu modo de trabalho e garantiu que tendo qualquer chance de escrever sobre personagens femininas, vai escrever porque quer ver mais destas personagens.

E cá entre nós, as mudanças que ela trouxe à personagem foram ótimas. Com todo o background de sua infância em bases militares, pois seu pai era da Força Aérea dos EUA, Kelly Sue levou para Carol Danvers camadas mais profundas de desenvolvimento, adicionando mais realidade à personagem e mudanças que vão muito além de seu novo uniforme. Sem falar que esta versão influenciou o filme da Capitã Marvel que estreia em março deste ano e já parece um sucesso garantido, pelo menos entre os apaixonados fãs da HQ.

Kelly Sue DeConnick
Reprodução: Internet.

É preciso destacar que Kelly Sue também é responsável pela série Bitch Planet, lançada em resposta à repercussão negativa sobre a heroína da Marvel Comics. Desta vez um pouquinho raivosa, ela disse em entrevista que “se vocês querem ver uma ‘feminista raivosa’, então eu vou mostrar isso a vocês”. E só podemos agradecer, porque Bitch Planet é incrível!

Somos apresentadas a um mundo distópico, onde mulheres que não se encaixam em padrões patriarcais são tatuadas com o símbolo NC, de Non-Compliant ou intransigente (em tradução livre) e enviadas para um presídio “de correção” em outro planeta. Com referências ao Conto da Aia, de Margaret Atwood, Orange Is The New Black e até RoboCop, Bitch Planet mostra uma realidade não tão distante assim, na qual o único destino para quem não é “bela, recatada e do lar” é o exílio e a marca da “anormalidade”. Inclusive, a tatuagem NC tornou-se mesmo um símbolo entre as fãs da série, assim como o uniforme vermelho das aias, visto sempre em convenções e até em manifestações feministas.

Kelly Sue DeConnick
Reprodução: Minas Nerds.
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Entre outras obras que merecem destaque, citamos Girl Comics vol. 2 #3, com artes da brasileira Adriana MeloSif, Avengers Assemble e Avenging Spider-Man, da Marvel Comics; Supergirl vol. 5, The Witching Hour, Adventures of Superman e Wonder Woman Historia: The Amazons, da DC Comics; Comic Book Tattoo – Tales Inspired by Tori Amos, com duas histórias de Kelly Sue; e por fim, pela Dark Horse Comics, Prometheus: Fire and StoneGhost vol.3 e 4, sendo esta última série, publicada entre 2012 e 2014, um reboot das histórias de Elisa Cameron, uma super-heroína fantasma em busca de respostas sobre sua morte misteriosa.

Feminismo

Quando participou do documentário She Makes Comics, Kelly Sue revelou que grande parte de sua bagagem deve-se à infância em acampamentos e bases militares, graças a profissão de seu pai, mas que a paixão por quadrinhos é obra de sua mãe. Ela presenteava Kelly Sue com HQs, em especial as edições de Wonder Woman, pois acreditava ser parte da série infantil GoGirl!, sobre o cotidiano de crianças e destinada a meninas entre 7 e 11 anos de idade. Bom, além do mérito pelas boas intenções, não dá pra dizer que a mãe da Kelly Sue errou, né?

Já adulta e trabalhando com quadrinhos, logo conseguiu destaque, não apenas por seu talento como autora, mas também por ser uma voz ativa na luta por igualdade de gênero. Fundadora da organização sem fins lucrativos Creators for Creators, sendo mentora e financiadora de novos artistas, ela também contribui em outros meios: em março de 2016 iniciou o movimento #VisibleWoman no Twitter, para dar visibilidade às mulheres dentro da indústria de histórias em quadrinhos. Além de garantir grande repercussão sobre o assunto, a campanha engajou mulheres e pessoas não-binárias, que tiveram a oportunidade de enviar seus trabalhos para a Milkfed Criminal Masterminds, empresa de criação fundada por Kelly Sue com seu marido, Matt Fraction.

Em 2012, ela também protagonizou uma situação que mudou a forma como mulheres são referenciadas, sempre em relação a seus pares. Ao participar da Dundrum International Comics Expo, Kelly Sue foi citada como “esposa de Matt Fraction”, também quadrinista e convidado da convenção. Um meme foi criado pelo público para chamar a atenção da imprensa, com os dizeres “not the wife of Matt Fraction”, e devido à repercussão passaram a citar as artistas da forma correta, pelo seu trabalho e não por ser casada com alguém. 

Em outra ocasião, em uma convenção em 2013, a roteirista iniciou o painel dizendo estar disposta a deixar as pessoas desconfortáveis hoje para que a sua filha não precise ficar desconfortável amanhã. E é interessante pensar que o feminismo tenta fazer do mundo um lugar um pouco desconfortável hoje, forçando as pessoas a repensar suas atitudes e comportamentos nocivos, para que as próximas gerações tenham um mundo melhor para existir. Então ponto positivo pra ela!

Kelly Sue DeConnick
Reprodução: Internet.

Uma última curiosidade: todo ano Kelly Sue fala sobre a sua sobriedade, que completou 18 anos em junho de 2018, contando como tem sido o processo até aqui e aconselhando os fãs que também sofrem com dependência alcoólica. Tem como não amar essa mulher? Se você pensa em responder não, saiba que a roteirista faz questão de usar o nome Kelly Sue para que todas as meninas, ao lerem suas obras hoje ou no futuro, saibam que aquilo foi escrito por uma mulher e que elas também são capazes de escrever um livro, ou fazer qualquer coisa que tenham vontade.

O talento de Kelly Sue DeConnick como artista é inegável, mas sua luta por um mundo melhor, mais justo e igualitário é uma inspiração! Algo que a transforma em uma referência para nós em muitos sentidos, muito além de seu trabalho na indústria de histórias em quadrinhos.


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No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
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